GOVERNO ENCURRALADO

Por Flavio Lyra | Brasília, 03 de fevereiro de 2015

O governo Dilma acha-se nitidamente encurralado e, pouco a pouco, vai sendo obrigado a entregar os comandos dos poderes econômico e político aos representantes do mercado e a retroceder nos campos da política social e da busca de maior autonomia na condução do processo de desenvolvimento.

A derrota na disputa pela presidência da Câmara de Deputados e a entrega do comando da economia a um funcionário do BRADESCO, de formação econômica notoriamente ortodoxa, ao lado das primeiras medidas de política econômica adotadas de restrição fiscal e aumento da taxa de juros básica, representam apenas elementos da nova configuração de governamentalidade em implementação.

O próximo passo deverá ocorrer com a substituição do presidente e da diretoria da PETROBRAS nos próximos dias, que os porta-vozes do mercado já recomendam ser um nome prestigiado pelo mercado e, como tal, apto a “recuperar a credibilidade da empresa”.

Como parte dessa operação, tais porta-vozes, já falam claramente em alterar a legislação que estabelece a participação mínima da Petrobras de 30% na exploração das jazidas do Pre-sal, para retornar ao regime de concessão, tão admirado pelas grandes empresas internacionais e tão predador dos interesses nacionais.

A presidente Dilma caminha a passos largos para sua rendição total, alimentando a ilusão de que vai dispor do poder para proteger as conquistas da classe trabalhadora, numa atitude de voluntarismo quase ingênuo, pois a cada dia que passa as alavancas do poder ficam mais distantes de seu alcance.

Restaria indagar como vai poder realizar essa façanha sem poder contar com uma base política que lhe dê sustentação no Congresso, com um Poder Judiciário, no melhor dos casos indiferente a seu destino, e com uma base social que se mobilizou para assegurar a vitória eleitoral, mas que será forte e crescentemente penalizada pela nova política econômica.

A estratégia de negociar com os adversários, na qual Lula se considera um especialista, somente poderá trazer alguma vantagem se houver fatias do poder a negociar. Na marcha em que as coisas vão, os adversários tenderão a não querer sentar à mesa de negociação, pois já não haverá o que negociar.

É bem conhecido o dito de que “quem deseja a paz se prepara para guerra”. O governo e o PT precisam despertar do sonho metafísico que acalenta seu sono e partir imediatamente para mobilizar as forças sociais que poderão ainda dar sustentação ao seu governo.

Essas forças são a única e verdadeira fonte de poder que os adversários considerarão capazes de forçá-los a vir à mesa de negociação para o governo tentar salvar as conquistas sociais alcançadas. Mas, essas forças precisam de liderança e da convicção de que o governo que elegeram e o partido que lhe dá sustentação, são capazes efetivamente de os liderarem na defesa de seus interesses e não se transformaram em meros reféns inofensivos do mercado e de seus representantes no meio econômico e político.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

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