O POVO E O PODER

Por Flavio Lyra | Brasília, 24 de fevereiro de 2014

O Poder em nossas sociedades, em suas dimensões econômica, ideológica e política, sempre esteve concentrado, quer direta, quer indiretamente, nas mãos de uma minoria da população, a elite econômica que, como proprietária da maior parte da riqueza, da renda e dos meios de comunicação, também consegue controlar o poder político.

Nossos aparelhos estatais e as leis que os regem foram constituídos e são administrados, tendo em vista preservar a dominação que essa elite exerce sobre a maioria da população, o povo.

Acontece que a elite econômica não pode prescindir do trabalho do povo, tanto para a produção da riqueza, quanto para o consumo desta, sendo obrigada a aceitar que uma parcela dos resultados da atividade econômica flua em favor da população, mas não está disposta nunca a abrir mão do privilégio de, embora sendo uma minoria, se apropriar de uma parcela proporcionalmente muito grande dos bens e serviços produzidos.

Qualquer ameaça de parte do povo, por menor que seja, ao Poder Político da elite, desencadeia reações terríveis, destinadas a impedir que o povo aumente seu poder nessa esfera, ou seja, no aparelho de Estado, pois isto criaria as condições para mudar as regras em que se baseia a distribuição da riqueza e da renda, que nada mais são do que a contrapartida dos bens e serviços que resultam da atividade econômica.

Atualmente, a sociedade brasileira tem estado mergulhada numa fase aguda dessa disputa pelo Poder entre o povo e a elite, duplamente. Por um lado, coloca-se a disputa entre a elite econômica das grandes potências do mundo, que usam o Poder de seus Estados, para facilitar seu domínio sobre nossa atividade econômica.

Essa disputa entre os interesses nacionais e as grandes corporações privadas internacionais intensificou-se a partir dos ano 70, com o chamado processo de globalização e nos dias atuais acha-se atravessando uma fase de turbulência e de forte contestação, não só nos países centrais, mas também nos países com potencial para se afirmarem como potências de segundo nível, como é o caso dos BRICS, em que se inclui o Brasil.

Por outro lado, nossa própria elite, diante de quatro derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, busca por todos os meios reforçar seu domínio político sobre o povo, desfechando uma forte ofensiva contra as organizações populares, visando impedir mudanças nas regras do jogo político que possam servir para aumentar a participação do povo na condução dos destinos do país.

À falta de alternativas capazes de mobilizar o povo contra o governo e o partido político que lhe dá sustentação, a elite desfraldou, hipocritamente, a bandeira da luta contra a corrupção, esquecendo que ela tem sido a grande beneficiária dessa prática e a principal responsável pela existência do arcabouço jurídico-político que lhe dá sustentação.

A resistência de setores dos Poderes Legislativo e Judiciário em pôr fim ao financiamento de empresas às campanhas eleitorais, serve de exemplo insofismável do afirmado.

Em atitude irresponsável, a elite, através da grande imprensa, deflagrou uma campanha baseada em denúncias e vazamento de informações do Poder Judiciário e da Polícia Federal, que vem provocando prejuízos irreparáveis a mais importante empresa do país, A PETROBRAS, e a própria imagem do país, num momento crítico em que é enfrentado o desafio de reordenar a economia para alcançar um novo ciclo de expansão.

Nesse quadro, ressalta a perda crescente de substância do sentimento de nacionalidade. Em outras palavras, a ideia de nação brasileira está em franco processo de esmaecimento, como resultados das investidas da elites nacional e internacional contra o Estado brasileiro, em nome da valorização do mercado como orientador da atividade econômica, num contexto de grande indiferença do povo e de suas organizações frente à questão da sobrevivência da Nação brasileira.

A chegada do povo ao centro do Poder político a partir de 2003, através de um partido de base popular, o PT, ainda que sem capacidade de produzir alterações significativas nas estruturas do Poder, possibilitou a conquista de melhorias significativas para o povo na distribuição dos resultados da atividade econômica.

Em decorrência, a elite econômica nacional tem se sentindo ameaçada, quanto à manutenção da posição dominante que tradicionalmente tem ocupado no controle da atividade econômica, no domínio ideológico e no controle do aparelho estatal.

O Estado nacional tem estado, desde estão, na alça de mira das elites internacional e nacional. No caso da primeira, principalmente em razão do Estado Nacional ser um obstáculo ao domínio das grandes corporações internacionais, e da elite que elas representam, sobre o mercado e os recursos naturais do país. No segundo caso, por que o Estado nacional vem sendo mobilizado, ainda que moderadamente, para fazer avançar transformações na área social, que penalizam os interesses econômicos da elite e ameaçam seu domínio político.

O resgate do sentimento de nacionalidade pelo povo, ao lado da luta por participação crescente nos centros de decisão de um Estado crescentemente fortalecido são, assim, de fundamental importância para que esse mesmo povo possa alcançar novas conquistas no plano social, o que vai depender naturalmente de o país avançar em seu processo de desenvolvimento.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

A ELITE EM GUERRA CONTRA O POVO

Por Flavio Lyra | Brasília, 11/02/2015

Em qualquer parte da terra a elite sempre esteve contra à chegada da classe trabalhadora ao poder, pois isto significa uma ameaça a seus privilégios, mormente em sociedade com grandes desigualdades sociais, como o Brasil.

Não é portanto de admirar que a elite se utilize das instituições políticas para assegurar e preservar sua dominação sobre o povo.

O avanço democrático, particularmente em alguns países da América Latina, entretanto, tem possibilitado ao povo eleger cada vez maior número de representantes, o que tem favorecido a instauração de governos preocupados com o aumentar o bem-estar de amplos segmentos da população.

O povo brasileiro, chegou pela primeira ao centro do poder em 2003, com a vitória de Lula na eleição presidencial, depois de 21 anos de ditadura e do fracasso dos governos de Sarney, Collor-Itamar e FCH para melhorar significativamente as condições de vida da maior parte da população.

A criação do Partido dos Trabalhadores, em 1979, e a mobilização da população por movimentos sociais, inicialmente como resistência à ditadura e, posteriormente, como consequência do descrédito gerado pelos governos que se seguiram, foram fundamentais para que o povo saísse às ruas e elegesse lideranças provenientes do povo para comandar a Presidência da República, vários governos estaduais e municipais e numerosos parlamentares.

A elite brasileira nunca aceitou de bom grado ser substituída no centro do poder por lideranças provenientes do povo e deu clara demonstração disto depois da vitória eleitoral de Lula em 2003, quando criou um clima e expectativas negativas em relação ao desempenho futuro do governo recém-eleito.

A “Carta aos Brasileiros”, dirigida por Lula à população, na qual ele se comprometeu a manter os rumos da política econômica, abandonando o programa de governo anteriormente preparado pelo PT, serviu para acalmar os ânimos da elite e, assim, permitir que o novo governo se instalasse e passasse a governar, em boa medida, nos termos que convinham à elite.

A conjuntura econômica internacional favorável e o aproveitamento dos espaços vazios na legislação, permitiram que os governos do PT, realizassem ações que melhoraram significativamente as condições de vida da maioria da população, além de possibilitarem taxas razoáveis de crescimento econômico, mesmo nos dois anos que se seguiram à crise econômico-financeira internacional, iniciada em 2008, da qual o mundo ainda não se livrou.

A elite realizou seu primeiro ato de guerra contra os governos do PT, através do chamado “mensalão”, processo deflagrado por denúncias de corrupção referentes uso de doações ilegais de empresas a partidos políticos, realizadas por um deputado federal de passado controvertido em matéria de austeridade na movimentação de tais recursos.

Setores do poder judiciário foram, então, mobilizados para encontrar um mecanismo legal (não havia legislação sobre essa matéria), adequado para condenar os dirigentes do PT, e de outros partidos, envolvidos com o uso de recursos provenientes de contribuições “ilegais” de empresas para o financiamento de partidos políticos.

Para condenar alguns dirigentes do PT, o STF em verdadeiro malabarismo jurídico, teve que se socorrer de um dispositivo jurídico no direito alemão, denominado de “domínio do fato”, que permitiu inculpar, sem provas, dirigentes políticos, cujos subordinados teriam infringido a lei.

Foi dado, assim, mais um passo na direção de tentar desorganizar o governo e de incompatibilizar a população com o PT, utilizando-se do discurso contra a corrupção, sabidamente um fenômeno generalizado nas relações entre a administração pública e as empresas privadas que executam suas obras, independentemente dos partidos que estejam no poder.

Os bons resultados alcançados na área econômica e na melhoria das condições de vida da população, pelo menos até 2010, não obstante a crise internacional iniciada em 2008, permitiram, até certo ponto neutralizar a campanha insidiosa liderada pela grande imprensa contra o governo e o PT.

Na eleição de 2010, mais uma vez o PT conseguiu comandar uma campanha vitoriosa, com a eleição de Dilma para a Presidência da República, evidenciando as dificuldades da elite para afastar os representantes populares do centro do poder.

No quadro de crise internacional durante os anos 2010-2014, esgotado o arsenal de instrumentos que o governo vinha utilizando para manter a economia crescendo, com base na expansão do consumo e, diante do fastio do empresariado privado para iniciar um novo ciclo de investimento, não obstante fartos estímulos concedidos pelo governo, a atividade econômica perdeu dinamismo, começaram a haver dificuldades para controlar as pressões inflacionárias e surgiram crescentes desequilíbrios nas contas fiscais e do comércio exterior.

O chamado “escândalo da PETROBRAS”, baseado na ação investigativa da Polícia Federal na operação chamada de “lava a jato” que comprovou a existência de conluio, entre dirigentes dessa empresa e grandes empreiteiras nacionais, para superfaturar obras em benefício desses dirigentes, das próprias empresas e de partidos políticos, apareceu em boa hora para alimentar as expectativas da elite de impor uma derrota ao governo nas eleições de 2014.

Acentuou-se, então, sobremaneira a campanha da grande imprensa contra o governo e o PT, agora supostamente munida de argumentos de má administração econômica do país e atos de corrupção na PETROBRAS.

Mesmo nesse quadro desfavorável, a candidata à reeleição ganhou a eleição, graças ao apoio da população mais pobre que havia sido muito beneficiada pela política social do governo.

Setores da elite não aceitaram a derrota e agora defendem abertamente afastar a presidente, através de um ato legal (impeachment), por considerá-la responsável pelos desvios de recursos na PETROBRAS.

É possível, assim, chegar-se a várias conclusões sobre a realidade examinada:

1. A corrupção tem sido inerente ao funcionamento de nossas instituições no atual estágio de nossa democracia e somente poderá ser combatida eficazmente a partir de mudanças profundas nos órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, que os tornem mais transparentes e democráticos.

2. A elite brasileira está crescentemente insatisfeita com a presença da classe trabalhadora no centro do poder e tendo constatado a dificuldade de reassumir o comando do governo pela via eleitoral, se utiliza de denúncias de corrupção como meio para incompatibilizar o governo e o PT com seu eleitorado;

3. Setores dos poderes Judiciário e Legislativo e do próprio Poder Executivo, têm sido mobilizados pela elite em sua guerra contra a classe trabalhadora e os partidos e movimentos sociais que defendem seus interesses.

4. O povo deve apoiar as ações de combate à corrupção, mas nunca posicionar-se ao lado da elite contra o governo e o PT, pois o verdadeiro objetivo da elite não é combater a corrupção, da qual ela é a principal beneficiária, mas sim afastar os representantes do povo do centro do poder.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

O MERCADO CONTRA O ESTADO DESENVOLVIMENTISTA

Por Flavio Lyra | Brasília, 07 de fevereiro de 2015

Para o observador comum da vida econômica e política do Brasil no período recente e, mormente, durante a última campanha eleitoral até os dias atuais, nem sempre é fácil perceber que a investida agressiva que as forças representativas dos interesses dos grandes grupos econômicos e financeiros nacionais e internacionais vem realizando contra o governo, representa apenas uma etapa de um processo global iniciado nos anos 70 nos governos de Reagan nos Estados Unidos e Margaret Thatcher na Inglaterra.

Esse processo, liderado pelos grandes corporações privadas internacionais, visa estender seu domínio sobre vida econômica e política da humanidade e, para tanto, se apoia ideologicamente numa concepção de organização da vida dos homens, denominada de neoliberalismo.

A essência do neoliberalismo consiste na aceitação do mercado, (da empresa privada e da concorrência) como a forma ideal de coordenação, não apenas da atividade econômica, mas também da atividade política, da vida moral etc. dos povos, na verdade a inteira “mercadização” da vida.

A concepção neoliberal busca instituir uma forma de governabilidade que representa uma verdadeira “ditadura do mercado”, considerada a forma mais eficiente, enquanto “científica”, de proceder na tomada das decisões que movem a atividade e as relações humanas.

Segundo essa ótica, toda e qualquer forma de ação estatal destinada a complementar ou corrigir o funcionamento dos mercados, especialmente no campo da proteção social é considerada desnecessária e redutora da eficiência nos uso dos recursos materiais e humanos.

O Estado desenvolvimentista, que se propõe a mobilizar o poder político da sociedade para regular e influenciar a atividade econômica na direção de objetivos da coletividade em seu conjunto, aparece necessariamente como o alvo a ser destroçado pela artilharia intelectual e propagandística da visão neoliberal.

A intervenção estatal é aceita pelo neoliberalismo, apenas como forma de criar a moldura institucional para o funcionamento livre dos mercados e da concorrência, pois qualquer visão da realidade que a suponha a existência de categorias que representem o conjunto da sociedade ou grupos e classes sociais é rejeitada de antemão. A macroeconomia como tal não existe para o neoliberalismo, daí sua aversão absoluta ao pensamento keynesiano.

Acontece que a concepção neoliberal de organização da vida social, acha-se sujeita a contestação crescente em todo o mundo, mormente depois da crise econômica iniciada em 2008 na principal potência capitalista, os Estados Unidos, que logo se estendeu ao resto do mundo.

São muitas as razões para essa contestação, a começar com a comprovação de que os mercados desregulados não são eficientes, como se pretendeu demonstrar, e podem dar origem a graves desequilíbrios no funcionamento da atividade econômica e a enorme desperdício de recursos produtivos, com repercussões profundas sobre as condições de vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, condenadas ao desemprego em meio à folgada disponibilidade de outros meios produtivos, que permanecem ociosos.

Adicionalmente, são notórios os efeitos concentradores da renda e da riqueza que tem tomado forma na maioria dos países e entre os países, favorecendo sempre as minorias mais ricas em detrimento do restante da população. A própria classe média, cuja expansão era anunciada a quatro ventos como a grande realização das economias desenvolvidas, acha-se em processo de contração e de empobrecimento.

É igualmente evidente que se agravam a cada dia as condições do clima físico no planeta, com muitas de suas consequências negativas já manifestas em quase toda parte, numa demonstração de que o funcionamento dos mercados desregulados em nada contribui para a atenuação desse grave problema sendo, ao contrário, seu principal causador.

As decisões no nível de entidades descentralizadas visando o lucro e sem visão dos impactos globais sobre a natureza, têm produzido verdadeira catástrofe ambiental na terra.

Por outro lado, as guerras, as sanções econômicas e a moeda dominam o cenário internacional, com as grandes potências utilizando-as como instrumento de manutenção do controle dos mercados e dos recursos naturais por suas grandes corporações privadas, através da ação estatal deliberada, numa atitude paradoxal em relação aos princípios do próprio neoliberalismo, que discordam da existência de categorias gerais na realidade.

É nesse contexto mais amplo que é preciso situar os acontecimentos na área econômica e política, que atualmente se manifestam Brasil, sem o que se torna impossível submetê-los a um julgamento criterioso.

Os governos do PT, não obstante suas ambiguidades, têm se situado dentro de uma concepção de estado desenvolvimentista, com a mobilização das instituições estatais para a realização de um projeto de desenvolvimento econômico e social para o país contrariando, em boa medida, a concepção neoliberal de governamentalidade.

Os instrumentos dessa política têm sido os grandes e poderosos bancos estatais, fortalecidos nos governos do PT, como o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, ao lado de grandes empresas em setores estratégicos como a PETROBRAS no campo do petróleo e gás e da ELETROBRAS no campo da energia elétrica. Não sem razão, portanto, elas constituem certamente alvos perseguidos com afinco pelos detentores do capital privado e adeptos da visão mercadista da realidade, que pretendem vê-las seguir o mesmo caminho das muitas empresas estatais em setores básicos, privatizadas em governos anteriores.

Além disto, contraria os interesses das grandes potências e de seus representantes internos, a autonomia alcançada pelo país na execução da política externa, mediante a qual busca-se reforçar seu poder de barganha nos fóruns internacionais, a exemplo de suas alianças com outros países da região e do resto do mundo, como é o caso do MERCOSUL-UNASUL e dos BRICS, num cenário internacional em que as ditas grandes potências buscam por todos os meios impedir o aparecimento de novos competidores, novos centros de poder.

Os parâmetros gerais mencionados permitem qualificar a gravidade da atual crise política do país, e entender como a luta pelo controle do governo numa democracia assume a forma de um conflito aberto e destrutivo que se utiliza de denúncias generalizadas de corrupção para fragilizar o governo e incompatibilizar a população com o partido político que lhe dá sustentação.

O que está em jogo na realidade é uma disputa ferrenha, de características fratricidas, pelo controle do poder político, entre as forças que defendem o mercado na condução da vida econômica e política do país, e as forças que se situam do lado da mobilização do estado para sua utilização em favor do desenvolvimento econômico e social.

Os rumos que essa disputa tomará vão depender, em medida substancial, da capacidade das lideranças políticas para mobilizar a população em função de seus objetivos reais e concretos, que acabam sendo afetados pelas denúncias e medidas judiciais contra a corrupção, mas que no fundo situam-se em outra esfera, que é a da disputa entre duas formas de comandar a vida econômica do país e seus destinos daqui para frente.

A corrupção precisa ser combatida, obviamente, pois seus efeitos perniciosos não podem ser descartados, mas é fundamental não permitir que seu combate se transforme numa cortina de fumaça que se preste para ocultar aos olhos da população os problemas maiores que estão muito presentes e que precisam ser enfrentados com decisão, sob pena de prejudicarem definitivamente os interesses da população brasileira.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

GOVERNO ENCURRALADO

Por Flavio Lyra | Brasília, 03 de fevereiro de 2015

O governo Dilma acha-se nitidamente encurralado e, pouco a pouco, vai sendo obrigado a entregar os comandos dos poderes econômico e político aos representantes do mercado e a retroceder nos campos da política social e da busca de maior autonomia na condução do processo de desenvolvimento.

A derrota na disputa pela presidência da Câmara de Deputados e a entrega do comando da economia a um funcionário do BRADESCO, de formação econômica notoriamente ortodoxa, ao lado das primeiras medidas de política econômica adotadas de restrição fiscal e aumento da taxa de juros básica, representam apenas elementos da nova configuração de governamentalidade em implementação.

O próximo passo deverá ocorrer com a substituição do presidente e da diretoria da PETROBRAS nos próximos dias, que os porta-vozes do mercado já recomendam ser um nome prestigiado pelo mercado e, como tal, apto a “recuperar a credibilidade da empresa”.

Como parte dessa operação, tais porta-vozes, já falam claramente em alterar a legislação que estabelece a participação mínima da Petrobras de 30% na exploração das jazidas do Pre-sal, para retornar ao regime de concessão, tão admirado pelas grandes empresas internacionais e tão predador dos interesses nacionais.

A presidente Dilma caminha a passos largos para sua rendição total, alimentando a ilusão de que vai dispor do poder para proteger as conquistas da classe trabalhadora, numa atitude de voluntarismo quase ingênuo, pois a cada dia que passa as alavancas do poder ficam mais distantes de seu alcance.

Restaria indagar como vai poder realizar essa façanha sem poder contar com uma base política que lhe dê sustentação no Congresso, com um Poder Judiciário, no melhor dos casos indiferente a seu destino, e com uma base social que se mobilizou para assegurar a vitória eleitoral, mas que será forte e crescentemente penalizada pela nova política econômica.

A estratégia de negociar com os adversários, na qual Lula se considera um especialista, somente poderá trazer alguma vantagem se houver fatias do poder a negociar. Na marcha em que as coisas vão, os adversários tenderão a não querer sentar à mesa de negociação, pois já não haverá o que negociar.

É bem conhecido o dito de que “quem deseja a paz se prepara para guerra”. O governo e o PT precisam despertar do sonho metafísico que acalenta seu sono e partir imediatamente para mobilizar as forças sociais que poderão ainda dar sustentação ao seu governo.

Essas forças são a única e verdadeira fonte de poder que os adversários considerarão capazes de forçá-los a vir à mesa de negociação para o governo tentar salvar as conquistas sociais alcançadas. Mas, essas forças precisam de liderança e da convicção de que o governo que elegeram e o partido que lhe dá sustentação, são capazes efetivamente de os liderarem na defesa de seus interesses e não se transformaram em meros reféns inofensivos do mercado e de seus representantes no meio econômico e político.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

O COMBATE SELETIVO À CORRUPÇÃO É ARMA ANTIDESENVOLVIMENTISTA

Por Flavio Lyra | Brasília, 31 de janeiro de 2015.

A elite econômica brasileira e seus adeptos da classe média, conseguiram o feito notável de trazer para o centro das preocupações do país o tema moralista do combate à corrupção, relegando as questões sociais e do desenvolvimento econômico a um plano secundário e subordinado ao primeiro.

Fizeram-no devidamente apoiados e conduzidos pela grande imprensa nacional, contando sempre com as oportunas intervenções dos grandes órgãos da imprensa internacional, cuja tarefa primordial é defender a ideologia liberal sob a qual se escondem os interesses das grandes corporações internacionais que comandam o sistema capitalista.

Aproveitaram inteligentemente a campanha eleitoral para inocular na opinião pública a impressão de que o grande problema do Brasil é a corrupção e que os governos do PT são os grandes responsáveis por sua existência e propagação nos últimos tempos.

Com essa atitude têm procurado ofuscar os impactos positivos dos governos do PT em dois campos fundamentais para os destinos da sociedade brasileira: a melhoria das condições de vida dos segmentos mais pobres da população; e a reorientação da agenda da política econômica para o desenvolvimento econômico.

Não foram inteiramente bem sucedidos no que respeita ao primeiro aspecto, pois graças à mobilização popular, influenciada pelas políticas sociais dos governos do PT, não conseguiram eleger seu candidato à Presidência da República.

No que toca, porém, à questão da orientação da agenda da política econômica para questão do desenvolvimento econômico do país, conseguiram dois feitos notáveis: a) assumir o comando da política econômica do país e, assim, substituir a agenda das questões de desenvolvimento econômico e social pelas do equilíbrio macroeconômico de curto prazo, focado no ajuste fiscal e no aumento da taxa básica de juros; e b) trazer para o centro do debate na sociedade brasileira à questão da corrupção centrada no chamado escândalo da PETROBRAS, o que também repercute negativamente sobre a agenda de desenvolvimento do país.

A PETROBRAS e as maiores empreiteiras que lhe fornecem serviços participam dos projetos mais importantes de investimento em realização no país.

A ação da Polícia Federal e do Poder Judiciário na condução das investigações contra a corrupção provocaram uma crise de grande magnitude na gestão dessas empresas, prejudicando sensivelmente a atuação delas e de suas relações com outras empresas e com o mercado financeiro.

A elite econômica do país perdeu na eleição, mas está sendo amplamente vitoriosa na destruição e no debilitamento da estrutura econômica do país, tanto pelas mudanças realizadas na política econômica, quanto pelos prejuízos que tem causado às empresas executoras e aos vários projetos de investimento de grande importância para o desenvolvimento do país sob sua responsabilidade.

No caso da PETROBRAS merecem ser destacados pelos vultosos prejuízos que estão sofrendo: o projeto de exploração do Petróleo do Pre-sal; o de expansão da indústria naval (navios e plataformas); e vários outros projetos de produção de bens de capital destinados aumentar o conteúdo de produção nacional no abastecimento da demanda da Petrobras.

É notório que o prejuízo que a PETROBRAS deve ter tido com o sobre-preço pago às empreiteiras, estimado em R$ 4,5 bilhões em oito anos, jamais poderia ser suficiente para produzir os prejuízos incalculáveis que está acarretando ao desenvolvimento do país, não fosse a campanha sistemática contra a corrupção que tomou conta da sociedade brasileira.

A grande imprensa, por exemplo, tem sido incapaz de mostrar que a aludida cifra não representa mais do que 1,1% do valor dos juros sobre a dívida pública que o governo paga anualmente e que vai engordar a riqueza dos bancos e dos investidores financeiros nacionais e estrangeiros.

Só o aumento de 0,5 % da taxa Selic, que remunera a dívida pública, na última reunião do COPOM, deve representar em apenas um ano cerca de 4 vezes o prejuízo da PETROBRAS em oito anos.

Infelizmente, a sociedade não é informada sobre esses detalhes e pode assim ser manipulada contra seus reais interesses por uma elite econômica estúpida que, na defesa de seus privilégios e interesses de curto-prazo, propõem-se a desmoralizar os governos do PT, mesmo que às custas do desenvolvimento econômico do país.

Para essa elite, tais governos precisam ser desmoralizados, de modo a que não sigam cometendo as heresias de pretender reduzir as desigualdades sociais e de recuperar o poder de levar adiante uma política de desenvolvimento que fortaleça a posição do país no cenário internacional, contrariando os interesses hegemônicos das grandes potências e das corporações internacionais de que são representantes.

A ampla campanha anticorrupção que vêm conduzindo, portanto, cai como uma luva para essa elite, que já não tem qualquer compromisso com o interesse nacional, pois, há um só tempo, contribui para debilitar o governo e obrigá-lo a render-se à realização de uma política econômica descomprometida com os interesses populares, e impede levar adiante ações destinadas ao aumentar o grau de autonomia nacional frente aos interesses das grandes potências e das grandes corporações internacionais de que são representantes.

Eis, pois, o moralismo estúpido, a mentalidade policialesca, a pobreza de um judicialismo míope e uma imprensa mercenária, todos a serviço de uma elite econômica medíocre, dedicada à defesa de seus privilégios corporativos, que não consegue liderar um processo desenvolvimento que aproveite as grandes potencialidades do Brasil para beneficiar seu povo.

Tem-se, assim, um retrato sem retoques do capitalismo brasileiro na atual quadra.

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Flavio Lyra é economista da escola da UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.