A MISSÃO DA CUBANA YOANY SANCHEZ
Flavio Lyra (*). Brasília, 1° de Março de 2013
Vivemos numa época em que estamos sujeitos a ser altamente manipulados pelos meios de comunicação. O controle da propriedade destes, por grandes grupos privados estrangeiros e nacionais os transforma em meio eficaz de criação de uma falsa realidade, alienante, com a finalidade de favorecer diretamente os interesses desses grupos, indiretamente os governos e setores econômicos que os financiam e, pior de tudo, prejudicar a conscientização da população em relação à construção de formas de organização política não-capitalistas.
Um exemplo muito concreto dessa forma de atuar pôde ser constatado por ocasião da visita que a blogueira cubana, Yoany Sanchez, acaba de realizar ao país e que, provavelmente, se estenderá a outros países da região. A cobertura jornalística recebida por Dona Yoany foi, a olhos vistos, totalmente desproporcional em relação ao conteúdo real de sua contribuição à discussão das questões do desenvolvimento econômico, social e político de Cuba, do Brasil e de dos demais países latinoamericanos. Seria bom esclarecer qual o real significado dessa visita tão divulgada.
Diariamente, durante vários dias, Dona Yoany apareceu em vários jornais e nas televisões; foi recebida pelo governador São Paulo, Geraldo Alkimim; e entrevistada na TV Globo pelo apresentador William Waak, conhecido simpatizante de posições políticas de direita. Todo esse arcabouço propagandístico foi montado em torno do lançamento de um livro da blogueira, cuja atividade principal em Cuba, onde reside, tem sido combater o regime político daquele país, em nome das liberdades democráticas, em que se inclui a liberdade de expressão.
Ninguém se engane, a vinda da já famosa blogueira tem três propósitos principais: criar dificuldades adicionais ao governo socialista de Cuba em seu relacionamento com o Brasil e com outros países da região; defender a manutenção do oligopólio constituído pelas quatro empresas que controlam a informação midiática no Brasil, sob o pretexto de fortalecer a democracia; e, por último, manipular a opinião pública do Brasil, através de sua imprensa, contra a difusão das idéias socialistas e do papel que elas podem ter no aprofundamento de uma verdadeira democracia no país.
Não bastam os mais de cinqüenta anos de agressões que a pequena ilha de Cuba tem sofrido, inclusive com uma tentativa fracassada de invasão, patrocinada pela CIA, na Bahia dos Porcos. Durante todos estes anos, Cuba tem estado submetida às conseqüências de fortes sanções econômicas por parte da maior potência econômica e militar do mundo: o governo norteamericano tem proibido que suas empresas realizem negócios com o esse pequeno país, onde se realiza a única experiência socialista na America Latina. O argumento usado e abusado é sempre o mesmo: a falta de liberdades democráticas que o governo socialista impõe ao povo de Cuba.
É verdade que a democracia existente em Cuba é diferente das democracias dos países capitalistas. Para um país pequeno, com apenas 11 milhões de habitantes, sujeito a todo tipo de pressões para reinstalar o capitalismo, seria altamente imprudente entregar a grupos empresariais privados seus meios de comunicação, bem como liberar inteiramente a saída dos profissionais que consegue formar às custas da maioria de sua população ( o ensino lá é inteiramente público e gratuito).
Cuba, somente conseguiu preservar seu sistema socialista de governo e realizar as mudanças que a tornam um exemplo no mundo em termos de emancipação popular e de realizações no campo social, por que não abriu suas portas aos capitalistas dos Estados Unidos e de outros países, nem permitiu a entrada em seu território da propaganda veiculada pela grande imprensa capitalista.
Caberia indagar da dona Yoany qual é o modelo de democracia que ela defende para Cuba, sob o beneplácito dos Estados Unidos. Seria o modelo que prevalece em outras ilhas do Caribe, como acontece com Porto Rico, República Dominicana e Haiti, semelhantes em volume da população e localização geográfica?
O Território de Porto Rico, com 4 milhões de habitantes, pertence aos Estados Unidos desde o fim do Século XIX, incorporado após a derrota da Espanha na guerra travada com os Estados Unidos, na mesma época em que Cuba ficou vinculada aos Estados Unidos, por razão semelhante. Lamentavelmente, o modelo de democracia ocidental nem sequer foi estendido aos portoriquenhos, que ainda hoje vivem num mero estado-associado, sem personalidade jurídica própria, sem direito a votar na eleição de senadores e representado em Washington por um delegado não-votante. Porto Rico, coloca-se em posição muito desfavorável no mundo em termos de mortalidade infantil e grau de alfabetização, acha-se atualmente muito endividado e apresenta uma taxa de desemprego de 13%. Para a minoria de ricos que lá vive e beneficia-se da indústria de turismo, controlada por capitais norteamericanos, certamente que o modelo de democracia lá existente nada deixa a desejar. Resta saber se o povo portorriquenho está satisfeito.
Não sem razão, o Congresso Latinoamericano e Caribenho pela Independência de Porto Rico, realizou-se em 2006, com o propósito de apoiar a independência dessa ilha. Nada mais injusto para o povo de Porto Rico do que pertencer ao território da maior potência do mundo e apresentar índices de qualidade de vida muito próximos aos dos países mais atrasados da Região.
A República Dominicana, com seus 10 milhões de habitantes, vizinha do Haiti, com o qual divide o território de uma mesma ilha, também localizada no Caribe, próxima a Cuba, é mais um exemplo do modelo de democracia ocidental, ocupando o 116° lugar no mundo em mortalidade infantil, com uma taxa de 29,6 por mil nascidos vivos, e ocupando o 89° lugar no mundo em taxa de alfabetização, com 89,1° de alfabetizados. Ali, também vivem ricos que representam um percentual mínimo da população e se beneficiam da indústria de turismo controlada por investidores norteamericanos.
É quase desnecessário mencionar o pobre Haiti, com 10 milhões de habitantes, ocupando o 136° lugar no mundo em mortalidade infantil com uma taxa de 48,8 por mil nascidos vivos e uma taxa de alfabetização de apenas 54,8%, ocupando o 154° lugar. Mas lá, também existe um pequeno número de ricos que controlam o grosso da renda do país.
Os casos citados são três exemplos notórios do modelo de democracia ocidental tão elogiado pela grande imprensa e tão protegido pelos Estados Unidos. Em alguns desses países, como Granada, República Dominicana e Guatemala, os Estados já interviram abertamente para defender suas “exemplares” democracias contra revoltas populares.
Chama a atenção que o tão combatido modelo de democracia existente em Cuba, durante seu meio século de existência sob forte pressão externa, tenha conseguido alcançar condições gerais de vida para sua população que em nada se parecem com a situação vivida por seus vizinhos do Caribe. Para um país pobre, com uma renda per capita de apenas quatro mil e quinhentos dólares, a taxa de mortalidade infantil é apenas de 5,1 por mil nascidos vivos. O analfabetismo foi inteiramente banido e a expectativa de vida é de 78,3 anos. Em Cuba, não há miséria!
Há verdades que precisam ser ditas e difundidas, Cuba continua a ser um país pobre, cujos automóveis em circulação nas ruas são antigos e desgastados pelo tempo. Seus edifícios estão mal cuidados e envelhecidos. Sua imprensa é controlada pelo governo e a saída do país não é livre como nos demais países da região. Não é difícil imaginar que as pressões a que Cuba tem sido submetida por ser inovadora no plano político e saber preservar sua soberania, são responsáveis por parte das dificuldades econômicas que afligem sua população.
Mas, há também muitas e mais importantes verdades que dizem respeito à privilegiada condição de vida de sua população, que decorre da opção política de seu povo por um governo socialista. O modelo de sociedade cubana é uma inovação em relação à democracia esclerosada e viciada existente em nossos países. Lá, as prioridades são definidas em função das necessidades básicas da população e não de um consumismo estúpido e inconseqüente que permite a uma minoria ter um padrão de vida de país rico e a maioria viver condenada a eterna pobreza. Lá, o ensino, a saúde e a moradia são gratuitos. Lá, não existem ricos e, por isso mesmo, não vemos demonstrações de opulência, nem de luxo. Lá, é onde se tem atingido realizações importantes no campo da medicina, com a formação e exportação para países necessitados de médicos. Lá é onde a pesquisa científica na área médica e o desenvolvimento e produção de numerosas vacinas (exportadas para outros países) contra doenças endêmicas em nossos países, (exportadas para outros países) tem ocorrido. Finalmente, lá é onde os negros pobres dos Estados podem estudar gratuitamente e chegar a ser médicos ou ter outras profissões que não poderiam alcançar, por razões econômicas, em sua pátria, onde prevalece o modelo de democracia liberal.
Merece destaque que em comparação com Brasil, cuja renda por habitante é maior do que duas vezes a de Cuba, este pequeno país leva nítida vantagem em todos os indicadores que dizem respeito às condições de vida da maioria da população.
Seria bom saber se Dona Yoany pretende contribuir para instalar em Cuba o modelo de “imprensa livre” existente no Brasil. Neste modelo, quatro famílias controlam os principais órgãos da imprensa falada e escrita e usam o seu poder não apenas para aumentar seus já vastos patrimônios, mas também para impedir o avanço da democracia e prejudicar a conscientização da população em favor do desenvolvimento de uma democracia socialista.
Dona Yoany, lamento dizer que a senhora nada tem a nos ensinar, a não ser que “não devamos dar atenção” a sua pregação comprometida com outros interesses que os da maioria do povo brasileiro e da pequena e heróica Cuba. Boa viagem de volta! Sua ignóbil missão merece ser execrada pela opinião pública e não trazida aos meios de comunicação como uma ação nobre em favor da reinstalação da democracia capitalista em Cuba. O povo cubano não deseja ser transformado num novo Porto Rico, na República Dominicana e, muito menos, no Haiti.
Considero simplesmente deplorável que políticos brasileiros, como o Senador Eduardo Suplicy e o presidente do PPS, Roberto Freire, usem mal as liberdades democráticas de que gozam para prestigiar a vinda de Dona Yoany ao Brasil.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.
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