Leandro Aguiar
Em artigo à Folha de São Paulo, intitulado “Deus foi brasileiro no governo Lula”, o economista Luiz Carlos Bresser analisou os oito anos do PT no comando do país.
O ex-ministro é bastante ponderado no seu exame, e apesar da sugestão do título, reverberada por grande parte da imprensa brasileira, ele não credita apenas a sorte o sucesso do governo Lula, como pode se perceber no trecho a seguir:
“Não devemos, portanto, subestimar os méritos de Lula. Ele soube ajudar a sua sorte. Fez um bom governo. Um governo de centro-esquerda que beneficiou os pobres (reduziu seu número para a metade) e a burocracia pública, mas, ao contrário do que dizia o consenso hegemônico, não trouxe inflação nem prejudicou o crescimento. Um governo que não temeu desagradar os ricos. Que foi fiscalmente responsável, exceto no último ano. Que reagiu bem diante da crise financeira global de 2008 não obstante o atraso do Banco Central em baixar os juros.”
Sensato, Bresser não foi só elogios ao governo. Tratou também de relativizar alguns pontos do discurso de Lula. Ele não acredita que o PT tenha recebido uma “herança maldita” de FHC, e, em mesma medida, não concorda que Lula deixou uma “herança bendita” para Dilma. Ele chama atenção, por exemplo, para a questão do câmbio sobrevalorizado, tema deixado sem solução pelo ex-presidente.
O Desenvolvimentistas fez sua leitura do artigo, as opiniões foram bastante diversas.
A economista Landes concorda com Bresser em alguma medida, mas acredita ser cedo ainda para avaliar corretamente a “era Lula”, já que, nas palavras dela, a “história é dinâmica e faz-se necessário deixar as coisas acontecerem”. O funcionário aposentado do BNDES, Márcio Tavares, é mais incisivo na crítica, e apesar de ter achado o artigo razoável, questiona duramente o título “Deus foi brasileiro no governo Lula”, por acreditar que ele diminui a importância das decisões de Lula, transferindo para “o auxílio divino, e não a competência” os méritos do bom governo, na paráfrase do Márcio.
Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), espera que Dilma seja mais arrojada no manejo da política econômica, embora ele não esteja muito esperançoso, devido a atual valorização do real e da expectativa de que o Banco Central eleve a taxa básica de juros. Landes é de mesma opinião, e afirmou que a escolha da nova equipe econômica não o agradou. Ou seja, ambos concordam com Bresser, no que concerne a questão do câmbio sobrevalorizado.
Já a economista Ceci Juruá afirma com convicção que sentirá saudades do governo Lula. Ainda, rebate a crítica de Marcio Tavares ao título:
“política é o campo das relações humanas e das alianças por afinidades múltiplas e não exclusivamente racionais. Competência também é uma qualidade que não se adquire apenas na escola ou na universidade. A crença em Deus, na sorte ou no destino, por exemplo, multiplica competências em dimensão incalculável.”