Tipologia da corrupção

Jagdish Bhagwati

Publicado no Valor Econômico de 07/01/2011:

No longo prazo, a prática do suborno corrói o respeito e a confiança exigidos pela boa governança, o que pode por si só prejudicar o desempenho econômico. Mas isso não nos isenta de reconhecer as óbvias diferenças culturais nas formas como ela é percebida.

Acabei de voltar da Índia, onde falei perante o Parlamento indiano no mesmo salão onde o presidente dos EUA, Barack Obama, falara recentemente. O país estava abalado por um escândalo. Um gigantesco esquema em nível ministerial no setor de telefonia móvel tinha desviado muitos bilhões de dólares para um político corrupto.

Mas vários dos parlamentares ficaram também surpresos ao descobrir que, em seu pronunciamento, Obama leu um teleprompter “invisível”. Isso iludiu sua plateia, levando-a pensar que ele estava falando de improviso, uma habilidade extremamente prezada na Índia.

Os dois episódios foram vistos como uma forma de corrupção: um envolvendo dinheiro, o outro, trapaça. As duas transgressões, obviamente, não se equivalem em torpeza moral. Mas o episódio envolvendo Obama ilustra uma diferença importante entre culturas na maneira como avaliam o grau de corrupção de uma sociedade.

A Transparência Internacional e, ocasionalmente, o Banco Mundial, gostam de classificar os países segundo seu grau de corrupção, e depois a mídia passa a citar incessantemente a classificação dos países. Mas diferenças culturais entre países comprometem a legitimidade dessas pontuações – resultantes, afinal de contas, de pesquisas junto à opinião pública. O que Obama fez é uma prática bastante comum nos EUA (embora melhor se pudesse esperar de um orador tão capaz); não foi assim na Índia, onde essa técnica é, com efeito, considerada repreensível.

Mas onde pode ser encontrada corrupção substancial de forma inequívoca, como frequentemente é o caso, é preciso reconhecer que não se trata de um dado cultural. Ao contrário, é muitas vezes resultado de políticas que a alimentaram.

Mas se políticas podem produzir corrupção, é igualmente verdade que o custo da corrupção varia de acordo com as políticas específicas. O custo da corrupção tem sido particularmente alto na Índia e na Indonésia, onde políticas produziram monopólios que criaram “rendas por escassez”, então alocadas a membros das famílias dos funcionários.

Essa “geração de renda” é bastante onerosa e corrói o crescimento. Em contraste, na China a corrupção tem sido largamente do tipo “repartição de lucros”, modalidade segundo a qual os membros de uma família recebem uma participação no empreendimento de tal modo que seus rendimentos crescem com um aumento nos lucros – um tipo de corrupção que incentiva o crescimento.

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