Por Flavio Lyra | Brasília, 28/11/2015
Somente os ingênuos e os mal-intencionados ainda acreditam na propaganda enfática da grande imprensa, que busca atribuir ao PT a responsabilidade integral pelos atos de corrupção que maculam a vida econômica do país. A barragem criada pela grande imprensa e os vazamentos seletivos das investigações, provenientes da Justiça e da Polícia Federal, com base na operação “ Lava Jato”, não conseguiram controlar a invasão do fluxo de lama no meio empresarial e nos poderes da República.
Depois de atingir alguns membros do PT, importantes empresários e vários políticos e, excluir sem justificativa aparente, personalidades de peso do PSDB e do PMDB (alguns ainda não denunciados) a lama chegou no Senador que era líder do governo e num grande banqueiro, André Esteves, Presidente do Banco Pactual.
Porém, o Senador Delcídio do Amaral e o banqueiro André Esteves não foram detidos por corrupção, mas por obstrução da justiça e tentativa de facilitação da libertação e fuga do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, acusado de receber propina, para evitar que ele aderisse ao dispositivo de “delação premiada”, que certamente deixaria muita gente importante em maus lençóis.
Sem pretender livrar o PT da responsabilidade de ter o Senador Delcídio em seu quadro político, não pode deixar de ser considerado que muitos petistas nunca o viram com bons olhos, por suas ligações estreitas com o PSDB, desde o tempo em que foi Diretor da Petrobras e tinha como Diretor- Adjunto, o mesmo Nestor Cerveró a quem estaria buscando proteger.
Por sua vez, que teria a temer o banqueiro, André Esteves e o banco que ele presidia — o banco dos grandes negócios com o capital estrangeiro e que participou ativamente do processo de privatizações, em que ocorreram negócios nebulosos entre o governo de FHC e os capitalistas que compraram as empresas estatais. Aliás, o Vice-Presidente que substituiu André Esteves é o economista Pérsio Arida, pessoa de prestígio e intimidade no seio do tucanato paulista. Basta dizer que foi um dos autores do Plano Real e que ocupou vários cargos importantes nos governos de FHC, inclusive com Presidente do Banco Central. De modesto economista e técnico do IPEA, Pérsio Arida chegou a milionário em pouco tempo, riqueza que atualmente desfruta com sua esposa a ex-Diretora de Privatizações do BNDES no tempo de FHC, Elena Landau, responsável pelas avaliações que estabeleciam os preços das empresas estatais a ser privatizadas.
Muitas outras perguntas estão no ar a esta altura.
Por que, por exemplo, os Ministros do STF tomaram medida tão radical contra o Senador Delcídio, segundo alguns juristas ferindo a Constituição. Por que a Ministra Carmen Lúcia justifica seu voto pela detenção das pessoas mencionadas, fazendo uma alusão indireta ao PT, ao mencionar o bordão: “A esperança venceu o medo”, utilizado pelo PT na campanha de 2002, agregando que com o mensalão: “ O cinismo venceu o medo”, e concluindo: “Agora o escárnio venceu o cinismo”. Por que, em seu voto, a Ministra não mencionou uma vez sequer o nome do banqueiro.
A radicalidade dos ministros seria uma resposta ao contido nas gravações das conversas do Senador com os Ministros Teory Zavascki e Gilmar Mendes e com o Vice-Presidente Michel Temer?
Finalmente, por que as investigações que vêm sendo realizadas sempre partem de suspeitas em relação a membros do PT, somente chegando a outros personagens a partir daí, quando é praticamente impossível excluí-los? Por que tantas denúncias contra personalidade do PSDB, não investigadas e processos judiciais que os incriminam acham-se paralisados?
A medida que a lama fétida da corrupção, alimentada pelo ódio ideológico contaminam os grandes dirigentes públicos e privados do país, e as tentativas de comprometer a Presidente Dilma não encontram respaldo nos fatos, reforço meu convencimento de que a honestidade dela é inatacável.
As elites capitalistas do país, visando afastar o povo do poder provocaram uma avalanche que está destruindo nossa economia, inviabilizando a política e que começa a penetrar em suas mansões no Morumbi.
***
Flavio Lyra é economista da Escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.