Crise financeira mostra regime em beco sem saída, diz Chesnais

ELEONORA DE LUCENA, publicado na Folha.com:

A crise financeira não tem final à vista. O modelo de crescimento baseado em endividamento, seguido nos países ricos, está num beco sem saída. E o calcado em exportações de insumos –como o do Brasil– pode não funcionar por muito tempo.

A análise é do economista marxista francês François Chesnais, 77, professor emérito da Universidade de Paris 13 e autor de “A Mundialização do Capital” (1996) e organizador de “A Finança Mundializada” (2005).

Para ele, os protestos em Londres, no Chile e no Oriente Médio são expressão “de uma doença mundial criada pelo caminho tomado pelo neoliberalismo e pela dominação das finanças”. Numa época de valorização do consumismo, são “reações ao extraordinário abismo social”, afirma.

Folha – Qual a natureza da crise atual? Continue lendo

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Com nova recessão, todos vão sofrer

Pettis: é inevitável que o boom dos Brics termine, como aconteceu nos EUA e na Europa

Do Valor Econômico [12.08.2011]:

Michael Pettis é especialista no mercado financeiro da China. Vive no país e leciona na escola Guanghua de Administração da Universidade de Pequim. Para o economista, o país que mais cresce no mundo terá uma desaceleração em breve.

Valor: Esta é só uma crise do mundo desenvolvido? Os emergentes podem ficar a salvo? Sua posição pode estar mais forte no fim da crise?

Michael Pettis: É quase certo que não. O que está acontecendo hoje é muito parecido com o que houve nos anos 1970, quando os EUA e a Europa sofreram com uma crise econômica. Na época, graças à reciclagem dos petrodólares, o mundo em desenvolvimento experimentou um crescimento decorrente da liquidez. Temporário, mas insustentável no longo prazo. Como hoje, a consequência foi a ideia de que seria possível um descolamento econômico entre os dois mundos. Mas isso não aconteceu, e lugares como a América Latina tiveram sua versão da crise nos anos 1980. Hoje, a combinação de afrouxamento monetário nos EUA com o boom de investimentos insustentável na China postergou o impacto global da contração de demanda na Europa e nos EUA, mas isso não tem como durar. Em algum momento, a contração global da demanda terá um impacto muito significativo, especialmente em países com superávit e, através deles, nos exportadores de commodities. Continue lendo

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Ipea: impactos do câmbio nos instrumentos de comércio internacional (tarifas)

Guerras cambiais podem desencadear guerras comerciais. Chama a atenção no estudo do Ipea:

“a valorização cambial do Brasil, nos níveis considerados de 30%, significa não só a anulação das tarifas consolidadas na OMC, como incentivo às importações do país porque reduzem as tarifas aplicadas a níveis negativos. Diante desse quadro, exigir cortes mais significativos nas tarifas consolidadas, no âmbito da Rodada de Doha, seria impor maiores distorções aos níveis tarifários já negociados. A mesma consideração pode ser feita quando forem analisadas as opções de negociação de novos acordos preferenciais de comércio. Em síntese, para o Brasil, a valorização da sua moeda praticamente anula o instrumento das tarifas e representa incentivo às importações em geral. Diante de câmbio desvalorizado como o dos EUA e da China, os níveis tarifários negociados na OMC também são anulados, representando que o Brasil está oferecendo acesso a seus mercados de forma muito mais aberta do que negociou na OMC”.

Para uma valorização de 30% do câmbio do Brasil:

- as tarifas médias consolidadas, que variam de + 12 % a + 50 %, passam a variar entre + 5% a – 22 %, sendo a grande maioria de valores negativos;

- as tarifas médias aplicadas, que variam entre 0% e + 22 %, passam a variar entre valores de – 14 % e – 30 %.

Leia o documento do Ipea (clique aqui).

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O imperativo manufatureiro

Dani Rodrik

Do Valor Econômico [11/08/2011]:

Nós podemos estar vivendo numa era pós-industrial, em que as tecnologias da informação, biotecnologia e serviços de alto valor tornaram-se motores de crescimento econômico. Mas os países correm riscos quando ignoram a saúde de sua indústria de transformação.

Serviços de alta tecnologia exigem capacitação especializada e criam poucos empregos, por isso sua contribuição para o emprego agregado tende a permanecer limitada. A indústria de transformação, por outro lado, pode absorver um grande número de trabalhadores com capacitação moderada, proporcionando-lhes empregos estáveis e bons benefícios. Para a maioria dos países, portanto, o setor de manufatura continua sendo uma poderosa fonte de emprego bem remunerado.

De fato, o setor manufatureiro é também onde as classes médias do mundo tomam forma e crescem. Sem uma base manufatureira vibrante, as sociedades tendem a se dividir entre ricos e pobres – aqueles que têm acesso a empregos estáveis e bem remunerados, e aqueles cujos empregos são menos seguros e cujas vidas são mais precárias. O setor de manufatura pode vir a ser central para o vigor da democracia de uma nação. Continue lendo

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Autoengano ou trapaça?

Luiz Gonzaga Belluzzo

Da Carta Capital:

Leio na edição da quinta-feira 4 do jornal Valor Econômico um artigo de Anders Aslund, economista sênior do Peterson Institute. Aslund trata da assim chamada “crise das dívidas soberanas” e lança uma diatribe contra as políticas econômicas que prevaleceram nas democracias ocidentais ao longo das últimas décadas.

Lá vem ele: “Como foi que os governos e as populações conseguiram aceitar essas dívidas enormes e ainda recomendar estímulos fiscais adicionais. Muitos gastos públicos e déficits orçamentários não têm justificativa, a não ser o populismo e o grande perdedor da crise vem sendo a social-democracia europeia, a equivalência política da economia keynesiana”.

Um raciocínio escabroso em sua simplicidade. Aslund parece imaginar que as políticas econômicas se desenvolvem em um ambiente a-histórico, movendo-se entre duas abstrações: a racionalidade dos economistas e o populismo das urnas. O economista americano reproduz a obsessão dos conservadores de todos os tempos e lugares com o “vício” populista dos governos social-democratas do pós-guerra. Continue lendo

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Crise mundial?

Paulo Nogueira Batista JR.

Do Globo (06.08.2011):

Nova crise mundial? As turbulências recentes trouxeram os piores temores à tona. Uma coisa é certa: os dois principais blocos econômicos – os EUA e a área do euro – ainda não se refizeram da crise de 2008-2009 e ameaçam experimentar uma recaída violenta. Nem os americanos nem os europeus superaram as sequelas do colapso de 2008. Não enfrentaram as raízes dos seus problemas – e ainda conseguiram acumular novos!

Um deles: a crise política – evidente dos dois lados do Atlântico Norte. Outro problema, este não tão novo: o declínio relativo dos EUA e da Europa. O cenário, por um lado, é de vácuo de liderança política nas velhas potências, com rejeição da maioria dos governos pela população. Por outro, EUA e Europa não conseguem exercer como antes a hegemonia no plano mundial. O mundo parece caminhar para uma multipolaridade fragmentada e instável. Continue lendo

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As origens do atraso brasileiro

Autora: Cristiane Bonfanti

Correio Braziliense – 07/08/2011:

A renda per capita chegará a US$ 12,4 mil, nível da Suíça em 1955. A industrialização tardia e o baixo investimento estão entre as causas

O Brasil deve fechar o ano com uma renda per capita de US$ 12,4 mil, um aumento de 15% em relação a 2010. Esses números podem ser motivo de comemoração, mas demonstram um enorme descompasso entre o crescimento nacional e o das grandes economias do mundo. O país só alcançou agora o nível de produção de riqueza por habitante atingido pela Suíça em 1955. A Dinamarca e a Holanda chegaram ao atual patamar brasileiro em 1965 e 1968, respectivamente.

Estatísticas reunidas pelo economista inglês Angus Maddison, falecido no ano passado, remontam a mais de 2 mil anos e revelam o longo caminho que o Brasil deve percorrer se quiser crescer e, ao mesmo tempo, diminuir as desigualdades sociais. Os números mostram que, em 1600, o Brasil tinha uma renda per capita de US$ 428, maior que a dos Estados Unidos, de US$ 400. Hoje, quatro séculos depois, os norte-americanos sustentam um índice de US$ 47.283, mais de quatro vezes o brasileiro. Continue lendo

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Política industrial: ”As questões centrais continuam intocáveis” (entrevista especial com Wilson Cano)

O Plano Brasil Maior anunciado pelo governo nesta semana para conter uma possível crise no setor industrial tem um “caráter meramente político” e não será suficiente para devolver à indústria as taxas de crescimento alcançadas nos anos 1980. “O governo está se movendo com bastante cautela porque o que predomina na política macroeconômica hoje – e essa é a questão central – é uma política anti-inflacionária”, explica Wilson Cano à IHU On-Line.

A alta taxa de juros e o câmbio apreciado são, na avaliação do economista, os maiores empecilhos para o desenvolvimento da indústria nacional. “Enquanto a administração dos juros, do gasto público e da taxa de câmbio continuar do jeito que está, não haverá como proteger e salvar a indústria ou qualquer setor nacional. O governo está apenas colocando remendos em cima de uma colcha suja e velha”, aponta em entrevista concedida por telefone. Continue lendo

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Carta Desenvolvimentista (comentários)

Poucos industriais acreditam possível absorver, com ganhos de produtividade e eficiência, a descida do câmbio abaixo dos R$2,30. Uma apreciação cambial do real superior a 30% nos últimos anos dificilmente pode ser compensada com medidas microeconômicas.

Projeções do FMI apontam para um déficit de 3,62% do PIB nas transações correntes em 2014. O relatório Focus, de 29 de julho, do BC do Brasil, por sua vez, aponta para déficits nas transações correntes em 2011 e 2012 que não conseguirão ser cobertos pelo investimento estrangeiro direto. Para o câmbio médio dos períodos, as projeções de “mercado” são de R$1,59 (2011) e R$1,64 (2012). Continue lendo

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Dará certo o Plano Brasil Maior?

“O plano é positivo, mas não será capaz de tirar a indústria do sufoco, porque persistem problemas a serem sanados, como o câmbio, os juros altos e a elevada carga tributária”, disse Andrade, segundo comunicação oficial da CNI. A valorização do real, que compromete a competitividade de produtos brasileiros no mercado internacional e facilita a entrada de importados, é uma das grandes queixas do empresariado. (BBC Brasil)

Após manifestações que causaram transtornos ao trânsito de São Paulo nesta quarta-feira, as centrais sindicais conseguiram agendar com o governo uma conversa sobre a nova política industrial, o Plano Brasil Maior. Além das reivindicações apresentadas na passeata (redução de juros, redução da jornada de trabalho, fim do Fator Previdenciário e regulamentação da terceirização, entre outras), a nova política industrial também foi alvo de protestos. “Achamos o plano tímido e insuficiente, por não ter mexido pra valer em pontos como o câmbio e o ICMS, além de não ter criado um índice de nacionalização de autopeças, que era a nossa sugestão”, criticou o sindicalista. (Valor Econômico) Continue lendo

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