O MINISTRO PRECISA EXPLICAR

Brasília, 16 de Maio de 2011. Flavio Lyra (*)

Há situações em que o homem público não pode furtar-se de oferecer à sociedade explicações convincentes sobre condutas que despertam suspeitas quanto a sua lisura. A divulgação pelo Estado de São Paulo e pela Folha de São Paulo, que o atual Ministro da Casa Civil, Antonio Palloci, multiplicou por vinte seu patrimônio em quatro anos, a partir de 2006, havendo adquirido imóveis no valor de R$ 9,4 milhões nos últimos dois anos, é uma denuncia que precisa ser desmentida, ou então os fatos em que se baseou cabalmente justificados.

A variação é muito elevada para ser justificada apenas com a declaração de que foi fruto da prestação de consultorias econômico-financeiras, em circunstâncias em que o Ministro, embora sendo reconhecidamente capaz e experiente, tendo já ocupado o posto de Ministro da Fazenda, não reúne em seu currículo qualquer indicação de especialização em assuntos financeiros, pois sua formação profissional é de médico-sanitarista.

Tampouco parecem suficientes as explicações vazias que vêm sendo dadas por membros do governo e aliados do Poder Legislativo.  A declaração da Comissão de Ética do Governo de que nada tem a investigar por tratar-se de assunto anterior a atual gestão mais confunde do que explica.

Na condição de eleitor do atual governo e responsável pela divulgação de muitas matérias destinadas a influenciar o eleitorado na mesma direção, sinto-me no direito de cobrar uma explicação convincente sobre o fato assinalado. Como economista, sei que o dinheiro é um mero representante dos bens e serviços que a sociedade produz.  Quem ganha demais pode simplesmente está contribuindo para outros ganhem de menos. Dinheiro não cai do céu.

Provavelmente, o Ministro tem explicações que podem justificar plenamente a lisura das atividades que desenvolveu para justificar a acumulação de tal patrimônio. Não vejo por que, portanto, manter a falta de clareza que tem caracterizado os pronunciamentos a respeito.

Persistir em atitude divagatória sobre o assunto, como tem ocorrido até agora, pode ser muito prejudicial ao governo popular de Dilma Rousseff, porquanto gerará um clima de desconfiança junto à população, provavelmente injustificado, com respeito à conduta ética dos ocupantes dos cargos de direção. Bastam as acusações que pesam sobre políticos vinculados ao governo anterior, por conta do chamado “mensalão”, que verdadeiro ou não, já trouxe muitos prejuízos ao patrimônio político do Partido dos Trabalhadores.

O Ministro precisa vir a público explicar claramente a origem do incomum aumento de seu patrimônio, sob o risco de ao não fazê-lo lançar uma nuvem de desconfiança sobre todo o governo. Não me move qualquer propósito oposicionista, ao contrário, acho que esta é uma forma muito apropriada e legítima de defender o governo atual, constituído sob a hegemonia da classe trabalhadora do país.

(*) Economista, cursou o doutorado de economia na Unicamp, foi funcionário de vários organismos internacionais, foi Secretário da Fazenda de Pernambuco e ocupou vários cargos de direção no governo federal.

 

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