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	<title>Blog do Rodrigo Medeiros &#187; crise mundial</title>
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		<title>Crise financeira mostra regime em beco sem saída, diz Chesnais</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 19:24:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Medeiros]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[crise mundial]]></category>
		<category><![CDATA[neoliberalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[ELEONORA DE LUCENA, publicado na Folha.com: A crise financeira não tem final à vista. O modelo de crescimento baseado em endividamento, seguido nos países ricos, está num beco sem saída. E o calcado em exportações de insumos &#8211;como o do &#8230; <a href="http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/15/crise-financeira-mostra-regime-em-beco-sem-saida-diz-chesnais/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>ELEONORA DE LUCENA, publicado na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/959611-crise-financeira-mostra-regime-em-beco-sem-saida-diz-chesnais.shtml">Folha.com</a>:</p>
<p>A crise financeira não tem final à vista. O modelo de crescimento baseado em endividamento, seguido nos países ricos, está num beco sem saída. E o calcado em exportações de insumos &#8211;como o do Brasil&#8211; pode não funcionar por muito tempo.</p>
<p>A análise é do economista marxista francês François Chesnais, 77, professor emérito da Universidade de Paris 13 e autor de &#8220;A Mundialização do Capital&#8221; (1996) e organizador de &#8220;A Finança Mundializada&#8221; (2005).</p>
<p>Para ele, os protestos em Londres, no Chile e no Oriente Médio são expressão &#8220;de uma doença mundial criada pelo caminho tomado pelo neoliberalismo e pela dominação das finanças&#8221;. Numa época de valorização do consumismo, são &#8220;reações ao extraordinário abismo social&#8221;, afirma.</p>
<p>Folha &#8211; Qual a natureza da crise atual?<span id="more-286"></span></p>
<p>François Chesnais &#8211; O momento atual é um novo episódio na crise mundial. Ela começou há cinco anos, teve seu ponto mais crítico em setembro de 2008, com a quebra do Lehmann Brothers, e não tem um final à vista. Foi prenunciada pela crise asiática (1997-1998) e, no campo das finanças, pela quase quebra do Long Term Capital Management, no início da crise financeira russa. Eventos-chave nos anos 2000 e 2001 lançaram as bases para a eclosão da crise: o crash da Nasdaq, a resposta norte-americana ao 11 de Setembro, as guerras no Iraque e no Afeganistão, muito custosas política e financeiramente, e a entrada da China na Organização Mundial do Comércio.</p>
<p>Quais são as causas?</p>
<p>O funcionamento da economia mundial desde o início dos anos 2000 se baseou em dois pilares: o regime de crescimento guiado pela dívida, adotado pelos EUA e pela Europa, e o regime de crescimento orientado por exportações globais, no qual a China é a principal base industrial, e o Brasil, a Argentina e a Indonésia são os provedores-chave de recursos naturais. A crise representa o beco sem saída, o impasse absoluto do regime guiado pela dívida. O segundo pilar está levemente melhor, mas o crescimento baseado em exportações globais não poderá funcionar por muito tempo sem uma forte demanda externa, especialmente dos EUA e da União Europeia.</p>
<p>Por que há tensão nos mercados?</p>
<p>Os investidores financeiros estão extremamente preocupados. Há a perspectiva de um segundo mergulho da economia dos EUA, uma crise em forma de &#8220;W&#8221; nas economias avançadas. Outro risco é a vulnerabilidade do sistema bancário europeu, na zona do euro e também no Reino Unido. Há também o perigo de que o lento crescimento faça com que empréstimos públicos e privados sejam cada vez mais difíceis de serem recuperados.</p>
<p>Qual a situação na Europa?</p>
<p>Na União Europeia, desde abril de 2010, tem havido um contínuo fluxo de dinheiro público para alguns governos e para os bancos. Isso tem sido acoplado a políticas de austeridade muito drásticas em alguns países, que os arrastou à recessão (-4% na Grécia). Com isso, fica impossível o repagamento da dívida soberana. Provoca a quebra de empresas, além de levar os sistemas bancários na Grécia, na Itália e na Espanha para uma cada vez maior proximidade do colapso. Isso ameaça bancos nos países do coração da zona do euro, especialmente na França.</p>
<p>A situação dos bancos é preocupante?</p>
<p>Os eventos nas Bolsas estão sendo subordinados a situações bancárias críticas. Em 2008, a ameaça às finanças globais veio dos bancos de investimento dos EUA e das grandes seguradoras. O próximo episódio financeiro maior acontecerá quando um segmento do sistema bancário da Europa entrar em colapso na Grécia, Espanha ou Itália. A atual turbulência nas Bolsas é a expressão do pânico do investidor, que tenta antecipar esse tipo de evento. Seu principal efeito é contribuir para a efetiva ocorrência de um desastre em algum lugar. Isso afeta o comportamento do consumidor de renda mais alta e desencoraja investimentos da classe média.</p>
<p>Nos seus livros, o sr. descreve os detalhes do avanço das finanças. Como avalia o atual momento na história do capitalismo?</p>
<p>É possível traçar paralelos com o passado. Mas em nenhum período anterior foram tão elevados a quantidade de ações e títulos, os ganhos dos rentistas e nem foi tão grande a quantidade em circulação do que eu chamo de &#8220;capital monetário elevado à enézima potência&#8221;. Nunca os lucros financeiros foram tão altos em comparação com a atividade produtiva. Há as consequências da globalização neoliberal contemporânea. Nunca as finanças foram tão desreguladas. Nunca a capacidade dos governos de recuperar o controle sobre as finanças foi tão fraca. A extrema fraqueza da liderança política é uma consequência direta disso. Mas há uma nova dimensão da história do capitalismo.</p>
<p>Qual é?</p>
<p>Essa nova dimensão é a crise ambiental, começando com as mudanças climáticas, que se desenvolve em paralelo à ascensão das finanças e de sua crise. Por isso, entramos nas piores condições possíveis numa era em que a civilização &#8211;como a concebemos, no Ocidente e no Oriente&#8211; está patinando. Nossa era é uma em que as enormes e concentradas forças econômicas estão sendo chamadas a agir em tempos de crise, o que Naomi Klein chama de &#8220;a doutrina do choque&#8221;: setores poderosos da sociedade não apenas protegem eles mesmos, mas usam catástrofes para ampliar sua dominação. A forma como o furacão Katrina foi tratado em Nova Orleans mostra que isso vale para grandes eventos ambientais. Alguma coisa muito perturbadora ocorreu silenciosamente na França e, imagino, em outros lugares: a &#8220;luta contra a mudança climática&#8221; foi substituída pela &#8220;adaptação à mudança climática&#8221;.</p>
<p>Os governos deveriam jogar mais dinheiro nos mercados financeiros?</p>
<p>As políticas fiscais anunciadas ou já decretadas são fortemente pró-cíclicas. Elas acentuam o beco sem saída do regime de crescimento e a incapacidade que a elite dirigente tem de imaginar qualquer outra maneira de reger a economia. Não haverá fim para a crise mundial enquanto os bancos e os investidores financeiros estiverem no comando, fazendo políticas totalmente dirigidas pelos interesses dos rentistas e dando respostas à crise dominadas por tentativas de dar sobrevida ao regime guiado pela dívida.</p>
<p>O que precisaria ser feito para a retomada da crescimento?</p>
<p>Nos EUA e na Europa a recuperação requer o reestabelecimento do poder de compra das classes baixas e médias, a recriação e expansão da capacidade dos Estados de fazer os investimentos sociais e ambientais necessários e o estabelecimento de um sistema monetário internacional estável, não subordinado ao capital financeiro. As condições para isso vão incluir o cancelamento de boa parte da dívida soberana, assim como de boa parte da dívida doméstica; o reestabelecimento de uma taxação correta para a renda das finanças e do capital (um retorno aos níveis de 1970 seria um começo); o reestabelecimento de um verdadeiro controle público do sistema de crédito; um controle restrito dos fluxos de capital e uma luta efetiva contra os paraísos fiscais.</p>
<p>Qual sua visão sobre o poder das agências de classificação de risco?</p>
<p>O poder das agências de classificação de risco apenas espelha o quanto os governos foram colocados nas mãos das finanças. Mostra a extensão da abdicação do poder dos governos, que mudaram as finanças públicas de uma forma baseada em impostos para uma baseada em  dívida. Meu livro mais recente, &#8220;Les Dettes Illégitimes, Comment les banques ont fait main basse sur les politiques publiques&#8221; (2011) [As dívidas ilegítimas, como os bancos fizeram para manipular as políticas públicas, em tradução livre], enfatiza que, em 1980, a dívida pública da França era de 5% do PIB. Mostro que o crescimento é consequência da diminuição dos impostos para os de renda alta, os ricos em patrimônio e lucros, e dos gastos em programas públicos de financiamento custosos, que se tornaram elefantes brancos, como o Rafale que nenhum país comprou.</p>
<p>E o que ocorre agora?</p>
<p>As agências de risco estão pressionando a elite política francesa para aprofundar as políticas de austeridade. Isso no contexto de uma situação de quase recessão &#8211;0% de crescimento e desemprego acima de 9%. A recessão mundial de 2008-2009 mostrou a fraqueza da indústria francesa e os efeitos desastrosos do jogo no mercado da União Europeia. O que é necessário é uma política industrial e tecnológica comum, um sistema de intervenção comum. É possível que, nos próximos meses, ocorra na França uma reação popular contra os próximos cortes de orçamento.</p>
<p>As revoltas no Norte da África e no Oriente Médio, o movimento dos &#8220;indignados&#8221; na Espanha e agora os protestos em Londres têm alguma ligação?</p>
<p>Eu adicionaria à lista as enormes marchas em Tel Aviv, com 200 mil pessoas, e em outras cidades contra a alta nos preços dos alimentos e o desemprego. E também esse extraordinário movimento dos estudantes no Chile. Cada um desses movimentos precisa ser analisado com cuidado. São obviamente expressão de uma doença mundial criada pelo caminho tomado pelo neoliberalismo e pela dominação das finanças.</p>
<p>O que os movimentos têm em comum?</p>
<p>Eles têm em comum o fato de terem sido estimulados pela juventude. Em muitos casos são liderados por jovens líderes que estão emergindo do movimento. São todos reações ao extraordinário abismo social num tempo em que o consumismo é projetado mundialmente pela tecnologia contemporânea e pelas estratégias de mídia. Cada um tem suas idiossincrasias nacionais e suas trajetórias políticas. Em cada caso há uma diferente mistura de um componente fundamental democrático, com conteúdo anticapitalista. Reagem ao fato de a eles ter sido negada a posse de bens que outros da sua mesma geração possuem no seu cotidiano. A crescente percepção da corrupção politico-financeira atiça a indignação e, no caso dos jovens mais pobres, os faz usar os únicos métodos que têm à disposição.</p>
<p>Como os partidos conservadores, social-democratas e a esquerda estão reagindo a essa situação?</p>
<p>Para os partidos conservadores, é sempre sobre &#8220;lei e ordem&#8221;. Os social-democratas estão em profunda confusão. As forças da esquerda têm sido fortemente puxadas para o jogo institucional. Tomara que a duração, a severidade e os altos riscos da combinação entre as crises econômica e ambiental permitam o renascimento de uma forma de atividade política que comece a realmente desafiar o sistema. Na Europa, foi na Grécia que a mobilização de massa da juventude mostrou o conteúdo político mais profundo. Espero que seja o modelo para outros países.</p>
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		<title>Com nova recessão, todos vão sofrer</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 15:17:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Medeiros]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Brics]]></category>
		<category><![CDATA[crise mundial]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>
		<category><![CDATA[recessão]]></category>

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		<description><![CDATA[Pettis: é inevitável que o boom dos Brics termine, como aconteceu nos EUA e na Europa Do Valor Econômico [12.08.2011]: Michael Pettis é especialista no mercado financeiro da China. Vive no país e leciona na escola Guanghua de Administração da &#8230; <a href="http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/12/nova-recessao-todos-vao-sofrer/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pettis: é inevitável que o boom dos Brics termine, como aconteceu nos EUA e na Europa</strong></p>
<p>Do Valor Econômico [12.08.2011]:</p>
<p>Michael Pettis é especialista no mercado financeiro da China. Vive no país e leciona na escola Guanghua de Administração da Universidade de Pequim. Para o economista, o país que mais cresce no mundo terá uma desaceleração em breve.</p>
<p>Valor: Esta é só uma crise do mundo desenvolvido? Os emergentes podem ficar a salvo? Sua posição pode estar mais forte no fim da crise?</p>
<p>Michael Pettis: É quase certo que não. O que está acontecendo hoje é muito parecido com o que houve nos anos 1970, quando os EUA e a Europa sofreram com uma crise econômica. Na época, graças à reciclagem dos petrodólares, o mundo em desenvolvimento experimentou um crescimento decorrente da liquidez. Temporário, mas insustentável no longo prazo. Como hoje, a consequência foi a ideia de que seria possível um descolamento econômico entre os dois mundos. Mas isso não aconteceu, e lugares como a América Latina tiveram sua versão da crise nos anos 1980. Hoje, a combinação de afrouxamento monetário nos EUA com o boom de investimentos insustentável na China postergou o impacto global da contração de demanda na Europa e nos EUA, mas isso não tem como durar. Em algum momento, a contração global da demanda terá um impacto muito significativo, especialmente em países com superávit e, através deles, nos exportadores de commodities.<span id="more-284"></span></p>
<p>Valor: Os chineses têm tentado promover o yuan como moeda de reserva, recuperando a ideia de uma cesta de moedas para regular o comércio, no lugar do dólar somente. Nesse caso, o que poderia acontecer ao dólar?</p>
<p>Pettis: Curiosamente, deveria ser o governo americano a se opor ao uso do dólar como moeda de reserva, já que tantos países tentam expandir o crescimento doméstico através da aquisição de reservas estrangeiras em dólar, que, naturalmente, encorajam as exportações e inibem as importações. Os EUA pagam pelo status de reserva do dólar, na forma de um déficit comercial enorme. É por isso que nenhuma moeda vai substituir o dólar como moeda de reserva. Nenhum outro país vai querer suportar esse custo.</p>
<p>Valor: Seria possível pensar em algum outro padrão, ou uma volta ao padrão-ouro?</p>
<p>Pettis: Quase impossível. O padrão-ouro é rígido demais e requer um custo de ajuste insuportável para o trabalhador, incompatível com a democracia. Para saber como um país se ajustaria ao padrão-ouro, veja como a Espanha está sofrendo para se manter no euro.</p>
<p>Valor: Os emergentes sempre foram vulneráveis às crises, mas em 2008 se seguraram bem. Trata-se de uma mudança estrutural, com economias em desenvolvimento mais resistentes?</p>
<p>Pettis: Não creio. Significa que o impacto da crise foi adiado por investimento doméstico excessivo, especialmente na China, e o ajuste de verdade virá mais tarde, de maneira mais dolorosa, porque virá com mais dívida. Níveis de endividamento, especialmente na China, estão crescendo muito, muito rápido. Isso nunca é sustentável. O boom americano, turbinado pelo endividamento, terminou brutalmente. O mesmo aconteceu na Europa. Infelizmente, é o que vai acontecer com os Brics.</p>
<p>Valor: Existe uma crença de que um crescimento inferior a 7% na China provocaria instabilidade política. O senhor calcula que, em alguns anos, o crescimento chinês estará na casa dos 3% ou 4% ao ano. Quais seriam as consequências?</p>
<p>Pettis: Essa ideia de que um crescimento menor na China traria instabilidade política é equivocada. As pessoas não se importam com o PIB per capita, mas com sua renda, ou sua cesta de consumo. Para a China se reequilibrar, o consumo tem de crescer mais rápido que o PIB. Se a China crescer entre 3% e 4% na próxima década, como espero, mas se reequilibrar de fato, a renda das famílias e o consumo podem crescer 6% ou 7% por ano, o que deixaria a família chinesa média satisfeita. A chave é como o ajuste acontece. Se a China conseguir transferir riqueza do setor estatal para as famílias, pode ter um crescimento bem mais lento, mas também mais saudável e politicamente mais estável. Isso aconteceu no Japão depois de sua crise de 1990. O crescimento desabou, mas a renda real continuou a crescer. É por isso que o Japão pôde tolerar 20 anos de milagre econômico seguidos de 20 anos de crescimento zero.</p>
<p>Valor: Países emergentes têm uma grande proporção de suas reservas em títulos americanos. Eles podem acabar mudando de escolha?</p>
<p>Pettis: O outro lado de os emergentes deixarem de comprar ativos em dólar seria uma contração do déficit comercial americano. Nenhum emergente quer isso. Isso nunca vai acontecer, a não ser que os EUA intervenham no câmbio, que é o que eu prevejo. É por isso que, na China, ouvem-se líderes políticos, jornalistas e militares ameaçando com uma interrupção na compra de títulos americanos, mas nunca se ouvem economistas, ou o Banco Central, fazendo essa ameaça. Ela é completamente vazia, só faz sentido para quem não sabe nada de economia monetária. Implicaria abrir mão do superávit comercial, mas todo país quer exportar mais, não menos.</p>
<p>Valor: Teme-se também um retorno ao protecionismo. É possível que a OMC (Organização Mundial do Comércio) seja atropelada por governos e seus interesses eleitorais?</p>
<p>Pettis: É. Como nos lembrou Keynes, muitos anos atrás, desequilíbrios externos requerem ajustes significativos e difíceis, tanto dos países com superávit quanto dos países com déficit. Se os superavitários insistirem que só os deficitários se ajustem, como parece ser o caso com a China e a Alemanha, então haverá necessariamente uma contração da demanda global. Sob condições de livre comércio, a maior parte do sofrimento será absorvida pelos países deficitários. Sob proteção, pelos superavitários. Nessas condições, é difícil imaginar por que os deficitários deixariam de intervir no comércio, especialmente considerando que os desequilíbrios foram muitas vezes causados pela intervenção dos superavitários.</p>
<p>Valor: Um calote da Grécia ou de outros países europeus seria um cenário catastrófico? Um argumento concorrente é que a Rússia e a Argentina deram calote, mas depois ficaram bem.</p>
<p>Pettis: Grécia, Espanha, Portugal, Itália e outros países não vão crescer até que o fardo da dívida seja equacionado. Vimos o mesmo na América Latina dos anos 1980. A dívida excessiva distorce os incentivos, faz com que empresas, governos, credores e trabalhadores se comportem de maneiras que tornam a economia pior, não melhor. Isso não pode mudar até que o excesso de dívida seja removido. Ou seja, sim, eles deveriam entrar em default rapidamente e reajustar suas economias. Em todo caso, isso significaria o abandono do euro. Não que o calote seja fácil. Ao contrário, será doloroso, mas recusar-se a reconhecer que são insolventes vai estender a dor por muitos anos, e eles vão acabar tendo de dar calote.</p>
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		<title>Autoengano ou trapaça?</title>
		<link>http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/10/autoengano-ou-trapaca/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 15:25:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Medeiros]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[crise mundial]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>

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		<description><![CDATA[Luiz Gonzaga Belluzzo Da Carta Capital: Leio na edição da quinta-feira 4 do jornal Valor Econômico um artigo de Anders Aslund, economista sênior do Peterson Institute. Aslund trata da assim chamada “crise das dívidas soberanas” e lança uma diatribe contra &#8230; <a href="http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/10/autoengano-ou-trapaca/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Luiz Gonzaga Belluzzo</p>
<p>Da Carta Capital:</p>
<p>Leio na edição da quinta-feira 4 do jornal Valor Econômico um artigo de Anders Aslund, economista sênior do Peterson Institute. Aslund trata da assim chamada “crise das dívidas soberanas” e lança uma diatribe contra as políticas econômicas que prevaleceram nas democracias ocidentais ao longo das últimas décadas.</p>
<p>Lá vem ele: “Como foi que os governos e as populações conseguiram aceitar essas dívidas enormes e ainda recomendar estímulos fiscais adicionais. Muitos gastos públicos e déficits orçamentários não têm justificativa, a não ser o populismo e o grande perdedor da crise vem sendo a social-democracia europeia, a equivalência política da economia keynesiana”.</p>
<p>Um raciocínio escabroso em sua simplicidade. Aslund parece imaginar que as políticas econômicas se desenvolvem em um ambiente a-histórico, movendo-se entre duas abstrações: a racionalidade dos economistas e o populismo das urnas. O economista americano reproduz a obsessão dos conservadores de todos os tempos e lugares com o “vício” populista dos governos social-democratas do pós-guerra.<span id="more-275"></span></p>
<p>Prêmio Nobel de Economia em 1986, James Buchanan empreendeu a crítica mais ácida e claramente hostil ao que se convencionou chamar de “era keynesiana”. Buchanan, de forma quase profética, não hesitou em afirmar que as democracias ocidentais enfrentariam déficits e dívidas insustentáveis nas últimas décadas do século XX. Ele atribui essa caminhada em relação aos déficits e às dívidas à baixa resistência dos governos às demandas dos eleitores e dos grupos de interesses.</p>
<p>Ironicamente, foram as políticas “neoliberais” de Reagan, Thatcher &amp; cia. que, a pretexto de reduzir o papel do Estado na economia, impulsionaram os déficits e as dívidas para limites insustentáveis. Nos Estados Unidos entrou em voga a “economia da oferta” e sua filha dileta, a curva de Laffer, que preconizavam a redução de impostos para os ricos “poupadores” e empresas. Assim falavam os adeptos da supply side economics: os sistemas de tributação progressiva da renda desataram o desincentivo à produção e à poupança geradora de novo investimento. A macroeconomia de Reagan defendia a tese do “gotejamento” (trickle down): as camadas trabalhadoras e os governos receberiam os benefícios da riqueza acumulada livremente pelos abonados empreendedores sob a forma de salários reais crescentes e aumento das receitas fiscais. Mas desde os anos 1980, a economia americana presenciou outra realidade à sombra da globalização.</p>
<p>À exceção dos anos 1990, o período em que se desenvolveu a “bolha da internet”, a hipótese do trickle down não entregou o prometido. A migração da grande empresa para as regiões de baixos salários, a desregulamentação financeira e a prodigalidade- de isenções e favores fiscais para as empresas e para as camadas endinheiradas não promoveram a esperada elevação da taxa de investimento no território americano e, ao mesmo tempo, produziram a estagnação dos rendimentos da classe média para baixo, a persistência dos déficits orçamentários e o crescimento do endividamento público e privado. A procissão de desenganos foi acompanhada da ampliação dos déficits em conta corrente e da transição dos Estados Unidos de país credor para devedor.</p>
<p>No primeiro trimestre de 2007 o estoque total de endividamento do setor não financeiro nos Estados Unidos chegou a mais de 35 trilhões de dólares, ou seja, mais do que o dobro do PIB. Esta cifra inclui, além do endividamento privado – sobretudo as famílias –, o débito público total, federal, estadual e municipal e o passivo financeiro das agências públicas encarregadas de bancar o financiamento da aquisição da casa própria. Mais impressionante foi o crescimento da dívida intrafinanceira: às vésperas da crise, o endividamento entre as instituições financeiras chegou a 120% do PIB, fruto das imprudências da alavancagem e da criatividade das inovações engendradas pelos gênios da finança.</p>
<p>A dívida total cresceu seis vezes mais do que o PIB, com uma participação crescente dos governos federal, estadual e municipal. As grandes corporações trataram de reduzir seu ritmo de endividamento buscando a rápida “desalavancagem” para estabilizar a relação dívida/patrimônio líquido. As famílias, no entanto, não se atemorizaram, assumindo novos compromissos ou rolando os antigos a uma velocidade ainda elevada. Assim, a dívida das famílias saltou para 130% da renda disponível.</p>
<p>As famílias norte-americanas empreenderam uma “fuga para frente”, que culminou com o “estouro” da bolha e a reversão do efeito riqueza decorrente da uma queda dos preços dos imóveis.</p>
<p>Restou ao governo arcar com déficits fiscais graúdos produzidos por gastos rígidos e receitas cadentes, para não falar do esforço para manter os bancos pecadores à tona. Tudo isso para enfrentar uma recuperação lenta, insegura, com ameaças de recaída na recessão.</p>
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		<title>Crise mundial?</title>
		<link>http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/08/crise-mundial/</link>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 22:39:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Medeiros]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[crise mundial]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulo Nogueira Batista JR. Do Globo (06.08.2011): Nova crise mundial? As turbulências recentes trouxeram os piores temores à tona. Uma coisa é certa: os dois principais blocos econômicos &#8211; os EUA e a área do euro &#8211; ainda não se &#8230; <a href="http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/rodrigo-medeiros/2011/08/08/crise-mundial/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Nogueira Batista JR.</p>
<p>Do Globo (06.08.2011):</p>
<p>Nova crise mundial? As turbulências recentes trouxeram os piores temores à tona. Uma coisa é certa: os dois principais blocos econômicos &#8211; os EUA e a área do euro &#8211; ainda não se refizeram da crise de 2008-2009 e ameaçam experimentar uma recaída violenta. Nem os americanos nem os europeus superaram as sequelas do colapso de 2008. Não enfrentaram as raízes dos seus problemas &#8211; e ainda conseguiram acumular novos!</p>
<p>Um deles: a crise política &#8211; evidente dos dois lados do Atlântico Norte. Outro problema, este não tão novo: o declínio relativo dos EUA e da Europa. O cenário, por um lado, é de vácuo de liderança política nas velhas potências, com rejeição da maioria dos governos pela população. Por outro, EUA e Europa não conseguem exercer como antes a hegemonia no plano mundial. O mundo parece caminhar para uma multipolaridade fragmentada e instável.<span id="more-271"></span></p>
<p>O declínio é mais nítido na Europa, às voltas com uma crise tremenda na área do euro que, no limite, coloca em risco todo o projeto de integração europeu. A crise atual deixou evidentes as fissuras da institucionalidade europeia.</p>
<p>Por exemplo: a dificuldade de manter uma união monetária, em tempos de crise, sem união fiscal e, sobretudo, união política. Quando os ventos sopravam a favor, era possível manter na sombra as incoerências do projeto de integração econômica e monetária. Desde 2010, entretanto, multiplicam-se os sinais de que a área do euro não dá conta das tensões desencadeadas pela crise. Os problemas acumulados ou disfarçados durante a fase de bonança estão estourando todos mais ou menos ao mesmo tempo.</p>
<p>Os abutres do mercado financeiro, que ajudaram a financiar muita irresponsabilidade nos bons tempos, agora sobrevoam as ovelhas vulneráveis do rebanho europeu. Não só Grécia, Irlanda e Portugal, que já caíram nas garras da crise, mas até mesmo as economias muito maiores de Espanha e Itália.</p>
<p>Nos EUA, o quadro é de crescente fragilidade política. O processo tortuoso que levou à aprovação, na undécima hora, do aumento no limite de endividamento do Tesouro, provocou enorme desgaste da credibilidade dos EUA, já abalada pelos desmandos financeiros que levaram à derrocada em 2008.</p>
<p>A isso se soma a acumulação de evidências de que a economia dos EUA não está mesmo em recuperação. O nível de atividade cresce pouco, o desemprego permanece alto. Nesse ambiente, a solução dos problemas fiscais fica muito mais difícil. A crise política solapa a confiança e atrasa ainda mais a normalização da economia.</p>
<p>Quais as consequências disso tudo no plano internacional? O espaço só permite tratar de uma delas: a inevitável redistribuição do poder, não só econômico, mas também político. O primeiro movimento, o econômico, estava em curso mesmo antes da crise de 2008-2009. China, Índia, Brasil e outros emergentes vinham aumentando a sua participação na economia mundial. Com a crise, essa tendência se acelerou. O segundo movimento, o político, é mais lento. EUA e Europa resistem, não raro com certa ferocidade, a ceder espaço nas instituições internacionais.</p>
<p>No que se refere ao plano financeiro internacional, posso dar o meu testemunho pessoal: em 2011, com o recrudescimento da crise econômica, especialmente na Europa, as potências tradicionais se agarram a seus privilégios, mostrando-se ainda mais resistentes a compartilhar decisões com meros &#8220;emergentes&#8221;. A China, pelo seu tamanho e &#8211; não esquecer &#8211; poder militar, não pode ser inteiramente ignorada. Mas os demais emergentes, mesmo os outros Brics, tendem a ser deixados mais ou menos de lado no curto prazo.</p>
<p>Espero estar errado, mas tudo indica que a economia mundial e as relações internacionais passarão por um período extremamente difícil e que esse período de dificuldades não terá vida curta. A primeira metade do século XXI poderá se revelar tão turbulenta e violenta quanto a primeira do século XX.</p>
<p>Escrevi este artigo ao lado da minha primeira e até agora única neta: a fofíssima Helena. Que o avô se mostre um profeta fracassado e os problemas acima discutidos não atrapalhem a geração dela!</p>
<p>PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional, mas expressa os seus pontos de vista em caráter pessoal.</p>
<p><strong>“Aumentou o risco de uma crise como a de 2008”</strong></p>
<p>Paulo Nogueira Batista Jr. diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington</p>
<p>Há quatro anos como diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, representando o Brasil e mais oito países de América Latina e Caribe, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. tem visão privilegiada do cenário econômico mundial.</p>
<p>Para o economista, que emite opiniões em caráter pessoal e não em nome do FMI, cresceu o risco de repetição de crise semelhante à de 2008. As causas principais são a falta de perspectiva de crescimento nos Estados Unidos e na Europa e as dificuldades de financiar dívidas públicas.</p>
<p>Se uma nova crise chegar, Batista avalia que o Brasil está mais preparado para enfrentá-la, embora não descarte surpresas, especialmente em torno do endividamento privado em  dólar. O economista, que é casado com a catarinense Lia Soncini e passa férias em  Santa Catarina, falou com o Grupo RBS sobre a nova onda de crise. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.</p>
<p>Agência RBS – Como o senhor analisa o rebaixamento da nota de crédito dos EUA pela agência Standard &amp; Poors?</p>
<p>Paulo Nogueira Batista – Não foi uma decisão inesperada. O próprio secretário do Tesouro dos EUA, Thimoty Geithner disse que não sabia que efeito teria todo o processo tumultado do aumento do limite de endividamento sobre a classificação de risco americano. É um fato marcante. E claro que agências pequenas dos EUA e uma agência chinesa já tinham reduzido a nota. A decisão da S&amp;P vai repercutir muito segunda-feira. O processo da dívida foi tortuoso e o resultado, incerto. O governo e o Congresso fecharam um plano que tem ordem de magnitude, mas não tem especificação. A briga política entre republicanos, democratas e a Casa Branca lançou um foco agudo de atenção sobre as debilidades fiscais americanas.</p>
<p>Agência RBS – Há motivo para esse derretimento todo nos mercados mundiais?</p>
<p>Nogueira Batista – A onda de pessimismo faz parte da crise. De repente, os mercados resolveram focar na acumulação de indícios vindos dos EUA e da Europa de que a situação é mais grave do que parecia. Os indícios de desaceleração da economia americana, as dificuldades de Itália e Espanha nos mercados de crédito, a incerteza quanto ao resgate da Grécia e a contenção do contágio, a sensação de que a solução para o limite de endividamento dos EUA foi enganosa, porque abalou a credibilidade do país e passou a sensação de que o problema fiscal não foi enfrentado. O pano de fundo dessa turbulência no mercado é de que há percepção de que tanto EUA quanto Europa empurraram o problema com a barriga. A Europa, com o acordo parcial alcançado na reunião de líderes em Bruxelas, há duas semanas. E os EUA, com esse esparadrapo que republicanos e Casa Branca costuraram. Aí a coisa começa a ficar feia porque há incapacidade política para encontrar soluções convincentes nos dois principais centros mundiais.</p>
<p>Agência RBS – Na sua opinião, há risco de nova crise global?</p>
<p>Nogueira Batista – Aumentou o risco de repetição de uma situação de crise semelhante à de 2008. Não é que seja provável, mas esse risco existia antes e foi ampliado.</p>
<p>Agência RBS – Que impactos pode causar à economia brasileira?</p>
<p>Nogueira Batista – Vai depender da intensidade da crise externa. Vamos supor que essa crise tenha intensidade semelhante (à de 2008). O Brasil está mais preparado, porque as reservas aumentaram. O país tem instrumentos que pode acionar, não só reservas, mas depósitos compulsórios. O Banco Central e o Tesouro podem reagir com mais rapidez no caso de reversão do fluxo de capitais. É claro que, se houver um choque externo semelhante ao de 2008, ninguém fica imune. O Brasil é um dos mais protegidos, mas não é invulnerável.</p>
<p>Agência RBS – Por quê?</p>
<p>Nogueira Batista – Acumulamos alguns problemas, deixamos que se agravasse notadamente a valorização do real. Em 2008, apareceu um problema não conhecido – empresas não financeiras tinham feito apostas na valorização do real que de repente se reverteu. Não estou dizendo que isso vai ocorrer de novo. O setor público é credor em moeda estrangeira, mas o setor privado acumulou dívidas em dólares porque é mais fácil se endividar em dólar. O Brasil adotou medidas de caráter prudencial para proteger o sistema financeiro de uma possível reversão do quadro mundial.</p>
<p>Agência RBS – Os EUA mostraram capacidade de dar a volta por cima. Podem surpreender outra vez?</p>
<p>Nogueira Batista – É evidente que os americanos estão atravessando uma crise grave, que não vai se resolver imediatamente. É uma crise econômica e política. Eles vão reagir, ou esse é o início do declínio dos EUA como grande potência. Essa questão não está clara porque a crise é gravíssima, os sintomas de degeneração do sistema americano são visíveis, mas não é a primeira vez que se anuncia o declínio dos EUA.</p>
<p>Agência RBS – Há um país ou bloco com capacidade para assumir a liderança?</p>
<p>Nogueira Batista – A situação é peculiar. Velhas potências do Atlântico Norte, EUA e Europa atravessam uma crise sem precedentes. Os emergentes não estão preparados para ocupar o espaço que está sendo deixado. Estamos numa fase de multipolaridade instável. Com vários centros de poder emergente, como China, Índia e Brasil.</p>
<p>Agência RBS – O senhor está no FMI, que teve um papel importante na negociação dos acordos em países da Europa. Como vê o cenário europeu?</p>
<p>Nogueira Batista – É mais nítido o declínio de longo prazo do continente, o envelhecimento. Os europeus se precipitaram quando foram para a unificação monetária sem ter feito, antes, uma unificação fiscal e, mais ainda, política. Antes, quando os ventos eram favoráveis, essa tensão entre governos nacionais, política fiscal nacional e política monetária continental não era tão aparente. Quando a crise bateu, a partir de 2008, fissuras apareceram. Grécia, Portugal e Irlanda são as mais óbvias, mas, agora, o problema aparece também na terceira e na quarta maiores economias da zona do euro, que são Itália e Espanha. Você tem uma situação em que os conflitos de interesse nacional dentro da Europa são de tal ordem que a governança está claudicando.</p>
<p>Agência RBS – Como o Brasil está sendo visto lá fora?</p>
<p>Nogueira Batista – Estou na diretoria do FMI há quatro anos. Desde que eu cheguei lá, em 2007, o Brasil é visto como um sucesso, uma grande oportunidade, um mercado atraente, um país bem administrado, cada vez mais ouvido, mais influente. Isso continua, mas não é um processo linear.</p>
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