Milagres da picaretagem

Rogério Lessa / Monitor Mercantil   07/01/2012

Para o economista Carlos Pinkusfeld, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), parte da desregulamentação financeira que ajudou a levar o mundo a mais grave crise desde 1929 é conseqüência de mudanças estruturais da economia mundial: o rompimento da ordem de Bretton Woods e do câmbio fixo, seguido de instabilidade e inflação, que levaram a reformas do sistema, até então bastante regulado e rígido que, inclusive, fixava limites para remuneração de depósitos à prazo e proibia a oferta de contas remuneradas através da Regulation Q.

Assim, o nascimento de novos instrumentos financeiros e um mercado de títulos e fundos de curto prazo relativamente fora do sistema bancário refletiu uma incompatibilidade entre as novas condições estruturais e o arcabouço legal existente. “Nessa nova estrutura internacional, os agentes começaram a se utilizar desses instrumentos para restituir a liberdade de operações financeiras anterior à Glass Steagall (lei de 1933 que em resposta a crise de 1929 estabeleceu um controle bastante rígido sobre o sistema financeiro americano).”

O fim paulatino da Glass Steagall também foi sendo estabelecido para dar igualdade de condições aos bancos dos EUA para competirem com os europeus, reforçando o caráter sistêmico da crise e elevando o potencial de instabilidade do sistema: “Quando o câmbio passa a ser flutuante, os instrumentos de hedge crescem muito em importância. Nesse bojo, também está o interesse do sistema financeiro de correr da regulação, ampliando seu leque de operações”, sublinha. Aliás, lembra Pinkusfeld, o próprio “euromercado” de empréstimos em dólares é filho da Guerra Fria, através de depósitos, nesta moeda, da antiga União Soviética. “Até porque, antes de bombardear o inimigo os EUA congelam seus ativos. Por isso, a União Soviética não mantinha depósitos em dólar no sistema financeiro do ‘inimigo’. Daí começou a depositar suas reservas em países europeus”, lembra. Segundo o economista, tais depósitos e a criação de empréstimos em dólares, os chamados Eurodólares dos anos 1960/70, passaram a ser vistos com bons olhos pelos bancos centrais europeus carentes de dólares. “Devido à escassez de dólares, não convinha regulação”, resume.

Para Pinkusfeld, tanto na crise americana quanto na européia, predominam os interesses privados. “A crise nasceu no setor privado e resulta de um empilhamento de instrumentos financeiros de valor incerto operados num mercado desregulado e com padrões de supervisão, no mínimo, negligentes”, pondera. Na opinião do economista, o Fed, nesse sentido foi “complacente com operações duvidosas”, mas tal atitude, que foi caracterizada como irresponsável pelo próprio relatório da comissão estabelecida pelo governo Obama (The Financial Crisis Enquiry Report) , em parte refletiu uma expansão do crédito necessária ao crescimento da demanda interna de uma economia cuja renda do trabalho ficou estagnada.

A desregulação, segundo Pinkusfeld, também respondeu à mudança no padrão de crescimento americano, que pós segunda grande guerra esteve relacionado ao crescimento da renda das famílias, mas que se tornou inviável devido ao aumento da concentração da riqueza e renda. “As pessoas passaram cada vez mais a usar seus ativos para completar a renda, ou seja, desregular para permitir não só o ganho financeiro como a criar formas de elevação do endividamento das famílias, que aumentou a relação dívida/renda disponível, elevando o potencial de instabilidade do sistema”.

Numa relação de retroalimentação, a desregulação permitiu ganhos altos ao capital financeiro e executivos, não só do sistema financeiro, o que implicou em concentração ainda maior da renda. “A estes fatos, somaram-se outros, como a perda do poder de barganha dos sindicatos e o endividamento passa a ser uma forma manter o crescimento da economia. O Fed, e também a SEC, então, fazem vista grossa para ajudar os “amigos” do mercado financeiro, mas também para manter o crescimento, que aliás é uma de suas missões – não apenas controlar a inflação”.

Assim, por um tempo foi possível manter uma taxa de desemprego baixa, porém com péssima distribuição de renda. “Os trabalhadores tiveram que trabalhar mais para viver e a desregulação ajudou a alavancar o crédito. Em outras palavras, o preço da menor tensão social foi a desestabilização do sistema, com famílias cada vez mais endividadas em relação à renda”, esclarece.

Milagre da picaretagem

“Após o fracasso do verdadeiro ‘milagre da picaretagem’ no setor financeiro, aposentados e servidores públicos foram eleitos culpados pela direita americana, quando na verdade nada tinham a ver com o estouro de uma bolha que foi inflada pelo FED”. Apesar disso, Pinkusfeld vê os EUA mais próximos de superar a crise do que a Europa, cuja institucionalidade e conjuntura política, segundo o economista, limitam as políticas anti-cíclicas e principalmente ao Banco Central Europeu agir como comprador de títulos de dívida estatal em Euros. “O euro então não é uma moeda estatal de fato, e a crise na Europa está servindo para impor medidas impopulares, de arrocho, o que significa um ataque direto ao Estado de Bem Estar social”, denuncia.

Ele frisa que não foi o gasto público exagerado o responsável pela crise nem nos EUA nem na Europa. Na realidade os déficits e dívidas pré 2008 na Europa não eram elevados nos hoje chamados PIIGs, com exceção, possivelmente da Grécia.

O economista frisa que a crise na Europa não é simples desdobramento do que ocorre nos EUA. “As bolhas imobiliárias Espanhola e Irlandesa, possivelmente, estourariam de qualquer maneira. Mas países como Portugal, Grécia e Itália não tiveram bolhas imobiliárias. Com a recessão e em razão de políticas fiscais moderadamente contra-cíclicas os indicadores fiscais se deterioram, em termos dos critérios de Maastrich, se deterioraram rapidamente. Tais acordos, que impõe limites a déficits e dívidas públicas, e o próprio clima político vigente na Europa vêm limitando a capacidade do Estado de fazer política contra-cíclica. Aliás, as políticas estão se tornando pró-cíclicas e aprofundando ainda mais a crise na Europa.”

Europa liberal

Para o professor a UFRJ, “embora tanto Europa quanto os EUA apresentem indicadores econômicos desanimadores”, os EUA continuam em vantagem em relação aos demais países, pois ainda são detentores do direito de emitir a moeda internacional. “Para os EUA, não existe restrição externa. Os EUA levam outra vantagem por serem um país, enquanto a União Européia é um bloco, que tem uma moeda única, mas com forte viés deflacionaista e um abandono de qualquer ideal federativo, que em uma verdadeira unificação, levaria a busca de soluções para eventuais assimetrias entre as unidades sub-nacionais”.

O professor, no entanto, frisa que também nos EUA todos os fatores geradores da crise continuam presentes. “Nem sequer uma modesta lei de proteção aos depositantes (Dodd- Frank) foi regulamentada inteiramente. O sistema financeiro faz lobby pesado contra, insinuando que essas eventuais mudanças irão colocar uma nova restrição a oferta de crédito. Se continuar assim, com a renda continuar concentrada, mantêm-se a combinação de aceleração do crescimento e possível crescimento da instabilidade financeira”, adverte, apostando, no entanto, como hipótese mais plausível no curto prazo de um baixo crescimento, em vez de grandes turbulências. “O neoliberalismo não favorece o crescimento acelerado, e historicamente é concentrador além de ter na sua face política o combate às conquistas sociais. No entanto, é preciso observar até que ponto vai a resistência da sociedade e se o recurso a uma nova bolha não trará complicações futuras a economia americana”, adverte.

Para o professor da UFRJ, o mais terrível desta crise é que todos acharam, equivocadamente, que seria a volta do keynesianismo. “O que estamos vendo é o reforço do conservadorismo dos governos da Europa e EUA. Já se passaram quatro anos após 2008 e não vemos propostas partidárias menos ortodoxas. A crise não conseguiu gerar uma resposta propositiva. Barak Obama faz um governo com padrão de republicano moderado, ao mesmo tempo que, por exemplo, o partido socialista grego elaborou o plano que a direita teria feito. Nenhuma proposta progressista vem sendo posta em prática no mundo desenvolvido. É verdade que 2011 ficou marcado por movimentos de protesto dispersos, alguns até violentos, mas há uma longa distância entre manifestações de natureza quase espontânea e sem uma agenda mais precisa e a consolidação de propostas de políticas econômicas progressistas. São os efeitos colaterais perniciosos do chamado pensamento dos anos 1980 e 1990 cujo combate no mundo político e acadêmico é cada dia mais vital para um futuro mais civilizado da humanidade”, finaliza.

 

 

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Uma resposta a Milagres da picaretagem

  1. Gustavo disse:

    ótimo artigo!

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