Balança comercial levanta preocupações no horizonte

Rodrigo L. Medeiros

Do Monitor Mercantil:

No contexto das precárias condições que se esperava que fosse perdurar por um bom tempo, Keynes (1932) recomendou que se “fizesse de conta, para nós mesmos e para todo mundo, que o certo é errado e o errado é certo; porque o errado é útil e o certo não”. Não há como negar que o mundo vive ainda os efeitos perversos da crise de 2008.

Na União Européia (UE) seus desdobramentos ameaçam a integridade do euro e o pacto civilizatório social-democrata do pós-guerra. Nos EUA, o desemprego e o lobby financista formam parte daquilo que John K. Galbraith certamente chamaria de “tirania das circunstâncias”. Alguma reflexão se faz necessária para o caso brasileiro.

Para tanto, citarei alguns dados disponíveis on-line do Ministério do Desenvolvimento brasileiro. Do saldo do comércio exterior por estados da federação, o Amazonas acumulou um déficit, entre janeiro e junho corrente, de 5,7 bilhões de dólares (FOB). Quando se faz alguma crítica desenvolvimentista ao Polo Industrial de Manaus ainda há muitos que ficam nervosos. São Paulo, por sua vez, apresentou um acumulado no ano deficitário de 12,5 bilhões de dólares, revelando muito sobre o que vem acontecendo com o polo industrial mais sofisticado do país.

O superávit comercial brasileiro no primeiro semestre do ano corrente de US$13 bilhões se deu por conta da valorização dos preços dos produtos básicos (commodities). Nesse mesmo período, a participação dos básicos representou 47,5% das exportações, contra 43,4% para o primeiro semestre de 2010. Os semimanufaturados mantiveram sua posição, isto é, 13,7% das exportações no primeiro semestre de 2011 contra 13,9% para o mesmo período de 2010. Já os manufaturados regrediram para uma participação nas exportações de 36,7%, quando comparados com 40,5% no primeiro semestre de 2010.

Muitos ainda negam a desindustrialização em curso no Brasil. O crescimento do volume exportado das commodities esteve abaixo da valorização dos preços das mesmas. A Ásia representou 28,7% dos destinos das exportações brasileiras no primeiro semestre de 2011 (a China, 16,9%). Os asiáticos têm participação de 31% nas importações brasileiras (a China, 14%). A UE respondeu por 20,3% das nossas importações no primeiro semestre do ano corrente. Os asiáticos cresceram na participação das importações brasileiras: de 30,6% no primeiro semestre de 2010 para o valor já citado neste parágrafo. Os EUA, por sua vez, participaram com 15,1% das nossas importações.

Bens de capital representaram 21% das importações brasileiras neste primeiro semestre. Sob alguma influência das multinacionais instaladas no País e do câmbio, matérias-primas e intermediários responderam por 45,5% das nossas importações no período.

Levanto aqui algumas reflexões para finalizar. O que aconteceria caso ocorresse uma mudança abrupta no estado de confiança dos negócios no Brasil? A velha mídia já fala em “bolha” e a nova diretora-gerente do FMI advertiu os emergentes quanto ao influxo de capitais estrangeiros. O governo Dilma Rousseff tem condições políticas e coragem para efetivar uma nova política industrial sintonizada com mudanças necessárias na macroeconomia vigente?

“A questão do controle de capitais é um problema técnico, e não uma visão ideológica”, afirmou publicamente Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI. O Brasil pratica uma das taxas básicas de juros mais elevadas do planeta e já há sinais de desindustrialização de atividades e etapas produtivas. Quando se analisa o resultado nominal do governo central, nota-se como a carga dos juros nominais pesa no resultado fiscal brasileiro. Ela transforma superávits primários em déficits nominais, além de ultrapassar em muito as várias rubricas sociais do gasto público.

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