A ESTUPIDEZ DA CLASSE CAPITALISTA

Por Flavio Lyra | Brasília, 12/10/2015

O desejo insano da classe capitalista brasileira de assumir inteira e abertamente o comando político da sociedade a fez esquecer que foi ela a grande beneficiária da política econômica que os governos do PT aplicaram a partir de 2003.

Não fossem as mudanças introduzidas em favor de melhor distribuição da renda, do acesso ao crédito e da elevação da taxa de formação de formação de capital, muito provavelmente, a economia brasileira não teria alcançado as taxas de crescimento observadas até 2010.

Ao contrário, teria acontecido uma brutal concentração da renda na classe alta, aprofundamento da desnacionalização, manutenção das altas taxas de desocupação observadas no governo anterior, agravamento da miséria e crescente descontentamento da classe trabalhadora e da população em geral.

Os fatores externos e internos determinantes do aparecimento de desequilíbrios nas contas externas, nas contas fiscais e no nível de preços que caracterizam a atual crise, dificilmente podem ser atribuídos a falhas na gestão da política econômica durante o governo de Dilma, pois ou independeram de decisões internas ou estiveram intimamente condicionados pelo arcabouço institucional existente nos campos da política e da economia.

Destaque-se no campo da política a necessidade dos governos de coalisão, que transformam o exercício da política num balcão de negócios e a exagerada influência do poder econômico no processo decisório, em decorrência do financiamento privado dos partidos e candidatos, campos férteis para a corrupção.

No plano econômico, é preciso considerar os condicionamentos derivados da desregulamentação dos fluxos de capital internacional, da integração internacional com base em vantagens comparativas e o consequente processo de desindustrialização, do engessamento da política macroeconômica (sob a supervisão e monitoramento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial) e a pressão permanente das agências de “rating”, orientados para o favorecimento do capital financeiro.

A institucionalidade que constitui a moldura da política econômica, é direcionada para acumulação financeira dos bancos e dos detentores de aplicações financeiras, particularmente de títulos do tesouro, mediante a aplicação de taxas extorsivas de juros reais, em prejuízo das aplicações em investimentos produtivos.

A miopia da classe capitalista e de seus representantes na política e na imprensa, os levam a admitir que desestruturar o principal partido de sustentação do governo e substituir a atual governante serão suficientes para pôr em prática a política econômica que irá sanar os desequilíbrios e impulsionar um novo ciclo de crescimento econômico. Não se dão conta de que os desequilíbrios existentes têm suas raízes no modelo de política econômica liberal-dependentista, implantado desde o Plano Real e que continua dominante, não obstante os ajustes realizados nos governos do PT.

A classe capitalista acha-se potencialmente dividida, mas ainda não o percebeu inteiramente, em consequência dos interesses contraditórios dos dois segmentos principais que a compõe: o capital produtivo e o capital financeiro.

A baixa rentabilidade do capital produtivo, que desestimula a formação de capital, deriva das transferências de renda que a política fiscal-monetária realiza em favor do capital financeiro, deslocando o conflito para o campo do orçamento fiscal, com o capital produtivo demandando benefícios fiscais e redução da carga tributária, para melhorar a rentabilidade, transformando o superávit fiscal e a taxa de juros, no principais mecanismos de transferência de renda da sociedade para o sistema financeiro e os rentistas, entre os quais eles próprios se incluem.

A crise econômica, ao diminuir a capacidade de geração de superávits fiscais, teve a virtude de trazer para luz do dia os mecanismos através dos quais a Lei de Responsabilidade Fiscal e a dívida pública usam o orçamento fiscal para transferir renda da sociedade para os bancos e os rentistas.

Prova contundente de que a solução não é tão simples quanto substituir a governante de plantão, é a falta de uma proposta alternativa de parte da oposição para tirar o país da crise. Muito pelo contrário, o que vem sendo proposto pela oposição é o mesmo que o governo vem realizando, apenas em menor intensidade, com o custo altíssimo de haver transformado a estagnação em recessão e aumento do desemprego, através da aplicação de um ajuste econômico que acelerou a inflação, aumentou brutalmente as taxas de juros e cortou gastos públicos, na fase declinante do ciclo econômico.

A sociedade, agora, está atravessando uma fase dramática, pois a Presidente para atender pressões da classe capitalista cedeu parcialmente o comando da política econômica e de ministérios importantes a setores da oposição, com o que fragilizou sua capacidade de conduzir reformas profundas que possam tirar o país da crise.

A classe capitalista continua acreditando que é necessário aprofundar as medidas de austeridade, jogando o custo do reajuste sobre a classe trabalhadora e que, para tanto, vale a pena destituir a Presidente, pois ela ainda é um obstáculo a esse propósito.

Quanto tempo ainda vai demorar a classe capitalista para perceber que sem a retomada dos investimentos públicos e a expansão dos gastos da classe trabalhadora não vai haver recuperação do crescimento e que a política de austeridade e de juros extorsivos caminha em direção contrária a esse objetivo?

São por demais evidentes os sinais de que interesses internacionais, através de agentes internos, trabalham à luz do dia para botar as mãos sinistras no petróleo do Pré-Sal, na descaracterização da indústria de defesa, e na destruição do MERCOSUL-UNASUL, últimos baluartes para o aumento da autonomia do processo de desenvolvimento nacional.

À classe trabalhadora resta a alternativa de melhorar sua organização e capacidade de resistência para defender o que ainda resta das conquistas sociais alcançadas nos dois últimos governos e para impedir que a estupidez da classe capitalista conduza a uma ruptura de consequências imprevisíveis do processo democrático.

***

Flavio Lyra é economista da Escola Unicamp. Ex-técnico do IPEA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>