Diálogos Desenvolvimentistas: Energia nuclear no Brasil

Leandro Aguiar

Pelo visto, os ventos da ventura sopram novamente a favor do Brasil.

De acordo com os cálculos do IPCC, o “Intergovernmental Panel for Climate Changes”, a produção de energia terá de quintuplicar até 2050, para suprir, sobretudo, a demanda dos países emergentes. E como hoje em dia os governos começam a desenvolver uma mentalidade ambiental sustentável e, principalmente, como o mundo se prepara cada vez mais para viver sem o petróleo, a energia nuclear está novamente na moda. No presente momento, 53 usinas movidas a fissão nuclear estão em construção, e mais 295 são planejadas para até 2030.

Veja porque, de novo, o Brasil se encontra numa posição invejável: as usinas nucleares têm como principal combustível o urânio. Esse mineral, uma vez extraído da natureza, passa por um longo e complexo processo para poder ser utilizado na produção de energia, conhecido como “enriquecimento”. Pouquíssimos países dominam esse processo. O Brasil, além de dominar a técnica, tem uma das maiores reservas de urânio do mundo. 

À parte disso, mais de 90% do total de urânio minerado aqui é enriquecido no exterior, um atentado a lógica comercial. De todos os países BRIC – a sigla do momento, que designa Brasil, Rússia, Índia e China -, só Brasil não possui tecnologia própria de projeto e construção de usinas nucleares, o que nos torna dependentes de técnicos, cientistas e empresas de outros países, como da Alemanha por exemplo.   

Parece óbvio que o Brasil deve traçar planos pare se tornar independente na produção de energia nuclear. Mas qual via tomar? (leia a matéria do Valor) http://www.valoronline.com.br/impresso/vale/1902/363337/o-dilema-da-energia-nuclear-no-brasil

O diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Paulo Metri, lamenta a tendência brasileira de gerar energia nuclear na dependência de empresas de fora. Enquanto a Marinha tem condições de desenvolver reatores nucleares, o BNDES cogita, como lembra Metri, fomentar empresários privados:

A Marinha brasileira está, neste momento, desenvolvendo um reator compacto para propulsão de submarinos, de cerca de 300 MW. O reator proposto para ser desenvolvido pela iniciativa privada seria a continuação deste da Marinha, que já está no meio do caminho? Fala-se, logo, do uso do dinheiro do BNDES para o desenvolvimento por empresários privados. Isto é muito triste porque a Marinha vive mendigando recursos, há anos, para exatamente este fim e sempre disseram que o BNDES não poderia financiar o Estado”

Eduardo, economista e mestre em planejamento urbano, chamou atenção para um ponto fundamental. É sabido que um dos principais entraves para a implantação de usinas nucleares é o seu tempo de instalação, que chega a durar décadas. Como tornar esse prazo menor e menos dispendioso: é com isso que o governo brasileiro deve ser preocupar, e não só em adquirir conhecimento técnico, diz Eduardo.  

Para isso, o governo terá de traçar planos à revelia dos interesses comerciais exteriores, e fazer da energia nuclear uma política de Estado e não de governo, comenta Carlos Ferreira, também integrante do Clube de Engenharia. Ele cita exemplos bem sucedidos de política de Estado voltadas para a indústria, como a Embraer, a Embrapa e, especialmente, a Petrobrás.  

Para expor o modo como funciona a atual política para energia nuclear no Brasil, da qual fala Carlos Ferreira, Paulo Metri traça um histórico de sua implantação no país. Acompanhe:

“Nos anos 70, quando foram assinados os contratos entre a KWU e a Nuclebrás, logo após o Acordo Brasil – Alemanha, para construção e comissionamento de oito usinas nucleares de pouco mais de 1.200 MW, até a quarta usina haveria a garantia de performance da KWU e, para as quatro últimas, esta garantia seria fornecida pela própria Nuclebrás. Pode-se dizer que o ato de dar a garantia de performance é um indicador que você já domina a tecnologia. Reconheço que o programa era megalônomo, pois o prazo era muito curto (se não me falha a memória, a última estaria sendo inaugurada ainda na década de 90). Parte do fornecimento de equipamentos e dos projetos iam, a cada usina adicional, sendo transferidos da KWU para a Nuclebrás. Os recursos para construir estas usinas vieram a conta-gotas e, hoje, nós só temos, deste contrato com a KWU, uma usina construída (Angra 2) e a segunda (Angra 3) em fase de início de construção. Angra 2 é uma das usinas do mundo que mais demorou para ser construída. Assim, ela só poderia sair caríssima. Neste período, a KWU foi absorvida pela Siemens e esta, anos depois, vendeu sua parte nuclear para a Areva, uma estatal francesa. Mas, os compromissos assumidos com a empresa brasileira têm sido assumidos pelas sucessoras. Por outro lado, a Nuclebrás foi fatiada, gerando as empresas isoladas: Nuclen, que se fundiu com a parte nuclear de Furnas, formando a Eletronuclear; Nuclep e INB. Desta forma, o antigo contrato “Nuclebrás – KWU” é hoje “Eletronuclear -Areva”. A garantia de performance de Angra 3 ainda será dada pela Areva. Tudo isto para lhe dizer que este modelo garantiria a tecnologia para o Brasil, sim! Poderia até ser renegociado para a Eletronuclear ser, para a Nuclear 4, a garantidora da performance. Outro caminho é a Marinha brasileira ter a incumbência de gerar um reator nuclear com os correspondentes recursos necessários. O grupo da Marinha é extremamente competente. Agora, a maneira de não se ter a tecnologia dominada no Brasil é fazer o que está sendo proposto no tal artigo. Se embarcarmos nesta alternativa, poderemos até ter um reator construído no Brasil, a partir de projeto vindo do exterior, mas não será uma tecnologia dominada por nacionais. Se, por acaso, a empresa estrangeira vier a fechar as portas no Brasil, ninguém mais saberá construir um novo reator.”

O fato de o Brasil ser riquíssimo em diversas formas de geração de energia não é razão para que descuidemos do futuro, coloca Carlos Ferreira. As limitações de ordem ambiental e socioeconômica tendem a crescer, e buscar alternativas complementares, como a energia nuclear, é estratégico e importante para o país, assinala o engenheiro. Tem que ser política de Estado, repete Carlos, pois “Não há como fixar e desenvolver tecnologia própria sem que haja um programa mínimo de continuidade”.

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