Os senhores do ajuste

Da Carta Capital

Luiz Gonzaga Belluzzo

A valorização do real é um erro fatal e precisa ser revertida

Depois das revelações do filme Inside Job, entendo que os economistas, seguindo a orientação de Max Weber, deveriam ab initio declarar seus valores, preferências e pertinências. O documentário narra o fracasso dos figurões da economia em antecipar a eclosão da crise financeira e suas causas. O filme é uma diatribe contra as pretensões científicas de profissionais e acadêmicos graúdos­ da ciência triste que, infelizmente, aluga­ram suas opiniões aos poderosos de Wall Street, deixando na mão o públi­co em geral. Por essas e outras, devo uma advertência ao leitor deste artigo, se é que haverá algum: as análises expostas abaixo podem ter sido contaminadas por um “desvio de simpatia” em relação ao governo do presidente Lula e sua política econômica dos últimos anos. Simpatias críticas, como verão.
Feita a advertência, vou iniciar a empreitada que Mino Carta me solicitou: avaliar os desafios que aguardam a equipe econômica da presidenta Dilma Rousseff.

Começo pelos antecedentes. Nos idos de 2002, um clima de terror invadiu as eleições presidenciais. Assustados com a crise argentina, os investidores forâneos e nativos desataram seus temores e lançaram o País num frenesi especulativo. Os mercados e seus porta-vozes projetaram cenários apavorantes para os quatro anos de governo Lula. O risco-Brasil foi a 2,4 mil pontos-base, descolou da pontuação dos outros emergentes. Percebi que juízos e preconceitos estavam apoiados na suposição de que o Brasil poderia repetir a façanhas dos hermanos argentinos que, no desvario do corralito, haviam anunciado a reestruturação da dívida pública contratada em moeda estrangeira e vendida no exterior, sobrecarregada com cupons que alcançavam a casa dos 18%.

Diante desse estado de espírito dos mercados e de seus porta-vozes, a equipe do presidente Lula concebeu a Carta aos Brasileiros. A transição, para surpresa de muitos e decepção de outros, foi feita com habilidade e prudência. Isso, sem dúvida, foi proporcionado por uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável. A ascensão econômica da China e dos asiáticos­ em geral, com dotações de recursos naturais diferentes da nossa, mudou a configuração do comércio internacional. Nesse ambiente benfazejo, o governo Lula, sobretudo no segundo mandato, manteve a estabilidade e alentou o crescimento. As reservas cambiais saltaram para 289 bilhões de dólares, turbinadas pelo preço das commodities e pela entrada de capitais dispostos a apostar no futuro do emergente sul-americano. Mas há bens que vêm para o mal: a taxa de juros e a taxa de câmbio continuaram fora do lugar.

A política econômica do governo Lula atingiu seu ponto de máxima ao adotar tempestivamente um conjunto de medidas destinadas a combater a crise do subprime, restaurando a confiança de empresários e consumidores. Em parceria com o professor Júlio Gomes de Almeida escrevi nestas páginas um artigo que buscava descrever a ação contracíclica do governo e suas consequências.

Depois da quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008, um choque adverso de expectativas afetou o Brasil: o financiamento externo simplesmente desapareceu, bloqueando o acesso dos exportadores brasileiros às linhas de ACC e, quase imediatamente, deflagrando a contração do crédito doméstico, sobretudo no segmento do middle market. O mercado de carros usados e o crédito à pequena e média empresa ficaram praticamente paralisados.

Dizíamos, então, que, diante da natureza do choque negativo, o governo utilizou com moderação a política fiscal e cuidou de recompor o fluxo de crédito. O ano de 2009 terminou com uma queda de 0,2% do PIB, com uma variação entre o último trimestre de 2008 e o derradeiro de 2009, de 4,3%.

O Brasil começou 2010 com forte aceleração do crescimento, acompanhada de elevação da inflação medida pelo IPCA­ e uma trajetória de déficits crescentes em transação correntes. O real manteve sua tendência à valorização. Esse fenômeno repercute a conjuntura internacional marcada pelas intervenções de liquidez e compra de ativos engasgados nas carteiras dos bancos privados por parte dos grandes bancos centrais do mundo. Tais manobras de “salvamento” suscitaram alterações na composição desejada da riqueza por investidores e instituições financeiras: os yields­ extraordinariamente baixos dos treasuries americanos são sintomas de expectativas negativas em relação à recupe­ração do investimento e do consumo, sentimentos explicitados na convergência entre demanda e oferta de crédito anêmicas do setor privado.

Essa crise não é apenas financeira, mas um episódio que revela a existência de sobreinvestimento concentrado nos emergentes que se empenharam em conjugar crescimento industrial acelerado e ganhos importantes nas exportações de manufaturados. Não há que subestimar os efeitos causados pelas mudanças da geoeconomia mundial: a expansão sino-asiática vai continuar ameaçando as estruturas industriais do Velho e do Novo Mundo. As políticas sino-asiáticas de promoção de exportações e integração industrial estão alicerçadas não só em ganhos expressivos nas relações produtividade/salário e sálario/câmbio na manufatura, mas também em políticas agressivas de desoneração fiscal. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro privado e para a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura.

Nessas circunstâncias, a valorização cambial do real brasileiro é um erro fatal, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de expansão das exportações. A macroeconomia convencional e a versão bastarda do keynesianismo foram incapazes de avançar no desvendamento das mudanças ocorridas nas relações entre a gestão da dívida pública, a “estabilidade monetário-financeira” e a livre movimentação de capitais. Os movimentos de capitais, diga-se, exaltaram o caráter financeiro da taxa de câmbio que, hoje, sobredetermina sua outra dimensão, a de preço relativo.

A coordenação entre as políticas fiscal e monetária deve estar voltada para a “administração” do poder dos mercados financeiros. Isso significa propor um crescimento dos gastos correntes inferior à taxa de expansão do PIB, garantindo os recursos para o investimento público. A turma do Inside Job clama por um superávit primário maior, ao mesmo tempo que decreta que ele dificilmente será obtido. Assim, os economistas do mercado podem apostar (e ganhar) com mais segurança numa elevação da taxa de juros.

No caso do Brasil, mesmo depois da estabilização, não foi possível liberar a riqueza líquida (as “poupanças” das famílias e das empresas) do circuito das operações compromissadas, ou seja, do curtíssimo prazo. O problema maior é a realimentação da ciranda viciosa, nascida nos tempos de inflação elevada, que juntava remuneração elevada ex-ante e liquidez. A sobrevivência desse mecanismo, depois da estabilização, combina liquidez e remuneração real elevada ex-post, bloqueando a formação de um mercado de capitais e a expansão do crédito privado de longo prazo.

O debate em voga no Brasil, excessivamente concentrado em questões macroeconômicas de curto prazo, dá a impressão de que os tupiniquins, de um lado e de outro, não fizeram um esforço para compreender a natureza das transformações ocorridas nos últimos 30 anos. A nova equipe econômica não deve confinar suas ações ao enfrentamento das questões de curto prazo, mas estará diante de “emergências estruturais”, como é o caso das carências e distorções na infraestrutura em geral, particularmente na matriz energia-transporte que deveria privilegiar a combinação transporte sobre trilhos-hidreletricidade, portos, para não falar dos gastos destinados ao aprimoramento do sistema educacional. Já a formação de um sistema de financiamento de longo prazo vai demandar tempo, habilidade e paciência.

A gestão da política monetária constituiu-se no principal foco de tensões do governo Lula. A nova equipe econômica parece disposta a buscar uma combinação mais equilibrada entre juro, câmbio e resultado fiscal, um arranjo capaz de nos proteger contra as importações predatórias, invasão de capitais de curto prazo e de proporcionar o avanço das exportações e do investimento nos segmentos de maior intensidade tecnológica.

Uma economia urbano-industrial formada há anos não pode apoiar o crescimento e a estabilidade na exportação de commodities, cujos efeitos sobre o emprego e sobre a renda são limitados. O crescimento da indústria é almejado porque impõe a diversificação produtiva e torna mais densas as relações intrassetoriais e intersetoriais, proporcionando, ao mesmo tempo, ganhos no comércio exterior e na economia doméstica.

Sob o acicate da concorrência chinesa – a China tornou-se um centro manufatureiro global –, os preços dos manufaturados despencaram e tornaram ainda mais urgentes a desvalorização cuidadosamente administrada do real, a defesa tarifária e a promoção de políticas industriais destinadas a incentivar ganhos de produtividade. No debate sobre a desindustrialização, os conformistas do livre mercado ignoram o movimento de empresas brasileiras que decidem produzir na China ou simplesmente substituem o fornecedor local pelo estrangeiro. Mais alguns anos de valorização cambial e os danos causados à indústria manufatureira serão irreversíveis.

Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital

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Agora, são os países emergentes que dão as cartas no comércio mundial

Do Correio Brasiliense

Luciano Pires

Liana Verdini

O avanço dos países emergentes na economia mundial está redistribuindo o peso no comércio exterior. Nas próximas décadas, essas nações serão protagonistas ainda mais expressivos dentro da imensa feira internacional de compra e venda de mercadorias. De tão intenso, o movimento fará com que a Europa e os Estados Unidos — a ligação Norte-Norte — percam espaços até então exclusivos. As mudanças no fluxo de trocas globais devem provocar grandes turbulências entre importadores e exportadores.

Dos anos 1980 para cá, o ritmo de crescimento do comércio das regiões em desenvolvimento com o resto do mundo vem superando, na média, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do planeta. A uma velocidade incrível, países que antes viviam à margem do processo passaram a interferir de maneira ativa. Não à toa, os emergentes já são responsáveis por quase a metade das brigas travadas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Ricardo Carneiro, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), destaca o “fator China”, que se tornou o maior exportador mundial — superando a Alemanha —, como o fiel da balança das relações comerciais agora e no futuro. “Os chineses avançaram muito e mantêm uma parceria ativa com vários países, especialmente da América do Sul”, explica. Carneiro adverte, no entanto, que o motor da pujança chinesa tem sido o forte subsídio oficial embutido nas exportações por meio de um moeda, o iuan, sobrevalorizada em relação ao dólar, o que levou o país asiático a conquistar mercados em uma velocidade incomum. A corrente de comércio (vendas e compras) do país chegou a cerca de US$ 3 trilhões no ano passado.

O primeiro time daqueles que um dia se tornarão potências, os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), puxa o novelo das principais mudanças que afetam o comércio exterior atualmente. Dotados de uma invejável disposição para comprar e vender, esses países deslocaram polos tradicionais que davam as cartas no complexo jogo mercantil. O resultado é uma inserção agressiva na nova ordem mundial, ainda que por trás dela estejam diferentes modelos de desenvolvimento.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) faz uma detalhada radiografia das qualidades e do potencial de cada um dos Brics. O Brasil, na avaliação dos técnicos do Ipea, se destaca pelo consumo e pelo mercado doméstico fortes. A Rússia, por sua vez, avança à custa das commodities energéticas. Já a Índia especializou-se em serviços para crescer a taxas altíssimas e aumentar a sua competitividade. Os chineses, em contrapartida, sustentam-se em manufaturas e no investimento para adquirir robustez. Tais diferenças, que tanto ajudam esse grupo de países a se fortalecer, traduzem-se no comércio internacional praticado por ele. 

O Brasil, na radiografia feita pelo Ipea, destaca-se em bens primários agropecuários e bens intensivos em recursos naturais (minério de ferro, por exemplo) — marcas que devem ser reforçadas nas próximas décadas. A China é campeã em artigos têxteis e de vestuário, mas não deverá se contentar apenas com isso, tanto que está apostando tudo na inovação para deixar para trás os tempos de especialista em cópias. A Índia, por sua vez, tende a apostar todas as suas fichas no aumento da sofisticação tecnológica de seus itens comercializáveis. A Rússia projeta no horizonte ampliar a sua competitividade naquilo que tem de melhor: produtos primários minerais. 

Supervalorização


A guerra cambial que se espalhou pelo mundo na forma de supervalorização das moedas de países emergentes — entre as quais o real — pode ser a pedra no caminho, alertam os analistas. “Mais importante do que aumentar ou mesmo preservar as exportações é defender o nosso mercado interno de uma inundação de importados”, pondera Ricardo Carneiro, da Unicamp. Para ele, o Brasil não aguentará por muito mais tempo a atual taxa de câmbio (abaixo de R$ 1,70), que pune o empresário e corrói a balança comercial. “O país deveria desvalorizar o real aos poucos, para não ter impacto na inflação e proteger o mercado interno, ajudando ainda a reconquistar os parceiros comerciais mais próximos, já que os preços de nossos produtos em dólar cairiam com essa medida”, diz.

O resultado da balança comercial deste ano vai depender, principalmente, do comportamento do câmbio e do ritmo de crescimento da economia brasileira — há quem aposte em deficit de até US$ 8 bilhões. “O Brasil terá que encontrar nichos para colocar os produtos manufaturados, já que os principais mercados consumidores estão muito retraídos”, justifica Lia Valls, coordenadora do Centro de Comércio Exterior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). O cenário é ainda mais desfavorável ao Brasil porque não há previsão de aumento de compras em um horizonte previsível. “Hoje, o comércio está muito concentrado na China, que compra grandes volumes de produtos primários para seu crescimento. Então, podemos afirmar que não está havendo a primarização da pauta de exportações brasileira, mas estamos vendendo básicos porque é essa a demanda que estamos recebendo”, explica Lia.

Máquina exportadora


O saldo comercial da China diminuiu em 2010, mas a sua dimensão — US$ 183,1 bilhões — deve continuar sendo um tema de discórdia, principalmente nos Estados Unidos, que vêm atacando a insistência do governo chinês de manter o iuan sobrevalorizado. O superavit foi o maior do mundo do ano passado, mesmo tendo caído 8,9% sobre 2009.
Mercados-alvos


Os produtos manufaturados brasileiros têm como mercados alvos os Estados Unidos e a América Latina. Nesses casos, o real supervalorizado está afetando bastante as transações. “O que estamos vendo é que os setores industriais estão se tornando deficitários devido ao câmbio. É o caso de produtos de alimentos e bebidas, pecuária, celulose, veículos automotores, confecções e vestuário e têxtil”, diz Lia Valls, coordenadora do Centro de Comércio Exterior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Desafios brasileiros

O aumento da participação do Brasil no comércio internacional está condicionado à expansão dos mecanismos de financiamento, à simplificação dos processos aduaneiros e burocráticos, à melhoria na promoção comercial, ao combate ao protecionismo e ao aumento de acesso a mercados. O diagnóstico é da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que defende ainda a ampliação do apoio às empresas para operar no exterior e uma ampla reforma institucional, vinculando à Presidência da República a Câmara de Comércio Exterior e o sistema aduaneiro.

“A economia brasileira é muito heterogênea”, resume José Augusto Coelho Fernandes, diretor-executivo da CNI. “Temos indústrias de ponta, mas temos também uma economia informal expressiva.” Para a CNI, o Brasil ainda subaproveita as oportunidades do comércio no mundo, mantendo uma participação muito baixa nesse mercado. O país já é a oitava maior economia do mundo, mas ocupa apenas o 20º lugar entre os principais exportadores. E cai para o 28º lugar no mundo quando se consideram apenas as manufaturas. “A indústria brasileira não é um setor de baixos salários”, diz Fernandes. Em função disso, acrescenta, é fundamental investir em inovação para garantir espaço para nossos produtos no mundo.

Os principais desafios do país no exterior passam pela sustentação do forte crescimento das exportações e pela diversificação e ampliação das vendas industriais. O câmbio é um caso à parte. Mas, para a CNI, não significa voltar ao regime de taxas fixas nem abandonar o regime de metas de inflação — cuja administração tem impacto direto no câmbio. (LV)

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Aprimorar para reduzir a meta

Do Valor

Yoshiaki Nakano
11/01/2011 

No seu discurso de posse, o novo presidente do Banco Central (BC) falou em reduzir a meta de inflação. Tem toda razão e merece aplausos. É possível sim alcançar taxa de inflação menor comparável à dos demais países do mundo. Basta elevar os juros que a taxa de câmbio se apreciará ainda mais e a demanda agregada sofrerá queda, e ambos pressionarão para baixo a inflação.

Mas o seu custo não será tolerado pela sociedade. E o ganho na luta contra inflação será temporário. O câmbio apreciado reduzirá o preço dos importados e a inflação no curto prazo, mas no médio prazo o déficit em transações correntes se tornará insustentável, desencadeando uma crise cambial e de balanço de pagamentos com inflação explosiva. Com juros mais altos, a taxa de investimento será reduzida e com isso o produto potencial crescerá menos, anulando seus efeitos anti-inflacionários, e a taxa de crescimento voltará aos níveis pré-Lula, fato que certamente não será aceito pelo eleitorado brasileiro.

Para reduzir a meta de inflação é preciso antes aprimorá-la, dando-lhe maior coerência, consistência e principalmente maior potência ao seu instrumento. Para começar, é preciso previamente desindexar todos os preços. Todos sabem que a lei que instituiu o Plano Real desindexou parcialmente a economia brasileira. Por exemplo, os contratos de mais de um ano têm que ter uma cláusula obrigatória de indexação. Com isso, um número muito grande de bens e serviços, incluindo os públicos, têm a inflação presente determinada pela inflação passada.

No setor financeiro, o Plano Real manteve intacto o regime monetário do período de hiperinflação, com a moeda na sua base (reservas bancárias, fundos etc.) indexada à taxa de juros diária (Selic/CDI). É preciso, depois de 15 anos de estabilização de preços ancorada na taxa de câmbio, fazer a estabilidade monetária, eliminando as heranças do período de hiperinflação. Não tem sentido manter ativos financeiros indexados à taxa diária de juros num contexto em que o novo presidente do BC está certamente imaginando meta de inflação de 2% ou 3% ao ano. Mais aloprado ainda é a taxa de juros das aplicações “overnight” pagar a mesma taxa Selic dos títulos de longo prazo do Tesouro Nacional: é lógico que o Banco Central aniquila a formação de um mercado de poupança de longo prazo, aprisionando os poupadores no mercado de moeda, dando-lhes liquidez e remuneração correspondente à de títulos de longo prazo. 

Essa aberração tem que ser eliminada. Assim, desindexados os ativos financeiros, o novo instrumento de política monetária terá seu poder de ação multiplicado, tornando também desnecessária a manutenção dos juros num patamar tão elevado. Com juros prefixados, qualquer elevação da taxa básica do Banco Central reduzirá o valor dos ativos do sistema bancário e a riqueza financeira, com contração maior no crédito bancário que, associado ao maior efeito riqueza, desencadearão uma cadeia de reações com fortes impactos contorcionistas sobre a demanda agregada. O setor financeiro passará a detestar juros elevados! Assim, é preciso fazer uma faxina completa eliminando todos os entulhos do período de hiperinflação.

Num regime de metas, o indicador de inflação que deve orientar a política monetária não pode ser o índice convencional de inflação, tal como o IPCA. Estes índices refletem componentes transitórios, enquanto o Banco Central deverá orientar-se pelos componentes persistentes, particularmente determinados pela demanda sobre a qual seu instrumento atua. Além disso, como existe uma defasagem de muitos meses entre a tomada de decisão de elevar os juros e a sua repercussão sobre os preços, o Banco Central tem que ter um modelo de previsão acurado de inflação futura, para os próximos dois anos pelo menos. Não é correto orientar a política monetária pela inflação passada capturada pelos índices convencionais de preços, fixando metas para o ano calendário, quando sua decisão tem efeitos sobre o futuro, não respeitando o calendário. Menos aceitável ainda é o fato de a sistemática atual de reação do Banco Central ser prisioneira das expectativas de inflação futura dos bancos privados, pois gera uma promiscuidade perigosa.

Com os problemas e ineficácias acima mencionados, além de muitos outros dos quais não dá para tratar neste espaço, a taxa de câmbio acaba sendo o mecanismo de transmissão mais relevante da atual política de metas. E aqui o mínimo a ser feito é corrigir a resposta assimétrica do Banco Central. Se este reage à depreciação da taxa de câmbio, deve também reagir simetricamente à apreciação, atuando de forma neutra, já que ele não fixou nenhuma meta de taxa de câmbio. Ou temos que rever e explicitar a meta de câmbio. Tomando-se o período de câmbio flexível, observa-se que o Banco Central sempre respondeu energicamente quando a taxa de câmbio se depreciou, pois sabemos que isto aumenta a taxa de inflação. A mesma reação não se verifica quando a taxa de câmbio se aprecia, gerando com isso um viés no sentido da persistente apreciação com consequências desastrosas no médio e longo prazo para o crescimento e equilíbrio externo. A eficácia da nossa política de metas depende muito da apreciação cambial.

Para finalizar, é elogiável que o novo presidente do Banco Central tenha tido a coragem de abrir a discussão sobre a atual política de metas de inflação, pois há muito a ser aperfeiçoado.

Yoshiaki Nakano , ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da FGV/EESP, escreve toda segunda terça-feira do mês.

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Uma entrevista de rachar o côco: Bautista Vidal na Caros Amigos

André Lux

Meu grande amigo Ricardo Melo enviou-me por email essa fantástica entrevista com o físico e engenheiro José Walter Bautista Vidal, publicada pela revista de esquerda Caros Amigos em dezembro de 1997, no meio do segundo mandato de FHC, o boca mole.

Vejam abaixo o abre da entrevista e leiam o texto completo no link abaixo. Entre muitas coisas impressionantes, o professor Vidal prevê a atual crise econônica que começou nos EUA. Leiam tudo, pois vale a pena!

http://w3.ufsm.br/petfisica/extras/bautista01.html

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Sonhar, mas pôr as barbas de molho

Carlos Lessa

 Ano Novo, novo presidente, novo Congresso e é uma contramão afetiva violenta fazer prognósticos sobre a conjuntura econômica mundial, bem como explicitar dúvidas essenciais em relação à provável política econômica brasileira.

Quero sonhar com a potencialidade da civilização brasileira, que tem como ponto de partida um povão admirável, sem arrogância, aberto a novidades e extremamente criativo e cordial.

Creio que a mão de Deus nos deu a Amazônia verde, cujo potencial desconhecemos, mas que nos permite sonhar com importantes descobertas. A verdade é que a mão de Deus também nos deu o pré-sal (uma suspeita antiga da geologia brasileira) e uma capacidade tecnológica nacional que dominou a técnica de prospecção em águas profundas e abaixo de uma capa de muitos quilômetros de sal. As perfurações já feitas dobraram as reservas de petróleo brasileiro. É plausível encontrar muito mais petróleo pois a formação geológica submarina se estende do Espírito Santo até Santa Catarina (inclusive). Grosseiramente, é um retângulo com 800 quilômetros de extensão, 200 quilômetros de largura, afastado da costa brasileira. Não sei em que estágio se encontra, mas posso afirmar estar em curso um ambicioso projeto tecnológico para superar as plataformas de operação e instalar um sistema robotizado e interligado, que racionalizará e reduzirá custos de extração.

É um erro estratégico o país se converter em exportador de óleo cru; é escancarar as portas para as potências.

Há quem diga que o pré-sal, tranquilamente, ampliará as reservas brasileiras entre 40 a 70 bilhões de barris de óleo de ótima qualidade. Alguém mais exagerado fala de 100 bilhões ou mais, o que converteria o Brasil em terceira maior reserva petrolífera do mundo.

Esta é uma situação potencialmente admirável, pois será possível multiplicar a energia à disposição dos brasileiros; hoje, o brasileiro utiliza por ano menos que o cidadão do mundo. Como temos uma enorme potencialidade hidrelétrica, devemos afastar o cálice de termeletricidade movida a derivados de petróleo. Aliás, existem três perigos em uma grande riqueza energética:

a) Adição em consumo de petróleo (vício americano). No Brasil, temos adição a diesel pela utilização excessiva do transporte rodoviário. Em 2010, a produção de veículos a motor cresceu 11% e a circulação urbana e metropolitana caminha para o colapso. Não tenho dúvida de que haverá tendência a subsidiar o comprador de veículo, já altamente endividado, principalmente se for política ampliar a produção automobilística;

b) Valorização da moeda nacional (o real), tornando vantajosa toda e qualquer importação. Os europeus denominaram essa “doença” de holandesa, pois aquele país transferiu suas unidades industriais para o exterior e desmantelou sua produção agropecuária. Quando acabou seu gás do Mar do Norte, viveu uma crise devastadora.

c) O país, objeto de desejo pelas potências, está no quintal da maior de todas, bebedora frenética de petróleo. Dadas as tendências mundiais de evolução do consumo de petróleo e tamanho das reservas, já está sinalizada uma era de produção de baixo consumo de carbono. Novas tecnologias energéticas estão em pesquisa, entretanto vivemos a sociedade do desperdício, onde há uma pedagogia diuturna para criar um consumidor compulsivo da nova coisa, da nova cor, do novo formato etc. Alguém já disse que o shopping é uma escola de consumidores irracionais, lugar sem paisagem, sem orientação espaço-temporal, luz controlada e, em alguns, como nos cassinos – reforço de oxigênio.

A vitória da vida curta é a bijuteria acabando com a joia, a caneta, o relógio, o isqueiro descartáveis. É meritório todo esforço de reciclagem, porém sem a adoção de uma tecnologia que aumente a vida útil do objeto e de uma psicologia social que elimine o prazer de estraçalhar embalagens, não há petróleo para segurar esse mundo.

Nada é mais importante para qualquer potência do que garantir suprimento de petróleo. O Brasil tem que botar suas barbas de molho. É um erro estratégico o país se converter em exportador de óleo cru; é escancarar as portas para as potências. Nossa entidade estratégica é a Petrobras. Há uma intensa relação afetiva entre o brasileiro e a sua empresa, porém a Petrobras é vulnerável. Acidentes em campos de petróleo submarino são terríveis, haja vista o que está ocorrendo no Atlântico Norte; o pré-sal é lindeiro das duas maiores concentrações demográficas do Brasil. A Petrobras não noticia suas medidas de precaução; creio que a Aepet e o Sindipetro deveriam ser os fiscais dessas medidas e toda constatação de falha deveria ter prioridade nacional.

Detesto visões conspiratórias, mas acidentes casuais podem ser simulados e realizados com o propósito de desmoralizar a política de petróleo do Brasil. Imaginem o horror de Copacabana ou Guarujá recebendo em suas praias cutículas de petróleo e cadáveres de peixes e aves marinhas; imaginem uma chaminé alimentada pelo incêndio de óleo do pré-sal. A pesquisa brasileira de mísseis ficou prejudicada com o morticínio da pequena equipe de especialistas em Alcântara. Foi um acidente?

A melhor solução é intensificar o patrulhamento militar da área. A Marinha tem que dispor de todos os meios; as rotas que tangenciam o pré-sal tem que ser patrulhadas com radares de altíssima precisão, embarcações rápidas com capacidade de defesa, helicópteros navais. As dotações militares tem que ser multiplicadas e espero que já estejam concluídos os estudos e projetos necessários para essa multiplicação.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES e escreve toda 2ª quarta-feira do mês. E-mail: carlos-lessa@oi.com.br

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Vai ser difícil o Cerra culpar Deus pela enchente

Retirado do Conversa Afiada

No programa Entrevista Record que vai ao ar hoje às 21h15 na RecordNews, o Ministro Aloizio Mercadante tratou do super-computador de que o INPE, de São José dos Campos, passou a dispor.

Trata-se de um computador que determina com mais precisão as mudanças do tempo.

Associado à informação sobre onde estão as áreas de risco do país – são 500 áreas de risco – , o Governo e a Defesa Civil poderão avisar quando, quanto vai chover e onde.

Será um progresso considerável política de prevenção de tragédias como a que ocorre, neste momento, na cidade/Estado governada há 16 anos pelos tucanos: São Paulo.

Onde a culpa é da chuva, de Deus, ou dos pobres que jogam lixo na rua.

Mercadante tratou da transformação da FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos – num banco de fomento.

Diferente do BNDES, a FINEP, dirigida pelo economista Glauco Arbix, vai oferecer recursos reembolsáveis e não-reembolsáveis a empresas e centros universitários de pesquisas para fomentar a inovação.

O Brasil anda cinco vezes mais rápido – disse Mercadante – que a média dos países na produção científica.

Porém, tem muita dificuldade de levar a inovação ao chão da fábrica.

A função da FINEP será fomentar inovação que chegue ao chão da fábrica e se torne produto.

Mercadante anunciou também a criação da Agência Reguladora Nuclear Brasileira.

E a construção de um reator multi-propósito, com a função de intervir em tratamento médico-hospitalar.

Os brasileiros se esquecem – ou fingem que não sabem – que o Brasil é o quinto produtor mundial de urânio e sabe beneficiar urânio.

Só tres países do mundo têm urânio e sabem beneficiá-lo: os EUA, a Russia e o Brasil.

Com o aquecimento da Terra, a energia nuclear se revigorou.

Há 36 usinas nucleares em construção, no mundo.

E projetos para construir mais 200.

O Brasil vai jogar esse jogo, vai ser forte nessa indústria.

Mercadante pretende trazer de volta – nem que seja por algum tempo – alguns dos três mil brasileiros que lecionam em universidades americanas (e só para falar de Estados Unidos).

Já existe uma “Bolsa Sanduíche” – estuda aqui, dá um pulo lá fora e volta.

Mercadante quer fazer o “Sanduíche” ao contrário: estuda lá, dá um pulo aqui, conta tudo o que aprendeu lá fora, e volta.

Paulo Henrique Amorim

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Tiros em Tucson e a fascistização dos EUA

Reproduzo artigo do sociólogo argentino Atílio Boron, publicado em seu blog:

Uma nota sobre a tragédia em Tucson, Arizona. Como sempre, toda a obra foi de um “maluco”. Não existe nenhuma explicação na sociedade norte-americana sobre estas matanças recorrentes, às vezes com gente comum e outras com conotação política, ou com figuras queridas como John Lennon. A sociedade está bem, o que ocorre é que sempre há um vilão que comete algum crime hediondo.

É saudável uma sociedade que produz massivamente viciados em drogas e entorpecentes? É saudável uma sociedade que vende todo o tipo de armas de fogo com a mesma facilidade que se vende doces? Como relacionar a tragédia de Tucson com o amadurecimento do processo de fascistização da sociedade norte-americana? O que ocorre quando uma sociedade faz uma propaganda política que diz “envie um guerreiro ao Congresso” e o apresenta exibindo um fuzil de assalto M16? Na continuação, uma tentativa de resposta.

O atentado criminoso contra a congressista democrata, Gabrielle Giffords, e as várias pessoas que a rodeavam – até o momento custou a vida de seis pessoas, incluindo o juiz federal John M. Roll – mostra o alcance do processo de fascistização da sociedade norte-americana. Com certeza, a explicação será rejeitada tanto pela Casa Branca como pela mídia. O que ocorreu foi obra de um “maluco”, um a mais de uma venenosa linhagem que já matou a John F. e Robert Kennedy, Martin Luther King e Malcom X, só para citar personalidades significativas da cena pública estadunidense.

Não existe a menor intenção em vincular o ocorrido em Tucson com as profundas tendências da sociedade norte-americana que afloram periodicamente e cada vez com mais virulência e impacto massivo (McCarthy, Reagan, Bush Jr e agora Tea Party). Ocorreu o mesmo com os casos anteriores: aí está o sinistro Informe Warren como prova – assim chamado com o nome do presidente da Corte Suprema dos EUA que presidiu a comissão de investigação de John F. Kennedy – em que apenas uma única pessoa, Lee Harvey Oswald, foi a responsável pelo crime e que não houve conspiração para perpetrá-lo. Não é uma anedota lembrar um dado: um dos integrantes da comissão era o ex-diretor da CIA, Alan Dulles. Era a raposa cuidando do galinheiro.

Gabrielle Giffords, que agora luta desesperadamente por sua vida, representa uma corrente progressista dos democratas, algo muito perigoso num estado como o Arizona, cuja governadora é a republicana racista Jan Brewe – que aprovou uma lei em maio de 2010 que autoriza a polícia a deter e exigir documentos de qualquer pessoa com aparência suspeita, leia-se “latinos”. Giffords valentemente se opôs a essa lei e não só isso: apoiou no Congresso a Lei da Reforma do Sistema de Saúde e foi a favor da reforma migratória, das experiências com células-tronco e da produção de energias alternativas. Isto é, tornou-se um alvo perfeito para a crescente legião de fascistas norte-americanos.

Por isso, seu adversário nas recentes eleições parlamentares, Jesse Kelly, um ex-sargento dos “marines” que comeu o pó da derrota no Iraque, aparecia em um cartaz de campanha empunhando um rifle M16 e convidando os eleitores a esvaziar sua munição sobre Giffords. Candidato à tropa dos “freaks” (malucos) do Tea Party, o nome de sua “combatente” havia aparecido – como recorda Fidel Castro em suas Reflexões – em um anúncio patrocinado por Sarah Palin, como uma das cadeiras a ser conquistada pelo movimento nas eleições de novembro passado.

Seu distrito, como outros 19, estava marcado por uma mira de fuzil. Essa descarada apologia à violência não perturbou as engrenagens das abaladas instituições da república imperial. O desenlace trágico de tamanha violência era apenas uma questão de tempo. Em uma repugnante demonstração de hipocrisia, o sítio na internet de Jesse Kelly publicou que o autor intelectual do crime rezava pela recuperação da congressista e para as vítimas fatais do incidente.

Obama, incapaz de impor algumas medidas mais “terrenas” para terminar com as crises que corroem seu país, faz o mesmo. Com suas orações, não irá muito longe. No “18 Brumário”, Marx recordava que, quando “no Concílio de Constanza, os puritanos se queixavam da vida depravada dos papas e lamentavam sobre a necessidade de reformar os costumes, o cardeal Pierre d´Ailly disse, com voz firme: ‘Enquanto somente o demônio em pessoa pode salvar a igreja católica, vocês pedem anjos!’” Com suas orações, Obama está invocando o auxílio dos anjos, quando a única atitude que pode salvá-lo é o implacável exercício do poder (algo que algumas filosofias idealistas e religiosas consideram uma emanação demoníaca) contra a plutocracia que, com sua cumplicidade, está destruindo os Estados Unidos.

Será preciso analisar os detalhes para compreender o que ocorreu. Em primeiro lugar, o mais importante: um país que embarcou numa militarização internacional descomunal precisa cultivar, internamente, atitudes patrióticas, fanáticas e violentas para sustentar ideologicamente seus planos de conquista militar. O problema é que impossível evitar que essas “qualidades” não sejam praticadas no espaço doméstico – é impossível estabelecer um debate sereno e racional na política nacional. Esta advertência foi feita por Alexis de Tocqueville há mais de um século e meio nos EUA e é mais atual hoje do que no passado. Não foi casual que Kelly tenha proposto esvaziar seu fuzil M-16 sobre Giffords. Alguém tomou nota e seguiu a mensagem.

Em segundo lugar, é preciso avaliar o papel dos meios de comunicação nos EUA – em especial da Fox – que, salvo algumas exceções, alimenta permanentemente o racismo, o fanatismo, a intolerância e a violência diante da indiferença das instituições. Estas deveriam regularizar o exercício da liberdade de imprensa e não fazem isto sob o pretexto de defender a sacrossanta propriedade privada e a liberdade de expressão, embora a mesma esteja estimulando os crimes.

Terceiro: a crise econômica que, como sabemos, estimula toda ordem de comportamentos anti-sociais propensos a criminalizar e, inclusive, satanizar ao outro, ao diferente. Um país onde os pobres empobrecem mais a cada dia e os setores médios baixos estão caminhando para a pobreza, enquanto contemplam uma minoria que enriquece escandalosamente, cultiva o aparecimento de comportamentos e atitudes absurdas que, rapidamente, serão consideradas como normais. Por exemplo, descarregar simbolicamente um M16 em um adversário político. As conseqüências estão à vista de todos.

* Tradução de Sandra Luiz Alves

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Secretário de educação de SP, diz que PSDB não se preocupou em ter docente motivado

Folha de S. Paulo

Pega fogo no ninho tucano. Tem penas voando para todos os lados. Dois dias após assumir a Secretaria da Educação de SP, o ex-reitor da Unesp Herman Voorwald, 55, já tem uma avaliação da rede: os professores estão desmotivados e com salários baixos.

Indicado pelo governador Alckmin, cujo partido, o PSDB, está há 20 anos no comando de SP, Voorwald afirma que o Estado não se preocupou em aumentar o comprometimento dos servidores. Mas ele, que não é filiado a partido político, diz não saber o porquê dessa situação.

A prioridade agora, afirma, é “resgatar a dignidade” dos professores, por meio de diálogo, aumento salarial e uma nova carreira -os recursos para isso, porém, ainda não estão garantidos.

Quando o secretário da educação de São Paulo, Herman Voorwald, diz que o Estado não se preocupou em aumentar o comprometimento dos servidores, naturalmente ele está lembrando o desastre que foi a educação no governo do ex governador José Serra, que além de não priorizar a educação, mandava reprimir greves por melhores salários na base do cassetete, gás pimenta e outros tipos de violencias que o leitor lembra bem

O novo titular da gestão Alckmin (PSDB) sinalizou que deverá alterar o exame implementado pelo governo Serra (PSDB) que concede reajuste salarial aos professores mais bem-classificados em uma prova.O problema, diz, é que no máximo 20% dos docentes podem receber o reajuste -ainda que parcela maior tenha atingido a nota mínima fixada. Essa e outras constatações surgiram após reuniões do secretário com os seis sindicatos da categoria.

Engenheiro com carreira na Unesp, Voorwald (lê-se Vuervald) afirma que ainda não conhece as escolas estaduais. Abaixo, a entrevista em que analisa a situação da maior rede de ensino do país.

FOLHA – Qual sua avaliação inicial da rede?

Herman Voorwald – A informação que tive das entidades é que há muito pouco contato [da administração] com a rede. Se o objetivo é dar o melhor aprendizado ao aluno, a pessoa que dá o aprendizado precisa se manifestar sobre as atividades que fará na aula.

Alguma preocupação se destacou nas conversas?

Já tinha isso comigo: a qualidade de ensino está relacionada ao comprometimento das pessoas.

Nas universidades estaduais paulista ocorreu isso. Em 1989, quando conseguiram autonomia, sempre priorizaram recursos humanos, para assegurar um quadro de servidores que garantisse qualidade institucional.

Não sinto o mesmo na educação fundamental e média. Honestamente, em uma semana que estou aqui, não sinto que a preocupação seja ter um quadro comprometido. Pretendo resgatar a dignidade dos professores, o que passa por salário e carreiras dignos. Se conseguir dar um passo nesse sentido, acho que trarei algo novo.

Outro fator importante é o diálogo. As pessoas reclamam que a rede não consegue se manifestar.

Eles colocaram isso de uma forma muito clara na progressão continuada. A fala foi que o sistema foi gestado na administração e imposto, de cima para baixo.

As entidades são unânimes na defesa da progressão, mas não no modelo de hoje. A solução é avaliar se o conteúdo foi absorvido. Em não sendo, precisamos encontrar maneira de recuperar o conteúdo -foi o que faltou.

Como o sr. analisa a situação dos professores temporários?

Temos cerca de 30 mil temporários [sem estabilidade]. A proposta é que até 2013 cheguemos a 10 mil. Tenho claro que deve haver uma carreira. Num processo que você não tem correção linear do salário ao longo dos anos, aqueles que não tiverem compensação [por meio de exame] ficam desestimulados.

Como o sr. avalia a rede, em termos de infraestrutura, de organização pedagógica?

Ainda não conheço as escolas. Vamos fazer um diagnóstico, objetivando que a infraestrutura seja a ideal.

De qualquer forma, tive um sentimento da rede de absoluto desconforto de como a administração entende o processo de educação. O sentimento é muito ruim. Senti uma desmotivação, uma leitura de desconsideração do papel do professor.

Há o sentimento que o Estado não tem preocupação em formar bem os jovens. Esse sentimento não é bom.

A fala foi geral, e a sinalização foi o quanto se paga para um professor que ingressa [R$ 1.835, para jornada de 40 horas semanais]. Como você quer ter alguém comprometido, formado em boa universidade?

Qual é o salário adequado?

É difícil dizer. A fala aqui foi que deveria ser aumentado, o que eu concordo.

Então está definido que haverá aumento?

Não conversei com o governador sobre isso. Mas ele já colocou que educação é sua prioridade.

O PSDB está há quase 20 anos no poder. O que levou a esse quadro de desestímulo que o senhor aponta?

Não sei dizer se foram apenas implicações econômicas ou de prioridade. Sei que minha prioridade é que recursos humanos serão o diferencial. Os programas da secretaria são bons, a gestão é boa, o material é bom.

Podemos fazer reformas de prédios, se necessário. Tudo isso é administrável. O que não se consegue administrar matematicamente é o sentimento daquele que ministra dentro da sala de aula.

O sr. já estabeleceu metas de melhoria no ensino?

Não pensei quantitativamente. Apesar de ser engenheiro, não tenho olhar só para tabelas. Sei que número você trabalha como quiser.

Mas tenho a leitura que um trabalho muito forte precisa ser feito no ensino médio, que está enfrentando os piores indicadores. Sem isso, você não terá ensino superior de qualidade, e o menino não vai ingressar no mercado.

A proposta, que já vinha sendo discutida, é integrar o ensino médio com o profissional. Permitir, por meio de convênios, que o menino complete sua formação com disciplinas técnicas, para habilitá-lo para o mercado de trabalho. Ele já sairia com uma habilitação, como técnico em mecânica ou eletrônica. Claro que o aluno não será obrigado a fazer isso.

Em outra vertente, ele pode ter disciplinas gerais para o mercado de trabalho dentro do currículo do ensino médio. E as universidades podem oferecer cursinho para os que decidirem não ir para habilitações técnicas.

O sr. manterá a política de pagamento aos professores com base no desempenho?

O mérito tem de estar presente numa discussão de carreira. O que eu entendo é que, se é para avaliar o mérito, a regra precisa estar clara e as pessoas que atingiram o mérito devem ter o resultado.

As falas foram que isso não ocorreu. Uma quantidade atingiu a nota mínima, mas só uma porcentagem obteve o resultado financeiro. E aqueles que também atingiram e não ganharam?

O deputado Gabriel Chalita (PSB) teve influência na escolha do seu nome?

Conheço o deputado Chalita não com profundidade. Tenho respeito por ele, mas não há nenhuma ligação que possa levar à conclusão que houve ligação da parte dele. Não tenho essa informação.

O sr. conhece alguém que tenha filho em escola estadual?

Meus filhos são mais velhos. Minha família mora na Holanda. Meus parentes aqui são os da minha esposa, nenhum em idade escolar.

Fiz o antigo primário, colegial, em escola pública. Claro, era uma outra época.

Não teria dificuldade em colocar meu filho em uma escola pública. O que temos de buscar é a qualidade. O Estado teve uma política de expansão violenta. Agora precisa de uma política de qualidade, outra etapa da história.

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”Integração entre cérebro e máquinas vai influenciar evolução”

Para Nicolelis, corpo não vai mais limitar ação da mente sobre o mundo. Pesquisador também comenta os desafios impostos à ciência no País pela burocracia e desorganização

Alexandre Gonçalves – O Estado de S.Paulo

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano. Ao Estado, Nicolelis falou sobre o impacto da neurociência no futuro da humanidade. Criticou de forma contundente a gestão científica no País, especialmente em São Paulo. Também questionou os critérios – marcadamente políticos – que teriam norteado a escolha do ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.

O que as interfaces cérebro-máquina devem proporcionar no futuro?

No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina, com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão às aplicações computacionais. Não usaremos mais teclados, monitores, mouse… o computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje sobre a evolução. Daqui a três meses, publicarei um livro em que comento esses temas.

O que o sr. chama de curto, médio, longo e longuíssimo prazo?

Curto prazo são os próximos anos. Médio prazo, as próximas duas décadas. Longo prazo, o próximo século. Longuíssimo prazo, milhares de anos.

Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?

Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de se mover obedecendo ao controle da mente). Outra linha de pesquisa importante é Parkinson. Publicamos um artigo na Science no ano passado. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com uma doença semelhante ao Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença.

Ainda precisaremos dos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?

Vamos publicar um trabalho em breve descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. Mas posso afirmar que a internet como conhecemos hoje vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o único ou o principal canal de comunicação.

Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?

Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será a mente que determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.

O que o sr. acha da política científica brasileira?

Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica. Foi por isso que eu escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (mais informações nesta página). O talento humano é sufocado por normas absurdas nas universidades. Devemos ter uma carreira para pesquisadores em tempo integral e oferecer suporte administrativo profissional aos cientistas. Mas aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Uma tragédia.

O sr. afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada.

Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Há bem pouco tempo, a ciência ainda era uma atividade da aristocracia brasileira.

Como o sr. se vê na Academia?

Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Em 2010, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão. As pessoas têm medo de abrir a boca, pois você é engolido pelos pares.

Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?

Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda para conseguir dinheiro, porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Até agora, ninguém teve coragem de enfrentar o establishment da ciência brasileira. Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica está de mãos atadas. Devemos libertar esse povo.

O sr. tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no País. Mas, na eleição, manifestou apoio público a Dilma. Por quê?

Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São Paulo: para a educação, a saúde e as universidades públicas. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que temos hoje na USP é terrível. A Fapesp é uma joia, um ícone nacional, reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp.

Como o sr. avalia o governo Lula?

Apoiei e apoio incondicionalmente o presidente Lula, porque vivemos hoje o melhor momento da história do País. A proposta global de inclusão do governo Lula – e espero que será a mesma com a Dilma – é aquela em que eu acredito. Contudo, detalhes devem ser corrigidos. Admiro o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende. Tivemos grandes avanços com a criação dos INCTs e dos fundos setoriais. Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no ministério ou para apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas, melhores que eu, também não foram chamados. Mas fui chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o melhor que já tivemos.

O que o sr. achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?

Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira um ministério tão importante virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.

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Mercadante reforça peso da agenda ambiental no MCT

Do Valor Econômico

Aloizio Mercadante, ministro da Ciência e Tecnologia: “Falta criar a carreira de pesquisador nas universidades”

A agenda ambiental subiu de patamar nas prioridades do Ministério da Ciência e Tecnologia na gestão recém-inaugurada por Aloizio Mercadante. Está em gestação a criação de um Conselho de Biodiversidade, a mudança climática ganhou destaque e o Brasil pode ser pioneiro em laboratórios marinhos em alto mar. Na Amazônia, a estratégia é criar parques tecnológicos e incubadoras de empresas que tenham a biodiversidade como insumo – a intenção é agregar valor aos bens da floresta.

A marca que o novo ministro pretende imprimir ficou clara em seu discurso de posse. Mercadante mencionou várias vezes que o futuro está na “economia verde”. O sinal mais evidente de que ele realmente acredita que a sustentabilidade ambiental é um dos eixos do futuro surgiu ao convidar Carlos Nobre, o mais famoso climatologista brasileiro, para a Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped). Nobre, que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordena a Rede Clima – que agrupa 60 instituições e mais de 470 pesquisadores – , aceitou. Em poucos dias estará no comando de políticas e programas de desenvolvimento científico para oceano, Antártica, biodiversidade, biotecnologia, nanotecnologia, meteorologia, hidrologia e, evidentemente, mudança climática.

Um dos primeiros passos é formar um centro de prevenção de desastres naturais com base nos cenários traçados pelo supercomputador que acaba de ser inaugurado no Inpe, o terceiro maior do mundo em meteorologia. “Vamos ampliar para o Cerrado o mapeamento que já fazemos para a Amazônia”, disse o ministro ao Valor. Mas melhorar o controle sobre os ecossistemas é só um dos usos do novo computador. Ele será fundamental na previsão meteorológica e na prevenção de desastres naturais, área em que Nobre já vem trabalhando há algum tempo. O mapa de áreas de risco de inundações e deslizamentos de terra indica 500 pontos e cinco milhões de pessoas expostas. Há Estados que têm este mapa detalhado, mas outros não. A intenção é prosseguir com os estudos, cruzar com a previsão meteorológica do Inpe e antecipar a prevenção de desastres.

Outra diretriz será, claro, a Amazônia. “O Brasil é o G1 da biodiversidade mundial”, diz o ministro. “Temos que desenvolver instrumentos para transformar esta biodiversidade em desenvolvimento econômico.” A contenção do desmatamento tem sido um trunfo, mas é hora de criar empregos de qualidade na região, diz ele.

Outro ponto é valorizar os centros de pesquisa da região como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de Manaus, o Museu Emilio Goeldi, em Belém, ou o Mamirauá, em Tefé, no Amazonas. “A primeira coisa que estou fazendo é criar uma coordenação, porque ela não existe”, explica. “Cada um trabalha em seu projeto, na sua área, seu bioma, sua dinâmica, mas não existe um conselho que coordene, planeje ações, junte forças”, prossegue. “Não é só investir na pesquisa da biodiversidade, mas também no desenvolvimento da economia verde. É isto que trará perspectivas econômicas.”

Em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente, o MCT pretende iniciar um inventário da biodiversidade do País.

Mercadante assumiu um Ministério que cresceu de estatura nas gestões anteriores. Em 1987, o Brasil formava cinco mil mestres e doutores, um número que hoje bate em 50 mil. Há uma oferta de 155 mil bolsas de estudo. O desembolso da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) de ciência e tecnologia era de cerca de R$ 475 milhões em 2002 e foi de R$ 4 bilhões em 2010. Há 122 institutos nacionais de ciência e tecnologia no país e dentro do ministério são 18 institutos de pesquisa, vários considerados centros de excelência. “Agora falta criar a carreira de pesquisador nas universidades”, imagina. Outro passo é articular a vida acadêmica e o mundo da produção, duas pontas que pouco se juntam.

Mercadante quer fortalecer o que ele chama de “sociedade do conhecimento”. Um dos alicerces é criar o que chama de “comitês de busca e atração” para seduzir os talentos brasileiros que foram viver no exterior durante a recessão. Ele estima que há 3 mil brasileiros dando aula nos Estados Unidos. “Isto é parte da nossa Inteligência. Muita gente foi embora por falta de condições nos anos de baixo crescimento, mas acho que este é o momento do Brasil.”

Ele sugere a organização de um portal na Internet para que os talentos se tornem conhecidos e conectados a institutos de pesquisa e empresas por aqui. Também está interessado em abrir espaço para que cientistas estrangeiros possam passar um período nas universidades ou institutos brasileiros. Para isto, cita a necessidade de serem feitos “ajustes” na legislação. “Não estou falando em mudar as regras dos concursos de docência, mas o primeiro requisito para uma universidade chamar um professor estrangeiro é que ele tem que dominar a língua. Mas, assim, vamos excluir muita gente.”

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