Cuba registra primeira vacina terapêutica contra câncer de pulmão

UOL

 HAVANA, 10 janeiro 2011 (AFP) – Cuba registrou a primeira vacina terapêutica contra o câncer de pulmão, após testar sua eficácia em mais de mil pacientes sem que tenham ocorrido efeitos colaterais, informou esta segunda-feira uma autoridade científica. 

“Foram mais de 15 anos de pesquisas”, disse ao semanário ‘Trabajadores’ Gisela González, chefe do projeto desta vacina – denominada CIMAVAX-EFG -, cujo objetivo é transformar o câncer de pulmão avançado em uma doença crônica controlável. 

O registro permite usar a vacina maciçamente no país, bem como nos mil pacientes aos quais foi administrada durante os testes, e “atualmente seu registro avança em outras nações”, disse a especialista. 

“Uma vez que o paciente termina o tratamento com radioterapia ou quimioterapia e é considerado um paciente terminal sem alternativa terapêutica, neste momento é aplicada a vacina, que ajuda a controlar o crescimento do tumor sem toxicidade associada, e pode ser usada como um tratamento crônico que aumenta a expectativa e a qualidade de vida do paciente”, ressaltou. 

A vacina “está baseada em uma proteína que todos temos: o fator de crescimento epidérmico”, acrescentou González. 

“Igualmente se avalia a forma de empregar o princípio desta vacina em outros tumores sólidos (em próstata, útero e mama), que podem ser alvo deste tipo de terapia. Existem resultados importantes, mas é preciso esperar”, concluiu. 

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Empresas pedem mudanças em lei que impõem controle sobre propriedades

Lúcio Vaz, para o Correio Brasiliense

A batalha final sobre a regulamentação da compra de terras por estrangeiros no Brasil ficou para o governo Dilma Rousseff. Acontecerá no Congresso, com a aprovação de uma nova lei para o setor. Empresas nacionais com controle de capital externo vão tentar derrubar a sua equiparação às empresas estrangeiras, que sofrem restrições nas suas aquisições. Elas contestam o parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) publicado em agosto. Paralelamente, fazem pressão econômica. Fundos de investimentos internacionais fizeram chegar ao governo a informação de que cerca de US$ 6 bilhões foram congelados no país em consequência da “insegurança jurídica” trazida pelo parecer. A Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf) afirma que os investimentos paralisados ou até cancelados somam R$ 7,2 bilhões.
 O diretor-executivo da Abraf, César Reis, teve audiências nos Ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, na Casa Civil, na AGU e no Incra entre o final de agosto e dezembro. Ele representa empresas que produzem celulose e papel, lâminas de madeira e carvão para siderurgia. Das 24 associadas, 12 têm controle de capital estrangeiro. Levou na pasta os seus números: faturamento não realizado nos próximos sete ano, R$ 6,5 bilhões; tributos não recolhidos no mesmo período, R$ 1,2 bilhão; empregos que deixaram de ser gerados: 10 mil. Em carta enviada à então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, antes da aprovação do parecer da AGU, a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) havia apresentado números ainda mais alarmantes. O setor teria investimentos de US$ 9 bilhões até 2012, mas isso exigiria a compra de novas áreas.

A papeleira Stora Enso, proprietária da fazenda Tarumã (RS), precisa comprar mais terras no Brasil

Mais discretos, também têm interesse na nova regulamentação as empresas de produção e processamento de grãos e as do setor sucroalcooleiro. Principalmente a produção de etanol atrai grupos de investimentos internacionais. Todos esses setores trataram de azeitar as relações com os congressistas na última eleição, fazendo doações de R$ 40 milhões para centenas parlamentares e governadores. Entre os doadores estão gigantes multinacionais com representação no Brasil. Há setores nacionais do agronegócio que estão se associando a grupos estrangeiros, principalmente na produção de etanol, mas outra parte resiste à chegada das multinacionais, como na área de produção de soja e milho. Todos os lados fizeram contribuições eleitorais.

Limites

O novo parecer da AGU foi uma tentativa do governo de impor controle e limites à ocupação de terras brasileiras pelo capital estrangeiro. Série de reportagens do Correio mostrou que os gringos têm cerca de 3,5 milhões de hectares registrados em seu nome. Mas isso representa apenas um terço do quadro real estimado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O parecer preserva as aquisições já feitas, mas impõe, a partir de agora, limites de extensão que chegam, no máximo, a 5 mil hectares por empresa. A nova lei também vai regulamentar a compra de propriedades urbanas e na orla brasileira, hoje ocupada de forma agressiva e sem controle por grupos internacionais para a implantação de resorts. O anteprojeto está sendo elaborado por um grupo interministerial, com a coordenação da Casa Civil.
A reportagem teve acesso à carta enviada pela presidente da Bracelpa, Elizabeth Carvalhaes, à Dilma durante o debate que antecedeu a aprovação do parecer assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Carvalhaes afirma que a revisão do parecer muda o entendimento até então trazido pela Constituição federal e pelas leis, sem que houvesse qualquer alteração na legislação vigente: “Tal alteração trará prejuízos ao consagrado princípio da segurança jurídica”. Em seguida, ela lembra que o setor possui uma área imobiliária de 5 milhões de hectares, sendo 1,7 milhões de hectares de área plantada para fins industriais. E informa que os investimentos projetados “contam com a aquisição de novas áreas para plantio florestal, principalmente na Região Sul e Sudeste”.
Coordenador do grupo de trabalho que elaborou o parecer da AGU, o consultor-geral da União, Ronaldo Vieira, afirma que não houve usurpação da competência do Congresso. “Ao contrário, ao aprovar a Lei 8.629/93, que disciplina o capítulo da reforma agrária, o Congresso diz que, no arrendamento de terras por estrangeiros, aplicam-se as restrições da Lei 5.709/71. Na verdade, o parecer da AGU, um ano depois (em 1994), é que foi contrário à posição do Congresso, que havia se pronunciado pela recepção ampla da Lei 5.709. Isso reforça que não há deficit de legitimidade ou usurpação de competência. Além disso, no artigo 172 da Constituição, está previsto que, nos setores estratégicos ao país, poderá haver restrição ao capital estrangeiro.”

Quem doou mais

Empresa Valor
(em R$ milhões)

Suzano Papel e Celulose 5,2
Cosan 5,1
Fibria Celulose 4,7
Usina Coruripe 3,1
Klabin 3
Coopersucar 2,9
Bunge 2,8
Usina Caeté 1,3
Usina Naviraí 1,1
CMPC Celulose 0,8
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

Quem recebeu mais

Candidato cargo valor (em R$ mil)

André Puccinelli (PMDB-MS) governador 2.269
Teotônio Vilela (PSDB-AL) governador 2.050
Paulo Skaf (PSB-SP) governador 1.696
Sinval Cunha (PMDB-MT) governador 1.432
Jaques Wagner (PT-BA) governador 798
Delcídio Amaral (PT-MS) senador 660
Paulo Souto (DEM-BA) governador 643
Roberto Balestra (PP-GO) deputado 597
Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deputado 500
Heuler Cruvinel (DEM-GO) deputado 457
Abelardo Lupion (DEM-PR) deputado 445
José Freitas Maia (PSDB-MG) deputado 440
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) deputado 385
Antônio Anastaria (PSDB-MG) governador 378
Aloísio Mercadante (PT-SP) governador 350
Blairo Maggi (PMDB-MT) senador 300

O Brasil africano
A ocupação de terras de países africanos por grupos internacionais é vista como um exemplo preocupante pelo consultor-geral da União, Ronaldo Vieira. “Um estudo do banco Mundial faz análise do que está acontecendo na África, porque as terras disponíveis para plantar no mundo estão na América do Sul, África e Ásia. O Brasil tem 15% das áreas agricultáveis não utilizadas no mundo. O que diz o documento? Os países em que há uma baixa governança fundiária, uma legislação frouxa, um Estado sem capacidade de fiscalização, são os preferidos pelos investidores porque eles tem o melhor controle possível. E o que isso tem gerado de desenvolvimento à comunidade local? Você tem investimento de bilhões em aquisição de terras que não revertem em absolutamente nada. Daí foi cunhada a expressão neocolonialismo africano”, relata o consultor.
Vieira afirma que o parecer da AGU mudou porque mudaram as circunstâncias. “A terra passou a ser um ativo estratégico para o Estado brasileiro. Eles argumentam que é um setor produtivo, não é especulativo. Mas trata-se da apropriação de parte significativa do território, terra essa que hoje tem um peso nas relações internacionais muito maior do que há 10, 15 anos”.
A visão do consultor é compartilhada pelo diretor da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), Cesar Reis. “A entidade entende a preocupação do governo quanto ao capital especulativo, com os fundos soberanos de nações ao redor do mundo, que têm a preocupação de garantir a própria segurança alimentar e estão adquirindo terras em grandes extensões, por enquanto na África.”
Mas o executivo faz uma ressalva: “O parecer, pelo fato de ter sido muito abrangente e pelo fato de criar restrições a empresas nacionais de capital estrangeiro, vai atingir as empresas associadas à Abraf. Então, procuramos agir, levando ao governo a nossa preocupação e os nossos números. O governo tem-nos recebido muito bem. Eles entendem que somos um capital produtivo, gerador de emprego, com responsabilidade social. E nessa revisão do parecer, essa restrição deixaria de existir para nós. Tem empresas com mais de 100 anos no Brasil”. (LV)

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Cruz Vermelha recebe doações para vítimas da chuva

Os desabrigados e desalojados do Rio de Janeiro e São Paulo precisam de doações de água potável, alimentos, roupas, cobertores, colchonetes e itens de higiene pessoal, como sabonete, pasta de dente e fralda descartável.


RIO DE JANEIRO

Endereço: Praça Cruz Vermelha, 10/12 Térreo Centro
CEP: 20.230-130 Rio de Janeiro – RJ.
Tel.: (21)2508.9090

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Mídia: regulamentar para democratizar

Reproduzo artigo de Rita Casaro, publicado no sítio Ciranda Brasil:

A necessidade de estabelecer regras de participação e controle social no setor de comunicações no Brasil foi colocada em pauta durante o debate promovido em 11 de janeiro pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, na sede do Sindicato dos Jornalistas. A atividade contou com a participação do presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Marcio Pochmann, que apresentou o trabalho “Panorama Brasileiro da Comunicação e das Telecomunicações” – lançado no mesmo dia pela instituição e pela SociCom (Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação) –, do jurista Fábio Konder Comparato e do jornalista Paulo Henrique Amorim.

“Estamos diante de duas estradas a percorrer”, pontuou Amorim. “A primeira é lutar pela lei de meios a qual tenho medo que tenha o mesmo destino que as quatro propostas de Fernando Henrique Cardoso: a cesta de lixo”, afirmou, ao defender a instituição do marco regulatório que havia sido anunciado no apagar das luzes do governo Lula pelo ex-ministro chefe da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins. Para justificar o receio, o jornalista criticou as recentes entrevistas dadas pelo atual ministro das Comunicações Paulo Bernardo, nas quais esse aparentou recuar na proposta diante das críticas dos veículos. “Bernardo está com medo da Globo”, resumiu.

A segunda frente nessa batalha, defendeu, é fazer pressão para que o STF (Supremo Tribunal Federal) julgue as ADOs (Ações Diretas por Omissão) que visam obrigar o Congresso a regulamentar os capítulos da Constituição que dizem respeito à comunicação. “Para tanto, o primeiro passo é que a AGU (Advocacia Geral da União) dê um parecer favorável às ações”, apontou.

Tais medidas, de autoria de Fábio Comparato, visam regulamentar o Artigo 5º da Carta Magna, em seu parágrafo 5º, que trata do direito de resposta, eliminado da legislação brasileira juntamente com a Lei de Imprensa, considerada inconstitucional pelo STF. Também o Artigo 220, nos parágrafos 3º, inciso II, e 5º, que dizem respeito ao direito de defesa de programação ofensiva à pessoa ou publicidade de produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente. Por fim, o Artigo 221, que trata dos princípios aos quais o conteúdo veiculado em rádio e TV devem atender, como por exemplo, dar preferência a finalidades educativas, artísticas e culturais e promover a cultura nacional e regional, estimulando a produção independente. “Tais dispositivos sem regulamentação são nada”, setenciou o jurista.

Fazer valer tais regras, que hoje são meras intenções, é fundamental, lembrou ele, para “desprivatizar a comunicação social, que deve se desenvolver no espaço público”. Um das graves consequências à falta de regulamentação é o oligopólio observado dos veículos de comunicação, embora seja proibido pela Constituição. “No Brasil há quatro grandes conglomerados, supera os Estados Unidos, onde são cinco”, criticou.

Trabalho imaterial

Esse concentração excessiva da riqueza nessa área foi justamente um dos estímulo à pesquisa desenvolvida pela Ipea, informou Pochmann. “Esses países baleias, de dimensões continentais, enormes população e mercado interno, têm uma oportunidade singular do ponto de vista histórico”, salientou. No entanto, ponderou, esse potencial enfrenta dificuldades de se viabilizar devido à concentração no setor privado, notadamente nas comunicações no qual há um processo de hipermonopolização. “Essas empresas são tão grandes que não podem quebrar, sob o risco de arrasar a economia, e o Estado passa a ser sócio desses grandes empreendimentos”. Para ele, é preciso entender e mudar essa realidade para que as possibilidades abertas a nações como o Brasil, a partir da crise financeira internacional de 2008, sejam aproveitadas.

A segunda motivação, informou, foi a transição na sustentação da economia do trabalho material para o imaterial. “O setor de serviços já responde por 70% dos empregos”, exemplificou. Há, segundo o presidente do Ipea, um processo de intensificação e extensão da jornada de trabalho graças às novas tecnologias. “Levamos o trabalho para casa e ficamos conectados a ele 24 horas por dia. É o fim do descanso semanal remunerado. Isso vem ocorrendo de forma alienada, sem qualquer crítica, mesmo por parte dos sindicatos que não são parceiros do futuro”.

A pesquisa do Ipea

De acordo com a divulgação feita pelo Ipea, o novo trabalho traça um panorama do setor de comunicação e telecomunicações, estratégico para o País, que, apesar de ser muito debatido, não é objeto de muitas pesquisas por parte dos órgãos de Estado. Nos três volumes do livro, foram reunidas diferentes dimensões que se complementam e ajudam na elaboração de futuras políticas públicas para o País. O estudo conta com a participação de pesquisadores renomados da comunicação no Brasil. Mestres e doutores foram selecionados por meio de chamada pública para participar da pesquisa.

O primeiro volume é dividido em duas partes. A primeira traz o estudo das tendências nas telecomunicações e reúne artigos escritos exclusivamente para o livro, além de textos publicados originalmente na edição especial do Boletim Radar, do Ipea, sobre telecomunicações. A segunda parte traz artigos que oferecem um panorama das indústrias criativas e de conteúdos.

O segundo volume da obra é dedicado a resgatar a memória das associações científicas e acadêmicas de comunicação no Brasil. O texto descreve e diagnostica a produção de conhecimento nos principais segmentos da comunicação nacionalmente institucionalizados ou publicamente legitimados nesta primeira década do século XXI.

No terceiro volume, é apresentado o resultado parcial de quatro pesquisas sobre o Estado da Arte no campo da comunicação. O volume traz dados sobre o número de faculdades e cursos de pós-graduação em comunicação no país, com áreas de concentração e crescimento; sobre as profissões existentes na área e as novas habilidades necessárias para uma indústria de conteúdos e serviços digitais; e sobre as indústrias criativas e de conteúdos e os movimentos das empresas em direção ao modelo digital, além de uma comparação com outros países, possibilitando a análise das fragilidades e potencialidades do Brasil.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

As medidas de prevenção, segundo o Coppe

Do Valor

Estudo mostra que medidas básicas de prevenção poderiam salvar muitas vidas 

Janes Rocha | Do Rio
14/01/2011 

“Uma vergonha nacional.” Assim o professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/RJ), define a catástrofe que abalou a região serrana do Estado, destruindo o centro de Nova Friburgo e bairros de Petrópolis e Teresópolis. “São recorrentes esses desastres”, diz, resgatando da memória em alguns segundos pelo menos quatro grandes tragédias parecidas nos últimos 40 anos.

Para ficar só nos episódios mais recentes, Pinguelli lembrou dos temporais seguidos de deslizamentos de terra que causaram morte e destruição em Santa Catarina, em 2008. Atendendo o pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Coppe fez sugestões para prevenir e mitigar os efeitos das chuvas naquele Estado. Em meados de janeiro de 2010, pouco depois de calamidade parecida em Angra dos Reis, e novamente atendendo a pedidos, dessa vez do Estado do Rio de Janeiro, a Coppe entregou um documento com propostas semelhantes.

Basicamente foi sugerido: mapeamento das áreas de risco em encostas e planícies sujeitas a deslizamentos e enchentes; criação de núcleos de profissionais em geologia; aquisição de radares meteorológicos; implantação de um programa permanente de educação ambiental e gestão de risco de enchentes e deslizamentos; definição de critérios técnicos para adaptação da legislação para uso e ocupação do solo; criação de um grupo de trabalho com especialistas para apoiar tecnicamente a implementação das medidas.

A adoção dessas medidas depende tanto do governo do Estado – a quem foi entregue o estudo – quanto dos municípios, aos quais estão atribuídas, por lei, algumas tarefas, como a definição dos critérios para uso e ocupação do solo. Segundo Pinguelli Rosa e o professor de Geotecnia do Coppe, Willy Alvarenga Lacerda, Angra dos Reis fez rapidamente a remoção de 500 casas e construção de um muro de contenção.

A avaliação de ambos é que a maior parte das medidas que dependiam do município foram tomadas, exceto as mais de fundo, que são a educação ambiental e adaptação da legislação de ocupação do solo. O risco de uma nova tragédia foi eliminado? “Não”, responde Lacerda. “Mas pelo menos as medidas estão sendo tomadas.”

Pinguelli critica a falta de medidas básicas, que não custam nada comparadas à quantidade de vidas que podem ser salvas em casos de temporais com enxurradas e deslizamentos de terra. Primeiro, a contratação de radares meteorológicos. Esse equipamento, que custa apenas R$ 2,5 milhões a unidade (com instalação), é capaz de prever e informar a aproximação de tempestades e outros fenômenos climáticos de grande intensidade com antecedência. No entanto, o Brasil tem apenas 11 deles, a maioria pertencente à Força Aérea, utilizados exclusivamente no controle do tráfego aéreo.

A recomendação do Coppe ao governo fluminense foi atendida em dezembro, quando a Fundação Instituto de Geotécnica do Município (Geo-Rio) começou a operar um radar no morro do Sumaré, no Parque Nacional da Tijuca. Há um radar da Aeronáutica no Pico do Couto, em Petrópolis, mas mesmo que estivesse a serviço da sociedade civil, não teria ajudado muito desta vez, porque ele quebrou na segunda-feira, uma noite antes da tragédia, disse Pinguelli.

De forma geral, diz o diretor do Coppe, não falta só prevenção, organização e política habitacional. “Aqui (no Brasil) não tem nem sequer um alerta”, diz o diretor do Coppe, comparando com os Estados Unidos e Europa, em que sirenes, rotas de fuga e abrigos estão sempre à disposição da população que vive em áreas sujeitas a catástrofes naturais, e não apenas quando elas acontecem. “Os governos estaduais e municipais mantêm sistemas de alerta (climático), inclusive partilhado com as empresas, mas nada chega a população. Toda a sociedade deveria ser alertada, tem que haver uma organização social e política. Pelo menos teria que haver um alerta sonoro.”

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Lou Dobbs: Entre o jornalismo industrial e os que querem afogar nordestinos

por Luiz Carlos Azenha

O debate do momento nos Estados Unidos é sobre se a retórica raivosa da extrema-direita foi responsável ou não, ainda que indiretamente, pelo massacre de Tucson (aquele, em que o atirador matou um juiz federal e acertou a deputada democrata Gabrielle Giffords).

O debate nasceu do fato de que a republicana Sarah Palin, em sua campanha contra a reforma do sistema de saúde proposta por Barack Obama, ilustrou com a mira de uma arma os distritos em que os eleitores e ativistas republicanos deveriam concentrar seus esforços para “abater” os democratas. Um dos distritos era o de Giffords, no Arizona.

Mais que isso, na campanha eleitoral de 2010,  o adversário derrotado por Giffords, Jesse Kelly, do Partido Republicano, promoveu um evento batizado assim: “Acerte o alvo para a vitória em novembro. Ajude a remover Gabrielle Giffords. Venha dar tiros com uma M16 automática com Jesse Kelly”.

Isso mesmo: Kelly, um veterano de guerra, convidou eleitores para brincar de tiro ao alvo com ele. Literalmente.

[Denúncia feita no Daily Kos]

A origem desta retórica explosiva, no entanto, vem de muito antes.

É um fenômeno que nasceu em consequência do processo de “industrialização da notícia”, que se deu quando surgiu a primeira das emissoras de notícias 24 horas por dia, nos Estados Unidos. Eu mesmo, lá nos anos 80, quando era correspondente da TV Manchete em Nova York, escrevi alguns frilas para a Folha de S. Paulo dando conta do nascimento da CNN internacional.

O formato da CNN pegou de surpresa a TV “tradicional” da época tanto quanto a blogosfera ameaça, agora, a hegemonia dos jornalões. A CNN transmitia tudo ao vivo, antecipando os fatos relevantes que os telejornais noturnos das grandes redes (ABC, NBC e CBS)  reservavam para o horário nobre (nos Estados Unidos, seis e meia da tarde). A CNN aniquilou a geração de grandes âncoras inspirados no legendário Edward Murrow e deu origem ao mix cultivado hoje em dia, em que a “personalidade” e o “carisma televisivo” valem mais, para quem aparece no vídeo, que a experiência de repórter ou o faro jornalístico.

O problema de emissoras como a CNN, no entanto, era a falta de regularidade da audiência. Todo mundo corria para a CNN na hora da tragédia, dos acontecimentos históricos, da notícia importante. A CNN era fato-dependente. Quando tudo estava bem, as pessoas preferiam ficar com os seus âncoras regulares, nos quais “confiavam”: Peter Jennings, Ted Koppel, Dan Rather, Tom Brokaw.

Por motivos meramente comerciais, a CNN começou a desenvolver uma programação para sustentar a audiência fora dos horários das notícias quentes. Nasceu então o programa noturno de entrevistas de Larry King, por exemplo, que fazia um mix de artistas, políticos e “personagens” dos fatos do dia. Larry foi trabalhado como a primeira grande estrela da CNN.

Pode se dizer que a emissora de Atlanta, na Geórgia — chamada pelo establishment do eixo Nova York-Washington, de forma pejorativa, de Chicken News Network, por causa de sua origem caipira — representou o amadurecimento da indústria da TV a cabo nos Estados Unidos. Logo surgiram as concorrentes, a competição se acirrou e tivemos um novo passo do jornalismo-show: a migração de homens de sucesso do rádio para a TV (Larry King, aliás, começou no rádio).

Os chamados “shock jocks”, como Howard Stern, especializados em chocar a audiência, ganharam espaço. Era o choque como um valor em si, através do uso de linguagem que desafiava os padrões vigentes, de promoções bizarras (corrida de anões, etc.) e da sátira política numa linha mais ousada — alguns diriam grosseira — que a do Saturday Night Life.

Não se intimide com os nomes e programas dos quais você nunca ouviu falar. Você não perdeu nada: está tudo aí na TV brasileira, com outro nome.

O choque como um valor em si precedeu o choque com valor ideológico, do qual um dos primeiros representantes na tv americana foi, na CNN, o Lou Dobbs.

Eu poderia ter citado outros — hoje eles existem às dezenas –, mas escolhi o Dobbs por ter acompanhado a transformação dele de um mero apresentador de notícias em “personalidade televisiva”; Dobbs surfou  e ao mesmo tempo ajudou a promover, na CNN, a onda anti-imigrantes que hoje deixou de ser coisa da extrema-direita e já penetrou, sob disfarces, até mesmo na retórica dos democratas conservadores.

Dobbs assumiu a persona do telejornalista que “fala o que pensa”. Usou de um histrionismo ensaiado, também comum, hoje, nos programas policiais da TV brasileira.

Dobbs está entre os que se autopromoveram denunciando Washington e os políticos com uma espécie de telepopulismo — colhendo, em troca, uma boa audiência televisiva, bons contratos para escrever livros “impressionistas” e outras benesses devidas às celebridades.

A escolha de Lou Dobbs como exemplo é boa porque ele não tem nada de extraordinário. Nem brilho intelectual, nem insights: é a encarnação do homem comum.

O homem “de bem” numa sociedade cheia de males representa a última barreira contra alienígenas que não comungam dos valores nacionais, sejam eles imigrantes hispânicos, políticos inescrupulosos que não vivem como o povo ou “elitistas” da academia (uma das frases sob as quais se esconde o antissemitismo nos Estados Unidos).

Dobbs ajudou a trazer para dentro da TV a cabo assuntos e pontos-de-vista que haviam sido banidos da mídia pelo politicamente correto. Mas ele é um lorde inglês se comparado a gente como Sean Hannity, Glenn Beck e Bill O’Reilly, que tornaram aceitável para uma parcela considerável dos telespectadores da Fox um discurso muito mais raivoso e preconceituoso.

Foi graças a esse discurso que a Fox cresceu e ocupou um importante nicho de mercado nos Estados Unidos apesar de ter surgido no momento em que a blogosfera já ameaçava o poder dos grupos tradicionais. Aliás, podemos dizer que a Fox foi a resposta televisiva à blogosfera: o opinionismo eletrônico criou uma verdadeira simbiose entre os apresentadores e os telespectadores.

Se a CNN cresceu por causa das notícias frescas e, mais tarde, por motivos comerciais, personalizou sua grade de programação, a Fox cresceu sustentada por uma tropa de choque com uma visão muito particular e “original” das notícias. Mais que noticiário, a Fox apresenta diariamente uma narrativa, um teatro mesmo, em que os telespectadores são convocados a participar de uma espécia de catarse coletiva, cujo objetivo é “purificar” os Estados Unidos, livrando o país de ameaças como o “socialista Obama”, a “máfia sindical”, o “islamofascismo” ou os “esquerdistas” (invariavelmente traidores da Pátria).

É por isso que a Fox se parece muito mais com um partido político: os apresentadores se sustentam na contínua mobilização ideológica da maioria dos telespectadores, no divertimento de alguns e na curiosidade do punhado de viciados em kitsch.

É, como escrevi acima, uma espécie de teatro.

Um modelo cuja sobrevivência depende da manutenção da capacidade de chocar. No momento em que as redes sociais e o You Tube garantem a qualquer um os 15 minutos diários de fama, a tarefa dos animadores da Fox exige um esforço cada vez maior.

O problema da retórica do ódio e do preconceito não está no Lou Dobbs, nem no Sean Hannity, muito menos no Luiz Carlos Prates. Todos, por motivo de autopreservação, dificilmente sairiam por aí cometendo atrocidades para além da retórica.

O problema está nas consequências sociais desta retórica, especialmente quando quem ouve tem à disposição ferramentas para amplificar o alcance da mensagem.

O problema é nosso quando surgem os que pregam o afogamento dos nordestinos ou o assassinato da presidenta Dilma Rousseff, “de brincadeira”, no twitter.

Vivemos numa sociedade crescentemente midiatizada, que submete o conteúdo à forma, o íntimo ao público, a razão à emoção. É o narcisismo coletivo e instantâneo. Chocar para aparecer ganha ares de expressão artística. Nunca vivemos nada parecido antes no campo da comunicação de massas.

Nem exemplos clássicos, como o da rádio Mil Colinas, se aplicam. A rádio, para quem não acompanhou, foi usada para fomentar o ódio, arregimentar militantes e organizar o genocídio de Ruanda. O genocídio aconteceu dentro de condições históricas, políticas e econômicas muito específicas. A rádio foi apenas um meio. Mas, se a rádio existisse numa sociedade saturada de telefones celulares, de conexões de internet e de militantes habilitados para usá-las, o discurso de ódio transmitido por ela poderia ter alcance e impacto ainda maiores.

Meu ponto é que estamos em terreno desconhecido quando falamos sobre o discurso de ódio em sociedades altamente midiatizadas, em que o discurso político trafega em alta velocidade e em múltiplas direções.

Por via das dúvidas, nos Estados Unidos, depois da tragédia de Tucson, a direção da Fox pediu aos apresentadores para amenizar o tom.

Quanto a Lou Dobbs, deixou a CNN em 2009, depois de dar voz na emissora ao movimento dos birthers, aqueles que não acreditam que Barack Obama nasceu nos Estados Unidos e que portanto o consideram usurpador do cargo. As formas que o racismo encontra de se manifestar…

Dobbs deixou a emissora depois de ser alvo de uma campanha que mirou nos interesses comerciais da CNN junto à comunidade latina. Recebeu 8 milhões de dólares de indenização. E foi contratado pela Fox.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

A pedra é criptonita

Mino Carta

14 de janeiro de 2011 às 9:34h

Por que a ignorância e a arrogância dos defensores de Battisti não têm remédio

Um amigo fraterno, italiano e ex-militante muito ativo do Partido Comunista, depois do PD nascido na extinção do PCI, propõe o enredo de uma ficção política. Grupos armados de improviso infestam o Brasil do Oiapoque ao Chuí e assassinam políticos, magistrados, líderes sindicais e outras personalidades, e mesmo joalheiros e açougueiros, além de atirar nas pernas de inocentes de vários calibres, ou seja, os “pernalizam”. Em comunicados delirantes dizem agir para a redenção do proletariado e do campesinato, e contra Lula e Dilma, ambos governantes tíbios meramente assistencialistas e submissos às regras do capitalismo. Que aconteceria no País, pergunta o amigo com candura, se a ficção se tornasse realidade? O Estado brasileiro teria de reagir com toda a força possível e os eversores capturados seriam julgados e condenados a penas severíssimas.

O que espanta no caso Battisti é a ignorância abissal de quem ainda não entendeu a diferença entre quem pega em armas com o propósito de derrubar um Estado Democrático de Direito e quem se dispõe a lutar até o último sangue contra a ditadura. Em suma, o terrorista Battisti, terrorista, insisto, e sublinho, não se compara, por exemplo, a Dilma Rousseff ou José Dirceu, combatentes de uma guerra justa.

Semelhança entre  estes e guerrilheiros italianos de outros tempos existe sim, é com os partigiani de uma bela página da história da Península que enfrentaram, entre fins de 1943 e meados de 1945, a ditadura mussoliniana da chamada República de Saló e as tropas nazistas que a apoiavam. Até Mussolini foi fuzilado. Militavam ali comunistas e socialistas, que usavam uma echarpe vermelha em volta do pescoço, e católicos e liberais, cuja echarpe era azul. Foi neste tempo que meu pai foi preso pelos fascistas e condenado em agosto de 1944, à revelia porque conseguira fugir do cárcere de Gênova. Meu pai não era guerrilheiro, jornalista apenas, e liberal de antiga cepa, culpado, porém, como opositor do fascismo.

Bem conheço essa história por tê-la vivido e me dói verificar que, ao sabor da ignorância dos fatos e de uma patriotada tão tola quanto desastrada, a injustiça será cometida. Segundo um ditado da antiga Roma, a repetição dos conceitos servia ao convencimento dos incrédulos. No Brasil deste preciso momento, no caso Battisti repetir é tempo irremediavelmente perdido. A pedra deve ser criptonita, e eu não sou água mole.

De bom grado não me levo a sério, mas há figuras importantes envolvidas na tentativa de explicar em proveito da compreensão dos nossos pensadores, a começar pelo presidente da Itália, Giorgio Napolitano, e pelo mais importante líder da esquerda italiana, Massimo D’Alema, velho amigo do Brasil e do PT, ex-primeiro-ministro e ex-chanceler no último governo Prodi, notável na pasta, entre outros méritos, como conhecedor profundo da situação da América Latina. Diz ele: “Lula cometeu um grave erro. Sinto muito, pois Lula é um grande líder e foi um grande presidente”.

 D’Alema era estrela nascente exatamente durante os anos de chumbo e é um daqueles que melhor sabem hoje que os herdeiros da Resistência partigiana, decisiva na reconstrução democrática da Península no pós-Guerra, foram as primeiras vítimas do terrorismo vermelho e negro, a contar com a adesão até de um ladrãozinho da periferia romana. Adiantam, contudo, pronunciamentos tão claros e significativos? Coisa alguma, em um país que não respeita o tratado selado com a Itália em 1998 e onde professores de direito ditos eminentes não conhecem a história recente da Itália e se atribuem a extraordinária prerrogativa de julgar a Justiça de um Estado Democrático de Direito.

E não adianta mesmo.  Na entrevista a um jornal italiano o atual governador Tarso Genro repete implacavelmente o mesmo arrazoado que concebeu para oferecer asilo a Battisti. Nem se fale de José Dirceu. No seu blog sustenta que as críticas da mídia nativa à negativa de Lula tendem a colocar no mesmo balaio do terrorismo Battisti e os nossos guerrilheiros. Diga-se que, em meados do ano passado, Dirceu me ofereceu um almoço e com gentileza comovedora abriu uma garrafa de Pera Manca, tinto português capaz de ser ao mesmo tempo robusto e elegante. Tocou-me a mesura, donde me animei a propor um debate sobre a questão, a ser gravado e publicado na íntegra em CartaCapital, com direito à leitura do texto final antes da publicação e de retocá-lo a seu talante. Declarou-se despreparado e recusou polidamente.

 Está claro que CartaCapital conhece à perfeição o peso e a razão das críticas da mídia nativa, hipócrita e golpista. Entende, porém, que a dita esquerda que defende Battisti não se porta de forma muito diferente, no seu empenho em enganar os desinformados. Desde que não haja boa-fé, se houver terá de vingar a tese da ignorância crassa e do primarismo absoluto.

No mais, cabe-me informar à presidenta que CartaCapital justificará, a esta penosa altura, qualquer decisão sua se o assunto voltar ao Planalto. Mesmo porque acreditamos que Lula, em lugar de aliviá-la de um problema, criou outro de bom tamanho.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Mercosul e a indústria naval – um novo cenário

Felipe Ferreira Silva

Desde 2008, quando o Brasil começou a construir grandes petroleiros e a incorporar tecnologias de ponta na indústria naval, o país passou a ser reconhecido mundialmente como uma grande potência nessa área. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), as indústrias da construção naval e náutica empregam aproximadamente 80 mil pessoas. 

A atividade da indústria naval é considerada estratégica para o governo. E não só pela capacidade de gerar empregos, mas, também, pela possibilidade de atração de investimentos de grande porte. Essa realidade se tornou ainda presente com a descoberta do pré-sal e a retomada do uso das hidrovias. Em razão disso, a demanda por embarcações de apoio, petroleiros, sondas, plataformas de petróleo, navios de transporte de óleo, gás e graneleiros, não vai parar de crescer

No que se refere ao pré-sal, por exemplo, recentemente foi descoberta uma megajazida na área de Libra, que pode dobrar as reservas brasileiras. A seu turno, a retomada do uso das hidrovias é tema recorrente nos encontros e debates que discutem os problemas logísticos do Brasil, e, diga-se, não passa despercebido aos olhos da Secretaria Especial de Portos (SPE).

O uso de hidrovias pode ser uma das saídas para os gargalos da infraestrutura nacional, já que o país não pode ficar refém do transporte rodoviário, necessitando, urgentemente, de estudos que identifiquem qual o melhor aproveitamento que pode ser dado às nossas hidrovias.

Sabe-se que a indústria naval no Brasil está bem estruturada e já dispõe de tecnologia avançada. Porém, para suprir todas as encomendas que serão feitas nos próximos anos, será preciso que algumas peças e serviços sejam fornecidos por outros países. Por isso, a ideia de incluir os países do Mercosul como aliados nessa empreitada deve ser considerada pelos operadores desse mercado. Vale dizer que o fortalecimento desse bloco é fator determinante para o desenvolvimento da região. Hoje, o Brasil é o centro do desenvolvimento industrial do Mercosul. Por isso, cabe ao nosso país a posição de liderar o crescimento de setores da economia que geram grande número de empregos diretos e indiretos, como é o caso da indústria naval.

Para que isso se implemente, é importante que sejam definidas novas regras jurídicas e diretrizes políticas entre os países do bloco. Isso possibilitará que haja um efetivo trânsito livre de mercadorias e serviços intrabloco.

Com esse cenário, entendemos como relevante a iniciativa dos países do Mercosul, especialmente Brasil, Uruguai e Argentina, que, há três anos, deram início a conversas para que esses dois últimos países possam participar do mercado naval brasileiro, por meio do fornecimento de peças e serviços. Hoje, Argentina e Uruguai tem interesses concretos em participar do mercado que a indústria naval brasileira oferece. Eles sabem, porém, que precisam aparelhar e desenvolver, com a maior rapidez possível, suas indústrias e prestadores de serviços ligados à área naval.

Considerando essas necessidades e focado no desenvolvimento da indústria naval do país, o governo do Uruguai, por exemplo, estimulou a criação de uma entidade denominada Cluster Naval de Montevidéu, o qual detém uma área de 87 hectares para fomentar o crescimento da indústria naval. Já existem, inclusive, projetos sendo analisados pelo Cluster relativos à implantação de estaleiros destinados à construção e reparo de barcaças.

Além de ceder uma área ao Cluster para o desenvolvimento dos projetos ligados à área naval, o governo uruguaio também concede incentivos fiscais para a instalação e desenvolvimento de projetos navais no país. Há, também, a possibilidade de investidores estrangeiros, que possuem operação nesse país, apresentarem e captarem recursos para viabilizar seus projetos junto ao Banco da República Oriental do Uruguai.

Além disso, caso as pesquisas se confirmem, o Uruguai também será um forte mercado no que se refere à sua própria indústria do petróleo e gás. Isso permitirá o nascimento de um outro mercado, paralelo ao do Brasil, para desenvolvimento da indústria naval. Há, ainda, a informação de que empresas britânicas identificaram a possibilidade de explorar petróleo nas Ilhas Malvinas. Certamente esse fato permitirá que a indústria naval do Uruguai possa servir de apoio à exploração de petróleo efetuada pelos britânicos, abrindo, assim, outra oportunidade de negócios para esse setor da economia.

Na Argentina, os movimentos também são no sentido de incentivar o crescimento da indústria naval. A Asociación Bonaerense de la Industria Naval (Abin) e a Federación de la Industria Naval Argentina (Fina) não tem medido esforços para negociar e implementar um texto de acordo internacional entre os países do Mercosul, no sentido de criar um mercado recíproco e de cooperação na região. Com isso, seria facilitada a participação do setor naval dos países do bloco no mercado brasileiro, pois os produtos e serviços produzidos nestes Estados poderiam ser considerados como sendo nacionais, já que teriam origem em países do Mercosul.

Essas iniciativas, que vêm sendo tomadas por parte dos países pertencentes ao bloco para concretizar um verdadeiro mercado comum no setor naval, são de extrema importância para o desenvolvimento do Mercosul. E é justamente fortalecendo esse bloco que todos, cidadãos, empresas e poder público, sairão ganhando.

Felipe Ferreira Silva é sócio do escritório Emerenciano, Baggio e Associados – Advogados.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Austeridade e câmbio na mira de Dilma

Claudia Safatle

A presidente Dilma Rousseff vai demarcar, na primeira reunião ministerial, amanhã, as bases da política fiscal do seu governo para cumprir a meta de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) de superávit primário e anunciará que pretende criar em março o Conselho de Gestão em Competitividade, ligado à Presidência, para cuidar da eficiência do gasto público.

No primeiro embate concreto a respeito do gasto público – o valor do novo salário mínimo – ela quer manter uma postura austera: R$ 545. Dilma considera uma grande vitória o governo passado ter conseguido estabelecer uma regra de reajuste para o mínimo em acordo com as centrais sindicais. Avalia como um equívoco querer mudar de forma oportunista a atual regra de correção – pelo PIB de dois anos anteriores e IPCA dos últimos 12 meses – como se chegou a cogitar, para evitar que o reajuste do próximo ano seja de quase 14% por causa da exuberância do PIB de 2010. Com base nesses índices, o mínimo deste ano seria de cerca de R$ 543, Dilma concorda em arredondá-lo para R$ 545 e avisou a alguns de seus ministros que fará um enorme esforço para que o Congresso aprove um valor semelhante a esse para não usar o seu poder de veto.

Na reunião ministerial, Dilma vai avisar que não acatará indicações políticas para as agências reguladoras. Quer preencher as vagas com nomes que sejam especialistas e tenham comprovada experiência nas respectivas áreas. Ela pretende fortalecer as agências para que não sejam capturadas, tanto pelos interesses do mercado como pela força do poder público. A Petrobras tem que temer a avaliação da Agência Nacional do Petróleo, na visão da presidente, assim como a Aneel tem que ser capaz de aplicar multa a Furnas, se for esse o caso. Mas as agências continuarão fora das áreas de definições políticas e de planejamento setorial, funções que permanecerão com os respectivos ministérios.

Falará aos ministros, também, do compromisso de seu governo com a ética e com as práticas republicanas de gestão e vai deixar explícito que tomará as devidas providências quando houver acusações fundadas a participantes do governo.

Nos 11 dias de exercício da presidência, Dilma já expôs a cada um dos seus ministros o que quer. A Edison Lobão, de Minas e Energia, disse que vai olhar com muito cuidado a situação das empresas distribuidoras. Elas vão passar por um processo de restruturação e por uma disciplina de boa governança. Nenhuma das empresas controladas pela Eletrobras terá autonomia para agir de forma individual, disse a presidente. E a própria Eletrobras terá de passar por um novo padrão de governança para ser uma holding do porte da Petrobras.

Ela já cobrou de Lobão, também, a proposta de um marco regulatório para o setor de mineração. Disse a ele que não considera correto que um setor da importância e lucratividade no país como o mineral seja regulado por normas e leis dos anos 50. Dilma compartilhava com o ex-presidente Lula a avaliação que ele fazia, por exemplo, da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, que retira o minério de ferro do solo e o exporta sem agregar valor. Como exemplo do que considera um absurdo, cita vez ou outra o fato de os trilhos das ferrovias brasileiras serem importados. Esse problema está na raiz do relacionamento conflituoso do governo com o presidente da companhia, Roger Agnelli.

Sobre a questão cambial, uma pedra permanente no sapato do governo, a visão da presidente é clara: não pretende deixar que o Brasil pague uma conta indevida do processo de ajuste das economias americana e europeia. Dilma não vai tomar medidas “estapafúrdias ou mirabolantes” como controle cambial, conforme disse a um ministro. Mas quer que o Banco Central e os ministros da Fazenda e do Desenvolvimento façam o que for possível, dentro das práticas internacionais e de forma sistemática para evitar que o real continue se apreciando em relação ao dólar. Mais medidas macroprudenciais, como as anunciadas na semana passada pelo BC, poderão ser adotadas, desde que se preserve a essência do regime de taxas flutuantes. E novas providências devem ser preparadas para corrigir distorções que acabam por incentivar as importações em detrimento da produção nacional.

Dilma informou ao ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves, que não vai patrocinar uma reforma previdenciária. Aliás, seu governo não fará nenhuma reforma que tenha alto custo e dispersão de energia política se não trouxer uma melhoria de curto prazo à economia brasileira.

Assim, em vez de se empenhar na aprovação de um amplo projeto de reforma tributária, a presidente deve optar por três ou quatro projetos de mudança tributária mais fáceis de aprovação pelo Congresso e de repercussão importante para a economia, como o projeto de desoneração da folha de pagamento das empresas.

As primeiras ações da presidente na área fiscal serão as definições do corte de gastos do Orçamento para este ano. Não há, ainda, uma cifra estabelecida. Pode ser um corte na casa dos R$ 40 bilhões. No encontro de amanhã, Dilma vai estabelecer um prazo para que cada ministro faça uma avaliação dos gastos de sua pasta e diga onde pode cortar. Estabelecerá como palavra de ordem do seu governo “fazer mais com menos”. Ela tem convicção de que há gastos excessivos que podem ser cortados e já mencionou os setores que devem ser objetos da tesoura com facilidade: viagens, aluguéis, reformas, carros.

Como na gestão de uma empresa, ela quer uma meta de redução de despesa por ministério, além do contingenciamento que o governo fará do Orçamento. Cada ministro terá ainda que informar à presidente o que vai fazer com os restos a pagar de sua pasta. À exceção das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), todos os demais gastos a serem pagos com os recursos da conta de restos a pagar podem ser objeto de revisão.

Para fazer mais com menos, será preciso perseguir a eficiência do gasto e esse será o objetivo do Conselho de Gestão. O empresário Jorge Gerdau Johannpeter fará parte desse conselho, cuja função será examinar com lupa a eficiência de cada real gasto com a saúde, a educação e outras áreas importantes do Orçamento.

Dilma sabe que não tem condições de fiscalizar cada pasta de seu governo, cada secretaria ou autarquia para ver se o dinheiro público está sendo bem aplicado ou, ainda, se está havendo corrupção no setor público federal. Mas depois de oito anos trabalhando no governo Lula, ela já tem plena ciência de onde estão os ralos por onde os recursos públicos escorrem e o que fazer para estabelecer mecanismos de controle. “Não quero a virtude dos homens, mas a das instituições”, costuma dizer a presidente.

Impor um grau de eficiência ao gasto é, para a presidente, um dos desafios de sua gestão, ao lado do crescimento do investimento público. Uma das áreas carentes desse atributo é a de ciência e tecnologia. Se não houver uma mudança radical no padrão do gasto público nesse setor, não haverá inovação, segundo conversa que ela já teve com o ministro Aloizio Mercadante. Um exemplo das dificuldades enfrentadas é a falta de doutores e mestres no país, assim como a ausência de empresas que sejam receptoras da transferência de tecnologia.

Dilma quer buscar avanços também na área nuclear. O Brasil tem a terceira maior reserva de urânio e não faz o seu enriquecimento para abastecer as usinas de Angra. Ele vem todo de fora. A presidente tem a intenção de buscar parcerias privadas para a exploração do urânio e estimular a Eletronuclear a fazer o enriquecimento desse mineral. No enriquecimento, não há possibilidade de parcerias com o setor privado, iniciativa que a presidente considera uma loucura.

Na macroeconomia, as conversas nesses primeiros dias de governo são de que o crescimento do país – que deverá ser de 4,5% a 5% ao ano nos próximos anos – não produz crises porque é um crescimento que vem sendo sustentado pelo aumento do investimento. Dados ainda preliminares indicam que o investimento público já seria, em 2010, superior ao do período do governo Geisel, descontando o fato de que muitas empresas estatais foram privatizadas nos anos 90. Isso deve ter resultado numa taxa de investimento na casa dos 20% do PIB no ano passado, o que ocorreu simultaneamente a uma expansão do mercado de consumo de massa.

O país vai ter que trocar os pneus com o carro andando, disse a presidente em conversas recentes com ministros do seu governo. Ao mesmo tempo que cresce, terá que providenciar um ambicioso plano de educação para formar técnicos de nível médio, tecnólogos e profissionais de formação mais curta (em torno de 250 horas), como pedreiros, eletricistas e soldadores.

Ao mesmo tempo, garante que vai cumprir uma promessa central da campanha, que é a de erradicação da miséria, e criar portas de saída do Bolsa Família através da formação de mão de obra, entre outras iniciativas.

Na área dos direitos humanos, será criada a Comissão da Verdade estritamente nos termos da lei. Ou seja, caberá à comissão apurar as práticas de tortura durante o regime militar e o desaparecimento de presos políticos. Não haverá retaliações nem qualquer mudança na Lei da Anistia, até por que o Supremo Tribunal Federal já definiu que a anistia é recíproca.

Não há uma visão de que a política externa da presidente Dilma Rousseff trará mudanças substanciais em relação à gestão Lula. O que se admite, no novo governo, é que há uma enorme diferença entre o Brasil de 2003, devedor e dependente do Fundo Monetário Internacional, e o Brasil de 2011, detentor de quase US$ 300 bilhões em reservas cambiais. Há, também, uma grande diferença entre o que era o mundo desenvolvido antes e a crise que vive agora. Os Estados Unidos, por exemplo, aprenderam que não é possível achar que a relação entre dois países é unilateral. Mas se a visão dos EUA sobre o Brasil mudou, também a visão do país sobre os EUA se modificou. Ambos podem ter, hoje, um relacionamento altivo, avaliam colaboradores da presidente.

A respeito de outras questões de política externa, a presidente já adiantou que não será leniente com desrespeitos aos direitos humanos e considera impossível o Brasil não se envolver nos temas relacionados com os conflitos no Oriente Médio.

Ela procurou saber no Itamaraty sobre as razões pelas quais o governo do Irã proibiu toda a obra do escritor Paulo Coelho, em decisão recente. Ouviu da diplomacia, em resposta, que foi uma ação do presidente Mahmoud Ahmadinejad contra a editora dos livros e não contra a obra do autor brasileiro.

Outra grande indagação é sobre qual será a relação de Dilma Rousseff com os movimentos sindicais, sobretudo tendo como parâmetro a convivência do ex-presidente Lula com as lideranças do mundo sindical. A perguntas dessa natureza, a presidente responde com tranquilidade: será uma convivência muito boa, até porque ao contrário do que ocorreu com Lula – que não teve apoio de todas as centrais na primeira eleição, em 2002 – com Dilma a adesão foi unânime.

Quanto aos demais movimentos sociais que, às vezes, criam constrangimentos para o governo, tais como as ameaças de invasão de propriedades que são feitas pelo MST, a presidente já fez uma reflexão sobre o assunto. Para ela, quem ameaça sabe que pode sofrer consequências.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Diálogos Desenvolvimentistas: Energia nuclear no Brasil

Leandro Aguiar

Pelo visto, os ventos da ventura sopram novamente a favor do Brasil.

De acordo com os cálculos do IPCC, o “Intergovernmental Panel for Climate Changes”, a produção de energia terá de quintuplicar até 2050, para suprir, sobretudo, a demanda dos países emergentes. E como hoje em dia os governos começam a desenvolver uma mentalidade ambiental sustentável e, principalmente, como o mundo se prepara cada vez mais para viver sem o petróleo, a energia nuclear está novamente na moda. No presente momento, 53 usinas movidas a fissão nuclear estão em construção, e mais 295 são planejadas para até 2030.

Veja porque, de novo, o Brasil se encontra numa posição invejável: as usinas nucleares têm como principal combustível o urânio. Esse mineral, uma vez extraído da natureza, passa por um longo e complexo processo para poder ser utilizado na produção de energia, conhecido como “enriquecimento”. Pouquíssimos países dominam esse processo. O Brasil, além de dominar a técnica, tem uma das maiores reservas de urânio do mundo. 

À parte disso, mais de 90% do total de urânio minerado aqui é enriquecido no exterior, um atentado a lógica comercial. De todos os países BRIC – a sigla do momento, que designa Brasil, Rússia, Índia e China -, só Brasil não possui tecnologia própria de projeto e construção de usinas nucleares, o que nos torna dependentes de técnicos, cientistas e empresas de outros países, como da Alemanha por exemplo.   

Parece óbvio que o Brasil deve traçar planos pare se tornar independente na produção de energia nuclear. Mas qual via tomar? (leia a matéria do Valor) http://www.valoronline.com.br/impresso/vale/1902/363337/o-dilema-da-energia-nuclear-no-brasil

O diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Paulo Metri, lamenta a tendência brasileira de gerar energia nuclear na dependência de empresas de fora. Enquanto a Marinha tem condições de desenvolver reatores nucleares, o BNDES cogita, como lembra Metri, fomentar empresários privados:

A Marinha brasileira está, neste momento, desenvolvendo um reator compacto para propulsão de submarinos, de cerca de 300 MW. O reator proposto para ser desenvolvido pela iniciativa privada seria a continuação deste da Marinha, que já está no meio do caminho? Fala-se, logo, do uso do dinheiro do BNDES para o desenvolvimento por empresários privados. Isto é muito triste porque a Marinha vive mendigando recursos, há anos, para exatamente este fim e sempre disseram que o BNDES não poderia financiar o Estado”

Eduardo, economista e mestre em planejamento urbano, chamou atenção para um ponto fundamental. É sabido que um dos principais entraves para a implantação de usinas nucleares é o seu tempo de instalação, que chega a durar décadas. Como tornar esse prazo menor e menos dispendioso: é com isso que o governo brasileiro deve ser preocupar, e não só em adquirir conhecimento técnico, diz Eduardo.  

Para isso, o governo terá de traçar planos à revelia dos interesses comerciais exteriores, e fazer da energia nuclear uma política de Estado e não de governo, comenta Carlos Ferreira, também integrante do Clube de Engenharia. Ele cita exemplos bem sucedidos de política de Estado voltadas para a indústria, como a Embraer, a Embrapa e, especialmente, a Petrobrás.  

Para expor o modo como funciona a atual política para energia nuclear no Brasil, da qual fala Carlos Ferreira, Paulo Metri traça um histórico de sua implantação no país. Acompanhe:

“Nos anos 70, quando foram assinados os contratos entre a KWU e a Nuclebrás, logo após o Acordo Brasil – Alemanha, para construção e comissionamento de oito usinas nucleares de pouco mais de 1.200 MW, até a quarta usina haveria a garantia de performance da KWU e, para as quatro últimas, esta garantia seria fornecida pela própria Nuclebrás. Pode-se dizer que o ato de dar a garantia de performance é um indicador que você já domina a tecnologia. Reconheço que o programa era megalônomo, pois o prazo era muito curto (se não me falha a memória, a última estaria sendo inaugurada ainda na década de 90). Parte do fornecimento de equipamentos e dos projetos iam, a cada usina adicional, sendo transferidos da KWU para a Nuclebrás. Os recursos para construir estas usinas vieram a conta-gotas e, hoje, nós só temos, deste contrato com a KWU, uma usina construída (Angra 2) e a segunda (Angra 3) em fase de início de construção. Angra 2 é uma das usinas do mundo que mais demorou para ser construída. Assim, ela só poderia sair caríssima. Neste período, a KWU foi absorvida pela Siemens e esta, anos depois, vendeu sua parte nuclear para a Areva, uma estatal francesa. Mas, os compromissos assumidos com a empresa brasileira têm sido assumidos pelas sucessoras. Por outro lado, a Nuclebrás foi fatiada, gerando as empresas isoladas: Nuclen, que se fundiu com a parte nuclear de Furnas, formando a Eletronuclear; Nuclep e INB. Desta forma, o antigo contrato “Nuclebrás – KWU” é hoje “Eletronuclear -Areva”. A garantia de performance de Angra 3 ainda será dada pela Areva. Tudo isto para lhe dizer que este modelo garantiria a tecnologia para o Brasil, sim! Poderia até ser renegociado para a Eletronuclear ser, para a Nuclear 4, a garantidora da performance. Outro caminho é a Marinha brasileira ter a incumbência de gerar um reator nuclear com os correspondentes recursos necessários. O grupo da Marinha é extremamente competente. Agora, a maneira de não se ter a tecnologia dominada no Brasil é fazer o que está sendo proposto no tal artigo. Se embarcarmos nesta alternativa, poderemos até ter um reator construído no Brasil, a partir de projeto vindo do exterior, mas não será uma tecnologia dominada por nacionais. Se, por acaso, a empresa estrangeira vier a fechar as portas no Brasil, ninguém mais saberá construir um novo reator.”

O fato de o Brasil ser riquíssimo em diversas formas de geração de energia não é razão para que descuidemos do futuro, coloca Carlos Ferreira. As limitações de ordem ambiental e socioeconômica tendem a crescer, e buscar alternativas complementares, como a energia nuclear, é estratégico e importante para o país, assinala o engenheiro. Tem que ser política de Estado, repete Carlos, pois “Não há como fixar e desenvolver tecnologia própria sem que haja um programa mínimo de continuidade”.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário