Setor elétrico pede perfis mais técnicos nas lideranças

Weruska Goeking (wgoeking@brasileconomico.com.br)

04/01/11 14:52

Para Otávio Santoro, economista e especialista em engenharia elétrica, governo petista dá preferência à divisão partidária em detrimento de especialistas no setor para cargos que exigem conhecimento da área.

“Temos que separar a área política da técnica e, infelizmente, faz parte da postura do PT incluir afiliados”, afirma Santoro.

O especialista reconhece a qualidade e a capacidade técnica de Nelson Hubner, diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na gestão de Lula, mas critica a ocupação de outros cargos por pessoas aliadas ao partido governista, mas sem conhecimento técnico sobre o setor elétrico.

Essa postura já trouxe problemas para o setor elétrico, segundo Santoro. “Tanto Dilma quanto o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, bateram cabeça sem saber o que aconteceu no apagão de novembro do ano passado e acabaram descobrindo que foi problema de manutenção por falta de investimento planejado”, conta.

Sobre a escolha de Lobão para ser novamente ministro, Santoro afirma que ele é “um ótimo político”, mas que não possui o perfil técnico esperado para a função. “Podemos dizer que ele já fez um ‘estágio’, vamos ver se nos próximos quatro anos convence como líder do setor”, diz.

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Lista suja do trabalho escravo tem recorde com 88 inclusões

04/01/2011, do BrasilEconomico

Brasil

Entre as novas empresas, uma subsidiária do grupo Bertin e uma prestadora de serviço do grupo Votorantim

Luiz Silveira lsilveira

A lista suja do trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) atingiu seu maior tamanho da história, com 220 infratores, após a atualização semestral divulgada ontem pelo órgão. Foram 88 empresas incluídas e apenas 14 excluídas da lista, que engloba apenas processos administrativos do ministério por trabalho análogo à escravidão já concluídos.

Entre as empresas incluídas na lista estão envolvidas grandes companhias, como uma subsidiária do Grupo Bertin, uma construtora autuada por irregularidades em uma obra para o Grupo Votorantim e uma empresa de biodiesel controlada pelo grupo espanhol de autopeças e biocombustíveis CIE Automotive. O recorde deve-se ao aumento do número de autuações entre 2007 e 2008, já que os processos administrativos têm levado cerca de dois anos e meio, segundo o assessor da Secretaria de Inspeção do Trabalho do MTE, Marcelo Campos. As companhias ficarão por pelo menos dois anos na lista, mesmo que já tenham regularizado a situação ao longo do processo. Enquanto estiverem listadas, as empresas não podem obter financiamento público e fornecer para o governo federal. “Como se trata principalmente de empresas do agronegócio, a lista é importante porque o setor depende muito de financiamento estatal”, afirma Campos. No caso do Bertin, entrou na lista a Infinity Itaúnas Agrícola S.A. (Infisa), uma subsidiária da empresa de açúcar e álcool Infinity Bio-Energy, adquirida no ano passado. A Infisa é responsável pela produção de canade- açúcar que abastece uma usina do grupo em Conceição da Barra (ES), e teve 64 trabalhadores em condições análogas à escravidão resgatados. Procurada, a Infinity alegou que “não há qualquer irregularidade em relação a seus colaboradores”. Já a irregularidade ligada ao caso do Grupo Votorantim foi cometida pela construtora Lima e Cerávolo.

Em 2009, uma fiscalização do MTE identificou e libertou 95 empregados da construtora que trabalhavam nas obras da usina hidrelétrica Salto do Rio Verdinho, do Grupo Votorantim, no sul de Goiás. A Rio Verdinho alega que rescindiu imediatamente o contrato com a Lima e Cerávolo. Outro empregador que entrou na lista foi a Bioauto MT, fabricante de biodiesel que tem 50% do capital nas mãos do grupo espanhol CIE Automotive. A companhia alegou que assumiu a responsabilidade sobre as irregularidades cometidas por um empreiteiro e já regularizou sua situação. 

Maiores casos 

O maior resgate que entrou para a lista suja nesta atualização, no entanto, foi da Usina Fortaleza de Açúcar e Álcool, atual Usina São Paulo Energia e Etanol. Em 2008, 244 trabalhadores foram libertados na empresa de Porteirão (GO). O segundo maior caso a entrar na lista foi da Rotavi Industrial, fabricante de ligas leves que teve 174 empregados libertados em uma carvoaria emJaborandi (BA). Outras empresas de cana-deaçúcar figuram em terceiro e quarto lugares: a Agrovale – Companhia Industrial Vale do Curu, de Paracuru (CE), teve 141 empregados resgatados. Outra usina de cana figura em quarto: 126 trabalhadores empregados por Nelson Donadel, sócio da Destilaria Centro- Oeste Iguatemi, foram libertados pelos fiscais do trabalho. Procuradas, as empresas não atenderam ou não retornaram as ligações do BRASILECONÔMICO. ■

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Na falta de um Bin Laden de verdade

Leandro Fortes, para CartaCapital

13 de dezembro de 2010 às 10:29h

Jobim e os militares tentam enquadrar o MST como grupo terrorista

Ironia do destino, caberá à presidente eleita, Dilma Rousseff, pôr fim a uma guerra interna do governo federal: qual é a posição que o Brasil deve ter sobre o terrorismo? Ex-militante da esquerda armada durante a ditadura, a sucessora de Lula foi chamada de terrorista na campanha eleitoral. Mas, como decidiu manter Nelson Jobim no Ministério da Defesa, vai continuar a conviver com o intenso lobby dos militares, apoiados pela turma conservadora da agricultura, a favor de uma lei que defina como terroristas os líderes de movimentos sociais, inclusive estudantes e atingidos por barragens. E, sobretudo, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST. No governo Lula, a ideia nunca prosperou, o que não desanimou os defensores do projeto.

Um grupo de trabalho montado no governo passou os últimos dois anos debruçado sobre um tema geral – a elaboração de uma nova Lei de Segurança Nacional – para cuidar de outro, específico e mais urgente, a tipificação do crime de terrorismo no Brasil. Entre os integrantes do grupo, criado em 14 de julho de 2008, estavam representantes do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), Casa Civil, Advocacia-Geral da União (AGU),  dos ministérios da Justiça, Defesa, Relações Exteriores, Planejamento, Ciência e Tecnologia, além dos comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Há cinco meses, e após dez reuniões de trabalho, foi produzido um relatório ambíguo e conflituoso. As discussões, conduzidas pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, desembocaram num texto dividido em quatro eixos: a defesa das instituições democráticas; as ameaças externas; as ameaças às áreas estratégicas econômicas e de infraestrutura; e o combate ao terrorismo.

Nos três primeiros tópicos, salvo poucas questões conceituais, não houve divergências relevantes. No quesito terrorismo, contudo, o coordenador do grupo de trabalho, Felipe de Paula, titular da secretaria, foi obrigado a capitular diante do lobby fardado: cravou, no texto final, a opção preferencial pelo combate ao financiamento ao terrorismo, tese defendida pelo setor civil do grupo, mas viu-se obrigado a relatar a divergência a respeito da necessidade de se tipificar o crime de terrorismo, como queriam os militares comandados por Jobim.

As contradições estabelecidas em torno do tema têm um vício de origem. O grupo de trabalho foi criado no ambiente da chamada Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Creden) do Conselho de Governo, órgão de assessoramento do presidente da República. O presidente do Creden é o general Jorge Armando Félix, ministro-chefe do GSI e personagem central desse cabo de guerra travado, desde o início do governo Lula, entre os aliados aos movimentos sociais e os setores afinados aos comandantes militares. De 2006 para cá, Félix e sua tropa investiram duas vezes na tentativa de tipificar o terrorismo. Perderam a primeira batalha em 2007, mas conseguiram abrir uma brecha na segunda, em 2010 – e é aí que a posição de Dilma Rousseff será decisiva.

A presidente está na origem do movimento interno, levada a cabo no Palácio do Planalto, que frustrou a primeira tentativa de enquadrar os movimentos sociais como agentes do terrorismo. Em novembro de 2007, após dez meses de estudo, o então ministro Tarso Genro conseguiu matar um anteprojeto que pretendia igualar, em status e infâmia, o líder do MST João Pedro Stedile a Osama bin Laden.

Um ano antes, a ideia de se tipificar o terrorismo havia ganhado corpo no âmbito da chamada Estratégia Nacional de Combate à Lavagem de Dinheiro (Encla), elaborada em reuniões rea-lizadas, todos os anos, para definir a política brasileira de enfrentamento a esse tipo de crime. Embora o objetivo da Encla nada tenha a ver com terrorismo, o assunto foi colocado na agenda por pressão do GSI. Para tal, formou-se um primeiro grupo de trabalho do qual faziam parte a AGU, a Casa Civil, o Ministério da Defesa, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Associação Nacional de Juízes Federais.

À frente das discussões, e à revelia do Ministério da Justiça, o general Félix apressou-se em produzir uma pérola normativa de tal forma genérica que, no fim das contas, poderia transformar em terrorista tanto um genocida como estudantes que invadam reitorias para reivindicar melhora na comida do reda universidade. Era assim o artigo 1º do texto bolado pelo GSI: “Os crimes previstos neste título serão punidos quando cometidos com a finalidade de infundir estado de pânico ou insegurança na sociedade, para intimidar o Estado, organização internacional ou pessoa jurídica, nacional ou estrangeira, ou coagi-los à ação ou omissão”. Nesses termos, até os humoristas do CQCou do Pânicopoderiam ser presos e autuados como terroristas.

Antes de Genro, Márcio Thomaz Bastos teve o cuidado de engavetar o delírio antiterrorista do GSI sob o argumento de que o texto tinha apenas um objetivo: incriminar os movimentos sociais. Para recolocar o assunto nos trilhos da legalidade, Bastos tirou a discussão da esfera do general Félix e nomeou o então secretário de assuntos legislativos da pasta, Pedro Abramovay, atual secretário nacional de Justiça, para conduzir os trabalhos. Em seguida, decidiu encaminhar ao Congresso uma proposta de emenda ao projeto de lei sobre lavagem de dinheiro com a intenção de somente enquadrar o financiamento a atos de terror no País. O projeto foi aprovado no Senado e espera para ser votado na Câmara.

Descobriu-se, agora, que o governo desagradou não apenas aos militares e os ruralistas, mas os Estados Unidos. De acordo com documentos revelados pelo site WikiLeaks, relatos enviados a Washington pelo então embaixador americano em Brasília, Clifford Sobel, em 2008, demonstram a frustração em relação ao rumo do projeto. Desde os atentados de 11 de Setembro de 2001, os EUA tentam impor ao mundo legislações duras de combate ao terrorismo. Em um dos telegramas, Sobel insinua ter sido Dilma Rousseff, na Casa Civil, a responsável pela articulação que resultou na derrota das teses de Jobim e Félix.

Perdida a primeira batalha, o GSI e o Ministério da Defesa organizaram-se rapidamente para colocar o tema do terrorismo, outra vez, na agenda do governo, mas com o cuidado de não deixar o Ministério da Justiça assumir novamente o protagonismo da discussão. Daí a ideia de, sete meses depois de o anteprojeto elaborado ter sido enviado ao Congresso, em julho de 2008, o general Félix acionar o Creden para elaborar uma nova Lei de Segurança Nacional. Com boa desculpa. A LSN atual, de 1937, turbinada pela ditadura em 1967 e revisada em 1983, é um entulho autoritário em desuso há ao menos duas décadas.

Em outubro de 2008, Félix montou o grupo de trabalho para estudar a nova legislação, agora chamada de Lei para a Defesa da Soberania e do Estado Democrático de Direito. Certo de que teria nas mãos a condução do processo, formou um time no qual, além do GSI e da Defesa, entraram os comandos militares, cada qual com seis representantes – quatro deles oficiais-generais: dois brigadeiros, um almirante e um general. Montar um texto para tipificar o crime de terrorismo seria, portanto, barbada. Não foi. Em outubro de 2009, por pressão de Tarso Genro, a discussão foi enviada novamente pelo presidente Lula ao Ministério da Justiça.

“Nossa preocupação, antes de tudo, é com a questão dos direitos individuais e dos princípios do Estado Democrático”, resume Felipe de Paula, atual secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça. À frente da coordenação dos trabalhos, ele conseguiu conter a sanha contra os movimentos sociais. Mas o GSI impôs no texto a existência da divergência sobre a tipificação do terrorismo.

Dilma Rousseff não pretende mexer nesse vespeiro até assumir a Presidência. Até lá, Felipe de Paula estará à frente de um subgrupo de trabalho, montado em agosto deste ano, com o objetivo de redigir o anteprojeto da nova LSN, com base no relatório produzido pelo Creden. Como dificilmente o general Félix permanecerá no GSI – que, inclusive, poderá voltar a ser apenas um Gabinete Militar –, é pouco provável que Jobim, sozinho, consiga transformar os sem-terra em terroristas com o aval da presidente. Isso não significa que ele não tentará.

Leandro Fortes

Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi. http://brasiliaeuvi.wordpress.com

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Ah, se fosse nos Estados Unidos…

Essa turma aí tem sorte de viver no Brasil.

Nos Estados Unidos, onde essa coisa é levada a sério, hoje estariam todos se explicando ao FBI…

O machão acima, Walter Edward Bagdasarian, pegou dois meses de cana e dois anos de sursis por escrever num blog do Yahoo, sobre Obama: “Fuck the nigger, he will have a 50 cal in the head soon”. O Serviço Secreto soube da ameaça e foi bater na porta dele. Na hora agá, chorou diante do juiz pedindo clemência…

PS do Viomundo: A foto que ilustra a capa é de Daniel Cowart, que vai pegar entre 15 e 18 anos de prisão por ameaçar Obama.

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Marcos Coimbra: O Ministério Dilma

por 26/12/2010

por Marcos Coimbra*, no Correio Braziliense

Por mais que a esperemos, é sempre surpreendente a má vontade de nossa “grande imprensa” para com o governo Dilma. No modo como os principais jornais de São Paulo e do Rio têm discutido o ministério, vê-se, com clareza, seu tamanho.

A explicação para isso pode ser o ainda mal digerido desapontamento com o resultado da eleição, quando, mais uma vez, o eleitor mostrou que a cobertura da mídia tradicional tem pouco impacto nas suas decisões de voto. Ou, talvez, a frustração de constatar quão elevadas são as expectativas populares em relação ao próximo governo, contrariando os prognósticos das redações.

As críticas ao ministério que foi anunciado na última semana estavam prontas, qualquer que fosse sua composição política, regional ou administrativa. Se Dilma chamasse vários colaboradores do atual governo, revelaria sua “submissão” a Lula, se fossem poucos, sua “traição”. Se houvesse muita gente de São Paulo, a “paulistização”, se não, que “dava o troco” ao estado, por ter perdido a eleição por lá. Se convidasse integrantes das diversas tendências que existem dentro do PT, que se curvava às lutas internas, se não, que alimentava os conflitos entre elas. E por aí vai.

Para qualquer lado que andasse, Dilma “decepcionaria” quem não gosta dela, não achou bom que ela vencesse e não queria a continuidade do governo Lula. Ou seja, desagradaria aqueles que não compartilham os sentimentos da grande maioria do país, que torce por ela, está satisfeita com o resultado da eleição e quer a continuidade.

Na contabilidade matematicamente perfeita da “taxa de continuísmo” do ministério, um jornal carioca foi rigoroso: exatos 43,2% dos novos integrantes do primeiro escalão ocuparam cargos no governo Lula (o que será que quer dizer 0,2% de um ministro?). E daí? Isso é pouco? Muito? O que haveria de indesejável, em si, em uma taxa de 43,2%?

Note-se que, desses 16 ministros, apenas oito tinham esse status, sendo os restantes pessoas que ascenderam do segundo para o primeiro escalão. A rigor, marcariam um continuísmo menos extremado (se é isso que se cobra da presidente). Refazendo as contas: somente 21,6% dos ministros teriam a “cara de Lula”. O que, ao contrário, quer dizer que quase 80% não a têm tão nítida.

Para uma candidata cuja proposta básica era continuar as políticas e os programas do atual governo, que surpresa (ou desilusão) poderia existir nos tais 43,2%? Se, por exemplo, ela chamasse o dobro de ministros de Lula, seria errado?

Isso sem levar em consideração que Dilma não era, apenas, a representante abstrata da tese da continuidade, mas uma profissional que passou os últimos oito anos trabalhando com um grupo de pessoas. Imagina-se que tenha desenvolvido, para com muitas, laços de colaboração e amizade. Mantê-las em seus cargos ou promovê-las tem muito a ver com isso.

No plano regional, a acusação é quanto ao excesso de ministros de São Paulo, nove entre 37, o que justificaria dizer que teremos um “paulistério”, conforme essa mesma imprensa. Se, no entanto, fizéssemos aquela aritmética, veríamos que são 24,3% os ministros paulistas, para um estado que tem 22% da população, se for esse o critério para aferir excessos e faltas de ministros por estados e regiões.

Em sendo, teríamos, talvez, um peso desproporcionalmente positivo do Rio (com seis ministros nascidos no estado) e negativo de Minas (com apenas um). Há que lembrar, no entanto, que a coligação que elegeu a presidente fez o governador, os dois senadores e a maioria da bancada federal fluminense, o oposto do que aconteceu em Minas. O PMDB saiu alquebrado e o PT ainda mais dividido no estado, com uma única liderança com perspectiva sólida de futuro, o ex-prefeito Fernando Pimentel, que estará no ministério.

Para os mineiros, um consolo, não pequeno: a presidente Dilma nasceu em Belo Horizonte. Os ministros são poucos, mas a chefe é de Minas Gerais.

* Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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Diálogos Desenvolvimentistas No 8: o alto custo do BNDES

Leandro Aguiar

No editorial do dia 28 de dezembro do ano passado, o jornal Estado de São Paulo contestou o custo-benefício do BNDES, empresa pública que financia investimentos em todos os segmentos da economia. Segundo o periódico, os contribuintes estariam sustentando um “programa de crédito subsidiado (com) critérios de concessão misteriosos”. O custo deste “programa”, como diz o jornal, ultrapassa em 38% o gasto governamental com o Bolsa-Família, e deve atingir, em 2011, R$296 bilhões.

O jornal paulista baseia a sua tese de que os empréstimos do BNDES são subsídios no seguinte raciocínio: para captar recursos no mercado, o Tesouro paga juros de 10,75% (a taxa Selic), enquanto o BNDES cobra, pelos empréstimos concedidos, 6% ao ano (a taxa de juros a longo prazo, TJLP). A diferença entre os juros, portanto, se configura como subsídio, já que o Estado estaria perdendo dinheiro nessa jogada.

Por outro lado, o economista Antonio Lacerda, em artigo para o Valor Econômico, considera o que o Estadão chama de subsídios como “pseudossubsídios”. Isso porque o BNDES é, na verdade, lucrativo, gera receita tributária e, além disso, os empréstimos que ele realiza são a longo prazo, cerca de 30 anos, e é pouco provável que a diferença entre a Selic e a TJLP se mantenha nesse prazo, já que a tendência da Selic é baixar, mesmo que aos poucos. Ainda, ele coloca que o BNDES é um banco de fomento, e, portanto, suas condições de empréstimo devem mesmo ser facilitadas, pois só assim as empresas brasileiras teriam competitividade no mundo globalizado.

O Desenvolvimentistas discutiu essa questão. Acompanhe os principais lances:

“Porque comparar os valores do Bolsa-Família com BNDES? Se tudo fosse Bolsa-Família, apesar de poder estimular empresas locais por conta do consumo localizado, é longe de ser suficiente. Porquê também não comparar com o gasto dos juros?”

LEANDRO COUTO

“Quem destoa do padrão internacional: a TJLP ou a Selic? Sobre apoiar pequenas e médias empresas, que eu saiba o BNDES vem fazendo isso de forma crescente. É mais complicado e trabalhoso, mas está avançando.”

“sobre empresas estrangeiras no Brasil, será que o problema não está na falta de brasileiros dispostos a assumir os riscos e o trabalho de grandes investimentos? (…) Recursos existem, será que o que falta não é disposição? Além, é claro, da urgência de reduzir a Selic, que estimula a preguiça.”

MARCIO OLIVEIRA

Pelo menos no setor elétrico, talvez pelo medo de repetir a experiência do racionamento, o BNDES tem sido uma mãe. O dado pode não estar muito atualizado, mas lembro de uma apresentação do Nelson Stiffert que mostrava que, para investimentos de 52 bi, o BNDES tinha financiado 40 bi. Será que existe no mundo outra experiência de banco público que financia 76% do investimento em um setor apenas?”

“Como o BNDES entra na conta do superávit, emprestamos a + ou – 6% dinheiro que captamos a 10%. Claro que todos querem. O setor elétrico é muito seguro. Dêem uma olhada no lucro sobre patrimônio do setor. Número baixo só nas estatais.”

“O que ainda acho estranho é essa permanência do Brasil como ponto fora da curva. É um dos BRICS, está na moda, aberto a investimentos… mas ainda precisa a mais alta taxa de juros real do planeta. É um dos BRICS, está na moda, aberto a investimentos, tem recursos naturais fantásticos… mas ainda precisa de um banco público por trás dos investidores. É um dos BRICS, está na moda, aberto a investimentos, as empresas lucram como nunca… mas ainda precisa de empresas estatais para dar uma “forcinha” na parceria.”

ROBERTO PEREIRA d´ARAUJO


“Observem ainda que o BNDES e seu presidente nada tem a ver com este ‘entulho’ da legislação monetária brasileira.  Herdaram-no.  Cabe a nós, sociedade, unir forças para removê-lo e destravar a expansão da economia brasileira por outros meios, legítimos e dirigidos à promoção da melhoria de vida da maioria dos brasileiros.”

CECI JURUÁ

Quem sabe os (neo) marxistas prefiram estatizar os meios de produção, já que a nossa burguesia, segundo eles, é historicamente incompetente em desenvolver um capitalismo nacional civilizado (cf. uma espécie de síntese da tese do sociólogo da dependência FHC)?”

“O velho multiplicador keynesiano não funciona no Brasil? Pois bem, o que é o programa bolsa família para várias localidades/microrregiões menos favorecidas? Sim, funciona como estímulo a atividades econômicas de micro e pequeno portes, porém aí pode eventualmente acontecer um problema do lado da oferta (escassez). Até a propaganda do governo Lula explicou o multiplicador keynesiano de forma simples na TV.”

“Qualquer Estado desenvolvimentista democrático precisa de instrumentos de intervenção na economia, seja pelo lado da oferta ou da demanda.”

RODRIGO MEDEIROS

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As vozes do Alemão

retirado da Carta Capital

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/as-vozes-do-alemao

O leitor Edimilson Rosario da Silva conta como o ufanismo pelas operações militares nos morros cariocas calou os moradores das favelas ocupadas

Após a recente ocupação militar das favelas do complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, o governo do Estado passou a comemorar uma suposta vitória das forças do “bem” contra o “mal”. Nesse clima de euforia, que a grande imprensa aderiu de imediato, não faltaram “especialistas” em segurança para apoiar a operação. Não faltaram políticos, intelectuais, ex-desembargadores e, até mesmo artistas,  para aplaudir a ofensiva sobre o “território inimigo”. Porém, o que esteve ausente em todo esse espetáculo, foram as vozes do Alemão. Durante todo o tempo as vozes dos moradores dessas comunidades foram ignoradas ou, o que é mais grave, sufocadas pelo medo e pelos interesses escondidos por trás das fumaças da pirotecnia.

Está se tornando um hábito em nossa sociedade a formulação de soluções a serem implementadas na marra sobre as comunidades mais pobres sem atentar para o que dizem essas comunidades e, muito menos, para a consequência dessas ações sobre elas. As vozes do Alemão são substituídas por vezes de celebridades que, falando em nome daqueles com os quais possuem contato mínimo ou nulo, são sempre vozes de vitória sobre um suposto inimigo.

Essa situação assemelha-se em muito à “missão civilizadora” do século XIX, quando África e Ásia foram subjugadas, seu povo humilhado, e seus tesouros saqueados, em nome de se levar a esses lugares um suposto progresso a custo de sufocar as vozes daquelas populações sobre se aceitariam ou não se submeter à rapina justificadas pelo preconceito e ignorância que viam aquelas sociedades como atrasadas e sem civilização.

Quando se subjuga o Alemão e Vila Cruzeiro, humilhando, chacinando e roubando pertences de seus moradores em nome de um suposto progresso que prescinde das vozes dessas comunidades, fica evidente que o preconceito que permeava as elites europeias do século XIX tem seu fio de continuidade nas medidas adotadas ainda hoje por autoridades governamentais e no esforço diário da grande imprensa para legitimar e, não raro, esconder as atrocidades praticadas na constante criminalização da pobreza e estigmatização das favelas como “território inimigo”. Tudo em nome do mito da “segurança pública”.

Entretanto, por mais que se queira tapar os ouvidos ou sufoca-las, as vozes do Alemão, pouco a pouco, através de muito esforço conseguem se fazer ouvir e se contrapor às vozes triunfalistas de governos e pseudo-intelectuais.

Essas vozes se expressam, entre outras formas, através de entrevistas com moradores do Complexo e da Vila Cruzeiro. Essas entrevistas foram realizadas por organizações de reconhecida idoneidade como a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, da qual participa meu amigo Delei de Acari, o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, o Instituto de Defensores de Direitos Humanos e outros.

As vozes do Alemão se expressaram ainda de maneira tímida e com medo, pois os moradores pediram várias vezes para permanecerem protegidos pelo anonimato com medo de represálias. Apesar de tudo, foi revelada uma realidade totalmente diferente daquela mostrada pela grande imprensa e que pode ser apenas a ponta de um grande iceberg.

Os relados dos moradores dão conta da prática de tortura, arrombamentos e invasões de casas, humilhações e roubos praticados contra os moradores além de diversas execuções sumárias. Existem relatos segundo os quais toda a região ocupada estaria sendo “garimpada” por policiais que, além de roubar moradores, estariam partilhando entre si drogas e armas apreendidas para vender a outras organizações criminosas. Foram relatadas invasões de domicílios de trabalhadores e roubos de celulares, câmeras digitais, lap tops, etc.

Um dia desses, um policial abordou um morador, pediu para ver sua mochila que tinha apenas ferramentas de trabalho. O morador era um pedreiro. Após a revista, deu três tapas na cara do morador e o dispensou.

As vozes do Alemão dão conta de uma polícia estruturalmente corrompida exercendo importante papel nas engrenagens do crime. As vozes do Alemão dão conta de uma constante legitimação de práticas abusivas contra cidadãos das favelas, levada a cabo por essa mesma polícia. Legitimação que se sustenta na tese amplamente difundida segundo a qual moradores de favelas seriam inimigos ou potenciais suspeitos. Essa visão, expressa em frase do governador do Estado que afirmou serem as mulheres das favelas “fábricas de marginais” pelo fato de seus filhos terem supostamente uma grande possibilidade de se tornarem marginais, é tida como um mal menor capaz garantiria segurança a toda a população. Na verdade, trata-se de verdadeira institucionalização do preconceito social e racial.

A legitimação dessas violações se expressa também nas palavras do coronel Mario Sérgio Duarte, comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, dizendo que a ordem era “vasculhar casa por casa”. Em nome da fictícia “segurança pública” se rasgou em um só ato o Artigo V da Constituição Federal que garante a inviolabilidade de domicílio ficando evidente que, ainda hoje, as instituições democráticas (?)  respeitam direitos apenas nos condomínios de ricos, onde seria impensável se invadir uma casa de forma ilegal. Nas comunidades pobres, porém, ainda não chegou a dita democracia que deveria proteger todo cidadão contra arbitrariedades independente de cor ou condição social. É como já confessou o governador do Rio de Janeiro dizendo que uma coisa é dar um tiro em Copacabana e outra coisa é dar um tiro em uma favela. Na verdade, a bala que não é disparada em Copacabana não mataria mais do que aquela que é disparada na favela. Apenas, esta é aceita pelo governo e aquela não. Em outras palavras, existem cidadãos que não podem morrer e cidadãos que podem morrer inclusive sem que sua família tenha direito ao corpo.

Por mais que as vozes do Alemão se tornem cada vez mais difícil de esconder, o governo do Estado continua fazendo vista grossa. Isso porque, segundo o relatório das entidades que investigam violações a direitos, nem mesmo aquelas denúncias que conseguiram chegar às páginas dos jornais, como a fuga facilitada de chefes do tráfico e execuções sumárias de moradores, foram respondidas e investigadas.

O mesmo relatório afirma que “até hoje, não se sabe de forma precisa quantas pessoas foram mortas em operações policiais desde o dia 22. Não se sabe tampouco quem são esses mortos, de que forma aconteceu o óbito, onde estão os corpos ou, ao menos, se houve perícia, e se foi feita de modo apropriado. A dificuldade é a mesma para se conseguir acesso a dados confiáveis e objetivos sobre número de feridos e de prisões efetuadas. As ações policiais no Rio de Janeiro continuam escondidas dentro de uma caixa preta do Estado”.

Essa situação é mais grave do que a chacina praticada na mesma comunidade no ano de 2007 com o objetivo de “pacificar” a cidade para os jogos Pan Americanos. Naquela ocasião foram constatados casos de moradores assassinados pela polícia com tiros à queima roupa, pelas costas e disparados de cima para baixo, ou seja, com as vítimas sentadas no chão, o que fica evidente que não se tratava de situação de confronto ou resistência, mas simples execução de pobres. Essas denúncias e a omissão das instituições causou a renúncia da Comissão de Ética da OAB-RJ, como forma de protesto. A maior gravidade dos fatos ocorridos agora em 2010 reside no fato de que nesse clima de “pente fino”, foram tantas execuções sumárias praticadas contra moradores que até hoje não se sabe quantos mortos e quantos corpos ocultados existem no Alemão.

O relatório também informa que “para que se tenha uma ideia, em uma favela do Complexo do Alemão representantes das organizações estiveram em uma casa completamente abandonada. No domingo, dia 28, houve a execução sumária de um jovem. Duas semanas depois, a cena do homicídio permanecia do mesmo jeito, com a casa ainda revirada e, ao lado da cama, intacta, a poça de sangue do rapaz morto. Ou seja, agentes do Estado invadiram a casa, apertaram o gatilho, desceram com o corpo em um carrinho de mão, viraram as costas e lavaram as mãos. Não houve trabalho pericial no local e não se sabe de nenhuma informação oficial sobre as circunstâncias da morte. Provavelmente nunca saberemos com detalhes o que de fato aconteceu naquela casa….Uma mulher grávida de sete meses contou ter sido espancada e um jovem afirmou que, mesmo apresentando o crachá para se identificar como trabalhador, foi agredido com tapas na cara, chutes e socos na barriga e no peito e ameaçado de morte. Ele abandonou a favela com medo de ser morto.”

Tentar sufocar as vozes do Alemão, escondendo essa realidade, como se houvesse uma parte da sociedade que devesse colonizar e subjugar a outra parte revela como governos e alguns representantes da sociedade civil ainda percebem as diferenças sociais com profundo preconceito. Nesse lamaçal de desprezo, o caminho aparentemente mais fácil, é injetar dinheiro em uma ou outra ONG laranja para iniciar trabalhos nessas comunidades e cooptar alguma liderança cujo papel seria informar um mundo perfeito após as chacinas policiais praticadas contra pessoas consideradas suspeitos naturais apenas por morar em favela. Faz parte do caminho aparentemente mais fácil criar uma cortina de fumaça através da grande imprensa tentando se vender a idéia de que vale à pena violar direitos, espancar e chacinar nas favelas, pois isso traria segurança pública e as próprias favelas chacinadas ficariam mais felizes. Tudo isso é aparentemente mais fácil do que ouvir as vozes do alemão e construir políticas públicas que sejam implementadas não na marra e na pancada sobre as favelas. Sufocar as vozes do Alemão pode parecer mais fácil do que se admitir e se implementar profundas reformas estruturais, inclusive na polícia, que absurdamente ainda não possui controle social.

Ao que tudo indica as autoridades optaram pelo caminho aparentemente mais fácil. Porém, uma sociedade violentada sempre acaba por reagir. De uma forma ou de outra, o povo constrói seus mecanismos de reação. O caminho que, à primeira vista se apresenta como mais fácil pode, na verdade, acabar por implodir o mito da “pacificação”. Conseguirão eles sufocar eternamente as vozes do Alemão?

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Novo ministro das Comunicações anuncia criação de secretaria de Inclusão Digital

Saiu no UOL:

SOFIA FERNANDES
DE BRASÍLIA

O novo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tomou posse nesta segunda-feira anunciando a criação de uma nova secretaria na pasta: a de Inclusão Digital.

Bernardo confirmou também a nomeação de César Alvarez, ex-coordenador do Programa de Inclusão Digital da Presidência, como secretário-executivo do ministério.

César Alvarez foi um dos principais assessores diretos o Presidente Lula.

Trabalhou diretamente na política de inclusão digital.

E é o principal responsável pelo Plano Nacional de Banda Larga.

Para saber mais sobre ele e o que pensa:

Num mundo em que acesso à tecnologia praticamente se tornou sinônimo de participação efetiva na sociedade, a inclusão digital ganhou destaque nas políticas públicas brasileiras, como forma de promover o enriquecimento cultural e educacional da população, além de facilitar o acesso das pessoas ao mercado de trabalho. A inclusão, mais do que digital, é social — como mostraremo neste quinto post da série especial “Nunca antes”.

Tratar de inclusão digital em um país como o Brasil, em que o desenvolvimento das tecnologias da informação ocorreu de forma tardia e sua difusão foi lenta e desigual, demandou um esforço intersetorial do governo. A partir de discussões entre vários ministérios, coordenados diretamente pela Presidência da República, foi estabelecido o Programa Brasileiro de Inclusão Digital, com a meta de reduzir o hiato digital, diminuir o número de excluídos, promover a alfabetização digital e a capacitação de alunos e de comunidades. Três frentes foram estabelecidas: ampliar o acesso comunitário gratuito, facilitar a aquisição domiciliar de microcomputadores e universalizar a conexão à internet.

O primeiro passo foi levar a tecnologia para mais perto da população, dando prioridade às crianças e jovens de escolas públicas. Hoje temos mais de 50 milhões de alunos diretamente beneficiados pelo Programa Nacional de Tecnologia Educacional (Proinfo), que instalou 104.373 laboratórios de informática em 64.629 escolas públicas urbanas e rurais e pelo Programa Banda Larga nas Escolas, que disponibilizou conexão à internet em banda larga para 46.826 estabelecimentos educacionais.

O passo seguinte foi estender o acesso aos professores e às famílias dos alunos. Foi lançado então o programa Um Computador por Aluno (Prouca), que está distribuindo 150 mil laptops para jovens de 300 escolas públicas. Dentro do Procuca, seis municípios serão atendidos como UCA Total, onde todas as escolas serão atendidas pelo projeto e será implantada rede wi-fi na cidade. Em continuidade, há ainda o Projeto Cidadão Conectado – Um Computador para Todos, dirigido aos professores do ensino continuado das instituições credenciadas no Ministério da Educação. São mais computadores portáteis a um custo abaixo do praticado no mercado.

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Olhares distintos sobre o mesmo ”mito”

Olhares distintos sobre o mesmo ”mito”

Intelectuais emergentes do PT fazem avaliações divergentes sobre o saldo político dos oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva

(Malu Delgado e Alberto Bombig – O Estado de S.Paulo)

Luiz Inácio Lula da Silva despede-se do poder com um catálogo de aliados e críticos, inclusive dentro do próprio PT. Em janeiro de 2003, quando subiu a rampa do Palácio do Planalto para passar à história como o primeiro presidente operário do Brasil, o cientista político André Singer e o sociólogo Chico de Oliveira integravam o staff de intelectuais de esquerda ligados ao PT que ao longo de duas décadas ajudaram a formular as bases e os programas do partido.

Singer, que hoje dedica-se a entender as “razões sociais e ideológicas do Lulismo”, seria nomeado porta-voz da Presidência logo em seguida e permaneceria no cargo durante todo o primeiro mandato, desligando-se do governo em 2007 para retomar as atividades acadêmicas.

Oliveira, em outro extremo, romperia com partido que ajudara a fundar quatro meses depois, decepcionado com os rumos do governo. Agora, ao término da Era Lula, ambos fazem ao Estado um balanço, antagônico no conteúdo, do que ficará para a História da passagem do ex-metalúrgico pelo poder.

Para Oliveira, sempre calcado nos ditames do pensamento de esquerda, Lula teve desempenho mediano e não deixará um legado aos trabalhadores brasileiros. Singer, embasado na análise sobre a atração que Lula exerceu às classes menos favorecidas, destaca a incorporação social como sua principal herança.

“O presidente esteve à beira de se tornar um autoritário”

Chico Oliveira, sociólogo aposentado da USP

Qual leitura o sr. faz dos oito anos do presidente Lula?

O balanço geral é mediano. Essa história de “nunca antes neste país” é conversa fiada. O Brasil foi a segunda economia mundial a crescer sustentadamente durante um século. Mas foi um crescimento feito sem nenhuma distribuição de renda. A gestão do presidente Lula não diminuiu desigualdade nenhuma, isso é lenda criada a partir de muita propaganda. O que houve foi uma transferência de renda a partir do governo para os estratos mais pobres. Distribuição ocorre quando existe a mudança da renda de uma classe social para outra. Nesse sentido, não houve nenhum avanço.

O sr. concorda com os que afirmam que Lula é um mito?

Sim, e como acontece em todos os casos o mito é maior do que a realidade. Ele construiu um mito poderoso devido a vários fatores, entre os quais, conta o muito o fato de ele ser de origem pobre. Até hoje o presidente é considerado um operário, mas não pega em uma ferramenta há 50 anos. Isso o ajuda a fomentar uma figura.

E o Bolsa-Família?

Nós fomos educados na ética cristã, que nos impede de sermos indiferentes à fome. Então, ninguém pode ser contra. Agora, politicamente, o programa diz que o crescimento econômico continua sendo excludente, que é preciso algo por fora do salário para dar condições de vida às pessoas. Outro fator grave é que ele é uma regressão, uma volta à política personalista, baseada no favor, algo ruim da tradição brasileira.

André Singer, cientista político e ex-assessor de Lula na Presidência, compara os anos Lula aos de Roosevelt (presidente dos EUA entre 1933 e 1945 e recuperou a economia daquele país). O senhor concorda?

Respeito muito o André como intelectual. Ele elevou o nível de debate no PT. Mas acho que há um equívoco da parte dele. Lula não pegou o País em uma grave crise. Os anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) não foram gloriosos, mas não foram de quebradeira, de jeito nenhum. Roosevelt pegou os EUA no fundo da crise. Além disso, o André se esquece de que Roosevelt acabou com o trabalhismo americano. Entre as grandes democracias do mundo, a única na qual os trabalhadores não têm um partido é a dos EUA.

O sr. vê traços autocráticos no presidente Lula?

Montado nessa popularidade, ele exagerou. O presidente esteve à beira de se tornar autoritário. Foi além dos limites. Só duas pessoas no século 20 disseram, como ele, que eram a encarnação do povo: Adolf Hitler e Joseph Stalin.

Lula e o PT chegaram ao Planalto fazendo um discurso forte contra a corrupção. O sr. se decepcionou nesse quesito?

O poder absoluto corrompe muito. O presidente do Brasil pode nomear muitos cargos. Não há partido que resista a uma coisa dessas. O PT se perdeu no poder, ficou menor do que o presidente e não consegue impor seu programa. Lula e o PT tem um estilo predatório de administrar o Estado e lidar com as finanças públicas.

Lula foi melhor do que Fernando Henrique Cardoso?

Fui muito amigo do Fernando Henrique durante 12 anos e nos afastamos quando ele virou presidente. Fui revê-lo depois que ele deixou Brasília. Sei quem ele é e já fiz essa comparação. Fernando Henrique fez muito mal ao Estado com as privatizações. Ele, com isso, quebrou a capacidade de o Estado regular a economia, quebrou alguns instrumentos construídos com o sacrifício do povo para que o Estado pudesse intervir na economia. Mas tentou avançar institucionalmente, e essa é a grande diferença entre eles. O Lula não tem uma criação institucional. A República não avançou um milímetro com Lula. O que é celebrado na gestão Lula não se transformou em regra. Getúlio Vargas (ditador e presidente do Brasil de 1930 a 1945 e presidente de 1951 a 1954), quando criou as leis trabalhistas, obrigou as empresas a seguirem as regras da nova legalidade, que significavam uma nova hegemonia. A sociedade caminha pela luta de classes dentro dos caminhos que a hegemonia cria. Não ocorreu isso com Lula.

Mas e o aumento do salário mínimo não é um avanço?

Não, é um processo da economia, nada está garantido. Se amanhã a economia der para trás, o salário mínimo que se dane, não é um avanço. O salário mínimo do Juscelino Kubitschek (presidente entre 1956 e 1961) chegou, em valores de hoje, a R$ 1.500, e caiu porque as forças do trabalho não tiveram capacidade de sustentá-lo e porque logo depois viriam os governos militares. Avanços são direitos. Para ficar na história como um estadista, não apenas como um presidente popular, Lula deveria ter transformado, por exemplo, o Bolsa-Família em legislação constitucional. Não fez reformas. O Lula não é um estadista, de jeito nenhum. Ele não é aquele que constrói instituições que significam uma nova hegemonia.

O sr. estava entre os fundadores do PT…

Isso de fundador não faz muita diferença. Muita gente estava na fundação do partido (no colégio Sion, em São Paulo, em 1980) e depois nunca mais apareceu. O que interessa é a militância, e eu fui militante.

Como o sr. acha que a era Lula ficará para a História?

Se os historiadores tiverem juízo, ele será lido como o presidente mais privatizante da história. Ele não é estatizante, isso é falso, uma lenda que a imprensa inventou e que ele usa como arma. Ele é privatizante no sentido de estar criando regras para que poucos grupos controlem a economia brasileira, usando o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para isso. Com Lula, nós estamos entrando naquilo que a teoria marxista chamava de capitalismo monopolista de estado, do qual não há volta. Todas as vezes que essas forças crescem, as dos trabalhadores diminuem. É esse país que ele vai legar para a Dilma.

Diante da alta popularidade de Lula, o sr. se arrepende de ter saído do PT?

De jeito nenhum. Esse negócio de popularidade é como maré, vai e volta.

QUEM É

Chico de Oliveira é professor aposentado de sociologia da Universidade de São Paulo, da qual recebeu o título de professor emérito, e foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Entre seus livros, destaca-se Crítica à Razão Dualista.
“Lula deu provas expressivas de apego à democracia”

Andre Singer, doutor em Ciência Política

A vinculação do “subproletariado” a Lula, que o sr. classifica de “lulismo”, justificaria, por si só, a alta popularidade em 8 anos?

Não. São dois fenômenos ligados, mas diferentes. De um lado tem essa mudança de base social, que tem a ver com esse processo de realinhamento que começa em 2002 e se completa em 2006 e é caracterizado por essa mudança de perfil da base eleitoral de Lula e do PT: antes muito ligado à classe média e, agora, ao subproletariado (a faixa da população com renda familiar mensal de até dois salários mínimos). A outra coisa é que no segundo mandato os índices de popularidade subiram muito e, evidentemente que quando chegam à proporção a que chegaram atingiram muito mais gente que o subproletariado. O que é característico desse período é o fato de que a candidatura Dilma foi sustentada exatamente por esses eleitores subproletários. A alta popularidade tem, de um lado, essa base fiel que se expressou na votação da Dilma, acrescida de um público de classe média que provavelmente decorre de um grande êxito econômico do governo. O governo conseguiu produzir uma situação de crescimento que parece ser sustentável.

No seu ensaio sobre as raízes sociológicas do lulismo, o sr. menciona que o suporte do subproletariado deu “autonomia bonapartista” a Lula. O presidente foi estadista? Foi democrático?

O bonapartismo tem associação com componentes militares, o que definitivamente não está em questão. Quando eu disse que há uma certa autonomia, é de fato o resultado de uma base social que se articulou a partir do projeto executado no primeiro mandato de maneira que lembra uma passagem do Marx no O 18 Brumário, aquela em que ele diz que no caso da França os camponeses não podiam se auto-organizar enquanto classe. Eles tinham de ser organizados de cima para baixo, por identificação com quem estava no alto. Tem algum grau de semelhança com a situação dos subproletários no Brasil. Quando eu lancei a hipótese de que haveria por parte desse setor uma identificação com o projeto do presidente Lula, eu estava querendo dizer que essa camada se articulou, virou um ator político. É nesse sentido que foi feita a comparação com O 18 Brumário. Eu diria que o presidente deu provas expressivas de apego à democracia, e a maior delas é não ter patrocinado uma emenda em favor do terceiro mandato. Ele poderia ter feito, teria condições políticas para isso. Fez uma opção a favor da alternância do poder.

Um dos aspectos do populismo clássico é a identidade do líder com as massas, sem intermediários – característica de Lula. O presidente resvalou para o populismo em seu governo?

Lentamente, o lulismo está caminhando para o PT. Isso faz com que esse traço de ligação direta não esteja ocorrendo porque há fortalecimento de um partido político. Talvez o que exista é uma certa continuidade entre o lulismo e o getulismo, continuidade que não pode ser tomada fora do seu contexto. Estaria ligada ao fato de que tal como Getúlio Lula também parece estar incorporando setores que historicamente estavam fora do arranjo social principal, estavam à margem. Embora haja tantas diferenças entre a situação dos anos 50 e a atual, certa gramática política parece que voltou. Não temos elementos suficientes para falar em populismo.

A semelhança entre Vargas e Lula estaria na incorporação de classes excluídas ou há semelhanças entre os dois?

As semelhanças maiores teriam relação com essa incorporação e com o grau de autonomia que esse elemento de incorporação tenha dado a um e a outro. Essa autonomia leva a um componente importante que é a capacidade do presidente de arbitrar o conflito entre as classes.

O presidente Lula soube arbitrar conflitos de classe?

Sem dúvida. Foi um dos traços dos dois mandatos. Ele teve êxito nessa operação delicada. Um bom exemplo é perceber como dentro do governo há o agronegócio e setores que pressionam pela reforma agrária.

O sr. fala da incorporação de duas almas contraditórias ao PT (incorporação ao capital e inclusão social). Essa divisão está na cabeça de Lula?

A impressão que tenho é que ele opera por sínteses. O governo abriu espaço às duas almas.

Qual é o maior legado de Lula?

A incorporação, a inclusão social. O Brasil sempre operou por uma modalidade de permanência das elites com alta dose de exclusão. Esses oito anos abriram a porta, deram os passos iniciais para essa inclusão. Os exemplos são múltiplos, e vão desde o Bolsa-Família até a geração de empregos, passando pelo aumento do salário mínimo, crédito consignado.

Ao deixar o governo como “pai dos pobres”, Lula incitou a divisão de classes no País?

Não incita divisão. Se a gente for fazer um balanço, vai prevalecer essa decisão de não promover a radicalização política. A política do governo não é radical, não incita a divisão. Embora não incite, essa divisão é real. O Brasil é um país muito desigual e foi de fato feita uma política em que favoreceu um setor da sociedade que estava historicamente fora. Esse movimento de inclusão social está produzindo uma certa polarização, que é sociopolítica. Até aqui essa polarização não tem dado sinais de ameaças à democracia. Enquanto isso estiver dentro dos marcos democráticos, não é necessariamente negativo. Há uma polarização com bases sociais. Os atores políticos e o presidente, em particular, não estão incitando uma polarização.

O sr. vê mudanças entre o primeiro e o segundo mandato?

Vejo. Houve uma certa inflexão “desenvolvimentista” no segundo mandato, inflexão à esquerda no sentido de flexibilizar o gasto público.

A crise do mensalão poderia ter custado a reeleição se Lula não tivesse apoio popular?

Poderia. O episódio marcou o afastamento de uma base eleitoral de classe média. Se em lugar de ter esse movimento de novas adesões ao presidente na base da sociedade em 2006 tivesse havido movimento de espraiamento da rejeição, diria que teria marcado um outro destino.
QUEM É

É doutor em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), jornalista, ex-porta-voz (de 2003 a 2007) e ex-secretário de Imprensa (no período de 2005 a 2007) da Presidência da República do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

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Diálogos Desenvolvimentistas nº 7: A questão das altas Tarifas do setor elétrico Brasileiro

Leandro Aguiar

Desde junho de 2009 a câmara dos deputados investiga, por meio da CPI da Aneel, os valores da tarifa de energia elétrica no Brasil e a forma como a agência reguladora atua na autorização desses valores. A comissão quer saber os motivos de o preço da energia, repassado ao consumidor, ser maior do que em países como Japão, Estados Unidos e Alemanha.

No final de novembro deste ano, os integrantes da CPI apresentaram ao então presidente da câmara, o vice-presidente eleito da república Michel Temer, o relatório final da comissão. Segundo o relatório, desde 2002, mais de sete bilhões de reais foram cobrados indevidamente na conta de luz.  

Apesar da CPI das Tarifas de Energia Elétrica ter recomendado o reembolso ao consumidor, a Aneel decidiu, no dia 14 de dezembro, que o consumidor não será ressarcido dos valores.

Entenda o porquê de o Brasil ter tarifas tão altas, e veja como é complexo o setor energético no Brasil, nos comentários dos Desenvolvimentistas:

“O sistema elétrico brasileiro é único. É um dos sistemas mais confiáveis e de mais baixo custo operacional e ambiental do mundo. Todavia, depois das privatizações, a tarifa se tornou, talvez, a mais cara do mundo e temos tido recorrentes crises energéticas. A privatização do sistema criou uma enormidade de custos desnecessários e tornou o sistema menos confiável. Para que a energia tenha tarifas razoáveis, bom planejamento ambiental e confiabilidade, é necessário voltarmos ao sistema de remuneração pelo custo e ter novamente a Eletrobrás no gerenciamento e no planejamento do sistema.”

 

O Brasil tem todas as condições para praticar uma das menores tarifas energéticas do mundo. No entanto, caminhou na direção contrária, desperdiçando nossas vantagens competitivas.”

“O Brasil tem ainda o menor custo produção de energia entre as grandes Nações e um dos menores do mundo. Entretanto, para o consumidor, a tarifa é uma das mais caras do planeta. Essa diferença obtusa foi resultado direto do “novo” modelo. O novo modelo transformou o melhor sistema elétrico de grande porte do mundo em uma máquina de ganhar dinheiro às custas do bolso do consumidor, do erário público e da competitividade da indústria brasileira.”

“O melhor a fazer é assumir que o sistema é um monopólio natural e regulá-lo como devem ser regulados os monopólios naturais, segundo a teoria econômica: regulação pelo custo.”

 

Retirado de “Propostas para o setor elétrico brasileiro”, de:

GUSTAVO SANTOS

EDUARDO KAPLAN BARBOSA

JOSÉ FRANCISCO SANCHES DA SILVA

RONALDO DA SILVA DE ABREU

 

 

Lamento que o nosso setor elétrico não tenha uma “AEPET” para defender as nossas riquezas, como está sendo feito aqui (com o pré-sal). Também não posso evitar comentar que, pelo exemplo que vou dar abaixo, o governo Lula é um amontoado de interesses conflitantes que, ora atende às carências seculares, ora aprofunda as desigualdades de renda. Tenho sérias dúvidas sobre o saldo dessa salada.

(…) E o “pré-sal” do setor elétrico? Esse nem precisa perfurar nada! A fortuna está disponível acima do nível do mar! E, pasme, ao contrário do pré-sal original… Não há debate… Nem com a recente negativa da ANEEL de devolver o custo extra ao consumidor! Custos fixos que foram inflados!

(…) Um baixa renda no Maranhão paga mais do que um NewYorker. Se comparado a um morador de Toronto ou Quebec, que também tem eletricidade a partir da água, o Maranhense paga 300% a mais.”

ROBERTO PEREIRA D´ARAUJO

 

“Precisamos de uma Eletrobrás forte e de algo equivalente aos grupos planejadores coordenados exitosamente pela estatal no passado. Bom, há a EPE no presente.”

RODRIGO MEDEIROS

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