OS TENTÁCULOS DE WASHINGTON MAIS UMA VEZ

FLAVIO LYRA (*). BRASÍLIA, 30 DE JUNHO DE 2012
Só ingênuos podem admitir que o golpe parlamentar que destituiu o presidente Lugo do Paraguai, no dia de ontem, não teve o dedo do Pentágono. Essa nova modalidade de golpe, inaugurada em Honduras em 2009, que destituiu o presidente Zelaya, articulada na base aérea que os Estados Unidos mantêm naquele país centro-americano, teria sido mais uma vez aplicada com sucesso, ao menos, por enquanto.
É uma grande coincidência que tais fatos ocorram contra governos de esquerda, que tentam realizar reformas em favor dos segmentos mais pobres da população, particularmente reformas agrárias. Tanto Zelaya, quanto Fernando Lugo vinham tentando melhorar o acesso à terra a camponeses secularmente explorados por grandes latifundiários e realizar ações de proteção social aos segmentos mais pobres da população.
Não surpreende a atitude que o governo dos Estados Unidos adotou, ambígua inicialmente, no caso de Honduras e, posteriormente, favorável à substituição do presidente Zelaya. Agora, a história repete-se com o governo dos Estados Unidos manifestando que a destituição abrupta do presidente Lugo “respeitou as regras do jogo democrático”, quando nitidamente tratou-se de um conluio dos partidos derrotados na última eleição para livrar-se de um presidente vinculado a causas populares.
É de todo improvável que o pequeno Paraguai se dispusesse a confrontar as regras do MERCOSUL e da UNASUL, entrando em conflito com seus dois vizinhos Argentina e Brasil, se não contasse com o estímulo e proteção do governo norteamericano. Certamente, que os governos do Brasil e da Argentina vacilaram claramente ao não acompanharem de perto o desenvolvimento da conjuntura política no Paraguai, mormente quando se sabe que Washington estreitou muito suas relações com o Chile, depois do governo direitista de Sebastian Piñera, e vinha realizando gestões para construir uma base militar no Paraguai. Tem sido denunciada a intenção de estabelecer um cerco a Brasil e Argentina.
Do ponto de vista da oligarquia paraguaia nada mais conveniente do que buscar apoiar-se no grande irmão do Norte para manter seus privilégios, em desfavor da maioria do povo paraguaio, pois certamente não contaria com a boa vontade de Brasil e da Argentina, cujas políticas econômicas têm forte conteúdo social.
Agora, o problema está criado, pois estamos ameaçados em interesses muito concretos como é a manutenção dos acordos regionais do MERCOSUL e da UNASUL, sem contar que existe a empresa conjunta binacional de ITAIPÚ, importante fornecedora de energia para o Brasil, construída na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Washington pode muito bem estar contando com o isolamento do Paraguai, no âmbito da região, para estreitar suas ligações com esse pequeno país e transformá-lo em ponta de lança contra as pretensões de maior autonomia de Brasil e Argentina.
No mundo atual, em que é notória a ação intervencionista generalizada, explícita e oculta, das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos, nos países mais frágeis, especialmente os mais dotados de recursos naturais estratégicos, qualquer descuido dos organismos responsáveis pela segurança interna em relação ação dos órgãos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e outras potências, pode acarretar funestas conseqüências para a segurança e os interesses nacionais. Todos sabem que os Estados Unidos só levam a sério a defesa dos direitos humanos e das formas democráticas de governo quando convém a seus interesses.
Não me admiraria se algum dia vier a ser constatado que a crise do “mensalão”, durante a qual foi ensaiada uma tentativa de golpe, visando a destituição do presidente Lula, tenha contado com o apoio dos Estados Unidos. O denunciante do esquema, o deputado federal Roberto Jeferson, conhecido por sua atuação em episódios obscuros, poderia muito ter sido cooptado pelo departamento de Defesa dos Estados Unidos, para dar a sua denúncia o teor que assumiu. Suspeito fortemente que o que se denominou mensalão foi uma das operações, ilegais, porém freqüentes, com que têm sido financiadas as campanhas eleitorais no país, mediante o uso de “caixa 2” de empresas privadas ou públicas.
Não há por que não admitir que as ações que os Estados Unidos e as grandes potências vêm realizando em vários outros países, como acontece no Oriente Médio, inclusive com o fornecimento de armamento a grupos rebeldes como aconteceu na Líbia e vem acontecendo na Síria, não possam estar em vias de acontecer na América do Sul.
Portanto, senhores governantes, não se deixem enganar pela cordialidade aparente dos ministros e governantes das grandes potências. Seus interesses, como tais, estão sempre em primeiro lugar e eles não hesitam em mobilizar meios, nem sempre os mais lícitos, para defendê-los.
Os Demóstenes Torres, Carlinhos Cachoeira e muitos outros senhores de perfil semelhante, infiltrados nas altas esferas do poder público, do setor privado e da grande imprensa, são candidatos naturais a montar esquemas de desestabilização dos governos democráticos, em associação com os serviços secretos das grandes potências e os segmentos da oligarquia interna ameaçados em seus privilégios. É preciso combatê-los com toda a energia, sob pena de “só fecharmos a porta depois que o ladrão esteja dentro de casa”.
(*) Economista. Cursou doutorado de Economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA

O SECRETÁRIO DE DEFESA DOS ESTADOS UNIDOS NA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA.

FLAVIO LYRA (*). BRASÍLIA, 09 DE JUNHO DE 2012.
O filósofo Nietzsche, que se notabilizou juntamente com Marx e Freud, como crítico atroz das idéias dominantes em sua época, inicia o segundo capitulo de seu livro “Para Além do Bem e da Moral” com a expressão latina: O Santa Simplicitas! , expressão usada em sentido pejorativo para indicar atitudes de inocência, ingenuidade ou mesmo ignorância, que segundo o filósofo predominavam nos fundamentos da ciência.
Nesta oportunidade, adoto a citada expressão para referir-me ao conteúdo da palestra(**) do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panneta, no dia 25 de abril passado, em palestra na Escola Superior de Guerra, para altos oficiais das Forças Armadas do Brasil.
Conhecedor da influência perniciosa para os interesses nacionais de vários países, exercida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos mediante a formação e doutrinação de seus militares, inclusive brasileiros, não poderia deixar passar em branco não só o referido acontecimento, mas também os contatos realizados com o Ministro da Defesa do Brasil.
Sinceramente, não vejo mudanças reais na política externa dos Estados Unidos que apontem noutra direção que a prioridade absoluta ao fortalecimento de seu poder como grande potência econômica e militar, “doa a quem doer”.
Nunca será demais lembrar que a doutrina da Escola Superior de Guerra, que mobilizou nossas Forças Armadas para destruírem as organizações políticas e sociais do país, eu serviam de suporte
político ao aprofundamento do processo de desenvolvimento econômico nacional a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, foi um produto gerado nas estranhas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em articulação com grupos militares do Brasil. Essa doutrina, em nome da defesa dos valores comuns ocidentais contra o comunismo, foi formulada e posta em prática em estreita cooperação entre militares brasileiros e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, especialmente no golpe militar de 1964 e em seus desdobramentos.
As várias tentativas de golpe militares a que o país esteve sujeito no período posterior a Segunda Mundial, culminando com o movimento militar de 1964, que implantou a ditadura que sufocou nossas instituições durante duas décadas, tiveram em sua gênese e aprofundamento as ligações entre militares brasileiros e os órgãos de segurança dos Estados Unidos. Não sem razão, o General da Reserva Juraci Magalhães, Ministro das Relações Exteriores do governo militar do General Castelo Branco chegou a declarar eloqüentemente: “ O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil!”
Detenhamo-nos agora nas mensagens que o Secretário de Defesa dos Estados Unidos trouxe aos oficiais brasileiros em sua palestra na Escola Superior de Guerra.
As palavras iniciais do Secretário Panneta não deixam qualquer dúvida no tocante às relações estreitas no passado, e ainda existentes, entre o Departamento de Defesa e a Escola Superior de Guerra: “É especialmente gratificante estar aqui na Escola Superior de Guerra. Orgulho-me do apoio que os Estados Unidos deram para ajudar na criação desta escola em 1949 e orgulho-me das ligações que foram construídas entre esta instituição e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Sei que a Universidade de Defesa Nacional em Washington está aguardando ansiosamente para receber o general Cherem no mês que vem e aprimorar ainda mais nossa crescente cooperação na formação militar profissional.”
Quanto às relações atuais e futuras entre o Brasil e os Estados Unidos na área da defesa, o Secretario Panneta afirma:
“Hoje gostaria de abordar a relação Brasil-EUA na área de defesa, porque acredito que estamos em um ponto crucial na história das duas nações, em que temos a oportunidade de forjar um relacionamento de segurança novo, forte, inovador para o futuro”
Logo em seguida, certamente não por mera coincidência, refere-se às guerras em que os Estados estão envolvidos, guerras cuja deflagração e realização nada tiveram, nem têm a ver com os interesses reais do Brasil:
“Essa oportunidade se dá quando os Estados Unidos se encontram em um momento decisivo crucial após uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, uma guerra contra a Al Qaeda e o terrorismo, uma guerra contra a Al Qaeda e seus militantes aliados, especialmente depois do ataque de 11 de setembro.”
Em continuação, o Secretário trata dos desafios que estão por diante, para cujo enfrentamento certamente gostaria de contar com o apoio do Brasil, por certo dentro da concepção de mundo e dos interesses dos Estados Unidos, que certamente não coincidem com os do Brasil, e que podem chegar a ser mais um obstáculo do que um fator favorável ao desenvolvimento do país nos planos econômico, social e ambiental.
“Os desafios internacionais de segurança que nos confrontam ainda são muito reais e ameaçadores. Ameaças transnacionais como extremismo violento, o comportamento desestabilizante de nações como Irã e Coréia do Norte, nós vemos agora poderes emergentes no Pacífico Asiático e vemos contínuas turbulências no Oriente Médio e no Norte da África. Ao mesmo tempo, estamos lidando com a natureza mutante da guerra, a proliferação de armas e materiais letais e a crescente ameaça da invasão cibernética. Creio que o ciberespaço é, de muitas maneiras, um campo de batalha em potencial do futuro. E, aqui neste continente, enfrentamos o tráfico ilícito de drogas e desastres naturais.

Esses desafios afetam a todos nós: nossos povos, nossas economias e nosso modo de vida futuro. E o mundo está tão profundamente interconectado que esses desafios estão realmente além da capacidade de qualquer nação de resolvê-los sozinha.”
Ao referir-se à nova estratégia de defesa dos Estados Unidos, o Secretário Panneta, menciona três pontos que tocam de perto nossos interesses: a construção de parcerias no continente americano; a intenção de derrotar o adversário a qualquer momento, em qualquer lugar; e a proteção dos investimentos em novas tecnologias.
Caberia perguntar que benefícios se originariam para o Brasil dessas parcerias; se nosso território também faria parte do “ qualquer lugar” a ser atacado; e se a proteção das novas tecnologias nos daria acesso a elas. Vejamos textualmente o que foi dito:
“•Terceiro – e isso é de singular importância com relação a este continente – vamos procurar revigorar nossas relações de segurança em todo o mundo construindo parcerias de defesa inovadoras, construindo alianças, construindo relacionamentos em particular na Europa, na África e aqui no Continente Americano.
•Quarto, vamos garantir, como é nosso dever, que as Forças Armadas dos Estados Unidos continuem capazes de enfrentar a agressão e derrotar o adversário a qualquer momento, em qualquer lugar. Temos que ter a capacidade de enfrentar mais de um inimigo ao mesmo tempo e sermos capazes de derrotá-los.
•Por último, vamos priorizar e proteger investimentos em novas tecnologias – aquelas tecnologias para o futuro como inteligência, vigilância e reconhecimento, sistemas não-tripulados, espaço, ciberespaço, operações especiais e a capacidade de mobilização rápida quando necessário”.
Para encerrar, o Secretário de Defesa menciona a condecoração que um brasileiro que participa da guerra da guerra de objetivos obscuros contra o povo do Afeganistão, como sargento do exército dos Estados Unidos, recebeu recentemente, por ato de heroísmo. Por mais merecida que seja a condecoração, é pelo menos duvidoso que sua menção esdrúxula sirva como instrumento de cooptação entre os ouvintes sensatos.
Para concluir, é evidente que o Brasil não pode se furtar a entendimentos sobre questões de defesa com a maior potência militar do mundo, mas precisa ter muito claro que os interesses estratégicos do país no campo da segurança precisam ser definidos em função de nossa realidade e de nossas aspirações de desenvolvimento, que não coincidem em boa medida com as aspirações de uma potência imperialista e agressiva como Estados Unidos e, algumas vezes, podem ser inteiramente contraditórios.
Quanto à influência do Departamento de Defesa sobre a formação e doutrinação dos militares brasileiros não cabe a menor dúvida de que é preciso evitar que se reproduza a nefasta experiência do passado, que resultou no golpe de 1964.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.
(**) Conforme tradução de texto em inglês da Embaixada dos Estados Unidos.