O POVO E O PODER

Por Flavio Lyra | Brasília, 24 de fevereiro de 2014

O Poder em nossas sociedades, em suas dimensões econômica, ideológica e política, sempre esteve concentrado, quer direta, quer indiretamente, nas mãos de uma minoria da população, a elite econômica que, como proprietária da maior parte da riqueza, da renda e dos meios de comunicação, também consegue controlar o poder político.

Nossos aparelhos estatais e as leis que os regem foram constituídos e são administrados, tendo em vista preservar a dominação que essa elite exerce sobre a maioria da população, o povo.

Acontece que a elite econômica não pode prescindir do trabalho do povo, tanto para a produção da riqueza, quanto para o consumo desta, sendo obrigada a aceitar que uma parcela dos resultados da atividade econômica flua em favor da população, mas não está disposta nunca a abrir mão do privilégio de, embora sendo uma minoria, se apropriar de uma parcela proporcionalmente muito grande dos bens e serviços produzidos.

Qualquer ameaça de parte do povo, por menor que seja, ao Poder Político da elite, desencadeia reações terríveis, destinadas a impedir que o povo aumente seu poder nessa esfera, ou seja, no aparelho de Estado, pois isto criaria as condições para mudar as regras em que se baseia a distribuição da riqueza e da renda, que nada mais são do que a contrapartida dos bens e serviços que resultam da atividade econômica.

Atualmente, a sociedade brasileira tem estado mergulhada numa fase aguda dessa disputa pelo Poder entre o povo e a elite, duplamente. Por um lado, coloca-se a disputa entre a elite econômica das grandes potências do mundo, que usam o Poder de seus Estados, para facilitar seu domínio sobre nossa atividade econômica.

Essa disputa entre os interesses nacionais e as grandes corporações privadas internacionais intensificou-se a partir dos ano 70, com o chamado processo de globalização e nos dias atuais acha-se atravessando uma fase de turbulência e de forte contestação, não só nos países centrais, mas também nos países com potencial para se afirmarem como potências de segundo nível, como é o caso dos BRICS, em que se inclui o Brasil.

Por outro lado, nossa própria elite, diante de quatro derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, busca por todos os meios reforçar seu domínio político sobre o povo, desfechando uma forte ofensiva contra as organizações populares, visando impedir mudanças nas regras do jogo político que possam servir para aumentar a participação do povo na condução dos destinos do país.

À falta de alternativas capazes de mobilizar o povo contra o governo e o partido político que lhe dá sustentação, a elite desfraldou, hipocritamente, a bandeira da luta contra a corrupção, esquecendo que ela tem sido a grande beneficiária dessa prática e a principal responsável pela existência do arcabouço jurídico-político que lhe dá sustentação.

A resistência de setores dos Poderes Legislativo e Judiciário em pôr fim ao financiamento de empresas às campanhas eleitorais, serve de exemplo insofismável do afirmado.

Em atitude irresponsável, a elite, através da grande imprensa, deflagrou uma campanha baseada em denúncias e vazamento de informações do Poder Judiciário e da Polícia Federal, que vem provocando prejuízos irreparáveis a mais importante empresa do país, A PETROBRAS, e a própria imagem do país, num momento crítico em que é enfrentado o desafio de reordenar a economia para alcançar um novo ciclo de expansão.

Nesse quadro, ressalta a perda crescente de substância do sentimento de nacionalidade. Em outras palavras, a ideia de nação brasileira está em franco processo de esmaecimento, como resultados das investidas da elites nacional e internacional contra o Estado brasileiro, em nome da valorização do mercado como orientador da atividade econômica, num contexto de grande indiferença do povo e de suas organizações frente à questão da sobrevivência da Nação brasileira.

A chegada do povo ao centro do Poder político a partir de 2003, através de um partido de base popular, o PT, ainda que sem capacidade de produzir alterações significativas nas estruturas do Poder, possibilitou a conquista de melhorias significativas para o povo na distribuição dos resultados da atividade econômica.

Em decorrência, a elite econômica nacional tem se sentindo ameaçada, quanto à manutenção da posição dominante que tradicionalmente tem ocupado no controle da atividade econômica, no domínio ideológico e no controle do aparelho estatal.

O Estado nacional tem estado, desde estão, na alça de mira das elites internacional e nacional. No caso da primeira, principalmente em razão do Estado Nacional ser um obstáculo ao domínio das grandes corporações internacionais, e da elite que elas representam, sobre o mercado e os recursos naturais do país. No segundo caso, por que o Estado nacional vem sendo mobilizado, ainda que moderadamente, para fazer avançar transformações na área social, que penalizam os interesses econômicos da elite e ameaçam seu domínio político.

O resgate do sentimento de nacionalidade pelo povo, ao lado da luta por participação crescente nos centros de decisão de um Estado crescentemente fortalecido são, assim, de fundamental importância para que esse mesmo povo possa alcançar novas conquistas no plano social, o que vai depender naturalmente de o país avançar em seu processo de desenvolvimento.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

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