Brasília, 20 de Maio de 2011. Flavio Lyra (*)
Na política, as coisas que supostamente acontecem por acaso, assumem tal explicação muito mais pela incapacidade de interpretá-las do que por serem aleatórias. O episódio que está nas páginas dos jornais, referente ao aumento prodigioso do patrimônio do Ministro Palloci veio à tona, muito provavelmente, como parte de uma disputa intestina no âmbito do governo pela orientação da política econômica.
A reorientação que o novo governo vem tentando imprimir à política econômica, para livrar o país da armadilha do curto prazo, cujo beneficiário principal é o mercado financeiro, incluindo os bancos e os fundos de pensão, alicerçada no pensamento neoliberal, encontrou fortes resistências entre estes, que aproveitaram o aumento da inflação para fazerem um contra-ataque. O principal defensor dessa posição no governo é o Ministro Palloci.
Quem acompanhou de perto a trajetória de Palloci, enquanto Ministro da Fazenda, sabe perfeitamente que ele converteu-se na fase pré-eleitoral da candidatura de Lula, num adepto da política econômica de cunho neoliberal. A “Carta aos Brasileiros”, elaborada sob sua batuta reflete de modo terminante a rendição à cartilha do FMI e do Banco Mundial. No governo, ele cercou-se dos burocratas do PSDB. As publicações desses burocratas, que circulavam nos bastidores, davam a impressão que o PSDB continuava à frente do governo.
Nunca entendi as razões do fascínio que Palloci exerce sobre Lula. Tanto é assim que a política econômica só começou a mudar com a entrada de Guido Mantega no Ministério da Fazenda, com o apoio de Dilma Rousseff,como Chefe da Casa Civil. O sucesso do Governo Lula está muito associado a essa nova fase da política econômica, que possibilitou reduzir os juros, recuperar o papel do BNDES como banco de investimento, o fortalecimento do investimento das empresas estatais e o aprofundamento da política social. Dessa mudança proveio o aumento do crescimento econômico e do emprego.
Desde que o novo governo instalou-se a disputa vem ocorrendo nos bastidores, saltando mais recente para a imprensa. Os ataques à atuação do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, vêm ocorrendo pelos porta-vozes do sistema financeiro, de modo sorrateiro, tentando desestabilizá-lo, alegando a incapacidade da política econômica adotada para controlar a inflação.
É preciso ter em conta que por trás da disputa pela orientação da política econômica estão três fatos. Em primeiro lugar, a conjuntura mundial mudou sensivelmente com o agravamento da crise econômica, obrigando as grandes economias a tomar medidas que vem repercutindo fortemente nas economias intermediárias como o Brasil, particularmente no que toca à valorização do Real. Em segundo lugar, a China, valendo-se do alto poder competitivo de sua produção industrial e de sua política cambial favorável às exportações, vem retirando mercado a produção industrial brasileira.
Em último lugar, a saída de Lula do governo, abriu espaço para que a confrontação entre as duas orientações de política econômica viesse à tona. Em realidade, o ataque à tentativa de alterar a política econômica, indiretamente atinge a presidente Dilma que é sua patrocinadora.
Em artigo que divulguei neste blog, em 15 de abril deste ano,“A Futura Polarização da Política no Brasil” chamei atenção esse fenômeno:
“Tudo faz crer que a partir de agora ocorrerá uma cristalização dos interesses envolvidos, que levará à polarização da política nacional em torno de duas grandes correntes: a da integração internacional dependente e a nacional desenvolvimentista. Ambas correntes democrático-capitalistas, mas com expressivas diferenças no que respeita ao papel do Estado.
“No primeiro caso, prevalece a concepção do capitalismo liberal, com as grandes corporações internacionais e o mercado globalizado comandando os destinos do país, em cujo território vicejará um capitalismo dependente associado ao capitalismo global, com um estado liberal, sob o comando da elite empresarial financeira e com pouca intervenção no domínio social. No segundo caso, coloca-se o objetivo de um capitalismo relativamente autônomo, fortemente regulado pelo Estado, sob a hegemonia da classe trabalhadora, e com profunda responsabilidade social”.
Nunca é demais lembrar que as disputas no âmbito dos partidos políticos, que se valem de meios muitas vezes escusos sempre podem refletir lutas mais profundas, cujas raízes estão nos interesses que gravitam na estrutura econômica.
Equivoquei-me ao supor que essa polarização somente tomaria forma com a reorganização da direita. Como isto está demorando a acontecer, o processo começou dentro do próprio governo, levando a uma polarização interna no âmbito de seu principal partido de apoio.
O fogo amigo que atingiu o Ministro Palloci faz parte dessa disputa que a Ministra Dilma vai ter que administrar proximamente, sem sequer poder recorrer a Lula que, sabidamente, morre de amores por Palloci e vai procurar colocar algodão entre os cristais. Acontece que o que está em jogo é a reorientação da política econômica que constitui o principal capital da presidente para afirmar sua liderança política.
(*) Economista. Cursou o doutorado de economia da UNICAMP. Ex-funcionário de organismos internacionais. Ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco. Ocupou vários cargos de direção no governo federal.