Macaé, do Eldorado do petróleo à terra do desemprego

Por M. Martín | Via El País

Os navios petroleiros são parte da paissagem de Macaé. / M. M.

A cidade fluminense de Macaé, localizada na Bacia de Campos, de onde sai 80% da produção de petróleo brasileiro, exibe uma coleção de locais que viraram novos pontos de encontro para os desempregados da cidade. Os centros que realizam exames médicos demissionais ficam lotados durante a semana, um parque do centro da cidade ficou conhecido por ser lugar de reunião dos que perderam o emprego, assim como o porto e o heliporto onde correm os ex-trabalhadores de empresas subcontratadas pela Petrobras à procura de uma nova oportunidade. Sem ter como contabilizá-los, outros muitos dos 8.835 trabalhadores que ficaram sem emprego nos últimos 12 meses, segundo dados do Ministério de Trabalho, foram embora ao ver seu sonho implodir.

No último anos, Macaé, a cerca de 200 quilômetros da capital, passou de ser a próspera capital nacional do petróleo a ter uma enorme dor de cabeça para pagar suas contas. A cidade é o mais claro exemplo da crise que o Rio de Janeiro enfrenta após a forte queda do preço do barril nos últimos meses e depois de a Operação Lava Jato mostrar suas garras nas contas da Petrobras.

Uma década de bonança depois, repleta de investimentos que elevaram o PIB per capita a quase 27.000 dólares (quase três vezes mais que a média nacional), Macaé, onde 27% da receita depende dos royalties do petróleo, é hoje outra cidade. Os colégios, assim como seus hotéis, baixaram suas tarifas com a esperança de frear a fuga de clientes, as imobiliárias não conseguem vender apartamentos nem com 40% de desconto, as ruas e os comércios ficaram mais vazios, e o trânsito intenso acabou.

Os antigos recordes de Macaé, com uma população que cresceu desproporcionalmente e que hoje conta com 234.628 pessoas – 10% estrangeiros –, agora são preocupações. Em julho, o município teve o pior índice de demissões no interior do Rio, quando perdeu 2.600 vagas. Muitos dos desempregados trabalhavam em empresas subcontratadas da Petrobras que ao finalizar seus contratos ficaram, sem sucesso, aguardando sua renovação. Marcos Saraiva, de 51 anos, era coordenador de recursos humanos em uma empresa alemã de navios rebocadores até que a companhia fechou suas portas e foi embora dois meses atrás. “A empresa preferiu fechar e investir em outro lugar. Agora me viro com o seguro de desemprego e o fundo de garantia”, lamenta Saraiva, que voltou a estudar para tentar se reincorporar ao mundo da advocacia. “Nos anos 90 vivemos uma crise forte, mas nada tão assustador como hoje. A esperança é que em 2016 haja incentivos para as empresas, porque o impacto não é só no Petrobras, é no comércio, é no setor imobiliário…”

M.M.

Nas ruas de Macaé, um lugar onde é incrivelmente fácil e casual achar trabalhadores da Petrobras e das empresas que trabalham para ela, a impressão é de que parte das receitas de cada um dos que anda por aí depende, em menor ou maior proporção, do negócio da estatal. No parque, conhecido pelos moradores por ser o lugar onde os novos desempregados passam as horas, uma família de gaúchos explica como a queda da atividade golpeou seu negócio de compra e venda de casas. “O mercado imobiliário praticamente parou. Houve uma época em que em Macaé era uma loucura. Perdeu-se a noção dos valores e os imóveis que antes se vendiam por 800.000 reais hoje custam 500.000. Mas mesmo assim não se vendem. Nós passamos a trabalhar com aluguel para nos adaptar a esta nova fase”, conta Kelly Goesteke, de 31 anos.

A oferta parece superar a demanda, as ruas estão cheias de placas anunciando imóveis e terrenos vazios. Nos hotéis relatam demissões e queda de ocupação de 85% a 50%, nos melhores dias. E no comércio perdas em torno a 30%. Claudio Henrique Ramos, de 22 anos, trabalha no caixa de uma farmácia: “O movimento caiu muito, meses atrás nosso fluxo de caixa era de 400.000 reais e hoje estamos na faixa dos 240.000”. Os dados oficiais do Ministério do Trabalho ilustram como as consequências da crise na cadeia produtiva do petróleo, que vem se arrastando há mais de um ano, recaem diretamente na construção civil e no setor serviços, campeões do desemprego nos últimos 12 meses. Os dois setores perderam mais de 7.500 trabalhadores, resultado da diferença entre as novas contratações e as demissões.

Com esse cenário, fechar as contas públicas e evitar a fuga de atividade está sendo muito difícil para a Prefeitura, cujas receitas expressivas, além dos royalties, dependem do ISS gerado pelos grandes tomadores de serviços associadas à Petrobras. A queda foi brusca. Em dezembro de 2014 a receita de Macaé foi de 40 milhões de reais e em abril de 2015 foi para 20 milhões, segundo o relatório da CPI da Petrobras da Assembleia Legislativa do Rio que investigou o impacto da crise da estatal na economia fluminense.

Macaé fechou o punho. Até quem ainda mantém o emprego se prepara para tempos piores. Na casa de Rodrigo Gualber, funcionário de 35 anos de uma empresa de equipamento submarino, a prioridade hoje é quitar dívidas. “Vendemos o carro financiado e compramos um mais barato. Ainda não cortamos na conta do supermercado, mas saímos muito menos para comer fora e passear”, relata a família em um dos dois shoppings da cidade.

Pequenos e médios municípios encabeçam lista de feminicídios, mostra estudo

Por Andreia Verdélio | Via Agência Brasil

Os pequenos e médios municípios brasileiros estão encabeçando as cidades com maior número de homicídios de mulheres no Brasil e, por isso, são necessárias políticas públicas específicas para esses locais. A afirmação é do pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), autor do estudo Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, apresentado hoje (9) em Brasília.

Segundo ele, os 100 municípios com mais homicídios de mulheres concentram só 2% do total de assassinatos, enquanto os municípios com mais homicídios de homens concentram 15% do total de mortes. “Homicídios de homens estão mais concentrados que os de mulheres, e isso cria uma certa dificuldade de enfrentamento. Chegar aos pequenos municípios é o desafio, já que os grandes têm seus instrumentos, como as delegacias da mulher”, disse Jacobo.

Segundo o estudo, dentre os 100 municípios com mais de 10 mil habitantes do sexo feminino (com as maiores taxas médias de homicídio de mulheres/por 100 mil), as dez primeiras posições no ranking nacional são: Barcelos/AM (1º), Alexânia/GO (2º), Sooretama/ES (3º), Conde/PB (4º), Senador Pompeu/CE (5º), Buritizeiro/MG (6º), Mata de São João/BA (7º), Pilar/AL (8º), Pojuca/BA (9º) e Itacaré/BA (10º).

A secretária de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Eleonora Menicucci, disse que implantar a Lei Maria da Penha em todos os municípios é um desafio, e que o último balanço do Disque 180 apontou que a maior parte das denúncias é de cidades entre 20 mil e 50 mil habitantes. “Falta uma capilaridade das ações de enfrentamento à violência, das politicas públicas. E falta uma erradicação da cultura da violência patriarcal e machista no nosso país”, disse.

Para a ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Nilma Lino Gomes, os dados mostram uma lamentável articulação entre desigualdade regional, de raça, socioeconômica e de gênero, e aponta para uma sociedade que “ainda é patriarcal, racista e sexista”. Apesar disso, para ela, os dados vão ajudar os governos a pensar e aprimorar políticas públicas, além de serem trabalhados nas escolas e universidades e com os movimentos sociais.

Segundo o estudo, entre 2003 e 2013, o número de mulheres assassinadas passou de 3.937 para 4.762, incremento de 21,0% na década. Entre 2006, ano da promulgação da Lei Maria da Penha, e 2013, apenas em cinco estados registraram quedas nas taxas de homicídios de mulheres: Rondônia, Espírito Santo, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro.

Para Jacob, esse crescimento também é uma reação à própria lei. “O machismo enfrentado resultou uma crise, porque se esperava que a violência não fosse respondida. Mas a partir da lei, isso se rompeu, a mulher começou a fazer denúncias, o que originou reação do sistema patriarcalista que tem no Brasil”, disse o pesquisador, destacando que a legislação atual é boa, mas ainda insuficiente.

A secretária Menicucci espera que, com a nova Lei do Feminicídio deverá ajudar a reduzir as taxas, já que aumenta as penas e tipifica os assassinatos de mulheres. “E temos que olhar com foco os assassinatos dentro de casa, nos domicílios. Mulheres são mortas por aqueles que elas escolheram para serem seus companheiros e pais dos seus filhos”, disse.

O Mapa da Violência apontou que, dos 4.762 homicídios de mulheres registrados em 2013, 2.394, isso é, 50,3% do total foram cometidos por um familiar da vítima. Já 1.583 dessas mulheres foram mortas pelo parceiro ou ex-parceiro, o que representa 33,2% do total de homicídios femininos nesse ano.

O estudo completo sobre homicídio de mulheres no Brasil está disponível no site do Mapa da Violência.

Limitações ao endividamento público: Lobo em pele de Cordeiro?

Por Roberto Requião e Lindbergh Farias

Com muita satisfação vimos nos últimos tempos que nosso colega, o Senador José Serra, como grande economista que é, tem feito críticas bem fundamentadas contra os juros elevados e os excessos das operações de swaps cambiais. O Senador mais uma vez inova ao popularizar e tornar conhecido para nós políticos o termo “dominância fiscal”, nos ajudando, assim, a entender o imbróglio em que irresponsavelmente nos meteu o Banco Central nos últimos dois anos, em razão de um aumento exagerado dos juros e excesso de operações de swap cambial.

Essas críticas estão bem colocadas no relatório que ele fez na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal sobre uma emenda de sua autoria que visa limitar o endividamento público.

Infelizmente, a ótima qualidade das críticas não pôde ser transmitida para o texto normativo. O projeto, que propõe estabelecer limites muito específicos e estreitos ao endividamento público, não tem uma conexão muito precisa com os argumentos válidos do relatório. Com pesar, temos que admitir que o discurso sensato e inteligente do Senador José Serra não conseguiu se consolidar na proposta legislativa, apesar da alta qualidade técnica do relatório e dos cuidados republicanos para dar flexibilidade aos limites propostos. Pretendemos, humildemente, mostrar abaixo o porquê não concordamos com a proposição.

Resumidamente, podemos dizer que o projeto propõe um limite muito estreito para a dívida pública bruta e para a dívida pública líquida, respectivamente, de 4,4 e 2,2 vezes a Receita Corrente Líquida da União. Hoje esses patamares estão em 5,6 e 2,2 vezes a Receita Corrente Líquida.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que o projeto não tem a seu favor nenhum exemplo internacional bem-sucedido entre as grandes nações. Isso não é bom, porque, em um tema que pode afetar a vida de milhões de pessoas, precisamos ser muito cuidadosos e usar o máximo dos exemplos históricos para evitarmos erros.

Em segundo lugar, devemos lembrar que, quase certamente nenhuma das grandes potências do mundo hoje se enquadrariam a esses limites. Nos termos da proposta, elas teriam sua política fiscal, monetária e cambial paralisadas ou fortemente constrangidas em razão desses limites. Em termos práticos, esses países seriam obrigados a sofrer grave recessão ou inflação por muitos anos para poderem adequar as demandas democráticas de governabilidade e legitimidade a limites de endividamento como esse. Qual seria o grande benefício desse projeto que compensaria tal desastre?

Acredito que o autor da proposta também tem essa preocupação. Por isso ele colocou no relatório uma ressalva que poderia ser reescrita, em nossas palavras, da seguinte forma para o caso internacional: “ok, voltar ao limite, uma vez ultrapassado é custoso, mas se o limite ao endividamento que propomos já existisse antes, esses países não teriam chegado a dívidas tão altas”. Pode ser, mas, se esse limite existisse antes, os países não poderiam ter feito as políticas fiscais e monetárias necessárias para salvar o mundo da crise de 2008. Essa teria sido muito pior do que a Depressão dos anos 30 e a economia mundial teria caído mais de 50%. A importância dos mercados financeiros globalizados para a economia mundial era em 2008 muito maior do que em 1929 e as bolhas muito maiores. Se hoje já ficamos preocupados com as guerras, terrorismo, pobreza, genocídios, migração em massa, não sabemos o que restaria da civilização se o PIB global caísse mais de 50% em poucos anos. Não acreditamos que esse seja um bom preço a pagar para cumprir uma meta contábil-legal. Se não é bom para as grandes potências, pode ser bom para o Brasil?

Acreditamos que o autor da proposta concorda conosco. Por isso, ele fez várias regras para flexibilizar o torniquete da restrição de endividamento e ainda fez a ressalva que pode ser resumida na seguinte proposição: se o governo no futuro achar o limite estreito, poderá pedir ao Congresso para ampliá-lo. Em outras palavras, diz: ao menos assim o governo seria obrigado a se explicar ao congresso o porquê do aumento do endividamento. Daí perguntamos: qual a razoabilidade científica de um torniquete que, quando atinge seu limite, tem que ser flexibilizado ou porque há crise econômica ou porque o governo tem boas razões para pedir ao congresso? Ora, quando a situação econômica é de pujança as receitas públicas crescem rapidamente, os juros são baixos e por isso a dívida pública não ultrapassa o limite. Ele é atingindo exatamente na crise, onde, sabemos que o limite precisa ser flexibilizado para que não ocorra um mal maior. Então para que serve o limite?

Outro ponto controverso é a escolha arbitrária do limite. Cabe perguntar por que o autor escolheu o número 4,4 e não 3,3 ou 5,5, 6,6 ou 9,9?  Faltou a explicação científica para ter escolhido esse número. Sabemos apenas que 4,4 é bem abaixo dos atuais 5,6. Ou seja, a lei entraria em vigor já com o Estado brasileiro em descumprimento da meta.

Não existe número ideal ou base científica que pudesse dar uma explicação razoável para nenhum dos muitos limites de endividamento que os economistas conservadores tentam sugerir para o endividamento público.

A experiência Grega nos tem mostrado que limites de endividamento dados externamente ao poder público democraticamente eleito responsável pela política econômica têm se transformado em importante instrumento de chantagem sobre esse poder democraticamente eleito.

Mas não precisa de um poder internacional para que os limites de endividamento sejam uma restrição e chantagem ao poder democrático, basta um modelo institucional mal desenhado. No modelo institucional do presidencialismo de coalizão brasileiro, os congressistas unidos em torno de suas lideranças têm bastante poder sobre o que o Executivo pode ou não realizar. Porém, ao contrário do parlamentarismo verdadeiro, eles não têm responsabilidade individual sobre o que acontece no país, se ele está em crise ou não.

Pelo contrário, involuntariamente, se beneficiam das crises de governabilidade. O executivo é diretamente e facilmente responsabilizado por todos os problemas do país. Se estamos em crise, o governo sofre com a baixa popularidade e não elege sucessor. Pior, como existem os carbonários, pode até sofrer impedimento em caso de popularidade muito baixa. Já os mandatos dos congressistas, na grande maioria, pouco sofrem individualmente em termos materiais em caso de crises políticas ou econômicas. No presidencialismo não existe uma penalidade ou responsabilização objetiva para os parlamentares em caso de grave crise econômica ou política.

O chefe do Poder Executivo no parlamentarismo verdadeiro pode convocar novas eleições caso o Congresso não lhe dê apoio. Isso é uma forma de responsabilizar o Congresso em situações de crise. Aqui no Brasil é o contrário, quanto pior a crise, quanto mais fragilizado é o Poder Executivo, mais ganham (involuntariamente) os congressistas individualmente, mais poder de barganha eles têm para conseguir aprovar projetos de lei contrários ao Poder Executivo ou mesmo à maioria da sociedade, mais cargos e benesses podem exigir do governo e das empresas e grupos de interesse em geral em troca do seu poder de voto. Em relação ao Poder Judiciário, em especial suas casas mais políticas o STF, o TSE e o MPF, temos uma lógica parecida, quando falta poder de liderança no Executivo. Dessa forma, o modelo de organização do Estado no Brasil tende para a instabilidade e para a dependência involuntária de um poder moderador externo ao Estado, que, no caso brasileiro, é a grande mídia e que nem sempre aposta na estabilidade e na governabilidade.

Na situação atual, onde o Poder Executivo ainda tem três anos pela frente e já está asfixiado por uma governabilidade restrita, uma baixa popularidade, conflitos internos e crise econômica, mais uma restrição ao endividamento público – ainda que tenha um longo horizonte de ajuste – é mais uma forma de constranger o único poder no Brasil que possui responsabilidade de manter a estabilidade política em favorecimento a poderes cujos membros não podem ser responsabilizados pela instabilidade.

Sabemos que o Senador Serra é um profissional e um intelectual responsável e jamais teria esse tipo de intenção. Porém, nos preocupa a avalanche de prerrogativas que o Congresso tem criado para impor constrangimentos ao Poder Executivo neste momento de fraqueza da Presidenta Dilma, alguns dos quais apoiados pelo Deputado Eduardo Cunha e pela oposição na Câmara dos Deputados.

No modelo de Presidencialismo de coalizão brasileiro, esse tipo de constrangimento ao executivo pode funcionar, à revelia das intenções dos autores, como o velho método do patrimonialismo: criar dificuldades para vender facilidades. Os custos das dificuldades recairão mais pesadamente sobre o executivo e apenas difusamente sobre a instituição do Congresso Nacional. Sobre os parlamentares individuais, que podem aproveitar oportunisticamente desse tipo de iniciativa, pouco recai.  E no caso, não adianta que o idealizador do constrangimento tenha as melhores das intenções, cada parlamentar que pode usar seu voto como “meio de chantagem” poderá distorcer os princípios da democracia e agravar a crise econômica e de governabilidade. Praticamente sem custos pessoais.

Sem negar a culpa da Presidenta pelos próprios erros, desde que Eduardo Cunha foi eleito Presidente da Câmara dos Deputados, por coincidência, tem desabado sobre a presidente Dilma um monte de proposições legislativas, judiciais ou fiscalizatórias que tem colocado ela sempre em posição de ter que barganhar sobrevida e governabilidade, cabendo pouco espaço para propostas e debates construtivos. Esse não é o papel do Congresso Nacional nem do Judiciário, mas é uma tendência inexorável em caso de um Poder Executivo sem capacidade de liderança e com a legitimidade abalada. O enfraquecimento político da Presidenta Dilma abriu margem a toda sorte de constrangimentos legais que, se continuarem sendo criados, em breve o Brasil estará ingovernável e, nesse caso, há o risco de crises muitos mais graves, soluções autoritárias e até guerra civil.

Ao falar isso, não estamos eximindo a Presidenta da responsabilidade que teve de destruir a própria popularidade em decorrência da rejeição do seu próprio programa de governo em favor do programa do adversário e da crise econômica criada depois da troca do seu Ministro da Fazenda. Mas acreditamos que restrições adicionais à gestão de política econômica expansionista só tornam o governo mais refém de um Congresso, cujos membros, por falta de prerrogativa constitucional, não tem como ser responsabilizados pela crise econômica e política e que, portanto, são tentados a aproveitar, se forem oportunistas, as crises para tentar aumentar seu próprio poder de barganha e conquistar de uma vez suas ambições políticas em cima do desmoronamento da economia do país, da política social e dos serviços públicos.

Dessa forma, se concordássemos com o mérito do projeto, sugeriríamos que este não seria um bom momento para avançar esse tipo de iniciativa.

Mas acreditamos que esse projeto possui problemas que nos obrigariam a votar contrariamente mesmo se não estivéssemos no meio de uma grave crise política e econômica. Aparentemente, as flexibilizações de prazo e circunstância previstas no projeto amenizariam as restrições econômicas que o atual e o próximo governo teriam em razão dos limites de endividamento. Mas há uma restrição menos visível que o projeto não pode mudar. Sabemos pela experiência internacional que os países podem ter dívidas públicas muito maiores do que a brasileira sem nenhuma dificuldade de emitir dívida e sem qualquer constrangimento econômico relevante. Porém, na presença de dispositivos legais, como o proposto no projeto, que tenham como penalidade a proibição de “novas operações de crédito”, o cenário é outro. Como os títulos de dívidas possuem prazos longos, na perspectiva de que exista uma restrição legal a novas operações de crédito, o risco de inadimplência da dívida pública aumenta muito, ao contrário do que o projeto sugere. É um tiro pela culatra.

Um exemplo óbvio são os EUA. Quando o Congresso dos EUA entrou em uma discussão de duas semanas para decidir se aumentava o limite de endividamento do país, a empresa de rating Standard and Poors decidiu pela primeira vez rebaixar o crédito dos EUA. O incrível é que isso aconteceu depois que o limite já havia sido aumentado e sem que tenha havido qualquer mudança econômica. A simples possibilidade de limitação parlamentar de novas operações de crédito foi capaz de rebaixar o rating dos EUA. Pois é óbvio que o impedimento legal a novas operações de crédito torna o risco de inadimplência da dívida pública altíssimo, pois é óbvio que é muito mais importante manter funcionando a máquina pública do que pagar a dívida. Sem a máquina pública a sociedade moderna entraria no caos completo.

Se existe um dispositivo legal que cria a possibilidade de proibir novas operações de crédito, ainda que seja daqui a 15 anos, você simplesmente leva às alturas o risco de inadimplência dos títulos com prazos superiores a 15 anos. E com isso gera um efeito em cadeia sobre toda estrutura da dívida pública, tornando-a mais cara desde já. Qual seria o benefício disso?

Até agora já vimos que o projeto pode impedir um país de sair de uma crise econômica grave, pode prejudicar no Brasil a governabilidade do poder democrático responsável, em prol de agentes oportunistas que ganham com a instabilidade política, e gera um efeito imediato de redução do prazo e aumento do custo da dívida pública.

Mas os problemas não se limitam a isso. A experiência internacional mostra que existe uma enorme variedade de patamares de relação dívida/PIB, que em alguns casos é superior a 200% do PIB, como no Japão, sem que isso leve a qualquer problema ou limitação para as políticas monetária, cambial e fiscal.

Por aqui, tentam dizer que uma dívida bruta de 67% ou líquida de 37% sejam catastróficas. Em razão de quê? Dizem os “sábios” analistas consultados pelos jornais que é em razão dos juros elevados. Ora, mas esses mesmos catastrofistas dizem que os juros são altos porque a dívida é alta. Sim, é o cachorro correndo atrás do rabo, um pensamento sofista circular: “a dívida é insustentável porque os juros são altíssimos, e os juros são altíssimos porque a dívida é insustentável”.

Ao ser confrontada com tal proposição, qualquer criança que seja informada que há países com dívidas que são 200% maiores do que a nossa e que lá os juros são de 0% ao ano, dirá que a solução para nosso dilema é reduzir os juros, pois, ao serem reduzidos, a “dívida pequena que é insustentável por causa dos juros muito elevados” deixa de ser “insustentável”. Isso não levaria a aumento da inflação, especialmente se o governo usasse os vários instrumentos de que dispõe para segurar a taxa de câmbio.

Segundo o economista Pedro Rossi, “o único consenso entre os economistas é que não há consenso quanto ao patamar ótimo da dívida pública”. Já entre os “sábios” analistas de bancos que falam nos jornais, há total consenso que a dívida pública deve ser a menor possível, desde que seja no Brasil. Nos EUA e no Japão, pode ser muito maior do que o PIB sem problema. Se o Presidente no mandato for FHC também não tem problema. Ele conseguiu multiplicar nossa dívida pública de forma irresponsável, mesmo vendendo a maior parte do patrimônio nacional com a justificativa de reduzir essa mesma dívida. Algo inacreditável. Mas ele pode. Dilma não pode. Mesmo que a dívida líquida do setor público no governo Dilma seja metade do que era no governo FHC.

Não entendemos a razão dessas diferenças. Cientificamente falando, é claro. Politicamente, entendemos que Dilma virou a Geni da direita, não em razão dos seus erros, que aumentaram exponencialmente depois da troca de Ministro da Fazenda, mas em razão dos seus acertos.

Todas as críticas que fizemos até agora são válidas para as tentativas de impor limites arbitrários sobre a dívida líquida. Impor limites arbitrários sobre a dívida bruta, como pretende o projeto, é muito pior. Primeiro porque a dívida bruta é um péssimo indicador para a dívida real do Estado, pois essa dívida pode ter sido criada para construir patrimônio público, não afetando assim o patrimônio líquido do Estado. Inclusive esse patrimônio público criado juntamente com a dívida pode ter uma qualidade em termos de liquidez, segurança financeira e até rentabilidade superior à dívida.

Esse é o caso da maior parte da dívida bruta brasileira, que é apenas uma contrapartida do aumento do patrimônio público basicamente em reservas cambiais e também em empréstimos de bancos públicos, para viabilizar a manutenção dos investimentos produtivos que fez com que a economia brasileira e a arrecadação de impostos resistissem à grande crise de 2009 e à guerra econômica globlal que se seguiu. Funcionou muito bem até final de 2012. O governo começou a recuar em 2013 em razão da pressão política e da perda de convicções, mas ainda funcionou com relativo sucesso até dezembro de 2014. Quando Levy começou a implantar suas políticas de destruição do arcabouço de defesa da crise e da guerra econômica global, tudo desabou, da economia à governabilidade.

O crescimento da dívida bruta foi um fenômeno comum a todos os países depois da crise de 2008. O caso brasileiro foi um dos mais saudáveis. O país foi um dos poucos do mundo que praticamente não aumentou a dívida líquida. Aumentou a dívida bruta para compensar crescimento do patrimônio do Estado em reservas cambiais e em empréstimos ao setor produtivo para realização de investimentos produtivos.

Se o país tem um grande saldo comercial ou de investimentos no balanço de pagamentos, ele acumula riqueza internacional, que precisa ser guardada em ativos denominados em moeda internacional, dólar. Porém, ao acumular essa riqueza no Banco Central através da compra de dólares, esse é obrigado a emitir dívida pública em montantes parecidos com esse acúmulo de riqueza internacional. Isso acontece porque o exportador que vendeu seu produto no exterior precisa pagar em reais os trabalhadores, impostos e fornecedores e mesmo ele prefere guardar seu dinheiro em reais. Ao oferecer seus dólares no mercado cambial para comprar reais, ele faz o dólar se desvalorizar frente ao real. Dessa forma, obriga o Banco Central a comprar dólares para manter o real competitivo. Assim, aumenta a oferta de reais no mercado interno. Esses reais a mais na mão do exportador, dos seus funcionários e fornecedores são aplicados nos bancos, que acabam comprando dívida pública, o que tende a reduzir a taxa de juros. Para que isso não aconteça, o BC lança novas dívidas para elevar a taxa de juros até que essa alcance novamente a meta SELIC.

Ou seja, o aumento de nossa riqueza internacional no Banco Central leva a um aumento equivalente em nossa dívida pública. Mas isso não é ruim, pelo contrário, é muito bom. A China é uma potência mundial respeitada em grande parte por causa do elevado valor de suas reservas cambiais. O Brasil também, só passou a ser um país realmente respeitado quando se viu imune a crises internacionais em razão do elevado volume de reservas cambiais acumulado no segundo mandato do governo Lula. Foi naquele momento que o Brasil virou moda no mundo todo. Desde então, o país não depende mais dos humores do mercado internacional, do FMI, para lhe dizer o que fazer. As reservas internacionais nos dão soberania econômica. Parte significativa da dívida bruta decorre da necessidade soberana termos reservas cambiais substantivas. O projeto, ao limitar o tamanho da dívida bruta, está de fato limitando nossa soberania econômica ao limitar o tamanho de nossas reservas. A recessão deste ano de 2015 não decorre de nossa dependência financeira real em relação aos mercados internacionais, mas da recessão criada internamente pelo dogmatismo cego do Ministro da Fazenda e do Banco Central. Nesse sentido, levando em conta que quase metade da nossa dívida bruta é uma contrapartida para o aumento da nossa riqueza internacional no Banco Central, o projeto é também um atentado a nossa soberania econômica.

O que importa é a dívida líquida e esta é pequena no Brasil em razão do elevado estoque de reservas cambiais. Todavia, por causa dos juros incompreensivelmente elevados, os mesmos neoliberais que defendem esses juros absurdos, dizem que nossas reservas são caras, pois renderiam apenas juros internacionais, que são civilizados. Mesmo desconsiderando a hipocrisia desse argumento, não podemos deixar de lembrar que ele também é falso.

Desde o início do primeiro mandato da Dilma, quando as reservas se aproximaram do ponto máximo, o rendimento médio dessas reservas tem sido significativamente superior ao rendimento da Selic, mais precisamente, as reservas cambiais renderam entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de outubro de 2015 44% a mais do que a Selic acumulada. Considerando a taxa de juros média das reservas cambiais brasileiras, as reservas renderam quase 50% mais do que a Selic. Um investimento espetacular para o povo brasileiro, que não seria possível se vigorasse o projeto.

Se vigorasse tal projeto também não seria possível usar os bancos públicos para suprir a falta de crédito e manter o investimento em momentos de crise financeira. Mas mesmo na ausência de crise financeira o projeto é recessivo. Segundo o Professor Pedro Paulo Zaluth, em teoria, o projeto exige austeridade institucionalizada apenas depois dos primeiros cinco anos. Porém, depois desse período, superávit primário requerido a partir de 2020, dependendo da taxa de juros, tende a ser maior do que 5%, provavelmente maior do que 6%. Seria um ajuste catastrófico a la grega. ​Considerando que o mercado terá que antecipar essa situação e seus riscos políticos embutidos, o governo será obrigado a começar desde já ao esforço de ajuste. Aliás, já estamos nele! Assim, teríamos provavelmente 15 anos de recessão.

Cabe lembrar que esses juros não seriam menores em razão do projeto, pelo contrário, tendem a ser maiores, pois o risco do governo não conseguir fazer o ajuste prolongado de 15 anos do projeto não seria pequeno e isso implicaria segundo o próprio projeto em proibição de novas operações de crédito pelo governo. Ora, em uma circunstância como essa, o governo certamente será obrigado a deixar de pagar sua dívida pública para poder manter em funcionamento a máquina pública e os serviços públicos básicos. Como o mercado não é bobo, desde a aprovação do projeto, as taxas de juros sobre os títulos de longo prazo sofreriam grande aumento. O governo seria desde já obrigado a reduzir o prazo médio da dívida pública e aumentar o custo médio dessa dívida. Ou seja, ela teria um efeito imediato e direto inverso ao que se propõe.

Levando em consideração todas essas reflexões, propomos a rejeição do projeto e pedimos que nossos colegas estudem a fundo as possíveis consequências, que podem ser muito mais graves do que aparentam à primeira vista.

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Roberto Requião é senador pelo PMDB-PR.

Lindbrgh Farias é senador pelo PT-RJ.

Termômetro da conjuntura política #9

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/11/2015

Créditos: Jornalistas Livres

#ForaCunha. O Brasil inteiro mobilizou-se, capitaneado por movimentos feministas e pela Frente Povo Sem Medo, pela saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara, pela derrubada de seu PL 5069 que dificulta ao aborto em casos de estupro, e contra o ajuste fiscal do governo e seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Diversos atos ocorreram em vários estados do país tais como Espírito Santo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, sendo o maior deles em São Paulo, onde a organização sustenta que 60.000 pessoas estiveram presentes, enquanto a mídia corporativa noticiou somente 600! Na foto acima, o leitor pode conferir e tirar as conclusões sobre quem falou a verdade.

Piada pronta. O mesmo Eduardo Cunha resolveu “explicar” suas contas na Suíça – mas só depois que perdeu em definitivo na justiça de lá, onde tentava invalidar as provas que o Ministério Público suíço enviara ao Brasil. Diz ele que o dinheiro não declarado em suas contas no exterior são provenientes de venda de carne enlatada e operações na bolsa, sustentando ainda que desconhece o porque do depósito de 1,3 milhão de francos suíços por parte do lobista João Augusto Henriques. A “prova” desse desconhecimento seria o fato de que o dinheiro estava parado na conta, esperando ser reclamado pelo verdadeiro dono. Ah, pra finalizar o conto fantástico, dirá também que não era beneficiário nem dono das contas na Suíça, mas somente “usufrutuário”.

Direito de resposta. A aprovação do projeto do Direito de Resposta, de autoria do senador Requião, pelo Congresso Nacional, já começa a apresentar seus efeitos. Duas publicações habituadas a difamar adversários e inimigos políticos, o jornal O Globo e a revista Veja, publicaram grandes erramos a fim de retificar acusações mentirosas que haviam feito contra o ex-presidente Lula e seus familiares. Por outro lado, a pressão das entidades vinculadas a grande mídia aumenta, com o discurso de que o direito de resposta fere a “liberdade de imprensa”. Ora, liberdade de imprensa seria o direito de mentir, difamar e assassinar reputações? O projeto ainda precisa ser sancionado pela presidente Dilma. Em nome da democracia e do jornalismo sério, esperemos que o faça.

SAMARCO. Ainda sobre jornalismo sério, é espantosa a “dificuldade” da imprensa em lembrar que a responsabilidade pela gestão das barragens de rejeitos que romperam em Mariana-MG seja da Samarco S.A, empresa controlada pelos grupos BHP Billiton e Vale. Será que é por que este acidente prova que a gestão privada, que coloca os lucros à frente de qualquer coisa, tem culpa pelas vidas ceifadas na tragédia? Ou será que é pra disfarçar a incompetência da Vale, empresa privatizada sob o discurso da “eficiência” do setor privado?

Viés. São gravíssimas as constatações do excelente colunista da Folha, Jânio de Freitas, em artigo publicado neste domingo. Mais uma vez discorrendo sobre a força-tarefa da Lava Jato, Jânio nota o tratamento benevolente dado às empresas estrangeiras envolvidas no escândalo, em contraste com o a postura linha dura quando com empresas de capital nacional. Ora, que tipo de justiça age desta forma? Será este o efeito do acordo de “cooperação” firmado pelo MPF com o Banco Mundial e autoridades da justiça norte-americana?

Dobradinha neoliberal. Esta semana o senado se movimenta no sentido de avançar em duas propostas de alto potencial destruidor, patrocinadas pela dobradinha José Serra e Renan Calheiros. O presidente do senado pretende pôr em votação a sua PEC que cria uma autoridade fiscal independente que analisaria a gestão das finanças públicas do governo federal. Já Serra almeja votar o PRS 84, que impõe limites draconianos a dívida pública, inviabilizando a atuação do Estado em vários setores. As duas medidas vão no mesmo sentido, o de privatizar as decisões referentes ao Tesouro Nacional, impondo o domínio dos credores e o ajuste fiscal permanente no país, que seria transformado numa colônia da dívida.

Petroleiros x Vendine. Prossegue e cresce em adesão a greve dos petroleiros, iniciada no último dia 25 e liderada por 17 sindicatos e duas federações, a FNP e a FUP. Os líderes sindicais desejam negociar a pauta trabalhista, pleiteando 18% de aumento referente a reposição inflacionária, aumento de produtividade e ganho real, mas o que realmente lhes move é a luta contra a privatização da Gaspetro e BR Distribuidora, medidas previstas no plano de negócios do presidente Aldemir Bendine. Os sindicalistas defendem também o retorno dos investimentos e o término das obras do Comperj e Refinaria Abreu e Lima. O Blog apoia esta luta e a entende como uma das mais relevantes dos últimos anos.

Reforma? É preocupante a intenção do governo de extinguir a Secretaria de Políticas de Informática, instituição vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. O setor é de importância crucial visto que sua tarefa é gerir as políticas públicas referentes as Tecnologias de Informação e Comunicação, simplesmente o pilar de qualquer atividade econômica, administrativa ou de defesa na atualidade. O setor representa 8,8% do PIB e movimenta centenas de bilhões de reais, além de investir consideravelmente em Pesquisa & Desenvolvimento e ser responsável por mais de 100 mil postos de trabalho qualificados. Esta não é, definitivamente, a reforma administrativa que o país necessita.

Podridão no futebol e o diretor da Globo

Por Altamiro Borges | via Blog do Miro

A corrupção no futebol mundial, que envolve principalmente os direitos de transmissão dos jogos nas emissoras de televisão, já levou para a cadeia vários cartolas da Fifa e segue sendo destaque na mídia internacional. No Brasil, o escândalo de bilhões de dólares tem uma cobertura jornalística tímida – só vira notícia em episódios mais curiosos, como na recente transferência do aecista José Maria Marin, ex-presidente da CBF, de uma prisão na Suíça para um apartamento de luxo nos EUA. Isto não significa que nada se mova neste pântano. Nesta semana, o diretor da Rede Globo responsável pelos negócios neste campo, foi afastado de suas funções. Qual será o motivo desta troca no time do império global?

A informação sobre a estranha troca foi dada pelo jornalista Daniel Castro, do site Notícias da TV, nesta quinta-feira (5). “Figura-chave nos bastidores do futebol brasileiro nas últimas duas décadas, Marcelo Campos Pinto está deixando a Globo Esportes, braço de negociações de direitos esportivos do Grupo Globo. O executivo ficou desgastado internamente após os escândalos envolvendo corrupção nas negociações de direitos da Fifa e Conmebol e da prisão de José Maria Marin, ex-presidente da CBF, de quem era próximo. Em maio, na festa de encerramento do Campeonato Paulista, Campos Pinto discursou que Marin ‘fez história no futebol brasileiro’”.

Ainda segundo o jornalista, “nos últimos anos, Campos Pinto foi figura fundamental nos bastidores do futebol brasileiro. Deu as cartas nas negociações dos direitos de transmissão. Em 2011, com a implosão do Clube dos 13, conseguiu manter o futebol na Globo negociando diretamente com os clubes. A TV passou a ser a principal fonte de receitas dos times. No ano passado, segundo estudo do Itaú BBA, a Globo e seus canais pagos injetaram R$ 1,210 bilhão nas 23 maiores agremiações futebolísticas do país… A aposentadoria de Campos Pinto já vinha sendo planejada desde o primeiro semestre. A área de direitos esportivos da Globo e Globosat será liderada em breve por Roberto Marinho Neto, filho de Roberto Irineu Marinho”.

Em comunicado oficial, o presidente do Grupo Globo confirmou que Campos Pinto deve se aposentar no final do ano. “Esta mudança representa mais uma etapa na busca de sinergias e integração entre as operações do Grupo Globo… Ao Marcelo, meu agradecimento pelo importante trabalho realizado durante mais de vinte anos de atuação no Grupo Globo”, descreve a nota lacônica de Roberto Irineu Marinho. “Já a assessoria de imprensa do império global não deu maiores detalhes sobre a mudança e afirmou apenas que “qualquer informação que não esteja no comunicado de Roberto Irineu Marinho é especulação”, relata Daniel Castro. Há algo de muito estranho neste troca-troca! Será que a CPI da corrupção no futebol, liderada pelo senador Romário, convocará para depor o diretor defenestrado?

Brasil-EUA: a submissão, a “cooperação” e a soberania

Por Mauro Santayana | Via CdB

A vocação para submissão de parcelas do Judiciário e da área de segurança brasileiras às autoridades norte-americanas é impressionante.

Como exemplo, temos a “colaboração” prestada pelo Ministério Público e pela Operação Lava-a-jato a procuradores norte-americanos que estão recolhendo provas contra a Petrobras e oferecendo acordos de delação premiada a presos brasileiros submetendo-se colonizada, e alegremente – nas barbas do Ministério da Justiça – às autoridades de um país estrangeiro, como se elas tivessem jurisdição em território nacional, em uma causa que envolve uma empresa de controle estatal que pertence não apenas aos seus “investidores” diretos, mas a todos os cidadãos brasileiros.

Depois, temos a romaria de procuradores e juízes aos EUA, para receber “homenagens” relacionadas a assuntos internos nacionais, e a recente presença de ministros da Suprema Corte em reuniões do Diálogo Interamericano – uma espécie de Foro de São Paulo às avessas – nos EUA. Já imaginaram um procurador norte-americano se deslocando para o Brasil para ser premiado por sua atuação, na investigação, digamos, de corrupção na General Motors, ou na AMTRAK, uma das maiores empresas estatais dos EUA – tradicionalmente deficitária – com mais de 20 mil funcionários, e presente nos 48 Estados da Federação?

Como se não bastasse, agora, chega a vez do Rio de Janeiro tomar a iniciativa de anunciar a próxima abertura de um escritório da agência norte-americana de controle de drogas no Estado, a pretexto de prestar, às autoridades fluminenses, “consultoria” no combate ao tráfico e ao contrabando de armas.

Perguntar não ofende.

Considerando-se que as áreas de defesa e de relações internacionais são prerrogativa da União, e o fato de a agência norte-americana ser federal e não estadual, não seria o caso desses convênios e acordos passarem antes pelo crivo e aprovação do Itamaraty, do Ministério da Defesa, do Ministério da Justiça e da Comissão de Defesa e Relações Externas da Câmara dos Deputados?

Quando é que o Brasil vai começar a impedir ou a controlar as atividades de agentes norte-americanos de inteligência – espiões, leia-se, porque de outra coisa não se trata – em nosso território?

Essas áreas, tão solícitas em implorar o prestimoso “auxílio” norte-americano, e em aparecer nos Estados Unidos, em eventos mais “sociais” do que outra coisa, já ouviram ou conhecem o significado do termo reciprocidade, aplicado à  relação entre estados soberanos?

Já se imaginou a Polícia Federal brasileira abrindo um escritório nos EUA, para prestar “consultoria” à polícia nova-iorquina no combate ao tráfico de armas?

Isso nunca ocorreria, pelo simples fato de que a população, a imprensa, o Judiciário e o Congresso dos EUA não o aceitariam, porque, ao menos nesse aspecto, eles têm vergonha na cara.

Vergonha, em nosso lugar, com esse tipo de atitude, não é outra coisa que países latino-americanos – com exceção do México, cada vez mais um estado norte-americano – vão sentir ao saber dessa notícia.

Vergonha, em nosso lugar e não outro sentimento, é o que vão ter nossos parceiros do BRICS, ao saber dessa notícia, já que todo o mundo sabe como os EUA agem: primeiro abrem um escritório em uma determinada área, depois um monte de escritórios de “cooperação” em várias outras áreas, e, depois, dificilmente dão o fora, sem  criar problemas, a não ser que sejam derrotados e escorraçados, como ocorreu ao fim da guerra do Vietnam.

Ou alguém aqui imagina a Rússia, a Índia e a China convidando a polícia e os órgãos de inteligência norte-americanos a instalar escritórios e operar em seus respectivos territórios?

Não.

Eles não fazem isso, assim como não admitem que imbecis, em seus comentários de internet, em portais russos, indianos ou chineses, preguem a entrega de suas empresas ou de seu país aos EUA, ou encaminhem petições de intervenção à Casa Branca, como comumente ocorre, nestes tempos vergonhosos que vivemos, em portais e sites brasileiros.

Talvez por isso, a Rússia, a China e a Índia, sejam potências espaciais, militares e atômicas, enquanto nós estamos  nos transformando,  cada vez mais, em um ridículo simulacro de província norte-americana, apesar de sermos, com mais de 250 bilhões de dólares emprestados, o terceiro maior credor individual externo dos EUA.

Em tempo: em sua comunicação com a imprensa, o governo do Rio de Janeiro conclui dizendo que não pode dizer quando vai começar a operar o escritório norte-americano em território fluminense.

O anúncio oficial da instalação não será feito por nenhuma autoridade brasileira.

Ele será feito – incrível e absurdamente – como se estivesse ocorrendo em território norte-americano, pelo próprio governo dos EUA.

Nesta toada, conviria começar a pensar, com urgência, na realização de um plebiscito para a entrega do Brasil aos Estados Unidos.

Com isso, os bajuladores poderiam exercer seu amor aos gringos sem precisar de visto, ou de se deslocar para Miami ou Nova Iorque.

Aprenderíamos o inglês como primeira língua, sem necessidade de pagar as mensalidades do curso de idiomas.

E todos nós receberíamos em dólares, trabalhando e descansando quando Deus nos permitisse, já que nos EUA não existe sequer a obrigação de pagar férias remuneradas, por exemplo.

A questão é saber, se, juntamente com as riquezas e o território brasileiros, os EUA, tão ciosos de sua nacionalidade – aceitariam receber, sob sua bandeira, a “estirpe” de invertebrados morais, hipócritas, entreguistas, submissos e antipatrióticos em que estamos nos transformando.

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Mauro Santayana é jornalista.

Vilarejo que restou após rompimento de barragens lembra cidade fantasma

Por Paula Laboissiére | Via Agência Brasil

Mariana (MG) – Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais (Corpo de Bombeiros/MG – Divulgação)Corpo de Bombeiros/MG – Divulgação

Poucas ruas e casas do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), sobreviveram ao rompimento de duas barragens da mineradora Samarco na última quinta-feira (5). Em meio ao cenário de muita lama, barro e destruição, o que restou lembra uma cidade fantasma. É possível escutar, em meio à desolação, apenas o canto dos pássaros e o barulho das máquinas que abrem acesso para as equipes de resgate.

Na parte alta da comunidade, uma das poucas casas com movimentação é a de Edirleia Marques, 38 anos, e Marcílio Ferreira, 41 anos. A dona de casa e o operador de máquinas moravam na região com os dois filhos, de 10 e 2 anos, e tem voltado ao local desde sexta-feira (6) para auxiliar bombeiros e homens da Defesa Civil e do Exército nas buscas.

A antiga moradia do casal agora funciona como um ponto de apoio para as equipes que trabalham em Bento Rodrigues. Numa rápida volta pela residência, é possível ver um velotrol e um cavalinho de madeira do filho caçula. Na sala, o sofá e a televisão permanecem no mesmo lugar onde foram deixados, assim como a mesa de seis lugares da família.

Há pelo menos três dias, Edirleia e Marcílio ajudam os homens do resgate a se localizar no que restou da comunidade. Na memória de cada um, permanece fresca a lembrança de onde viviam vizinhos e moradores do distrito que seguem desaparecidos. “É ruim ir embora. A gente quer acreditar que está tudo como antes. Ainda me sinto confortável aqui”, contou Edirleia.

No momento em que a lama atingiu Bento Rodrigues, os filhos do casal estavam em casa. A mãe estava na parte mais baixa da comunidade, devastada pela lama e pelo barro, mas voltou correndo para retirar a família do local. “Meu filho mais novo me pergunta muito sobre a casa. Já o mais velho, que sempre foi calado, não fala muito. Mas ele viu a coisa toda. Viu as casas sumindo, as pessoas correndo”, lembrou a mãe.

Apesar do trauma, marido e mulher garantem que estarão de volta à casa nos próximos dias para auxiliar as equipes de resgate – e também numa tentativa de se apegar ao local onde nasceram, cresceram, se conheceram e começaram uma família. De mãos dadas, eles caminhavam pelas ruas e observavam em silêncio a devastação que tomou conta do local.

“Vamos voltar sempre que possível. Quero estar aqui de novo no dia seguinte. É muito difícil sair de um lugar onde a gente se sentia tão bem”, disse Marcílio, em um dos poucos momentos em que conversou com a equipe de reportagem.