O SECRETÁRIO DE DEFESA DOS ESTADOS UNIDOS NA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA.

FLAVIO LYRA (*). BRASÍLIA, 09 DE JUNHO DE 2012.
O filósofo Nietzsche, que se notabilizou juntamente com Marx e Freud, como crítico atroz das idéias dominantes em sua época, inicia o segundo capitulo de seu livro “Para Além do Bem e da Moral” com a expressão latina: O Santa Simplicitas! , expressão usada em sentido pejorativo para indicar atitudes de inocência, ingenuidade ou mesmo ignorância, que segundo o filósofo predominavam nos fundamentos da ciência.
Nesta oportunidade, adoto a citada expressão para referir-me ao conteúdo da palestra(**) do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panneta, no dia 25 de abril passado, em palestra na Escola Superior de Guerra, para altos oficiais das Forças Armadas do Brasil.
Conhecedor da influência perniciosa para os interesses nacionais de vários países, exercida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos mediante a formação e doutrinação de seus militares, inclusive brasileiros, não poderia deixar passar em branco não só o referido acontecimento, mas também os contatos realizados com o Ministro da Defesa do Brasil.
Sinceramente, não vejo mudanças reais na política externa dos Estados Unidos que apontem noutra direção que a prioridade absoluta ao fortalecimento de seu poder como grande potência econômica e militar, “doa a quem doer”.
Nunca será demais lembrar que a doutrina da Escola Superior de Guerra, que mobilizou nossas Forças Armadas para destruírem as organizações políticas e sociais do país, eu serviam de suporte
político ao aprofundamento do processo de desenvolvimento econômico nacional a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, foi um produto gerado nas estranhas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em articulação com grupos militares do Brasil. Essa doutrina, em nome da defesa dos valores comuns ocidentais contra o comunismo, foi formulada e posta em prática em estreita cooperação entre militares brasileiros e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, especialmente no golpe militar de 1964 e em seus desdobramentos.
As várias tentativas de golpe militares a que o país esteve sujeito no período posterior a Segunda Mundial, culminando com o movimento militar de 1964, que implantou a ditadura que sufocou nossas instituições durante duas décadas, tiveram em sua gênese e aprofundamento as ligações entre militares brasileiros e os órgãos de segurança dos Estados Unidos. Não sem razão, o General da Reserva Juraci Magalhães, Ministro das Relações Exteriores do governo militar do General Castelo Branco chegou a declarar eloqüentemente: “ O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil!”
Detenhamo-nos agora nas mensagens que o Secretário de Defesa dos Estados Unidos trouxe aos oficiais brasileiros em sua palestra na Escola Superior de Guerra.
As palavras iniciais do Secretário Panneta não deixam qualquer dúvida no tocante às relações estreitas no passado, e ainda existentes, entre o Departamento de Defesa e a Escola Superior de Guerra: “É especialmente gratificante estar aqui na Escola Superior de Guerra. Orgulho-me do apoio que os Estados Unidos deram para ajudar na criação desta escola em 1949 e orgulho-me das ligações que foram construídas entre esta instituição e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Sei que a Universidade de Defesa Nacional em Washington está aguardando ansiosamente para receber o general Cherem no mês que vem e aprimorar ainda mais nossa crescente cooperação na formação militar profissional.”
Quanto às relações atuais e futuras entre o Brasil e os Estados Unidos na área da defesa, o Secretario Panneta afirma:
“Hoje gostaria de abordar a relação Brasil-EUA na área de defesa, porque acredito que estamos em um ponto crucial na história das duas nações, em que temos a oportunidade de forjar um relacionamento de segurança novo, forte, inovador para o futuro”
Logo em seguida, certamente não por mera coincidência, refere-se às guerras em que os Estados estão envolvidos, guerras cuja deflagração e realização nada tiveram, nem têm a ver com os interesses reais do Brasil:
“Essa oportunidade se dá quando os Estados Unidos se encontram em um momento decisivo crucial após uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, uma guerra contra a Al Qaeda e o terrorismo, uma guerra contra a Al Qaeda e seus militantes aliados, especialmente depois do ataque de 11 de setembro.”
Em continuação, o Secretário trata dos desafios que estão por diante, para cujo enfrentamento certamente gostaria de contar com o apoio do Brasil, por certo dentro da concepção de mundo e dos interesses dos Estados Unidos, que certamente não coincidem com os do Brasil, e que podem chegar a ser mais um obstáculo do que um fator favorável ao desenvolvimento do país nos planos econômico, social e ambiental.
“Os desafios internacionais de segurança que nos confrontam ainda são muito reais e ameaçadores. Ameaças transnacionais como extremismo violento, o comportamento desestabilizante de nações como Irã e Coréia do Norte, nós vemos agora poderes emergentes no Pacífico Asiático e vemos contínuas turbulências no Oriente Médio e no Norte da África. Ao mesmo tempo, estamos lidando com a natureza mutante da guerra, a proliferação de armas e materiais letais e a crescente ameaça da invasão cibernética. Creio que o ciberespaço é, de muitas maneiras, um campo de batalha em potencial do futuro. E, aqui neste continente, enfrentamos o tráfico ilícito de drogas e desastres naturais.

Esses desafios afetam a todos nós: nossos povos, nossas economias e nosso modo de vida futuro. E o mundo está tão profundamente interconectado que esses desafios estão realmente além da capacidade de qualquer nação de resolvê-los sozinha.”
Ao referir-se à nova estratégia de defesa dos Estados Unidos, o Secretário Panneta, menciona três pontos que tocam de perto nossos interesses: a construção de parcerias no continente americano; a intenção de derrotar o adversário a qualquer momento, em qualquer lugar; e a proteção dos investimentos em novas tecnologias.
Caberia perguntar que benefícios se originariam para o Brasil dessas parcerias; se nosso território também faria parte do “ qualquer lugar” a ser atacado; e se a proteção das novas tecnologias nos daria acesso a elas. Vejamos textualmente o que foi dito:
“•Terceiro – e isso é de singular importância com relação a este continente – vamos procurar revigorar nossas relações de segurança em todo o mundo construindo parcerias de defesa inovadoras, construindo alianças, construindo relacionamentos em particular na Europa, na África e aqui no Continente Americano.
•Quarto, vamos garantir, como é nosso dever, que as Forças Armadas dos Estados Unidos continuem capazes de enfrentar a agressão e derrotar o adversário a qualquer momento, em qualquer lugar. Temos que ter a capacidade de enfrentar mais de um inimigo ao mesmo tempo e sermos capazes de derrotá-los.
•Por último, vamos priorizar e proteger investimentos em novas tecnologias – aquelas tecnologias para o futuro como inteligência, vigilância e reconhecimento, sistemas não-tripulados, espaço, ciberespaço, operações especiais e a capacidade de mobilização rápida quando necessário”.
Para encerrar, o Secretário de Defesa menciona a condecoração que um brasileiro que participa da guerra da guerra de objetivos obscuros contra o povo do Afeganistão, como sargento do exército dos Estados Unidos, recebeu recentemente, por ato de heroísmo. Por mais merecida que seja a condecoração, é pelo menos duvidoso que sua menção esdrúxula sirva como instrumento de cooptação entre os ouvintes sensatos.
Para concluir, é evidente que o Brasil não pode se furtar a entendimentos sobre questões de defesa com a maior potência militar do mundo, mas precisa ter muito claro que os interesses estratégicos do país no campo da segurança precisam ser definidos em função de nossa realidade e de nossas aspirações de desenvolvimento, que não coincidem em boa medida com as aspirações de uma potência imperialista e agressiva como Estados Unidos e, algumas vezes, podem ser inteiramente contraditórios.
Quanto à influência do Departamento de Defesa sobre a formação e doutrinação dos militares brasileiros não cabe a menor dúvida de que é preciso evitar que se reproduza a nefasta experiência do passado, que resultou no golpe de 1964.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.
(**) Conforme tradução de texto em inglês da Embaixada dos Estados Unidos.

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Sobre flaviolyra

Economista, brasileiro, 74 anos, pernambucano, residente em Brasília. Graduação na Universidade Federal de Pernambuco e doutorado( créditos) na Unicamp. Fui técnico da SUDENE, pesquisador do ILPES (Santiago do Chile), Secretário da Fazenda de Pernambuco, Secretário-Executivo das Zonas de Processamento de Exportações do Ministério da Indústria e do Comércio, Diretor de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento e Assessor Parlamentar do Senado Federal.

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