Sobre Rennan Martins

Jornalista e analista político. Duvida da tese da narrativa isenta. Contato: rennan.m.martins@gmail.com

O PSB DE MARINA-EDUARDO NÃO É O PSB DE MIGUEL ARRAES

Destacado

Por Flavio Lyra | Brasília, 07/09/2014

O pensamento político tende a ser mais permanente do que ação dos homens, que no “vai e vem” da conjuntura, têm dificuldade para manter-se coerentes com o campo das ideias.

Desde que Eduardo Campos decidiu romper politicamente com as outras forças de esquerda que apoiam o governo Dilma e lançar-se como candidato à Presidência da República que tenho refletido sobre a compatibilidade entre a linha política adotada pelo PSB e o pensamento político de Miguel Arraes.

Foi a partir do retorno de Miguel Arraes ao país em 1979, com a anistia política, que passei a manter contatos com ele para trocar ideias sobre a conjuntura econômica nacional. Durante esse longo convívio, o assessorei informalmente por mais de dez anos e fui Secretário da Fazenda e Chefe da Representação do Governo de Pernambuco em Brasília (1987-90).

Minha admiração por Miguel Arraes começara em 1960, em sua campanha para o governo de Pernambuco, quando ficaram evidenciados dois traços marcantes de seu pensamento político: a preocupação com o fortalecimento da nação brasileira frente aos interesses das grandes potências e o posicionamento em favor das causas populares, no seu dizer, o povo, em contraposição aos interesses da elite oligárquica que ainda hoje controla a riqueza do país.

Posso afirmar, sem medo de errar, que Miguel Arraes era um autêntico nacionalista, com profundas preocupações com o fortalecimento do poder político do povo e melhoria de suas condições de vida.

A ditadura instalada em 1964, que governou durou vinte e um anos, o destituiu do governo de Pernambuco e o condenou a 15 anos de exílio, período no qual se manteve sempre muito ativo, articulando a resistência política aos governos da ditadura.

Retornando ao Brasil em 1979, depois da anistia, Miguel Arraes reingressou na vida política, mantendo-se coerente com a linha de pensamento que defendeu durante toda a vida.

Para evidenciar o pensamento político de Miguel Arraes, nada melhor do que ler seu pequeno grande livro “O Jogo do Poder no Brasil” (**) escrito por volta de 1990.

Ele tinha uma visão integrada dos problemas que afetavam a vida do país. Dizia ele: “É inútil separá-los… (…) O cultural, o econômico, o social, o político e o militar formam um todo indivisível. (…) Um verdadeiro redirecionamento da vida nacional exige que se procure entender o entrelaçamento daqueles aspectos” (p. 7)

Isso discrepa inteiramente da perspectiva que orienta o programa do PSB defendido por Marina, ao qual falta o mínimo de organicidade, especialmente no que respeita à proposta de política econômica, na qual a ênfase na valorização do tripé econômico, com sua forte conotação mercadista-privatizante, desconhece os impactos negativos que sua aplicação terá sobre os demais aspectos envolvidos, particularmente no aumento da dependência externa, no atendimento das necessidades sociais e no avanço das instituições democráticas.

Arraes, tinha uma visão moderna do nacionalismo, pois estava convencido de que nossa elite tinha sido cooptada pelas grandes corporações internacionais e já não era possível contar com ela para conduzir os destinos do país. Nesse sentido, vejam o que ele disse:

“A bandeira da nação passa, cada vez mais, para as mãos dos trabalhadores, dos funcionários, dos assalariados em geral, dos desprovidos de toda sorte, a que se agregam possuidores ameaçados pelo avançado processo de interdependência implantado no país.

O velho nacionalismo está morto, na medida em que já não é mais possível recompor a Nação seguindo o esquema clássico de aliança do empresariado e do operariado, sob a hegemonia do primeiro. A aliança pode perdurar, mas a hegemonia passa agora para as mãos do povo, num processo que, curto ou longo, restabeleça em novos termos a comunidade nacional” (p.82).

(…) Com a alienação cada vez maior das elites, a bandeira da nação cai nas mãos do povo. A ideia de Nação contrapõe-se naturalmente ao sistema desnacionalizante que aí está e contra o qual o povo se levanta em nome da própria sobrevivência” (p.86)

Como corolário dessa visão nacionalista, Miguel Arraes, defendia o fortalecimento do Estado como instrumento fundamental para organizar o país e resolver seus cruciais problemas sociais. Vejam suas palavras:

(…) é preciso fazer com que o Estado se volte para organizar a sociedade brasileira. Prioridade deve ser dada então a eliminação da miséria, à satisfação das necessidades mais elementares da população brasileira, inclusive as camadas médias, os pequenos e médios empresários, urbanos e rurais. Nada há sequer contra os grandes, desde que alinhados num projeto de desenvolvimento que coloque os problemas humanos em primeiro plano” (p.87).

Não é nada disso que propugna o programa do PSB, quando tem em vista reduzir o papel do Estado na economia, limitar o esforço de aproveitamento da grande riqueza representada pelo petróleo do Pre-sal, em nome de um ambientalismo míope; e desestruturar a política de integração econômica com os demais países da região (MERCOSUL e UNASUL), enfatizando Acordos Bilaterais com as grandes potências, em condições de perda de autonomia para a economia nacional.

Tampouco o é a visão neoliberal, de liberdade de mercado, cuja substância consiste na falsa suposição de que a solução dos problemas sociais, inclusive o emprego, devem ser um subproduto do crescimento econômico que a empresa privada, o capital estrangeiro e a concorrência nos mercados vão trazer espontaneamente para o país.

Ao final do citado livro, Arraes trata da articulação das forças políticas populares e dos seus objetivos, condenando implicitamente o divisionismo e o oportunismo que impedem a união em torno do objetivo maior que é fortalecimento da Nação. Vejam o que ele disse:

“A hora não é simplesmente de torcer por siglas, disputar postos ou pedaços do poder, embora tudo isso possa ser feito, como táticas que se ajustem ao combate geral. Não se trata sequer de pretender que sejam vencidos os que se consideram vencedores de ontem, numa disputa marginal, que não coloque como centro a questão nacional.

Ela consiste em reformular de modo construtivo os rumos do país, abrindo caminhos novos para a solução dos problemas do povo. Para isso, é necessária a consolidação de uma força nacional e popular capaz de promover um amplo debate e de executar democraticamente a grande tarefa que se tem pela frente.

A construção da Nação não pode ser confundida com o atendimento de interesses de grupos que hoje dominam a economia. Esses agem como meros ocupantes de um espaço que lhe foi aberto e que interessa a sua busca de maiores lucros. Ela consiste na construção de uma sociedade em que todos caibam, sem discriminações” (pg.108).

“É tarefa que só o povo tem condições de executar. Para tanto, é necessário que detenha o Poder. Embora todas as constituições, inclusive a outorgada e em vigor, declare que ele emana do povo, o fato é que este nunca o exerceu.

Cabe lutar para isso seja uma realidade.” (p. 109)

Não foi essa a ideia que norteou a decisão do PSB de romper os vínculos com o bloco formado em torno do PT e lançar a candidatura de Eduardo Campos. O que resultou dessa decisão foi a divisão das forças democrático-populares em favor de um projeto pessoal, que para sua viabilização requereu de alianças com as forças que ficam à direita do espectro político do país.

Assisti de perto ao esforço de Miguel Arraes para articular as forças de esquerda do país em torno de uma proposta comum, desde o ano de 1988, para fazer frente ao aventureirismo da candidatura de Fernando Collor. Antes do segundo turno daquela eleição que levou Collor ao poder, estive presente em reunião em Brasília entre Arraes, João Amazonas e Lula, na qual o tema central foi a unidade das forças de esquerda para impedir a vitória de Collor.

Com a morte trágica de Eduardo Campos, a sociedade brasileira acha-se mais uma vez diante de uma candidatura aventureira, sustentada por um partido pequeno e dotado de uma visão oportunista da política que lhe impede de perceber o caráter retrógado do programa que está submetendo à população, sob o disfarce de estar propondo “uma nova forma de fazer política”, quando na realidade nada mais representa do que um amontoado de propostas desconexas e incoerentes, cujo núcleo é a entrega da política econômica do país à elite comprometida com o capital financeiro nacional e internacional.

Não é sem razão que esse programa enfatiza a defesa da autonomia do Banco Central e a retomada do “tripé econômico” em sua forma original, elementos fundamentais para, em nome do combate à inflação, reduzir os gastos sociais para aumentar recursos públicos para remunerar a elite rentista proprietária da dívida pública, assegurar os lucros vultosos dos bancos privados e, como consequência, jogar a classe trabalhadora no desemprego.

O momento, pois, antes que seja tarde demais, é de lembrar à população que a proposta de governo do atual PSB, nem quando Eduardo Campos estava vivo e, muito menos agora, com Marina Silva à frente, nada tem a ver com o PSB de Miguel Arraes.

Muito pelo contrário, o programa atual do PSB situa-se do outro lado do espectro político em que se colocava Miguel Arraes e o PSB por ele dirigido, pois sua substância é orientada para, no plano político debilitar a Nação e impedir a democratização do poder, no plano econômico entregar os destinos do país às forças imprevisíveis do mercado, e no plano social para fragilizar os mecanismos de defesa da classe trabalhadora frente aos interesses da oligarquia empresarial privada nacional e internacional.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

(**) “O Jogo do Poder no Brasil”, Fundação João Mangabeira, 2010.

DILMA E O PT PRECISAM URGENTEMENTE DE UM PLANO”B”

Por Flavio Lyra | Brasília, 27/08/2014

A agressiva, injusta e iníqua campanha que as forças conservadoras do país, já algum tempo, vêm movendo contra o PT e a candidata Dilma, deixam muito claro que está declarada uma arrasadora guerra propagandística contra o atual governo, a qual já penetrou em parte importante da classe média, talvez de modo irreversível. Os altos índices de rejeição de Dilma nas pesquisas retratam dita situação.

Essa pérfida campanha ignora deliberadamente os avanços que o país vem realizando na área econômica e social e aproveita-se do momento difícil que a economia vem passando, sob a pressão de uma crise internacional que já dura seis anos, cujos efeitos mais nefastos conseguiu-se neutralizar até recentemente, com vistas a devolver o poder a elite conservadora.

Já não é possível ignorar que duas forças sociais polarizam a disputa pela eleição do próximo Presidente da República. De um lado, as forças representativas da elite empresarial oligárquica e da classe média que compartilha de seus valores, ansiosas pelo afastamento do poder do PT e de sua candidata Dilma. De outro, as forças populares que, embora constituindo a maioria da população, ainda são desorganizadas e pouco conscientes de seu potencial para conduzir os destinos do país.

A disputa se dá em torno do controle do aparelho do Estado com vistas a mobilizá-lo em favor dos interesses, em muitos aspectos contraditórios, dessas duas forças. Os interesses das elites, voltados para o aumento de seu poder econômico e político, através de um processo de crescimento econômico orientado primordialmente pelo mercado, ao qual se atribuem o poder de espontaneamente promover o uso eficiente dos recursos produtivos e a distribuição eficiente de seus resultados. A ciência econômica jamais conseguiu demostrar que a realidade obedeça a essa suposição, apelidada por Adam Smith de “mão invisível”.

Em oposição estão os interesses populares, que necessitam da ação política através do Estado, para regular o funcionamento do mercado e para realizar as funções sociais que os empresários privados não podem realizar, pois elas não são geradoras de lucros apropriáveis diretamente. Necessitam também da ação Estado para diminuir as desigualdades na distribuição da riqueza já acumulada, assim como dos frutos da atividade econômica, ambos muito concentrados nas mãos de uma minoria que não chega a 10% da população.

Em termos bastantes sintéticos, poder-se-ia falar no primeiro caso de um modelo crescentemente concentrador e dependente das grandes corporações que controlam a economia mundial. No segundo caso, tratar-se de um modelo distributivista e voltado para aumento da autonomia nacional na condução da política econômica.

A injusta realidade brasileira propicia a elaboração de um discurso político que potencialmente favorece a candidata do governo junto a maioria da população, mas que para ser efetivo em suas consequências deverá afastar-se da ideia, até certo ponto ingênua, de unidade de interesses da sociedade brasileira.

Será preciso defender claramente os interesses da maioria da população e deixar de lado o discurso incolor que ingenuamente visa transmitir uma ideia de neutralidade que somente favorece as elites, pois estas usam todos os meios lícitos e ilícitos para confundir e ludibriar a maioria da população.

Torna-se, assim, urgente a preparação de um plano “B” para a campanha da candidata Dilma, pois o discurso conciliador e “acima do bem e do mal” que ela vem fazendo pode não ser suficiente para reverter o processo de desmoralização de sua candidatura que vem sendo posto em prática pelos meios de comunicação.

O plano “B”, para ser bem sucedido deverá apresentar à população em termos muito concretos as ameaças que o aprofundamento do modelo concentrador e dependente, já instalado no país, apresenta para futuro da sociedade brasileira, especialmente para a classe trabalhadora.

O temor de desagradar aos adversários ou o desejo ingênuo de conquista-los, poderá vir a ser a melhor receita para uma derrota que certamente terá consequências muito perversas para o futuro do país e da maioria de sua população.

São muitos os temas concretos que precisam ser trazidos ao conhecimento do povo, com a indicação das indesejáveis consequências para o povo das mudanças que a oposição certamente vai tentar realizar. A seguir são mencionadas algumas:

a) Independência do Banco Central. Neste caso, o grande inconveniente é deixar nas mãos do sistema financeiro privado a política que regula a disponibilidade de moeda e seu valor interno e externo, a taxa de juros e o funcionamento das instituições financeiras. A moeda é um bem público, cuja administração não deve ser entregue a agentes privados, sob pena de ser utilizada para aumentar a concentração do poder e da riqueza nas mãos da elite oligárquica, em prejuízo da maioria da população;

b) Cerceamento das funções do BNDES como banco de desenvolvimento e, eventual, passagem para os bancos privados dos recursos do PIS/PASEP principal fonte de recursos desse banco, a única fonte de recursos para empréstimos de longo prazo do país;

c) Privatização da PETROBRAS e mudança no regime de exploração do Pre-sal, substituindo o regime atual (partilha) pelo o regime de concessão. Este regime vai favorecer as empresas internacionais e diminuir os benefícios que permanecerão no país.

d) Reforma trabalhista destinada a flexibilizar os salários e a retirar benefícios da classe trabalhadora. A atual política de aumento real do salário mínimo estará seriamente ameaçada;

e) Contenção dos gastos sociais do governo, para aumentar o superávit fiscal destinado a pagar juros sobre a dívida pública. Os programas de transferência de recursos para os segmentos pobres da população, bem como os gastos públicos em saúde, educação e moradia poderão ser reduzidos em nome do equilíbrio fiscal e do controle da inflação;

f) Desmonte da atual política externa de apoio ao fortalecimento do MERCOSUL e da UNASUL, bem como dos acordos com os BRICS e atuação independente nos organismos multilaterais (ONU, Banco, Mundial, FMI, OMC), fragilizando o poder de barganha do Brasil nas negociações internacionais em benefício das grandes potências e do capital financeiro comandado pelas grandes corporações privadas;

Está ficando evidente que o discurso de “paz e amor” perdeu sua validade e é chegada a hora de fazer política com “P” maiúsculo, capaz de conscientizar a população e combater a epidemia de infâmias que a oligarquia está inoculando na população. A verdade é a arma mais potente que o povo possui para a defesa de seus interesses.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

O oportunismo do PSB e o futuro do Brasil

Por Flavio Lyra | Brasília, 19/08/2014

Os partidos socialistas nas chamadas democracias ocidentais parecem condenados a decepcionar as forças populares sempre que conseguem chegar ao poder. Vejam-se os exemplos de Felipe Gonzáles na Espanha 1982-96, François Miterrand 1981-95 na França e François Hollande (atual) na França.

Todos eles chegaram ao poder gerando grandes expectativas, entre a classe trabalhadora, de que fariam governos que reformariam o sistema capitalista em benefício da maioria da população. Em todos os casos, porém, adotaram políticas econômicas que favoreceram a classe capitalista em detrimento da classe trabalhadora. Seria uma simples coincidência ou o resultado natural dessa modalidade falsa de socialismo?

O mais recente desses governantes (o atual presidente da França, François Hollande), além de posicionar-se contra os interesses da classe trabalhadora francesa, ao adotar uma postura neoliberal, vem pondo em prática uma política externa alinhada às demais grandes potências, de sanções econômicas e de agressão militar a países mais frágeis (v.g. derrubada do governo da Líbia e apoio aos rebeldes na Síria).

O PSB do Brasil, sob o comando do recém-falecido Eduardo Campos, ao optar por se desvincular das forças de esquerda, reunidas em torno do PT e do atual governo e seguir um rumo próprio nas próximas eleições, também parece fadado a cumprir a mesma sina de seus congêneres europeus, caso chegue ao poder. Trata-se de um partido pequeno, sem base social para governar e de saída muito comprometido com segmentos do capital financeiro e com o modelo “mercadista” da política econômica neoliberal.

As forças políticas organizadas em torno do PT, não obstante apresentarem problemas de coesão interna, de acomodação no poder e de desvios de conduta de alguns setores, que prejudicaram a imagem desse partido junto à classe trabalhadora.

Essas forças, entretanto, representam indiscutivelmente um poder eleitoral de grande peso. Seu poder, porém, não tem sido suficiente, até agora, para levar adiante as reformas econômicas e políticas que permitam maior controle das forças de mercado, que o país está a requerer para enveredar por um novo ciclo de expansão econômica e mudanças sociais.

A sociedade brasileira encontra-se diante de dois grandes desafios nos próximos anos: a) realizar importantes mudanças institucionais na área econômica, que permitam ao país sair da armadilha da atual política macroeconômica, de forte teor neoliberal, que está levando o país à estagnação e à dependência externa crescente, dificultando sobremaneira o prosseguimento das políticas sociais que têm sido postas em prática; b) realizar uma reforma política capaz de assegurar ao governo o apoio necessário da sociedade para proceder às mudanças requeridas nas instituições econômicas e na política econômica de curto-prazo, visando maior controle das forças do mercado.

Os principais traços dessa armadilha econômica têm a ver com: a crescente dependência de capitais externos para financiar o balanço de pagamentos, decorrência de uma política que retira poder competitivo à produção industrial e fomenta a importação destes produtos; b) elevadas taxas de juros no mercado interno, seja para empréstimos às famílias e às empresas, seja para o financiamento da dívida pública; e c) dificuldades para mudar a correlação de forças no plano internacional, de modo a resistir às ações dos organismos multilaterais e das grandes potências que favorecem o controle dos mercados e do desenvolvimento tecnológico pelas grandes corporações internacionais sediadas nesses países.

As atuais taxas de juros acarretam importantes transferências de recursos para os bancos e para os portadores de riqueza financeira, desestimulando os investimentos produtivos e diminuindo a capacidade do governo para investir na infraestrutura econômica.

As taxas reais de juros incidentes sobre a dívida pública (em torno de 5% ao ano) não são sustentáveis a médio-prazo, pois diante de uma menor taxa de crescimento do PIB levarão ao crescimento explosivo do peso relativo da dívida pública e limitarão fortemente a capacidade de financiamento do governo.

As reformas nas instituições econômicas são fundamentais para permitirem que a política macroeconômica possa recuperar sua capacidade de manejo dos instrumentos de curto-prazo, que determinam o nível da atividade econômica e do emprego, a taxa de inflação, a taxa de juros e a taxa de salários reais.

Tais reformas deveram estar focadas no sistema tributário, no sistema financeiro, no controle dos monopólios públicos e privados, no sistema educacional e de ciência e tecnologia, no sistema de saúde, no regime de participação da empresa pública na atividade econômica, no regime do capital estrangeiro e no mercado de trabalho.

A questão central em torno das mudanças na área econômica é essencialmente política, pois deriva-se da profunda divisão existente na sociedade entre os interesses da elite proprietária e os da classe trabalhadora.

A classe proprietária deseja realizar mudanças que favoreçam a acumulação e a já grande concentração da riqueza e da renda em suas mãos e que transfiram os custos dos ajustes requeridos para a classe trabalhadora, basicamente através da contenção dos gastos públicos na área social e da redução dos custos salariais para as empresas. Baseia-se numa visão hierárquica da sociedade e na liberalização dos mercados frente à intervenção do governo, relegando a proteção social da classe trabalhadora aos resultados do crescimento econômico propiciados pelo livre mercado.

Esse modelo de política vem produzindo resultados nefastos nos países de capitalismo avançado, levando à concentração da renda e da riqueza nas mãos dos mais ricos, produzindo desemprego e reduzindo a proteção social à classe trabalhadora.

Os anos de governo do PT possibilitaram melhoras significativas na distribuição da renda em favor dos segmentos mais pobres da população, mas a mudança incidiu basicamente sobre a remuneração do trabalho, pois as indicações são de que a concentração da riqueza nas mãos da elite capitalista deve ter continuado aumentando.

Os ônus das mudanças ocorridas na distribuição da renda em favor de cerca de 40 milhões de habitantes que saíram da pobreza recaíram fundamentalmente sobre a classe média (cerca de 30% da população), cuja reação natural tem sido a de aumentar a rejeição frente ao atual governo.

A política econômica atual tem sido muito favorável ao capital estrangeiro, levando à desnacionalização crescente da atividade econômica e permitido grandes transferências de renda para o exterior, graças a altas taxas juros em aplicações financeiras, remessas sem limites de dividendos, pagamento de royalties e formas disfarçadas de transferência de renda para o exterior.

A correlação de forças na sociedade, embora tenha melhorado neste início de século em favor da classe trabalhadora, possibilitando a eleição de três presidentes ligados a classe trabalhadora, ainda não é suficiente para a realização das reformas políticas requeridas para fazer mudanças na estrutura econômica adequadas para dar sustentação a um modelo de crescimento que favoreça a distribuição da renda e da riqueza e o crescimento econômico sem produzir os desequilíbrios mencionados linhas atrás.

Tanto o processo eleitoral, quanto o funcionamento das três esferas do poder governamental na União, nos Estados e nos Municípios, sofrem uma forte influência das classes proprietárias, criando um vazio de representação para maioria da população e impedindo a realização de reformas institucionais que favoreçam a posta em prática de um modelo de desenvolvimento que atenda em maior medida às demandas das classes assalariadas.

Para avançar nessa última direção é indispensável que se ampliem e se aperfeiçoem mecanismos de participação social e que aumente a influência da maioria da população no processo decisório governamental.

É nessa quadra conflitiva e polarizada do desenvolvimento do país que deverão ocorrer as próximas eleições presidenciais, as quais serão decisivas para os rumos futuros da sociedade. Está configurada, pois, uma luta política entre as forças que defendem a continuação no poder das forças que se propõe a aprofundar as reformas democráticas e a fortalecer o papel do Estado na condução do processo de desenvolvimento e as forças que pretendem voltar ao poder com o propósito de orientar as reformas em favor de menor intervenção nos mercados e de maior liberdade de ação em benefício dos interesses das classes proprietárias e do capital internacional.

A ação do PSB, até dias atrás sob o comando de Eduardo Campos, ao romper politicamente com o atual governo, representou uma clara opção pelo fortalecimento no processo eleitoral das forças representativas dos interesses das classes capitalistas interna e externa e do modelo neoliberal de política econômica.

O falecimento trágico de Eduardo Campos, trouxe para o cenário político o nome de sua candidata a vice-presidente, Marina Silva. Esta, por seu potencial eleitoral inicialmente superior ao de Eduardo e seu maior comprometimento com forças políticas ligadas ao sistema financeiro e a organizações internacionais supostamente defensoras do meio-ambiente, poderá diminuir a chance de vitória da atual presidente.

Lamentavelmente, Eduardo Campos e seu PSB, com o objetivo de chegar ao centro do poder lançaram fora a oportunidade de manter unidas as forças políticas organizadas em torno do PT e por esse meio contribuir para realizar as reformas requeridas para a continuação do processo de mudanças que vêm sendo realizado pelos três últimos governos.

Às vésperas das eleições aumento sensivelmente a polarização e o equilíbrio entre as forças que sustentam o atual governo e defendem como prioridade reformas em benefício da classe trabalhadora e as forças defensoras dos interesses das classes proprietárias e do capital estrangeiro, representadas pelos candidatos da oposição.

Os programas de governo da oposição carecem de uma visão clara e honesta da realidade econômica e política do país, pois destinam-se a encobrir as mudanças que pretendem realizar em detrimento dos interesses da classe trabalhadora e da autonomia do país para comandar seu processo de desenvolvimento.

Eis, assim, mais um momento na história política dos países em que um partido socialista se coloca como uma falsa alternativa de mudança em favor da classe trabalhadora, quando na realidade está contribuindo para fortalecer o poder da elite empresarial nacional e estrangeira. Triste sina desse falso socialismo!

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

A IMPOSTURA DOS “IMPOSTÔMETROS”

Por Flávio Lyra*

Brasília, 13 de agosto de 2014 - A elite empresarial brasileira que, sabidamente, nunca se destacou pela contribuição que oferece a arrecadação de impostos pelo governo, já algum tempo realizou a notável inovação de introduzir nos grandes centros urbanos do país insólitos instrumentos de mobilização da opinião pública contra o pagamento de impostos, os chamados “impostômetros”.

Tratam-se de medidores online da arrecadação de impostos no país, colocados em locais de grande visibilidade para o grosso da população, que na realização de seus afazeres diários transita nos centros das grandes cidades.

Os grandes jornais e as redes de televisão incorporaram a sua programação diária fazerem referência às cifras vultosas registradas nesses aparelhos. Com a mesma finalidade, divulgam campanhas que mencionam a equivalência em dias de trabalho do valor médio que os contribuintes dedicam ao pagamento de impostos.

Os significados inteiramente diferentes de palavras de origem comum, o verbo latino imponere, como é o caso de impostura e imposto são de grande utilidade para ajudarem a descrever a atitude iníqua dessa elite frente a uma realidade candente de nossa sociedade nos dias atuais: a contribuição desigual e injusta dos ricos em comparação com os pobres para o financiamento dos gastos públicos. Nosso sistema tributário fortemente concentrado em impostos que incidem sobre o consumo sobrecarrega os pobres e favorece os ricos.

A conduta da elite na manutenção dos impostômetros e na divulgação de campanhas de natureza semelhante, nada mais é do que uma impostura (embuste, mentira, farsa, aleivosia), pelo simples fato de que as referidas estatísticas, na forma como são apresentadas, ou nada informam de significativo ao contribuinte ou o fazem de forma a confundi-lo com base na apresentação de cifras médias.

Os impostômetros apresentam cifras absolutas de arrecadação, cuja observação apenas permite ver que elas são vultosas e que estão em constante aumento, o que é natural em qualquer sociedade moderna, em que são crescentes as necessidades de serviços públicos. Já as cifras médias, por seu turno, servem fundamentalmente para esconder as profundas e injustas desigualdades no pagamento de impostos em relação à capacidade de pagamento dos ricos em relação aos pobres.

A impostura da elite fica de todo evidenciada quando se constata que vivemos num país que se destaca no mundo pela elevada concentração da riqueza e da renda nas mãos de uma minoria, mas que o peso da tributação incide proporcionalmente muito mais nos extratos mais pobres da população, ou seja as distribuições são extremamente regressivas: os mais pobres, proporcionalmente, possuem e ganham muito menos e contribuem muito mais, do que os mais ricos.

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, os brasileiros mais ricos (10% da população) amealham 48,2% da renda nacional, enquanto os 60% mais pobres ficam com apenas 21,5%, ou seja o primeiro grupo tem uma renda média igual a 13,3 vezes a do grupo mais pobre. Considerando-se os 1% mais ricos a citada cifra se eleva para nada menos que 57 vezes.

Não é pois sem razão que os brasileiros ricos acumulam fortunas nos chamados paraísos fiscais, pois não somente são gravados por taxas de tributação relativamente muito baixas, mas também porque escondem sua renda e riqueza.

Recentes levantamentos feitos com base em dados de organismos internacionais (O Globo de 22.07.12, conforme texto de Bruno Villas Bôas) mostram que os brasileiros ricos têm a quarta maior fortuna do mundo entre as que estão depositadas em “paraísos fiscais”, cerca de US$ 520 bilhões, recursos que escaparam à tributação.

Para que maior hipocrisia do que a campanha que a classe capitalista do Brasil faz denunciando a alta carga tributária do país, baseada em estatísticas da carga tributária bruta, quando se sabe que parcela importante da arrecadação se destina a pagar o serviço da dívida pública, cujos credores são os próprios capitalistas?

Além disto, outra parcela importante da arrecadação, os governos destinam a conceder subsídios e incentivos fiscais a investidores e a pagar sobrepreços a fornecedores do Estado.

Na realidade, a carga tributária liquida é bastante mais baixa do que as cifras utilizadas nas campanhas contra o pagamento de impostos.

Eis nossa triste realidade: os patrocinadores do impostômetro, são precisamente aqueles que pagam menos impostos em relação a sua capacidade contributiva, mas que são bastante espertos e imorais para fazerem campanhas contra o pagamento de impostos.

O fazem, porém, muito conscientes de que os impostos são à única maneira de transferir para os mais pobres uma parcela mínima dos resultados da atividade econômica que estes contribuem para criar com seu esforço físico e mental, e de realizar as obras públicas necessárias a toda a coletividade.

As campanhas para pagar menos impostos têm o propósito muito claro de criar um clima favorável à mudanças na política tributária que contribuam para que os mais ricos concentrem em suas mãos mais poder e mais patrimônio, pagando menos impostos, em detrimento do atendimento das necessidades dos segmentos mais pobres da população, que tanto dependem do gastos públicos em educação,  saúde, etc.

Abaixo a impostura dos impostômetros e das campanhas contra o pagamento de impostos.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na Unicamp. Ex-técnico do Ipea.

OS CANDIDATOS E OS MODELOS DE POLÍTICA ECONÔMICA

Brasília, 13 de Março de 2014. Por Flavio Tavares de Lyra*

Tem sido notório o esforço dos intelectuais de orientação neoliberal para convencerem às sociedades de que no capitalismo não existe alternativa ao modelo-padrão de política econômica que pretendem seja adotado de forma generalizada em todo o mundo.

Ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, na condição de porta-vozes e divulgadores da citada ideologia econômica, não tem faltado empenho para obrigarem os países que recorrem aos seus financiamentos a seguirem o “manual oficial” no desenho de suas políticas econômicas.

Na experiência brasileira recente, após uma fase em que o governo buscou afastar-se do receituário neoliberal, tem ficado a impressão alimentada pela grande imprensa e pelos porta-vozes do mercado financeiro de que o governo está retornando progressivamente ao “bom caminho da ortodoxia neoliberal”.

Por seu turno, os candidatos à presidência da República nas próximas eleições, em seu afã de agradar à classe proprietária e pela notória incapacidade de compreensão da realidade que nos cerca, também têm adotado o discurso fácil de que a solução dos problemas que estamos enfrentando encontram-se no manual neoliberal, que já nos causou tantos dissabores no passado recente. A tese que defendem irresponsavelmente é que o excesso de intervenção nos mercados responde pelo baixo crescimento econômico e pelo aumento da taxa de inflação no país, como se isso fosse um princípio incontroverso da teoria econômica.

Urge, por conseguinte, a realização de um esforço intelectual para o esclarecimento da natureza da intervenção estatal na vida econômica nos países capitalistas, a partir da qual seja possível desmontar o mito da falta de alternativas para a política econômica e, assim, reforçar a defesa de modalidades que priorizem a busca de objetivos voltados para o bem-estar social.

O neoliberalismo, como bem evidenciou Michel Foucault em seu penetrante estudo sobre o neoliberalismo no livro “Nascimento da Biopolítica” trata-se de um forma de governabilidade que apoia-se na mobilização do aparelho estatal para criar o meio ambiente mais propício ao desenvolvimento da empresa privada. Trata-se enfim de uma forma de política econômica que se propõe a intervir nas condições do mercado para aperfeiçoar a concorrência mas nunca no próprio mercado. Diferentemente do liberalismo econômico, que recomenda o laissez-faire, o intervencionismo estatal é adotado como meio para a criação da moldura institucional para o funcionamento do mercado. Dificilmente, pode-se identificar ação mais intervencionista do que a privatização de empresas estatais.  Portanto, a acumulação de capital na empresa privada e o desenvolvimento de sua capacidade para ser competitiva, constitui o foco principal da intervenção estatal.

Nessa concepção os desvios da concorrência que levam aos nefastos monopólios, à concentração da renda e da riqueza, ao controle do poder político, às crises por insuficiência de demanda efetiva e ao desemprego-  são todos considerados questões secundárias que a própria dinâmica do sistema acabaria espontaneamente por resolver. Essa modalidade de governança não incorpora qualquer preocupação com o social e considera que a ação estatal destina-se essencialmente a regular as condições gerais para a operação do mercado.

Desde logo, na prática, as coisas são muito diferentes, pois a concorrência nos mercados não resolve o problema dos monopólios e as ações de política econômica não se restringem a criar a moldura para o funcionamento dos mercados. A captura dos agentes políticos e da agências governamentais acabam transformando-os em instrumentos para favorecer primordialmente a acumulação nas empresas e a concentração do capital.

Um simples exame dos supostos teóricos e das práticas em que em que se apoia a governança neoliberal é suficiente para constatar que existe sim, alternativa, ou alternativas, para a ação governamental. E o primeiro e mais importante argumento para afastar-se dessa concepção consiste em conceber a empresa privada e o mercado não como fins em si mesmo, mas apenas como meios para atingir objetivos mais gerais vinculados ao bem-estar coletivo.

O mercado precisa ser regulado e complementado por formas de intervenção estatal no domínio econômico, não apenas para corrigir os desequilíbrios econômicos que é capaz de produzir, mas também para alcançar objetivos sociais que reconhecidamente não decorrem do mero funcionamento do mercado.

É preciso combater, pois, com todas as armas o mito do “mercado eficiente”, o qual somente serve para para justificar as iniquidades sociais associadas à concentração da renda e da riqueza nas mãos de oligarquias e a condenação do trabalhador a condição de mero insumo do processo produtivo.

Não há por que desconhecer a importância do mercado como mecanismo social de coordenação de ações dos agentes econômicos naturalmente descentralizados. Seu papel é indispensável para lograr o equilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços e para o direcionamento de recursos para o investimento. Tampouco cabe recusar o uso de formas simuladas de mercado, como mecanismos de administração de monopólios naturais, como no caso da prestação de serviços públicos.

O fundamental, porém, é não deixar que o mercado subordine a política econômica e a transforme em meio de estímulo e proteção a acumulação de riqueza privada em detrimento dos interesses da sociedade como um todo. O mercado não é de modo algum um ente transcendental, desvinculado das paixões e interesses de indivíduos e grupos sociais, como se procura dar a entender.

A política é a única forma legítima de estabelecer os objetivos relevantes para o desenvolvimento da sociedade e as decisões econômicas das empresas, o mercado, precisam estar submetidos à política, como única maneira eficaz de priorizar os objetivos da coletividade frente aos interesses de grupos oligárquicos.

Nossos candidatos à presidência precisam urgentemente tomar consciência dessa realidade, e saírem da cômoda posição de defensores de ações econômicas do manual neoliberal, que servem muito bem aos interesses de empresas privadas nacionais e estrangeiras, mas que não necessariamente contribuem para o fortalecimento da nação e para o bem-estar da sociedade em geral.

*- Economista. Cursou o doutorado de economia na Unicamp. Ex-técnico do IPEA.