Taxas de juros no Brasil e no mundo

Ceci Juruá – Alguém sabe porque o Governo brasileiro emite títulos no exterior ?

Rodrigo Medeiros – Eis outra questão relevante. Afinal, o investimento estrangeiro direto não tapou o rombo da conta corrente em 2011? É mesmo investimento produtivo que entrou no País ou outra coisa voltada mais para o carry trade e o curto prazo?

Flavio Tavares Lyra – Dizem que a emissão de títulos visa sentir concretamente os humores do mercado, de modo a servir de referência para as operações privadas de crédito. 

Rogério Lessa - Na Itália ou na Espanha, por exemplo, existem duas taxas de juros para títulos públicos como no Brasil, que paga 10,5% na Selic e muito menos nos bônus que emite no exterior ?

Flavio Tavares Lyra – As taxas de juros internas são nominais e embutem as expectativas de inflação.

Ceci Juruá – Deve existir, Rogério.  A taxa para títulos emitidos nos mercados financeiros internacionais é dos mercados…   das agências, etc…  A interna tem a vez com a política do Banco Central de cada país. Mas, no Brasil, a grande dúvida que eu emiti foi -  deve emitir títulos no exterior, com risco cambial além da taxa de juros, um país que tem quase us$ 400 bilhões em reservas ?   Ou estes bilhões não lhes pertencem e são uma exigência dos deuses invisiveis que requerem lastro da moeda nacional em divisas ? 

Rogério Lessa – Ok, mas como comparar as taxas de Brasil e Itália, por exemplo ? Até porque especuladores internacionais podem aplicar (isentos de imposto de renda) em títulos da dívida interna atrelados à Selic, certo?

Rodrigo Medeiros – Não sei se compreendi bem sua pergunta, mas vamos aos fatos. Uma coisa é a taxa de juro de curto prazo que pauta a política monetária, já outra coisa é a emissão de títulos governamentais em moeda própria ou estrangeira. Nos EUA, por exemplo, a taxa básica de juro atual é de 0,25% a.a. enquanto títulos públicos norte-americanos de dez anos pagam cupom de 2% a.a.

http://www.bloomberg.com/markets/rates-bonds/government-bonds/us/  

http://www.fxstreet.com/fundamental/interest-rates-table/   

No Brasil existe a situação em que 30% dos títulos públicos, se não estou enganado, são indexados pela Selic, “selicados”. Por isso o “mercado” pressiona por alta da taxa básica. A política monetária contamina assim a gestão da dívida. Sempre há pressão por rolagens de papéis… O Brasil lançou recentemente títulos públicos de dez anos com cupom abaixo de 4% a.a. Parece que o Brasil é caso único no mundo que tem títulos públicos pós-fixados.

Marcio Oliveira - Até onde consigo entender a jabuticaba nesse caso é a taxa básica de juros no Brasil estar sendo usada não apenas como referencia para empréstimos interbancários (como no resto do mundo), mas também como indexador de parte (cerca de um terço) dos títulos emitidos pelo Tesouro. Basta parar de emitir títulos indexados que a anomalia se dissipa. Essas pequenas emissões em dólar, que eu saiba, estão sendo feitas para testar a demanda por títulos brasileiros com taxas mais baixas e prazos mais longos que o histórico recente do país, para o Tesouro ter parâmetros mais apurados caso decida no futuro fazer emissões mais expressivas em moedas de circulação internacional. Mas o movimento de longo prazo é caminhar para emissões apenas de títulos prefixados (e com taxas mais baixas e prazos mais longos q os atuais), ao invés dos indexados ao dólar, Selic e IPCA.

Jabuticabas a parte, a comparação internacional pode ser feita pelo menos de três formas: entre as taxas básicas de juros definidas pelos bancos centrais que servem de parâmetro para empréstimos interbancários em cada pais (e portanto instrumento de política monetária); entre as taxas e prazos médios dos títulos emitidos pelos tesouros de cada pais (com impacto na política fiscal); e entre as tarifas médias cobradas pela banca privada em cada país (impacto na política creditícia). Nas três comparações, a colônia Brasil tem vencido com folga em termos de generosidade aos que emprestam dinheiro. E estes não são apenas banqueiros e financistas, mas também fundos de pensão, pessoas físicas etc. Eu mesmo andei comprando títulos pelo tesouro direto. Penso que os prefixados são uma forma legítima dos estados nacionais se financiarem junto à sociedade, que por sua vez tem nesse mecanismo uma forma legitima de manter o poder aquisitivo do fruto do seu trabalho. O que não se pode admitir é a perpetuação desse mecanismo com taxas exorbitantes como as praticadas no Brasil. A droga do crédito vicia, por isso precisa ser administrada com prudência.

Daniel Conceição – Mas, amigos, se a Selic é a taxa para empréstimos interbancários colateralizados por títulos de curto prazo do governo, não ha como falar em titulo

desindexado da Selic. Neste caso, é o Banco Central quem determina o juro sobre o

título do governo e não o Tesouro. Pedir que os títulos públicos de

prazo curto não sejam mais indexados à Selic seria mais ou menos como

pedir que o leite nâo seja mais indexado ao preço do leite. Concordo

ainda assim com o amigo Marcio que a prática de juros altos tem

efeitos indesejáveis, uma vez que produzem transferências monetárias

enormes para setores descomprometidos com o desenvolvimento

brasileiro. Ainda mais porque como controle inflacionário a política

de meta de juros é no máximo um placebo, afetando a demanda agregada

de forma indireta e dúbia pelo caminho das expectativas “irracionais”.

Ressalto que não é o caso desta política ameaçar a saúde financeira

do nosso Tesouro, que terá sempre como vender títulos em excesso ao

Banco Central, pelo menos enquanto a insanidade contábil que toma o

mundo não chegar por aqui.

 

No caso de emitir títulos indexados ao dólar, acredito ser enorme bobagem, posto que como o movimento atual é a demanda excessiva por reais (oferta excessiva de dólares) o Bacen poderia simplesmente comprar dólares oferecendo reais ao invés de oferecer títulos precificados em dólar (ou com câmbio fixo estipulado) já que sua capacidade de realizar pagamentos em reais será sempre infinita, bastando para enxugar um possível excesso de reais no sistema financeiro doméstico realizar a venda de títulos (denominados em

reais, obviamente). Evita assim endividar-se em moeda que não emite e elimina completamente o risco de calote.

 

Rodrigo Medeiros – Daniel, a questão da indexação em tempo real de títulos públicos já emitidos impactando na política fiscal presente é uma jabuticaba que pressiona a Selic em todas as reuniões do Copom. O esperado é que as taxas de títulos de prazos maiores sejam maiores do que as de curto prazo, até por conta dos fatores risco e incerteza. Claro que pressões inflacionárias contaminam o lançamento e a rolagem de títulos públicos. O problema é quando,  na condução da política monetária, em condições de normalidade, se contamina a gestão da dívida pública e se desviam recursos correntes das áreas sociais previstas no orçamento anual. Contingenciamentos são fatos desde pelo menos o FHC.

 

Ceci Jurua – Concordo, Rodrigo, em economia é sempre bom contextualizar as decisões. No caso brasileiro, a expansão da dívida interna, sobre a qual se aplica a SELIC, tem sido feita para absorver os dólares excedentes que invadem a economia em busca de negócios altamente lucrativos ou especulativos.   Este é o ‘nosso drama’. 

 

Daniel Conceição – Mas o que quero dizer é que os títulos usados como colaterais no interbancário não têm como não oferecer a taxa Selic. A taxa Selic é a taxa de juro pago sobre estes títulos. Com relação a títulos de maturidade mais longa, em condições normais deveriam estar sempre acima da taxa de juro sobre o instrumento de curto prazo com risco zero (isto é, a curva de rendimentos ou yield curve deveria ser positivamente inclinada). Pode não ser se as expectativas forem de que o juro de curto prazo cairá.

 

O que é importante deixar claro é que o Banco Central pode definir a taxa de juro de títulos definidos em reais onde quiser, sejam eles os de curto prazo usados para fins de combate á inflação, sejam eles de prazo mais longo. Basta que compre e venda os títulos ao preço definido (cumpra o papel de fazedor de mercado). Os ditames do mercado no que se refere ao juro pago sobre dívida pública são possíveis apenas porque o Banco Central tende a não interferir na ponta longa da curva de juros. Vide o efeito das políticas de “quantitative easing” nos EUA.

 

Deveríamos deixar de lado a preocupação com a gestão da divida publica em si e focar nos efeitos econômicos de dados níveis de gasto (que incluem pagamentos de juros) e estratégias de gestão monetária.

 

Márcio Oliveira – Daniel, em teoria seu raciocínio é coerente. Mas dê uma olhada na tabela abaixo de  títulos a venda no Tesouro Direto. Repare que os não indexados à Selic apresentam taxas diferentes. Basta o Tesouro parar de emitir título indexados à Selic e ao IPCA que os compradores se contentarão com os prefixados, mesmo que a taxas menores do que as atuais. Qual a opção melhor? A roleta russa das bolsas? A questão, a meu ver, é que o emprestador de dinheiro (mesmo os fundos de pensão e as pessoas físicas) ainda são tratados como semi-deuses pelo tesouro. Daí essa molezinha de garantir rentabilidade real indexando à Selic alta e ao IPCA.

 

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/consulta_titulos/consultatitulos.asp

 

 

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