Na última quarta-feira (29 de fevereiro) o economista Nildo Ouriques, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFRJ) esteve no Rio a convite da Casa da América Latina para abordar o tema “Crise mundial capitalista e as alternativas para a América Latina”. Ouriques afirmou que no Brasil as esquerdas limitam sua própria ação por ter pouco conhecimento da Economia Clássica. ”Se conhecesse saberia que o desenvolvimentismo veio para melhorar a posição do Brasil na divisão internacional do trabalho. No Plano Real, um pacto de classes (inclusive com a fatia do agronegócio) aprofundou nosso papel subalterno, pois o Neodesenvolvimentismo vai na direção oposta do desenvolvimentismo. E o tema do capitalismo dependente desapareceu do debate, junto com a questão do imperialismo. A CUT e o PT foram cooptados nesse processo”.
Ouriques fala também no papel subimperialista do Brasil, com importante atuação do BNDES e das embaixadas. Por isso, a região estaria, segundo ele, dividida em dois grupos de países. O primeiro, formado por Brasil e México, além de um segundo grupo, que inclui Bolívia, Venezuela, Equador e até a Argentina. Este último já constrói o que ele chama de “nacionalismo revolucionário”, e debate o socialismo do Século XXI mesmo antes do agravamento da crise financeira mundial, a partir de 2007.
Existe saída que evite uma moratória na Grécia ou a saída do país do pacto europeu?
Segundo relatório secreto do próprio Banco Central Europeu (BCE), as medidas de arrocho produzirão uma redução de apenas quatro pontos percentuais na relação dívida-PIB da Grécia, mas somente em 2020. Isto mostra a profundidade da crise e deixa evidentre que a saída, não apenas na Grécia, passa por cortes também no capital. O assalto ao Estado tornou estatal uma crise que é do setor privado. Mas há mudanças na correlação de forças também. Há que se observar o contexto geral. Não temos informações suficientes sobre a China, nem sobre o sistema bancário, nem sobre as empresas do país.
Apenas aumentando a regulação o mundo evitará outras turbulências?
A crise não se resolverá apenas com mais regulação. Uma crise estrutural não se resolve apenas com isso. Mas a regulação ajudaria num pacto de classes que estamos longe de assistir. No entanto, mesmo que avançássemos para o keynesianismo precisaríamos tratar do super endividamento estatal.
Nesse contexto, como está se saindo a América Latina?
A região continua sendo estratégica para a acumulação do sistema capitalista em geral e, em particular, para a potência hegemônica, os EUA, que estão em situação grave. As transformações em curso na América latina são decisivas para o sistema e particularmente para os EUA. No Brasil há um otimismo burguês que, curiosamente, afetou amplas parcelas da sociedade. É alimentado pela ideologia dos países centrais, e o governo acredita que a periferia será decisiva na solução da crise. É uma ingenuidade. Sou contra a tese de que os países periféricos poderiam alterar a relação com o centro, que está estabelecida há mais de quatro séculos.
E quanto aos demais países da região?
O gigantesco desenvolvimento das finanças no pré-crise quebrou a confiança no sistema apartir de 2007, mas boa parte da América Latina já discutia alternativas ao capitalismo bem antes disso. O presidente venezuelano Hugo Chavez, especialmente, já discutia o que batizou de Socialismo do Século XXI. O tema foi colocado também pela Bolívia, mas em toda região já estavam sendo discutidas alternativas para o neoliberalismo, mais ou menos avançadas. Até 2007, discutir alternatisma sistêmica parecia um extremismo latino-americano, mas a crise veio fortalecer, em alguns casos, a ideia da irracionalidade do sistema. No Brasil, porém, continuamos discutindo neodesenvolvimentismo e desindustrialização, que são temas muito aquém dos debates regionais. Aqui a saída das classes dominantes foi continuar prejudicando os trabalhadores e assaltando os Estados, mas a América Latina, no geral, passou a impor mais respeito.
Qual a importânciado nacionalismo em um mundo globalizado?
O nacionalismo ordena cultura nos EUA. Está presente nos discursos de Barak Obama e dos republicanos. Os europeus, que criaram um projeto continental, enfrentam resistência na França, na Inglaterra, onde a consciência nacional é muito apurada. Veja o caso da Grécia: ou retoma o nacionalismo ou sucumbe, aprofundando a desigualdade e o domínio dos financistas alemães. No Japão também o nacionalismo se tornou indispensável. Na América Latina isto veio forte com Chavez, sempre acusado de populismo.
O populismo pode ser progressista?
Sim, embora possa também ser trágico para os trabalhadores. Mas estou falando de um nacionalismo revolucionário, que já nasceu eliminando essa ambigüidade. Quando o nacionalismo virou política de Estado não deixou dúvidas quanto à necessidade de debater o socialismo do Século XXI. Trouxe de volta a conciliação entre democracia e revolução.
Democracia e revolução são compatíveis?
Sim. Na América Latina as massas estão convencidas disso. A democracia liberal foi substituída pela democracia participativa em vários países. A prática do plebiscito nas questões estratégicas passou a valer na Venezuela. Essa experiência enterrou a ideia da democracia tal como é praticada no Brasil. No Equador, nasceu a idéia de um Estado plurinacional. Na Bolivia também, pois o país tem ampla maioria indígena (entre 70% e 80% da população). É uma conquista contra o colonialismo interno. E esse Estado plurinacional consegue oferecer coesão social. É um novo horizonte para pensar a reconstrução do Estado na região. Saímos do dilema Estado forte x Estado fraco. O Estado tem que ser forte, democrático e partir da base, não de pactos entre as elites. É um fortalecimento do Estado fora da concepção burguesa.
Como é no Brasil?
Aqui estamos paralisados. O retorno ao neodesenvolvimentismo está longe de equivaler ao desenvolvimentismo da Comissão Econômica Para América Latina e Caribe (Cepal). O assalto ao Estado hoje é mantido pela idéia de que o país está dando certo, embora participe com papel secundário na divisão internacional do trabalho. O choro da desindustrialização é pouco para abarcar tudo isso. O capital produtivo também joga o jogo das finanças e o aumento da dívida implica em elevação dacarga tributária. Ano passado, um programa importante como o Minha Casa Minha Vida ficou paralisado por causa dessa lógica. Nem para erradicação da pobreza o país possui programas consistentes. A política social tem apenas eficácia eleitoral. O Brasil tem dificuldade de participar das transformações regionais. A burguesia não deixa e no segundo mandato de Lula se aprofundou a posição subimperialista do país sobre a América latina, inclusive para esvaziar a Revolução Bolivariana de Hugo Chavez.