Paulo Nogueira Batista JR.
Do Globo (06.08.2011):
Nova crise mundial? As turbulências recentes trouxeram os piores temores à tona. Uma coisa é certa: os dois principais blocos econômicos – os EUA e a área do euro – ainda não se refizeram da crise de 2008-2009 e ameaçam experimentar uma recaída violenta. Nem os americanos nem os europeus superaram as sequelas do colapso de 2008. Não enfrentaram as raízes dos seus problemas – e ainda conseguiram acumular novos!
Um deles: a crise política – evidente dos dois lados do Atlântico Norte. Outro problema, este não tão novo: o declínio relativo dos EUA e da Europa. O cenário, por um lado, é de vácuo de liderança política nas velhas potências, com rejeição da maioria dos governos pela população. Por outro, EUA e Europa não conseguem exercer como antes a hegemonia no plano mundial. O mundo parece caminhar para uma multipolaridade fragmentada e instável.
O declínio é mais nítido na Europa, às voltas com uma crise tremenda na área do euro que, no limite, coloca em risco todo o projeto de integração europeu. A crise atual deixou evidentes as fissuras da institucionalidade europeia.
Por exemplo: a dificuldade de manter uma união monetária, em tempos de crise, sem união fiscal e, sobretudo, união política. Quando os ventos sopravam a favor, era possível manter na sombra as incoerências do projeto de integração econômica e monetária. Desde 2010, entretanto, multiplicam-se os sinais de que a área do euro não dá conta das tensões desencadeadas pela crise. Os problemas acumulados ou disfarçados durante a fase de bonança estão estourando todos mais ou menos ao mesmo tempo.
Os abutres do mercado financeiro, que ajudaram a financiar muita irresponsabilidade nos bons tempos, agora sobrevoam as ovelhas vulneráveis do rebanho europeu. Não só Grécia, Irlanda e Portugal, que já caíram nas garras da crise, mas até mesmo as economias muito maiores de Espanha e Itália.
Nos EUA, o quadro é de crescente fragilidade política. O processo tortuoso que levou à aprovação, na undécima hora, do aumento no limite de endividamento do Tesouro, provocou enorme desgaste da credibilidade dos EUA, já abalada pelos desmandos financeiros que levaram à derrocada em 2008.
A isso se soma a acumulação de evidências de que a economia dos EUA não está mesmo em recuperação. O nível de atividade cresce pouco, o desemprego permanece alto. Nesse ambiente, a solução dos problemas fiscais fica muito mais difícil. A crise política solapa a confiança e atrasa ainda mais a normalização da economia.
Quais as consequências disso tudo no plano internacional? O espaço só permite tratar de uma delas: a inevitável redistribuição do poder, não só econômico, mas também político. O primeiro movimento, o econômico, estava em curso mesmo antes da crise de 2008-2009. China, Índia, Brasil e outros emergentes vinham aumentando a sua participação na economia mundial. Com a crise, essa tendência se acelerou. O segundo movimento, o político, é mais lento. EUA e Europa resistem, não raro com certa ferocidade, a ceder espaço nas instituições internacionais.
No que se refere ao plano financeiro internacional, posso dar o meu testemunho pessoal: em 2011, com o recrudescimento da crise econômica, especialmente na Europa, as potências tradicionais se agarram a seus privilégios, mostrando-se ainda mais resistentes a compartilhar decisões com meros “emergentes”. A China, pelo seu tamanho e – não esquecer – poder militar, não pode ser inteiramente ignorada. Mas os demais emergentes, mesmo os outros Brics, tendem a ser deixados mais ou menos de lado no curto prazo.
Espero estar errado, mas tudo indica que a economia mundial e as relações internacionais passarão por um período extremamente difícil e que esse período de dificuldades não terá vida curta. A primeira metade do século XXI poderá se revelar tão turbulenta e violenta quanto a primeira do século XX.
Escrevi este artigo ao lado da minha primeira e até agora única neta: a fofíssima Helena. Que o avô se mostre um profeta fracassado e os problemas acima discutidos não atrapalhem a geração dela!
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional, mas expressa os seus pontos de vista em caráter pessoal.
“Aumentou o risco de uma crise como a de 2008”
Paulo Nogueira Batista Jr. diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington
Há quatro anos como diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, representando o Brasil e mais oito países de América Latina e Caribe, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. tem visão privilegiada do cenário econômico mundial.
Para o economista, que emite opiniões em caráter pessoal e não em nome do FMI, cresceu o risco de repetição de crise semelhante à de 2008. As causas principais são a falta de perspectiva de crescimento nos Estados Unidos e na Europa e as dificuldades de financiar dívidas públicas.
Se uma nova crise chegar, Batista avalia que o Brasil está mais preparado para enfrentá-la, embora não descarte surpresas, especialmente em torno do endividamento privado em dólar. O economista, que é casado com a catarinense Lia Soncini e passa férias em Santa Catarina, falou com o Grupo RBS sobre a nova onda de crise. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Agência RBS – Como o senhor analisa o rebaixamento da nota de crédito dos EUA pela agência Standard & Poors?
Paulo Nogueira Batista – Não foi uma decisão inesperada. O próprio secretário do Tesouro dos EUA, Thimoty Geithner disse que não sabia que efeito teria todo o processo tumultado do aumento do limite de endividamento sobre a classificação de risco americano. É um fato marcante. E claro que agências pequenas dos EUA e uma agência chinesa já tinham reduzido a nota. A decisão da S&P vai repercutir muito segunda-feira. O processo da dívida foi tortuoso e o resultado, incerto. O governo e o Congresso fecharam um plano que tem ordem de magnitude, mas não tem especificação. A briga política entre republicanos, democratas e a Casa Branca lançou um foco agudo de atenção sobre as debilidades fiscais americanas.
Agência RBS – Há motivo para esse derretimento todo nos mercados mundiais?
Nogueira Batista – A onda de pessimismo faz parte da crise. De repente, os mercados resolveram focar na acumulação de indícios vindos dos EUA e da Europa de que a situação é mais grave do que parecia. Os indícios de desaceleração da economia americana, as dificuldades de Itália e Espanha nos mercados de crédito, a incerteza quanto ao resgate da Grécia e a contenção do contágio, a sensação de que a solução para o limite de endividamento dos EUA foi enganosa, porque abalou a credibilidade do país e passou a sensação de que o problema fiscal não foi enfrentado. O pano de fundo dessa turbulência no mercado é de que há percepção de que tanto EUA quanto Europa empurraram o problema com a barriga. A Europa, com o acordo parcial alcançado na reunião de líderes em Bruxelas, há duas semanas. E os EUA, com esse esparadrapo que republicanos e Casa Branca costuraram. Aí a coisa começa a ficar feia porque há incapacidade política para encontrar soluções convincentes nos dois principais centros mundiais.
Agência RBS – Na sua opinião, há risco de nova crise global?
Nogueira Batista – Aumentou o risco de repetição de uma situação de crise semelhante à de 2008. Não é que seja provável, mas esse risco existia antes e foi ampliado.
Agência RBS – Que impactos pode causar à economia brasileira?
Nogueira Batista – Vai depender da intensidade da crise externa. Vamos supor que essa crise tenha intensidade semelhante (à de 2008). O Brasil está mais preparado, porque as reservas aumentaram. O país tem instrumentos que pode acionar, não só reservas, mas depósitos compulsórios. O Banco Central e o Tesouro podem reagir com mais rapidez no caso de reversão do fluxo de capitais. É claro que, se houver um choque externo semelhante ao de 2008, ninguém fica imune. O Brasil é um dos mais protegidos, mas não é invulnerável.
Agência RBS – Por quê?
Nogueira Batista – Acumulamos alguns problemas, deixamos que se agravasse notadamente a valorização do real. Em 2008, apareceu um problema não conhecido – empresas não financeiras tinham feito apostas na valorização do real que de repente se reverteu. Não estou dizendo que isso vai ocorrer de novo. O setor público é credor em moeda estrangeira, mas o setor privado acumulou dívidas em dólares porque é mais fácil se endividar em dólar. O Brasil adotou medidas de caráter prudencial para proteger o sistema financeiro de uma possível reversão do quadro mundial.
Agência RBS – Os EUA mostraram capacidade de dar a volta por cima. Podem surpreender outra vez?
Nogueira Batista – É evidente que os americanos estão atravessando uma crise grave, que não vai se resolver imediatamente. É uma crise econômica e política. Eles vão reagir, ou esse é o início do declínio dos EUA como grande potência. Essa questão não está clara porque a crise é gravíssima, os sintomas de degeneração do sistema americano são visíveis, mas não é a primeira vez que se anuncia o declínio dos EUA.
Agência RBS – Há um país ou bloco com capacidade para assumir a liderança?
Nogueira Batista – A situação é peculiar. Velhas potências do Atlântico Norte, EUA e Europa atravessam uma crise sem precedentes. Os emergentes não estão preparados para ocupar o espaço que está sendo deixado. Estamos numa fase de multipolaridade instável. Com vários centros de poder emergente, como China, Índia e Brasil.
Agência RBS – O senhor está no FMI, que teve um papel importante na negociação dos acordos em países da Europa. Como vê o cenário europeu?
Nogueira Batista – É mais nítido o declínio de longo prazo do continente, o envelhecimento. Os europeus se precipitaram quando foram para a unificação monetária sem ter feito, antes, uma unificação fiscal e, mais ainda, política. Antes, quando os ventos eram favoráveis, essa tensão entre governos nacionais, política fiscal nacional e política monetária continental não era tão aparente. Quando a crise bateu, a partir de 2008, fissuras apareceram. Grécia, Portugal e Irlanda são as mais óbvias, mas, agora, o problema aparece também na terceira e na quarta maiores economias da zona do euro, que são Itália e Espanha. Você tem uma situação em que os conflitos de interesse nacional dentro da Europa são de tal ordem que a governança está claudicando.
Agência RBS – Como o Brasil está sendo visto lá fora?
Nogueira Batista – Estou na diretoria do FMI há quatro anos. Desde que eu cheguei lá, em 2007, o Brasil é visto como um sucesso, uma grande oportunidade, um mercado atraente, um país bem administrado, cada vez mais ouvido, mais influente. Isso continua, mas não é um processo linear.