ALIENAÇÃO POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO

ALIENAÇÃO POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO
Flávio Lyra. Brasília, 17 de Marco de 2012.
Por estranho que pareça, contrariando o que admitimos ocorrer com os filmes que procuram traduzir o comportamento das sociedades, é possível imaginar que a vida de algumas sociedades é que copiam os filmes. Como procuro mostrar nas linhas que se seguem, a sociedade brasileira, em sua atual etapa estaria copiando, o filme satírico de Fellini “E la nave va”.
A sociedade brasileira vive uma etapa crucial de sua história na qual, a opção estratégica que seja escolhida será determinante para seu futuro como nação. Opção que tem a ver com a natureza da forma de sua integração no mercado internacional de produtos, capitais e tecnologia: aprofundando os laços de dependência externa, sob o comando do mercado internacional; ou, alternativamente, fortalecendo sua estrutura produtiva e tecnológica em função de objetivos nacionais, definidos politicamente, em termos de expansão do mercado interno e de aproveitamento de seu potencial produtivo.
Desde o final dos anos 80, com notável aprofundamento nos anos 90, com os governos Collor e FHC, o caminho seguido foi nitidamente o da primeira opção, alicerçada na submissão às regras do jogo estabelecidas por organismos internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual.
De sua aplicação resultaram a privatização e desnacionalização de setores e indústrias estratégicas, a desproteção do mercado interno, a liberalização dos controles sobre o capital estrangeiro, a oligopolízação do sistema financeiro, o desmantelamento do aparelho de estado e o aumento da dívida pública e do endividamento externo. Em conseqüência as taxas de crescimento econômico, de geração de empregos e capacitação tecnológica, e de diminuição das desigualdades sociais foram extremamente baixas frente ao potencial do país.
Principalmente, a partir do segundo governo Lula, foi deflagrado um esforço de mudança, dirigido ao fortalecimento do mercado interno e a recuperação dos instrumentos estatais voltados para o fortalecimento da base produtiva, em função de objetivos nacionais definidos politicamente, mesmo que não explicitados, e não em função dos interesses do mercado internacional.
Essa reorientação coincidiu com o fortalecimento da demanda internacional de produtos primários, especialmente a proveniente da China, criando um quadro favorável ao aumento do crescimento econômico e do emprego, redução das taxas de endividamento interno e externo e melhora na distribuição da renda.
As mudanças realizadas não foram, entretanto, suficientes para redirecionar as tendências debilitadoras da estrutura econômica, vindas do passado, como fica evidenciado com o processo de desindustrialização que vem se acentuando e o aumento do endividamento externo. Estão sendo necessárias novas mudanças estruturais que permitam reduzir as taxas de juros, corrigir a taxa de câmbio para evitar os efeitos nocivos da apreciação do real, manter a inflação sobre controle e aumentar os investimentos em setores estratégicos e em capacitação tecnológica.
A realização dessas mudanças requer da sociedade, dos partidos políticos e do governo a compreensão, da natureza do problema, do momento crítico atual para a adoção das medidas requeridas, e da necessidade de um mínimo de coesão interna para que tais medidas sejam aprovadas e levadas à prática. Lamentavelmente, há várias indicações de que não estão se dando essas condições, o que revela um estado de alienação preocupante do governo, dos partidos políticos e da sociedade em geral.
Nos partidos que conformam a coalizão que apóia o governo, as energias acham-se concentradas na disputa encarniçada por fatias do poder, que pouco ou nada têm a ver com a defesa dos interesses nacionais. Estes ficam em segundo plano e não raramente são deixados de lado e somente são considerados se atendidas as prioridades menores dos partidos políticos e de seus representantes. O poder executivo desenvolve uma luta diária para resistir às demandas, muitas vezes fisiológicas, desses grupos.
A grande imprensa e a classe média, com a miopia que lhes é própria para as questões sociais, mostra-se inconformada com os gastos que o governo realiza para tirar os mais pobres da miséria. Além disto, concentra suas energias em criticar e atribuir ao governo a responsabilidade total pelo clima de corrupção que domina o cenário político.
Deixa de ver, por certo, que a corrupção é um fenômeno generalizado, originado nas estranhas das oligarquias que sempre dominaram o país e que, mais recentemente, contaminou segmentos bem delimitados dentro do principal partido do governo. Em vez de apoiar as medidas saneadoras que o governo tem adotado, busca desestabilizá-lo atribuindo-lhe a responsabilidade total pelos casos não resolvidos. O alvo perseguido, muitas vezes, não é a eliminação da corrupção, mas o enfraquecimento do governo e de suas bases populares.
Os militares da reserva, supostamente, repercutindo o pensamento da caserna, divulgam manifestos de inconformidade com o quadro de corrupção existente e procuram sutilmente atribuí-lo inteiramente ao governo. Continuam, assim, na mesma linha de oposição aos movimentos populares, que adotaram durante a ditadura, acreditando que a maior ameaça ao desenvolvimento nacional tem ali suas raízes. Esquecem que a ameaça a nosso desenvolvimento vêm da falta de coesão interna e da arena internacional: da política predatória das grandes potências e de sua ponta de lança, as grandes corporações privadas e seus prolongamentos no país. Como o atual governo é de base popular, automaticamente colocam-se em oposição silenciosa, mas sempre ameaçadora, o que equivale a dar um tiro no próprio pé.
Os industriais nacionais revelam mais uma vez sua fragilidade do ponto de vista de defesa da indústria nacional. Suas organizações (sindicatos e federações patronais), nunca foram capazes de montar no Congresso uma bancada industrial, a exemplo do que fazem os proprietários agropecuários e os religiosos evangélicos, para defenderem seus interesses no Legislativo.
É verdade que a fratura do setor representada pelo controle de importantes segmentos industriais pelo capital estrangeiro, dificulta a aglutinação em torno de propostas que defendam os interesses nacionais, mas de maneira alguma justificam a passividade com que têm a assistido a destruição da estrutura industrial.
O Partido dos Trabalhadores, principal sustentáculo do governo, revela-se cada vez menos capaz de defender o próprio governo e enreda-se na disputa inconseqüente de fatias do poder, deixando de lado as grandes questões nacionais e afastando-se do povo, tornando-se, cada vez mais, uma máquina essencialmente burocrática.
O Poder Executivo sofre naturalmente de falta de apoio para levar adiante medidas compatíveis com as necessidades do momento. Falha, porém ao não ter capacidade de trazer para seu partido e para sociedade os reais problemas que o país enfrenta. Esconde sua fragilidade, sob uma falsa autosuficiência, ignorando a necessidade de mobilizar apoio partidário e popular para realizar as políticas necessitadas.
Para sintetizar, trata-se aqui da realidade de um país, cujo futuro depende essencialmente de decisões fundamentais que precisam ser adotadas pelo governo, mas que não se realizam por que os governantes se mostram incapazes de trazer a público a natureza e gravidade dos problemas existentes, nem de propor medidas para sua solução. Correm, assim, o risco de serem responsabilizados pela falta de solução dos problemas reais, que procuram esconder da população para transmitirem uma falsa mensagem de otimismo e força.
Tampouco, a sociedade e os partidos políticos são capazes de perceber ditos problemas e de se mobilizarem para dar o apoio político necessário ao governo para sua solução. Um verdadeiro impasse. E la nave va. Esperamos que com um destino diferente do ocorrido no filme de Fellini com dita denominação, que acabou levando para o fundo do mar sua tripulação, superficial e desligada da realidade.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na Unicamp. Ex-técnico do IPEA

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Sobre flaviolyra

Economista, brasileiro, 74 anos, pernambucano, residente em Brasília. Graduação na Universidade Federal de Pernambuco e doutorado( créditos) na Unicamp. Fui técnico da SUDENE, pesquisador do ILPES (Santiago do Chile), Secretário da Fazenda de Pernambuco, Secretário-Executivo das Zonas de Processamento de Exportações do Ministério da Indústria e do Comércio, Diretor de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento e Assessor Parlamentar do Senado Federal.

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