O perido que ronda o PT

Brasília, 19 de Maio de 2011. Flavio Lyra (*)

A recente denúncia da imprensa sobre o vultoso aumento do patrimônio do Ministro Antonio Palloci, nos últimos quatro anos, é um indicador eloqüente do perigo que ronda o PT, de servir de trampolim para a transformação de burocratas em capitalistas.

Nos partidos tradicionais, entre os quais incluo o PSDB, essa tem sido uma prática corriqueira. Há suspeitas de que o programa de privatização das estatais no tempo de FHC tenha contribuído para elevar alguns tecnocratas à condição de capitalistas. Nos idos do Plano Real, há denuncias de que André Lara Resende tenha criado o Banco Matrix para aproveitar-se financeiramente das mudanças previstas no valor da moeda, resultantes do plano que ele mesmo ajudara a formular, numa prática conhecida como uso de inside information.

Mesmo os que discordam da linha política do PT, por uma questão de bom senso não podem aceitar que a militância e os eleitores do PT estão de acordo em que seu partido reproduza as práticas dos partidos mais tradicionais do país no que respeita ao uso da política para enriquecimento pessoal.

 Em que pesem alguns deslizes já acontecidos, é notório que vários dirigentes e a base do PT, constituída por trabalhadores assalariados, o que não lhes permite acumular riqueza, não aceitam a idéia de sua organização servir de instrumento para que alguns de seus dirigentes o façam. Como tal, esperam desses dirigentes uma conduta ética nesse aspecto e a concentração de sua atividade na luta política para a condução do país na direção da constituição de uma democracia cada vez mais ampla e participativa, na qual a justiça social seja a referência principal.

Não há, porém, porque ingenuamente, admitir-se que não há o perigo de o partido, uma vez no poder, ficar vulnerável a que seus burocratas se sensibilizem pelos encantos da acumulação de riqueza. Neste caso, cabe esperar do partido posicionamentos firmes para coibir tais condutas, com o afastamento dos que optarem por esse caminho.

No caso extremo em que os burocratas do partido não se compadeçam com as aspirações da base que lhe dá sustentação, não haverá alternativa que mudar os dirigentes ou, no caso disso ser inviável, caminhar para a criação de um novo partido, cuja conduta dos dirigentes e proposta de ação sejam consentâneos com os interesses da classe trabalhadora.

 Eis, portanto, o perigo que corre o PT e as conseqüências que podem advir, no caso de seus dirigentes optarem por fazer vista grossa ao uso do poder para enriquecimento pessoal. A formação de capitalistas, não faz parte da proposta do Partido dos Trabalhadores

(*) Economista. Cursou o doutorado de economia da UNICAMP. Ex-funcionário de organismos internacionais. Ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco. Ocupou vários cargos de direção no governo federal.

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