A VIOLÊNCIA DO SISTEMA CONTRA O POVO CHILENO

A VIOLÊNCIA DO SISTEMA CONTRA O POVO CHILENO
Brasília, 11 de Setembro de 2013 Flavio Lyra

Ao despertar no dia hoje, como o fiz durante muitas outras vezes durante os quarenta ano que decorreram desde aquele fatídico dia, recordei com tristeza, revolta e estupefação o espetáculo de terror e horror a que assisti no dia de 11 de Setembro de 1973, em Santiago do Chile. As forças armadas daquele país, sob o comando, do General Pinochet, bombardearam o “Palácio de La Moneda” e a residência oficial do Presidente da República, levando-o ao suicídio, num ato último de grandeza pessoal e de estigmatização dos inimigos.
Acontecimento aquele, emblemático da violência do golpe estado que fora estimulado e apoiado pelo governo dos Estados Unidos, contra a democracia chilena e seu povo que, quase três anos antes, havia elegido um presidente, Salvador Allende, comprometido efetivamente com a reconstrução da economia chilena em novas bases, que incorporavam seu povo à condução e aos benefícios da atividade econômica. O governo de Allende era essencialmente democrático. Havia chegado ao poder pelos votos da maioria da população e, com as realizações que vinha colocando em prática, apresentava crescente apoio popular.
Por uma grande coincidência, no mesmo dia 11 de setembro, em 2002, um terrível ato terrorista, ainda obscuro em suas motivações e executores, destruiu as torres gêmeas do edifício World Trade Center, no centro de Nova York, matando três mil inocentes e servindo de pretexto para a segunda invasão do Iraque, que matou mais de cem mil pessoas, a guerra contra o Afeganistão e a posta em prática pelos Estados Unidos de uma política externa agressiva de combate ao terror, com a presença marcante de sofisticadas agências de segurança, que não respeitam limites territoriais, nem morais.
Continua sendo muito importante ressaltar tais tragédias em seu aniversário, pois elas são o retrato sem retoques do funcionamento de um sistema mundial perverso que permite a acumulação de poder e riqueza nas mãos de oligarquias nacionais e relega grande parte das populações à incapacidade de aproveitar as potencialidades do alto grau desenvolvimento científico-tecnológico já alcançado nos grandes centros para atender suas necessidades mais elementares.
É esta uma excelente oportunidade para esclarecer nosso povo sobre os fatores que levaram a essas tragédias e as formas de organização econômico-políticas, internacionais e internas, que produzem tais catástrofes sociais.
É fundamental mostrar que o processo de rara violência que caracterizou o golpe de estado no Chile e prosseguiu em sua sanha destrutiva por vários anos à frente, ceifando a vida de mais de três mil pessoas durante sua fase inicial e condenando tantas outras ao exílio e a perseguições sistemáticas de diferentes naturezas, foi arquitetado no seio dos órgãos de segurança dos Estados Unidos e das forças armadas do próprio Chile.
Ao mesmo tempo, contou com o apoio de empresas internacionais ali localizadas, como a ITT, de empresas do próprio país e de partidos políticos locais. Tudo isto, em nome da preservação de instituições que continuam no presente dificultando o desenvolvimento do potencial da população chilena, em que pese os bons resultados econômicos que aquele país conseguiu produzir nos últimos tempos. Resultados que continuam sendo utilizados, principalmente para o enriquecimento de setores da oligarquia chilena e de grandes corporações internacionais.
Esse infausto acontecimento precisa ser interpretado, não obstante suas peculiaridades, como apenas mais um episódio de um fenômeno geral que tem destruído as formas de governo democráticas em países em processo de desenvolvimento, conforme exemplificado nos golpes de estado que a partir dos anos 60 ocorreram na América Latina, inclusive o que foi perpetrado pelos militares em 1964, no Brasil.
Ditas formas de violência política são apenas o aspecto mais evidente de outras formas de violência sistemática que são aplicadas aos povos dos países mais pobres pelo sistema econômico e político que tem prevalecido no mundo, cuja principal característica é a concentração do poder e da riqueza em mãos de oligarquias, conformando uma máquina opressora da maioria das populações.
Esse sistema, sob a liderança de grandes empresas internacionais, tem nos governos dos países economicamente avançados e em seus desdobramentos nos países menos desenvolvidos, uma máquina poderosa de controle social e de uso da violência, utilizada cotidianamente para impedir que as populações a eles submetidas tomem o destino em suas mãos e façam chegar aos mais pobres e explorados os frutos do aproveitamento de suas potencialidades em recursos materiais e criatividade humana.
É esse sistema de organização politica e econômica, que vitimou o Chile e tantos outros países, que continua muito atuante e cada vez mais capacitado para manter os povos sob sua tutela, aproveitando os resultados do desenvolvimento da ciência e da tecnologia para desenvolver uma enorme e poderosa indústria bélica e um arsenal crescente de armas cada vez mais sofisticadas, sempre de prontidão para destruir as aspirações de paz e bem-estar social dos povos do mundo.
A invasão e morte de centenas de milhares de civis no Iraque, no Afeganistão e na Líbia e, agora, a ameaça de bombardeio da Síria é o resultado da ação desse sistema avassalador, capaz de transformar líderes políticos e governos dos quais se esperava que realizassem grandes ações em favor da humanidade, em simples marionetes a seu serviço.
Os pretextos utilizados para justificar tais atos genocidas são variados e visam esconder das populações as razões reais subjacentes a tais condutas destrutivas, que no fundo têm a ver com a manutenção do poder e a concentração crescente da riqueza nas mãos da oligarquia econômica e financeira que controla nossas sociedades.
Também são variados e conhecidos os instrumentos utilizados pelas grandes potências, especialmente os Estados Unidos, para proteger os interesses de suas empresas e seus prolongamentos em outros territórios, assim como para controlar mercados, recursos naturais e impedir o aparecimento de formas de contestação pacíficas ou violentas dos povos oprimidos.
Neles se incluem uso da INTERNET e de outros meios mais tradicionais para roubar segredos comerciais e espionar outros governos; armas sofisticadas, como as aeronaves não tripuladas (drones), para realizar assassinatos de líderes rebeldes; a doutrina da “guerra ao terror”, que justifica a violação da soberania de outros países; a manutenção de prisioneiros em outros territórios, para fugir à própria justiça interna; o crescente uso de forças mercenárias; a existência e atuação de enormes frotas marítimas e aéreas circulando no ar e nos oceanos ou estacionadas nas quinhentas bases militares espalhadas em todo o mundo.
É ainda esse mesmo sistema que usa os meios de comunicação para difundir propaganda mentirosa e financia universidades e centros de pesquisa para formular e ensinar falsas teorias, a exemplo do neoliberalismo econômico, destinadas a manter as populações desinformadas sobre os reais interesses que comandam destinos, escravizadas a visões de mundo falaciosas e mentalmente cativas de ideologias destinadas a preservar o poder das oligarquias que o conformam.
Muito embora sejam pessoas que manejam esse sistema não faz sentido buscar soluções baseadas na simples correção de condutas pessoais e na demonização de indivíduos, pois estes são meros instrumentos dessas formas de organização, que se desenvolveram ao longo da história. Formas estas que já cumpriram seu papel para o avanço da humanidade e, atualmente, constituem-se em obstáculo à continuação desse progresso.
O alvo claro das populações oprimidas na busca de seus interesses deve ser, pois, as formas de organização políticas e econômicas que controlam nossas sociedades. São elas que precisam ser transformadas profundamente para dar lugar a modalidades cada vez mais democráticas e participativas, através das quais os interesses das coletividades se sobreponham aos interesses egoístas de indivíduos e de pequenos grupos.
O sistema que produziu a violência que destruiu a democracia chilena em 1973, em sua essência continua muito vivo e cada vez mais atuante e agressivo, daí a importância da luta diária contra ele em todas as circunstâncias, de modo a impedir que seja capaz de instrumentalizar novos seres humanos, para realizarem, em nome do cumprimento cego do dever, ações destrutivas contra outros seres humanos.
É preciso transformar nossas instituições, para que não surjam novos carrascos nazistas, como o foi o coronel das forças armadas alemães, Adolf Eichmann, que mandou milhares de Judeus para campos de concentração na Alemanha. Em seu julgamento, realizado em Israel, no ano de 1961, no qual foi condenado à morte, justificou todos seus atos terríveis, dizendo simplesmente que cumpria ordens.
A perseguição que o governo dos Estados Unidos, com apoio em sua legislação, vem realizando contra o ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, por este haver denunciado a espionagem que os órgãos de segurança desse país vêm realizando através da INTERNET, mostra claramente os inconvenientes de contrariar as regras do sistema. Este ignora inteiramente quaisquer justificações éticas para condutas que contrariem seus objetivos. Outra vítima recente do sistema é o soldado do exército dos Estados Unidos, Bradley Manning, que acaba de ser condenado a vários anos de prisão por haver divulgado um vídeo sobre o fuzilamento de civis no Iraque, a partir de helicópteros das forças militares ali atuantes.
A filósofa judia-alemã, Hanna Arendt, ao escrever uma reportagem sobre o famoso julgamento do coronel alemão Adolf Eichmann, condenado à morte e executado, realizado em Israel em 2002, contrariou muitos líderes judeus, ao salientar que a banalização do mal é o resultado do funcionamento de instituições burocráticas. Os executores dos crimes, na maioria das vezes, não são mais do que instrumentos dessas máquinas infernais, criadas pelos próprios homens ao longo da história.
Quando vi recentemente na televisão o depoimento na Comissão da Verdade do coronel Brilhante Ustra, chefe dos torturadores e assassinos do antigo DOI-CODI de São Paulo, tive a mesma sensação de Hanna Arendt, ao observar a firmeza e autoconfiança que Adolf Eichmann expressou ao justificar sua conduta, como mero cumpridor de ordens.
Parafraseando uma expressão que anda muito em voga no meio jornalístico para explicar resultados eleitorais, eu diria: “o mal é o sistema, estúpido!”
(*) Economista. Cursou o doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>