Estadão, 14 de junho de 2011 | 8h16
José Paulo Kupfer
A indústria, em 2011, reduzirá os investimentos em máquinas, mas aumentará a aplicação de recursos em inovação. É o que informa reportagem do colega Marcelo Rehder, publicada no Estadão de domingo. Entre os motivos destacados pela Fiesp, que patrocinou o levantamento, a desaceleração da atividade econômica e o avanço dos produtos importados assumem a linha de frente.
Essa é a visão pragmática dos empresários. Entre os economistas, sempre que se fala em investimento no Brasil, fala-se que a taxa é baixa. Fala-se, na sequência, que é preciso elevá-la para evitar voos de galinha em meio a surtos inflacionários.
O roteiro, que parece reproduzir os chiados e os engasgos de um velho disco arranhado de vinil, segue com explicações da sabedoria convencional, segundo as quais a taxa de investimento é baixa porque a taxa de poupança é baixa e que a taxa de poupança é baixa porque o governo, com seus déficits e suas dívidas, restringe a capacidade de formação de poupança. Completa-se o script com menções às espetaculares taxas de poupança e investimento na China.
Não há mentira, nem mesmo erro, nessas afirmações. Elas apenas refletem uma visão da economia que, pela insistência e predominância, parece única, ainda que nem de longe seja.
A discussão da causalidade entre poupança e investimento é uma das muitas infindáveis e inconclusivas discussões econômicas. Se há uma identidade incontestável entre poupança e investimento, ela só é verificável “ex-post”, como dizem os economistas em seu terrível jargão – ou seja, depois que tudo já ocorreu. A divergência insanável está na abordagem “ex-ante” – ou seja, aquela que observa o fenômeno na partida e procura descrever, quando as engrenagens se movem, o que causa o quê.
Num outro modo de ver, o dos “keynesianos” – genericamente assim classificados em oposição aos qualificados como “neoclássicos” -, pode haver quanta poupança agregada houver que, sem horizontes para investir e, sobretudo, sem financiamento que o atenda, não haverá investimento.
“Para Keynes, o investimento não depende de poupança prévia, e sim de financiamento”, escreveu, resumindo essa visão, Luiz Fernando de Paula, presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), no jornal Valor, em novembro de 2010. “Este, por sua vez, não se confunde com poupança, podendo a liquidez necessária para realização do investimento ser criada endogenamente pelo sistema financeiro (…)”.
Tome-se o caso da China. Enquanto “neoclássicos” olham para a taxa de poupança de 50% do PIB e com ela explicam os 40% do PIB exibidos pela taxa de investimento chinesa, os “keynesianos” focam o olhar no sistema bancário chinês. Ele é integralmente público e voltado para atender, com crédito subsidiado e a baixo custo, toda a demanda de financiamentos existente.
Quando se adicionam a essa outras características da economia chinesa, como a alta relação lucro/salário e o absoluto controle do câmbio, para mantê-lo depreciado, uma pulga pode se instalar atrás da orelha e indagar se, diferentemente do convencional, não é a alta taxa de investimento que dá sustentação a uma alta taxa de poupança.
Pode-se – e deve-se – extrair algumas lições desse debate. A primeira e mais importante delas é que, qualquer que seja o deflagrador causal do investimento, o fator “financiamento” é crítico. Disso decorre que também é crítica a necessidade de contar com um sistema financeiro flexível e elástico, capaz de atender às demandas potenciais de investimento.
Tanto quanto contas públicas em ordem e um sistema tributário que abra espaço à produção competitiva, para fazer deslanchar o investimento, o Brasil carece de um sistema privado de financiamento de longo prazo. Viu-se, recentemente, com as tumultuadas transações do Tesouro Nacional com o BNDES, que há limites fiscais para o atendimento pelo setor público de toda a demanda potencial por investimento.
Não será possível estruturar esse sistema sem uma reforma financeira que separe os juros de títulos de curto, médio e longo prazos. As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), por exemplo, sobreviveram ao Plano Real e à estabilidade da moeda, e mantêm hoje as características de funcionamento do overnight dos tempos da hiperinflação, garantindo, ao mesmo tempo, segurança, rentabilidade e liquidez. Impossível financiamento longo com as vantagens oferecidas no curto prazo. Mas este é um tema, embora já bem conhecido, que rodopia em falso.