Por Flavio Lyra | Brasília 15/05/2015
Uma avalanche de propaganda liberal-internacionalizante, associada a uma intensa campanha de combate à corrupção, sob a batuta da grande imprensa brasileira, articulada com a imprensa internacional, desabou recentemente sobre a população brasileira e o governo do PT, produzindo estragos consideráveis na vida econômica e política do país.
Aproveitou-se a conjuntura internacional desfavorável e a incapacidade política interna de articular os agentes econômicos cujos interesses poderiam dar sustentação a uma alternativa de política econômica, para desencadear uma campanha de amplo espectro, destinada a soterrar de vez quaisquer possibilidades de o país enveredar por uma via alternativa que a da integração internacional dependente.
As forças econômicas e políticas que poderiam dar sustentação a uma reorientação da política econômica foram flagrantemente derrotadas no primeiro conflito aberto havido desde os anos 90, a partir de quando as reformas realizadas no país se orientaram claramente para fortalecer o papel do mercado e dos capitais internacionais na condução dos destinos da sociedade brasileira, sob a orientação do FMI e do Banco Mundial.
A campanha prestou-se muito bem para transmitir a falsa impressão de que a estagnação econômica, o descontrole dos preços, o desequilíbrio nas contas externas e o déficit, foram consequência da má gestão governamental e não inerentes ao modelo de política econômica liberal-internacionalizante que vem sendo imposto ao país desde os anos 90 e cujo traço mais saliente é o processo de desindustrialização.
Talvez, pela primeira vez, tenham ficado evidenciados os três núcleos de poder em torno dos quais se desenvolve a vida econômica do país: o núcleo da classe trabalhadora; o núcleo das grandes empresas nacionais privadas e estatais; e o restante da economia, que se organiza em torno do núcleo do sistema financeiro privado, com sua íntima articulação com o núcleo externo, sob o comando dos Estados Unidos.
É este último núcleo que tem comandado a política econômica do país, desde o início dos anos 90, sob a forte influência do núcleo externo de poder comandado pelos Estados Unidos, e por seus agentes internacionais (FMI e Banco Mundial), impondo uma política econômica que cerceia as possibilidades do país de avançar industrialmente e que fortalece os vínculos de dependência unilateral frente ao mercado internacional de bens e de capitais.
A mudança de governo no Brasil em 2003, não foi suficiente para permitir inaugurar uma nova abordagem de política econômica. A crise, na qual estamos mergulhados, mostra claramente que alternativa neoliberal que nos vem sendo imposta a ferro e fogo não representa uma saída efetiva compatível com o aproveitamento do potencial do país.
Os bons resultados alcançados nos dez anos iniciais do presente Século, especialmente na área social, foram apenas o reflexo de uma conjuntura internacional favorável, que dificilmente se repetirá. Desse período de bonança, entretanto, restou um passivo imenso em termos de destruição de nossa base industrial e de regresso a uma estrutura de comércio exterior fortemente apoiada em produtos primários.
É possível que a orientação liberal-internacionalizante, que está no comando da economia consiga, ainda por algum tempo, impor à sociedade brasileira os custos de uma política econômica nitidamente recessiva e orientada para reduzir o papel do Estado na economia, cuja preocupação central no momento é transferir para a classe trabalhadora os custos da recuperação da competitividade industrial.
Mas, não haverá como recuperar o processo de crescimento, mantida a propensão do modelo atual de favorecimento da concentração financeira nos bancos e investidores privados, que se alimentam das altas taxas de juros peculiares ao modelo.
Fica cada vez mais evidente que a via do social-desenvolvimentismo é o único caminho para aproveitar o grande potencial da economia brasileira e que, no plano político, a sustentação da política econômica que a viabilizará estará na dependência de um pacto político que associe os interesses da grande indústria nacional e da classe trabalhadora.
A grande indústria nacional, pela grande importância que tem o mercado interno para sua existência e projeção internacional, tenderá normalmente a se afastar da orientação liberalizante internacional, pois ela significa a abertura do mercado nacional ao capital estrangeiro. As grandes empreiteiras de obras públicas, as grandes indústrias siderúrgicas a petroquímica, a indústria do cimento, o complexo industrial formado pela indústria do petróleo e da indústria naval, são todos segmentos produtivos fortemente apoiados no mercado interno, cuja projeção no mercado internacional depende do sucesso alcançado no mercado interno.
Por seu turno, a classe trabalhadora não poderá continuar no futuro se beneficiando dos preços favoráveis de bens importados com base numa taxa de câmbio apreciada e com o financiamento de capital estrangeiro, dependendo a melhoria de suas condições de vida essencialmente da recuperação da dinâmica do mercado interno, com a retomada do processo de industrialização.
A alternativa da via social-desenvolvimentista, embora sob forte pressão momentânea, continuará sendo nos próximos anos, por razões de ordem estrutural, a única que atende aos interesses da classe trabalhadora e da grande indústria nacional.
Entretanto, é muito provável que se desenvolva uma luta política muito intensa entre os defensores do atual modelo de política econômica orientado para integração dependente nos mercados internacionais e as forças políticas que buscam uma via de desenvolvimento com maior autonomia em relação ao núcleo de poder comandado pelos Estados Unidos.
A convergência de interesses entre a classe trabalhadora e as grandes indústrias nacionais pode vir a dar sustentação a um pacto que possibilite viabilizar a substituição do atual modelo de política econômica, mas envolverá certamente grande disputa política, pois o atual modelo goza da simpatia dos Estados Unidos e de organismos multilaterais sob sua influência, assim como de setores importantes da vida econômica nacional que gravitam em torno do núcleo de poder do sistema financeiro, como é o caso do Agrobusiness.
A possibilidade real e concreta de o país encaminhar sua vida econômica por uma via diferente da atual, que permita conciliar o avanço no processo de desenvolvimento com a continuação de realizações em favor da melhoria das condições de vida da população, existe. Materializá-la, entretanto, é uma tarefa árdua e conflituosa, um verdadeiro desafio para o mundo político, que poderá não estar à altura de enfrentá-lo.
As forças que lutam para a manutenção e aprofundamento da via liberal-dependente, estão entrincheiradas, organizadas internamente, e contam com forte apoio internacional. Seus interesses são, entretanto, contraditórios com os interesses da classe trabalhadora e da grande indústria nacional, que têm na alternativa social-desenvolvimentista o único caminho desejável.
A grande campanha realizada contra o governo, o PT e os segmentos da grande indústria nacional, embora tenha justificativas legais para sua existência, não é de maneira alguma um fato acidental, mas sim um conjunto de manobras bem articuladas entre interesses internos e externos voltados para fragilizar os núcleos de poder da classe trabalhadora e das grandes indústrias nacionais e impedirem sua articulação. Articulação que vem sendo promovida, através da ação do BNDES, da PETROBRAS e de outros bancos públicos, na contramão dos interesses dos núcleos de poder que giram em torno do sistema financeiro privado e do governo dos Estados Unidos.
A campanha ainda em marcha tem objetivos muito claros no plano internacional contra a consolidação de um núcleo de poder organizado em torno do BRICS e, na América do Sul, contra o fortalecimento do MERCOSUL-UNASUL, entidades que podem jogar importante papel no aumento do grau de autonomia do Estados nacionais para perseguirem a via social-desenvolvimentista.
Na Economia, assim como na Geologia, é preciso ir além dos movimentos que são observados na superfície para entender a real natureza dos fenômenos sociais e sísmicos que movem a realidade.
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Flavio Lyra é economista da Escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.