AS CLASSES DOMINANTES E OS HERÓIS POPULARES
Brasília, 07 de dezembro de 2013. Flavio lyra
Os seres oprimidos de todo o mundo e, particularmente, da África do Sul estão de luto. Desapareceu definitivamente do seio da humanidade Nelson Mandela, um ser muito especial, um símbolo magno da luta contra a injustiça social do racismo institucionalizado. Um homem que dedicou sua vida e sacrificou a própria saúde em defesa de uma causa humanitária: o resgate da dignidade dos negros da África do Sul, sujeitos a viver em um regime de opressão e discriminação, o Apartheid, na própria terra em que nasceram seus ancestrais. Os imigrantes brancos colonizadores os mantiveram por muitos anos sujeitos à exploração econômica e à condição de seres inferiores e desprovidos dos direitos mais elementares.
Mandela foi o general vencedor de uma batalha muito importante de uma guerra mais ampla que apenas começou, pois as desigualdades sociais na África do Sul ainda permanecem muito vivas e para serem atenuadas ainda vão requerer muita luta contra as formas atuais de exploração capitalista.
O surpreendente, porém, é a unanimidade com que em todas as partes do mundo, Mandela está sendo cultuado pelas classes dominantes dos países que, diretamente ou indiretamente, apoiaram no passado os governos brancos da África do Sul e que, em última instância, foram o berço dos imigrantes brancos que lá instalaram o regime de exploração e opressão ao povo nativo. Mandela, que durante 27 anos suportou os grilhões da prisão em sua própria terra, onde era considerado um bandido pela classe dominante, agora é aceito pelas elites dos grandes países como um verdadeiro herói. Os governantes das grandes nações não têm poupado elogios ao antigo prisioneiro das masmorras da África do Sul, que agora nos deixa para sempre.
Fica-nos a indagação, por que as classes dominantes se mostram tão flexíveis em suas avaliações sobre personalidades com papel importante na defesa dos interesses das classes oprimidas? Como é possível que líderes populares antes denegridos, perseguidos, torturados e muitas vezes assassinados possam, tempos depois, ser aceitos como heróis?
A explicação é muito simples: as classes dominantes precisam manter uma boa imagem junto ao povo e demonstrar que comunga de valores comuns. Para tanto, não se furtam a render homenagens a heróis populares que lutaram por causas populares que já não constituem ameaças a seus interesses. Ao capitalismo atual já não interessa preservar a discriminação racial.
Não deixará de ser patética e paradoxal a presença do presidente Barack Obama no funeral do homem que resgatou a África do Sul das mãos dos colonizadores brancos, enquanto os aviões não tripulados das forças de segurança dos Estados Unidos, os terríveis “drones” assassinam diariamente os mandelas que lutam pela soberania de seus povos no Paquistão, na Afeganistão e no Oriente Médio.
No grande país do Norte, há muito já não causa temor erigir monumentos a heróis como Lincoln, a Martin Luther King e a outros que lutaram contra a discriminação racial. As armas agora estão voltadas, internamente para manter submissas as vítimas das crescentes desigualdades sociais ali existentes e, externamente, para combater os movimentos nacionais que se rebelam contra o domínio crescente das grandes corporações privadas. As prioridades têm sido demonizar Fidel Castro, Chaves e tantos outros dirigentes políticos que lutam pela soberania de suas nações.
Muitos dos heróis de nossa história, que hoje cultuamos, cabem perfeitamente nessa categoria de bandidos que se transformaram em heróis com o passar do tempo e o desaparecimento dos conflitos em que estiveram envolvidos na defesa dos oprimidos.
A classe dominante no Brasil cultua aberta e calorosamente o negro Zumbi do Quilombo dos Palmares, assassinado na luta contra os senhores de engenho de açúcar no Nordeste; também são os casos de Tiradentes, esquartejado e com seus restos mortais colocados em praça pública na chamada Inconfidência Mineira que conspirava pela Independência do Brasil e de Frei Caneca, fuzilado, por seus ideais independentistas.
No momento atual, a Justiça brasileira, ao condenar a prisão homens do calibre moral de José Genuíno e de José Dirceu, que tiveram papel tão importante na luta contra a ditadura no Brasil e, posteriormente, com a criação do PT, em torno do qual se organizaram as forças populares, muito contribuíram para resgatar a democracia, não estaria reproduzindo o comportamento típico das classes dominantes?
Não estará reservado aos agora condenados o reconhecimento pela classe dominante do futuro da condição de heróis nacionais, em moldes semelhantes ao que fazem atualmente os representantes dessas classes em homenagem fúnebre a Nelson Mandela?
Hoje, eles são demonizados e perseguidos por que representam os interesses sociais das classes populares. Eles precisam ser punidos para desestimular outros a seguirem seus passos. Ficam duas lições: as classes dominantes precisam enaltecer heróis populares de outras épocas para manter sua influência sobre as classes dominadas; mas também precisam “transformar” em bandidos os heróis populares que lhes convém destruir, por representarem ameaça a seus interesses presentes.
AS CLASSES DOMINANTES E OS HERÓIS POPULARES
Comentar