Brasil aumenta poderio naval para cuidar das reservas de petróleo cru

O Brasil está empenhado em aumentar seu poderio naval para proteger as milionárias reservas de petróleo e gás localizadas em águas ultra profundas, disse em 11 de junho a presidente Dilma Rousseff, durante uma cerimônia militar.

“Os investimentos que vêm sendo efetuados em novos navios-patrulha propiciarão o aumento da presença do Estado em águas jurisdicionais, onde se situa a maior parte de nossas reservas de petróleo e gás”, declarou a governante.

Dilma Rousseff reivindicou, como uma “exigência estratégica”, a modernização da Marinha de Guerra, em um discurso por ocasião do aniversário de 147 anos da batalha naval de Riachuelo, que deu ao Brasil a vitória na guerra contra o Paraguai.

“Sabemos que nosso papel na preservação da paz depende da capacidade de dissuasão do Brasil. A atuação de nossas Forças Armadas (…) requer equipamentos de qualidade, prontos para serem utilizados, e pessoal adequadamente preparado”, acrescentou.

Assim sendo, destacou um acordo assinado há anos com a França para a aquisição de quatro submarinos Scorpene diesel-elétricos e a construção do primeiro submarino nuclear.

Além disto, o Brasil anunciou em maio a compra de quatro lanchas fluviais da Colômbia, através do programa de proteção de suas reservas de petróleo, da bacia do Rio Amazonas e dos 7.491 quilômetros de costa.

O Brasil, que conta com a maior Marinha de Guerra da América latina, aplica cerca de 1,5 por cento do PIB no orçamento da defesa.

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Defesa nacional: tema estratégico para o Brasil

Defesa nacional: tema estratégico para o Brasil

Por Osvaldo Bertolino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O seminário “Política de Defesa e Projeto Nacional de Desenvolvimento”, realizado em 4 de Junho de 2012 no Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (Cefor), em Brasília, foi um passo importante para a compreensão do papel estratégico que o tema assume diante da nova realidade do Brasil no cenário internacional. Essa é a conclusão geral dos participantes do evento.

Organizado pelas fundações Maurício Grabois, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores (PT); João Mangabeira, do Partido Socialista Brasileiro (PSB); e Leonel Brizola–Alberto Pasqualini, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), o seminário foi aberto com a intervenção do ministro da Defesa, Celso Amorim. Antes, Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois e dirigente nacional do PCdoB, fez uma saudação especial ao evento . A primeira mesa debateu o tema “Política brasileira de defesa e as tendências do cenário internacional”.

Amorim iniciou dizendo que o conhecimento, o acompanhamento e a discussão da política de defesa pelos partidos e, de forma mais ampla, pelo Congresso Nacional, é um elemento indispensável para a equação da defesa do Brasil do século XXI, que conjuga país democrático com país forte. O envolvimento civil na política de defesa é fundamental para esse equilíbrio virtuoso, disse ele. A Estratégia Nacional de Defesa, documento que tem orientado as ações do governo na área, deve ser cada vez mais conhecida e debatida, afirmou. “Não se discute a política de defesa brasileira sem discutir os destinos do Brasil e do mundo”, analisou.

Celso Amorim

 Redistribuição do poder mundial

Para o ministro, o Brasil vive hoje um momento extraordinário, que as dificuldades circunstanciais originárias de crises externas não devem encobrir. “Este não é o primeiro ciclo de desenvolvimento experimentado pelo Brasil, mas certamente nunca se viu inclusão social na escala que observamos hoje”, disse. O Brasil do século XXI, segundo Amorim, aprendeu a conjugar desenvolvimento econômico com inclusão social em um marco plenamente democrático. “Esse novo modelo permitiu ao país exercer com sucesso uma política externa ativa e altiva, que nos tem alçado a uma nova estatura internacional”, considerou.

Ao mesmo tempo, segundo o ministro, o panorama global de segurança apresenta uma tendência clara de redistribuição do poder mundial. A desconcentração do poder corre do Ocidente rumo ao Oriente e do Norte rumo ao Sul, avaliou. Para ele, diferentemente de outros períodos históricos, essa transição não tem dado lugar à guerra generalizada entre as grandes potências, mas tampouco tem ocorrido de maneira que se possa chamar pacífica. Um conjunto de sinais preocupantes se impõe à vista, dos quais o mais imediato diz respeito à situação atual da Síria, alertou Amorim.

O ministro informou que, como é do conhecimento de todos, o Brasil enviou dez observadores militares à Síria, a pedido da Organização das Nações Unidas, na expectativa de contribuir para o que certamente é o último esforço de evitar um conflito de grandes proporções no país e, quiçá, em toda a região. Amorim informou também que visitou o Líbano recentemente e pôde testemunhar a gravidade dos conflitos que, com raízes no próprio Líbano, estão sendo alimentados pela situação na Síria.

Os casos do Irã e da Líbia

O ministro comentou também a situação do Irã. “Recordo o recente chamamento da Presidenta Dilma Rousseff: ‘Em vez da retórica agressiva, que se use, diante do Direito Internacional, o direito de os países usarem energia nuclear para fins pacíficos, assim como nós fazemos’. Uma solução duradoura para o caso envolverá não apenas a retomada de negociações com o Irã, mas – creio – um processo mais abrangente de estabelecimento de uma Zona Livre de Armas Nucleares no Oriente Médio, que leve à eliminação dos arsenais nucleares já existentes na região, eles mesmos causa de receio pelos países da vizinhança que não detêm armas nucleares”, afirmou,

Amorim fez referência também ao caso da Líbia. “Observou-se, após a autorização da imposição de uma ‘zona de exclusão aérea’ sobre o país pelo Conselho de Segurança, ações cujo propósito em muito excedeu o mandato legalmente estipulado”, criticou. Segundo ele, essas brevíssimas reflexões sugerem que situações críticas como essas não se esgotam em sua dinâmica regional. Têm, na verdade, repercussão sistêmica. Para o ministro, a questão que se apresenta é: a que padrão de interação internacional esses eventos apontam no sistema multipolar que se vai formando na presente década? Um padrão em que prevalece o conflito ou um padrão em que prevalece a cooperação?

Para o ministro, a prevalecerem as interações fundadas no conflito, o Brasil se deparará com um cenário internacional restritivo. “Beneficiamo-nos enormemente da paz, e não devemos nos enganar sobre o impacto sistêmico da guerra. Tampouco devemos nos iludir com as consequências do intervencionismo – ainda que sob pretexto humanitário”, afirmou. “Ninguém menos que o ex-secretário de Estado e ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Henry Kissinger, advertiu para os riscos implícitos nessa atitude em artigo publicado no Washington Post no fim de semana”, comentou.

Cooperação e dissuasão

Segundo Amorim, evitar a desagregação sistêmica pelo conflito generalizado deve ser a primeira preocupação dos países interessados na preservação da segurança global. “Normas de conduta negociadas de forma legítima e válidas para todos os países, inclusive e especialmente na área da segurança internacional, que incluem a não-intervenção, constituem o sentido do multilateralismo, que é complemento indispensável da multipolaridade se quisermos construir um mundo pacífico e minimamente justo”, disse o ministro.

Para Amorim, “o Brasil deseja uma multipolaridade que, à falta de outro nome, poderíamos denominar ‘orgânica’”. “Nela, o sistema internacional é fortalecido pela diversidade política de seus membros e pela integridade das normas que regem as relações entre eles”, disse. Segundo ele, as causas do desenvolvimento econômico e do progresso social avançam na esteira da prevalência da cooperação entre os Estados. “Essa visão da evolução recente da segurança internacional e de nossa aspiração a uma multipolaridade orgânica fornece, como disse, a orientação para o conjunto de ações tomadas sob a égide da defesa nacional”, afirmou.

A política de defesa do Brasil, disse o ministro, combina cooperação e dissuasão. “A maior contribuição que podemos dar à construção da multipolaridade orgânica, na área da defesa, é seguir trabalhando para a construção dos mais altos níveis de confiança e de cooperação na América do Sul”, asseverou. O patamar em que os países da região se encontram hoje é notável, segundo Amorim. “A integração regional avança em pelo menos três níveis: com o Mercosul, a Unasul e a Celac. Iniciativas como a Agência  Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de  Materiais Nucleares (a Abacc) selaram a confiança bilateral entre os dois países e deram lugar a novos avanços na construção da segurança regional”, informou.

Base industrial sul-americana

O ministro comentou que a Unasul possibilitou não apenas ganhos comerciais e econômicos a seus membros, mas também o incremento da segurança. “O Conselho de Defesa Sul-americano revelou-se de grande valia na resolução de divergências que os países da América do Sul enfrentaram coletivamente. O Conselho incorporou ao quadro da integração o temário da cooperação em defesa, balizado pelos princípios da transparência e da confiança”, disse.

A criação de uma base industrial de defesa sul-americana, segundo Amorim, dará ainda maior concretude a esse objetivo, contribuindo também para o propósito, inscrito na Estratégia Nacional de Defesa, de reorganização da indústria de material de defesa brasileira. “A base industrial sul-americana é estimulada pela compra e venda de material de defesa, como ocorre, por exemplo, pela aquisição, por nossos vizinhos, de aeronaves Super Tucano, e, pelo Brasil, de lancha blindada fluvial colombiana, disse o ministro. A integração em defesa ocorre, sobretudo, pela complementação de cadeias industriais. “Cito o exemplo emblemático do avião cargueiro-reabastecedor KC-390, da Embraer, produzido em associação com países amigos”, afirmou.

A cooperação em defesa também ocorre em outras frentes do entorno estratégico do Brasil, como o Atlântico Sul, lembrou Amorim. “A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, Zopacas, como é conhecida, foi criada por resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas e tem por objetivo promover os usos pacíficos dos oceanos. Ao mesmo tempo, conclama os Estados militarmente significativos a respeitarem o Atlântico Sul como zona livre de armas nucleares”, informou.

Novos agrupamentos

O ministro comentou que o Brasil tem buscado incrementar a cooperação com os países africanos. “A África tem enorme importância estratégica para o Brasil. Costuma-se esquecer que a distância do Recife ou de Natal até Dacar é menor que a dessas cidades a Porto Velho ou Rio Branco, ou que nossa Zona Econômica Exclusiva no  Atlântico não está a grande distância daquela de  Cabo Verde. Um exemplo de cooperação bem sucedida, no caso da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, é a Operação Felino, um exercício militar que aproxima as Forças Armadas dos países de língua portuguesa e possibilita o conhecimento mútuo e o aprofundamento da concertação”, afirmou.

Do ponto de vista estratégico, segundo Amorim, o Brasil também deve dar atenção a novos agrupamentos, como o BRICS, cujas potencialidades na área de defesa começam a se desenhar. “Com a África do Sul, estamos construindo um míssil ar-ar de quinta geração, o A-Darter. O projeto do avião Embraer 145 com radar indiano é um catalisador para a cooperação em defesa com a Índia. São dois exemplos que vêm somar-se a outros, em áreas afins (ainda que não estritamente de defesa) com Rússia e China”, disse.

Amorim lembrou que presidenta Dilma Rousseff visitou a Índia recentemente e comentou o comunicado conjunto que ressaltou a área de defesa como importante para a cooperação. “Queria registrar como de grande importância o fato de já termos feito manobras conjuntas dos países Índia, Brasil e África do Sul, que conformam o grupo Ibas, de certa maneira parte do Brics, que tem uma característica muito especial: três democracias, três países multirraciais, um em cada uma das regiões em desenvolvimento no mundo”, afirmou.

Foco de instabilidade

Essas manobras navais, intituladas “Ibs-mar”, são importante componente dessa aproximação político-diplomática, segundo o ministro. Essa vasta gama de iniciativas sinaliza a importância da diversificação das parcerias do Brasil, mas não exclui o processo com os países desenvolvidos, disse Amorim. “O crucial dessas relações tradicionais é o princípio da transferência de tecnologia condizente com o elo indissociável que a Estratégia Nacional de Defesa enuncia, entre política de defesa e política de desenvolvimento”, afirmou.

Amorim lembrou que o Brasil e a América do Sul detêm enormes reservas minerais, vegetais, energéticas, de água, de biodiversidade, além dos recursos humanos. “Graças entre outras a ação do Barão de Rio Branco, permita-me citá-lo, como diplomata já aposentado, não temos disputas territoriais de qualquer sorte e somos favorecidos pela manutenção de uma paz centenária em nossa vizinhança”, afirmou. “Nossa relação com os vizinhos é pacífica; dela devemos cuidar com toda atenção e carinho”, asseverou.

Mas diante da permanência de um foco de instabilidade sistêmica e das tendências desagregadoras e conflitivas, o Brasil não tem o direito de ignorar, em seu cálculo estratégico, que o país deve aprimorar sua capacidade dissuasória, alertou. “Quero com isso dizer que em uma situação de crise em que a disputa por recursos naturais, nossos ou dos vizinhos, possa se agudizar, devemos ser capazes de impor, sozinhos ou conjunto com eles, custos suficientemente altos para que nossos eventuais adversários se vejam desestimulados a perpetrar agressões”, afirmou.

Aporte da academia

É nesse sentido que o governo tem orientado a aquisição de novas capacidades de defesa, segundo Amorim. “A dissuasão é, portanto, um fenômeno ligado à soberania nacional. Mas nem por isso exclui a hipóteses de que possa vir a ter uma dimensão regional sul-americana. Por meio do conhecimento mútuo da confiança generalizada e concertação política a América do Sul poderá alcançar objetivo coletivo de defesa, que poderíamos chamar, sem querer ser pedante, de coordenação dissuasória”, asseverou. Para o ministro, a coesão dos países da região, nas diferentes áreas de integração e particularmente na defensiva, é um fator que pode contribuir na dissuasão de ameaças e agressões.

Amorim elogiou a proposta do seminário de debater politicamente a defesa nacional. Para ele, esse tema é um aspecto central da defesa da democracia. “A liderança civil das Forças Armadas é hoje objeto de um consenso nacional tranqüilo e amadurecido”, afirmou. O ministro ressaltou o reconhecimento da sociedade brasileira do valor das suas Forças Armadas e enfatizou o papel positivo do Congresso Nacional quando se discutiu a lei de incentivo à indústria nacional de defesa.

O aporte da academia também tem sido crescente, segundo o ministro. “Há um esforço de aproximação da temática de defesa do país ao centro de produção do conhecimento. É natural, portanto, que os partidos entrem a fundo nessa discussão. A questão do reaparelhamento das Forças Armadas em um nível condizente com um novo papel do Brasil no mundo e com a política externa soberana ativa e altiva que foi aqui mencionada deve ser vista nesse contexto”, afirmou. Amorim encerrou conclamando o engajamento da sociedade no debate sobre a política de defesa, segundo ele fundamental para um país cada vez mais democrático e mais forte.

Renato Rabelo e Roberto Amaral

Em seguida, Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, fez a sua intervenção. Para ele, o seminário representou um esforço singular para debater um tema inédito para as forças de esquerda. Segundo Renato Rabelo, o seminário estava virando a página de um momento tenebroso no qual o próprio Estado chegou a considerar que seu principal inimigo estava entre os próprios brasileiros; essa tese, do “inimigo interno”, aceita acriticamente por razões ideológicas, era funcional às potências estrangeiras, interessadas em dividir os brasileiros, segundo ele.

Com a mesa dirigida por Carlos Siqueira, da Fundação João Mangabeira, e Ronaldo Carmona, representando o PCdoB, Roberto Amaral, vice-presidente nacional do PSB, falou em seguida. Segundo ele, parece mais plausível pensar que o conceito de interesse nacional é menos ditado unilateralmente porque depende do reconhecimento das demais soberanias, a começar pelos vizinhos. “A geopolítica contemporânea nos diz que há países mais soberanos do que outros”, afirmou. Citou que nos Estados Unidos essa definição remonta ao complexo industrial militar e ao sistema financeiro.

Para Amaral, o debate sobre o conceito e a visão estratégica de defesa nacional foi postergado no Brasil porque a produção de conhecimento ficou restrita a algumas instituições militares e técnicas. Seja qual for a instituição, afirmou, haverá sempre a questão crucial: como estabelecer os limites da soberania? Citou “o ensinamento do falecido Império Britânico, tanto quanto do vigente império norte-americano, para cuja Marinha seu mar territorial são todos os mares azuis do mundo onde estiver o interesse nacional deles”.

Segundo o vice-presidente do PSB, estratégia significa longo prazo e implica em meios necessários à inserção do Estado nacional na ordem internacional. Implica disputa de espaço, que jamais se altera no plano da retórica. “O interesse nacional dialoga com outro interesse nacional e quase sempre se choca com os projetos de hegemonia regional”, afirmou, citando os exemplos da União Européia, segundo ele um apêndice dos Estados Unidos.

Amaral comentou o papel do Brasil democratizado, que assumiu a liderança de um subcontinente que se libertou das amarras da Guerra Fria ao derrubar as ditaduras e livrar-se do “cantochão do neoliberalismo” para assegurar a emergência de governos populares e progressistas, comprometidos com o desenvolvimento, com a inclusão social e com a integração regional. “É chegada, pois, a hora de, com todo cuidado possível, trazer a discussão para o âmbito nacional”, asseverou.

Citou a extensão continental do Brasil, sua substantiva massa populacional, as riquezas naturais, o desenvolvimento industrial, a potência da agricultura, a unidade cultural e, principalmente, a ascendente inserção internacional política e econômica para alertar que o país faz fronteira com a geopolítica e a estratégica dos Estados Unidos. E ressaltou que o Brasil é retardatário no ingresso ao capitalismo, ao desenvolvimento econômico, à condição de sujeito no cenário internacional e ao desenvolvimento científico e tecnológico para constatar que é dramática a fragilidade das Forças Armadas brasileiras.

Para ele, é impossível pensar em política de defesa do ponto de vista estritamente militar. “A política de defesa fundamenta-se, antes de tudo, em elementos culturais e ideológicos. E depende da adesão da cidadania, porque a guerra é, ao fim e ao cabo, uma decisão política. As Forças Armadas aptas do ponto de vista tecnológico deverão ser concebidas a partir da vontade nacional, de sua visão do projeto estratégico coletivo. Os valores nacionais são oferecidos por sua formação de povo, nação e país, pela sua cultura, pela sua história”, afirmou.

Segundo Amaral, as Forças Armadas deverão estar condicionadas pelo que chamou, “precariamente”, de projeto nacional, do papel que o país escolhe para se inserir no concerto das nações. “Esse condicionamento reclama a necessidade urgente de sua reformação, de rever conceitos, objetivos, missão, papel, estrutura de armamentos e, acima de tudo, a formação de seus oficias”, afirmou. “Nosso projeto fundamental é ultrapassar a condição periférica e a estratégia é o avanço da relação Sul-Sul, tendo como ponto de partida a América do Sul”, destacou, recorrendo à Constituição que em seu artigo 4º afirma que “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

Elói Pietá

Elói Pietá, secretário-geral do PT, falou em seguida. Segundo ele, o seminário representou um marco em um novo momento da relação entre os partidos de matriz de esquerda e de centro-esquerda com o Ministério da Defesa e as Forças Armadas. “Esse seminário olha o novo futuro. A partir de uma nova síntese nacional construída principalmente ao longo dos dois governos do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva”, afirmou. Para o dirigente do PT, nesse período criou-se uma união em torno do interesse nacional muliclassista, trazendo para essa visão as organizações sociais e políticas dos trabalhadores.

Essa política, avaliou Elói Pietá, enfrenta resistências “dos que foram apeados do poder político”. Citou setores da grande mídia, que advogam outra política para o país, diferente da que formou a nova coesão nacional. “Nessas novas bases de união em torno do interesse nacional, estamos discutindo a junção de estratégia nacional de desenvolvimento com distribuição de renda e soberania nacional”, afirmou.

José Genoino

Elói Pietá cedeu uma parte do seu tempo para José Genoino, que falou como assessor especial do ministro Celso Amorim. Segundo ele, a defesa nacional é parte integrante de um projeto nacional de desenvolvimento. “Não existe política externa soberana sem o mínimo de força militar”, afirmou. Trabalhar com um projeto nacional de desenvolvimento, com uma política externa soberana e protagonista exige capacidade militar, asseverou. “E quando se fala em capacidade militar, estamos falando de meios, de objetivos, de ação, de tecnologia e de combate”, ressaltou.

Segundo Genoino, a guerra não pode ser um assunto de retórica. “Significa equipamentos e material humano. Esses dois elementos são fundamentais”, afirmou. Para ele, o Brasil precisa enfrentar o desafio de superar os 20 anos em que as Forças Armadas “foram colocadas em uma espécie de acostamento”. “Quem queria privatizar o Estado e se orientava pelo neoliberalismo, queria colocar as Forças Armadas em um papel de polícia”, afirmou. Segundo aquela lógica, a ordem econômica e política estratégica seria garantida pelas grandes potências, lembrou.

Genoino comentou que a esquerda tinha dificuldade em dialogar com as Forças Armadas. “Esse seminário mostra que a gente trabalha com nova agenda, discutindo a Estratégia Nacional de Defesa, o futuro do projeto nacional, do projeto democrático, da soberania do pais, da integração nacional. Esse processo é tenso, processual”, afirmou. Segundo ele, a centralidade desse tema é o conceito de dissuasão. “Isso não pode ser uma palavra apenas. A dissuasão significa diminuir vulnerabilidades, na medida em que não temos um inimigo determinado fixo no tempo e no espaço. Dissuasão pressupõe impedir a concentração de forças contrárias aos nossos interesses, aos nossos projetos estratégicos”, comentou.

Para ele, o conceito da guerra não pode ser mais aquele petrificado no tempo e no espaço. O estudo sobre a Estratégia Nacional de Defesa exige o reposicionamento das Forças Armadas no território nacional, porque as localizações obedeceram a uma determinada situação estratégica e geopolítica que não existe mais, segundo Genoino. “Por isso, é fundamental trabalharmos com sistema integrado. Não dá para desligar o programa aeroespacial e a aquisição do satélite geoestacionário da nossa capacidade de monitoramento da fronteira; não dá para discutir o submarino de propulsão nuclear atlântico se não tivermos capacidade de se comunicar com o fundo do mar; não tem como a Força Aérea ter capacidade de proteger o espaço aéreo sem o satélite geoestacionário de alta definição”, comentou.

Genoino defendeu um diálogo franco da esquerda na relação com as Forças Armadas. “Quando a gente estuda o passado e a memória não podemos ficar só com o retrovisor. Temos de ter também pára-brisa para pôr o futuro no centro desse caminho que o Brasil está construindo”, disse.

Francisco Leite filho

Francisco Leite filho, representando a Fundação Leonel Brizola–Alberto Pasqualini, falou em seguido. Fez um breve histórico do compromisso nacional do PDT e comentou que qualquer política de defesa terá de ser assegurada por uma aliança regional nos aspectos econômico, cultural, ambiental, comercial e comunicacional. Segundo ele, a Unasul já deu os primeiros passos nessa direção. Lembrou que o intercâmbio comercial quase decuplicou com alguns países da região, como a Argentina, a Venezuela e a Colômbia.

Citou que a regulação da comunicação, que já avançou muito na Argentina, na Bolívia, no Equador e na Venezuela, empacou no Brasil. “Nenhum modelo será capaz de governar com o assédio implacável dos meios de comunicação pairando acima das instituições e tendo como único fim interesses financeiros e oligopólicos”, afirmou. Para Francisco Leite Filho, trata-se de uma situação antiga, atávica, secular. “Aqui no Brasil, os recentes episódios, os factóides que viram crises institucionais, dão bem a demonstração do nosso atraso nessa matéria em relação a outros países”, lembrou.

Para ele, os mexericos, as frivolidades e os escândalos impedem o país de discutir questões de fundo e as propostas para elas. “Nós, por exemplo, formos muito marcados, principalmente o Brizola, por causa dessa marginalização, desse ataque da mídia”, comentou. Citou o caso do Enem, atacado por interesses empresariais incrustados na mídia. Lembrou que a Telesul, um projeto multiestatal com a participação da Venezuela, da Argentina, do Uruguai, de Cuba e da Bolívia, vem há cinco anos enfrentando os monopólios mundiais.

Francisco Leite Filho comentou também que a internet e as redes sociais são espaços importantes, e advertiu que 90% das conexões são controladas por Miami. “Isso porque não investimos em fibra ótica”, opinou. Segundo ele, os governos da Argentina e da Venezuela estão cobrindo seus países de fibra ótica e internet sem fio de graça. “Estamos atrasados porque o país está atolado na herança do que foi a privataria. Nossas empresas de telecomunicações são todas multinacionais e estão chegando quase ao colapso com o congestionamento de suas redes. Isso pode ser até bom, porque o Estado terá de intervir, como fez Cristina Kirchner, que estatizou o petróleo com a tomada da empresa Repsol”, comentou.

Haroldo Lima


Após o encerramento das intervenções, Iole Ilíada, da Fundação Perseu Abramo; Haroldo Lima, dirigente do PCdoB; e Carlos Siqueira, da Fundação João Mangueira, fizeram rápidos comentários e perguntas aos palestrantes. Seguindo a ordem das intervenções, o primeiro a responder foi Renato Rabelo. Comentou que para compreender o papel das Forças Armadas, sobretudo nas condições atuais, é importante o que disse o ministro Celso Amorim sobre a direção delas pelo poder civil. Para ele, a identificação das Forças Armadas com a nação brasileira é fundamental, sobretudo diante da visão, como premissa da Estratégia Nacional de Defesa, de multiplicar-se em caso de conflito armado. Como enfrentar exércitos muito mais poderosos?, indagou. Com a identificação com a nação, respondeu.

Renato Rabelo

Renato Rabelo comentou que o Brasil, com essa maior dimensão da sua presença no cenário internacional, chegou a ser uma força protagonista no centro estratégico que é o Oriente Médio, muito bem retratado pelo ministro Celso Amorim. “Ou seja: o Brasil chegou a esse nível de poder ser um país que jogou um grande papel na busca de uma saída de paz numa região como essa. Um esforço enorme que o presidente Lula fez nesse sentido. Evidentemente que as grandes potências não gostaram”, afirmou.

Segundo o presidente do PCdoB, o Brasil deve lutar pela paz em um mundo como esse, de tendência de grandes conflitos, de guerras. “Não quer dizer que a tendência multipolar levará a uma tendência mundial de paz. A tendência ainda é de grandes conflitos”, disse. Renato Rabelo também comentou a revisão da Estratégia Nacional de Defesa, segundo ele um grande passo. Citou a revisão e a reelaboração do “Livro Branco” de defesa nacional, que vai ser discutido no Congresso Nacional. Finalizou dizendo que a defesa da Amazônia é outro ponto importante da defesa nacional. Segundo o presidente do PCdoB, é fundamental a criação da segunda esquadra da Marinha na Foz do rio Amazonas.

Roberto Amaral e Eloi Pietá

Roberto Amaral fez os comentários seguintes. Segundo ele, o Brasil precisa romper com o sentimento de “paz eterna”. “Essa suposição que nos foi introjetada não é verdadeira. Jamais foi, e agora que não é mesmo”, afirmou. Segundo ele, criaram-se dois sentimentos que devem ser combatidos urgentemente. Um de desapreço às Forças Armadas — do qual as forças de esquerda de certa forma participou, por razões subjetivas justificáveis. Outro da desnecessidade das Forças Armadas, relegadas a segundo plano em um país cujos gastos deveriam ser priorizados para o combate a outros problemas. “É por isso, entre outras coisas, que não temos nosso submarino de propulsão nuclear”, disse. O vice-presidente do PSB finalizou comentando os graves problemas relacionados a projetos e financiamentos do Programa Espacial Brasileiro.

Eloi Pietá disse que o seminário foi o início da ampliação de um debate que se restringia ao governo e ao parlamento. Segundo ele, a defesa da região Nordeste é um ponto que precisa entrar na pauta. Defendeu o avanço na “questão espacial”, no “setor de ponta da tecnologia” e a continuidade da luta para o Brasil ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. “Pelo papel que temos hoje no mundo e na América Latina, é inadmissível que sejamos apenas membro ocasional”, asseverou. Finalizou comentando a Comissão da Verdade, segundo ele um instrumento importante para a democracia. Francisco Leite Filho encerrou os trabalhos reforçando a importância da internet e das redes sociais com instrumento para o debate das questões nacionais.

Othon Luiz Pinheiro da Silva

A segunda mesa debateu o tema “Projetos Estratégicos de Defesa”. Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, foi o primeiro palestrante. Fez um breve histórico da energia nuclear no Brasil e comentou que a defesa nacional é essencial do ponto de vista econômico e do desenvolvimento do país. Segundo ele, a indústria da defesa é essencial por sua capacidade de inovar. Mas ressalvou que os investimentos precisam ser equalizados para garantir o desenvolvimento de outras áreas, além da militar, e não vulnerabilizar a economia.

Othon Luiz Pinheiro da Silva citou o exemplo da União Soviética, que, ao não priorizar o entrosamento entre a capacidade de defesa e o cotidiano da sociedade, fragilizou a economia. Lembrou que esteve no país dos sovietes e visitou um centro de pesquisa avançado na área de defesa, ao mesmo tempo em que outros setores da economia estavam absurdamente defasados tecnologicamente.

No caso brasileiro, lembrou o exemplo do submarino nuclear, que ganhou impulso quando o então ministro da Defesa Waldir Pires entendeu a sua importância e convenceu o presidente Lula a dar prioridade ao projeto. Para ele, a “vergonha” de dizer que se trabalha para a defesa do país atrabalha os projetos em desenvolvimento. “Um projeto de míssil vira sonda para medir temperatura”, exemplificou. “Temos de ter orgulho de dizer que é defesa”, enfatizou.

Rex Nazaré

Rex Nazaré, físico e especialista em energia nuclear, diretor de Tecnologia da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), fez a intervenção seguinte. Segundo ele, a Estratégia Nacional de Defesa é inseparável da estratégia nacional de desenvolvimento. Portanto, não basta dispor de reservas de combustíveis. Tem de dominar a tecnologia, disse. “Se considerarmos o conceito mais amplo de defesa, temos de ver a defesa da alimentação, da saúde e do território”, afirmou.

Os projetos de estratégia de defesa, segundo Rex Nazaré, devem ter independência. Ele comentou que a grande dificuldade na área nuclear é a escassez de recursos humanos. Como há dificuldades para transferência de tecnologia, o Brasil deve valorizar sua reserva de urânio, suas duas usinas em operação e uma terceira em construção, além do ciclo de combustível nuclear com as tecnologias dominadas, defendeu.

Marco Antonio Raupp

Marco Antonio Raupp, ministro da Ciência e Tecnologia, falou em seguida. Segundo ele, os últimos governos têm apoiado decisivamente a questão das pesquisas e do desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas. “Nós financiamos R$ 1,5 bilhão nos últimos anos”, afirmou. Para o ministro, é necessária maior integração entre as instituições que compõem o sistema espacial. “É preciso redirecionar práticas históricas para ter sucesso no futuro”, disse. “Existem algumas transformações na maneira de operacionalizar que são fundamentais, e uma delas é o protagonismo das empresas brasileiras”, completou.

Lembrando que a ciência e a tecnologia integram o Plano Brasil Maior e têm responsabilidades em vários setores, Raupp expôs um cronograma de lançamentos de satélites com início neste ano, visando à autonomia espacial do país. Na programação estão: o CBers 3 (2012), Itasat e Ibas (2013), CBers 4, Amazônia 1 e Geo Com (2014), Amazônia 1B (2015). “A presidenta quer que o satélite Geo Com (geoestacionário) esteja no ar em 2014, e nós vamos trabalhar com esta meta”, anunciou.

O desenvolvimento de um satélite geoestacionário pelo Brasil integra o Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae) com o objetivo de atender aos objetivos e necessidades do país nas áreas de comunicações seguras, meteorologia, controle de tráfego aéreo e defesa nacional, segundo o ministro. “Temos uma proposta de que a partir da experiência do satélite geoestacionário forme-se uma comissão, de nível maior, que acompanhe a disponibilidade de recursos para esta área, dado o caráter estratégico, já que a questão da tecnologia das Forças Armadas é vital no que se refere a uma política de ciência e tecnologia no país, comentou. A defesa exige autonomia tecnológica, as empresas podem comprar ferramentas tecnológicas, já nas Forças Armadas isso é mais difícil”, finalizou o ministro.

Roberto Amaral fez a intervenção seguinte e se deteve no Programa Espacial Brasileiro, segundo ele um projeto que não recebe a atenção devida do governo. Fez severas críticas ao descaso com as Forças Armadas durante o período neoliberal e reforçou a importância do planejamento e do investimento nos projetos de defesa.

Defesa Cibernética

O último tema do seminário foi a “Defesa Cibernética”. O general de Divisão José Carlos dos Santos, comandante do Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), fez comentários sobre episódios do livro Guerra Cibernética, do norte-americano Richard Clark, para exemplificar a importância que o tema vem assumindo. O autor do livro, segundo o general, foi assessor dessa área em quatro governos norte-americanos. Para ele, essa guerra já começou. A arma cibernética já existe e está sendo pesquisada. Alguns exemplos mostram que ela já esta sendo empregada, afirmou, citando reportagens do jornal The New York Times.

Samuel César da Cruz Júnior, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), encerrou o tema dizendo que defesa cibernética hoje não se faz combatendo vírus. Segundo ele, hardware e software estão integrados. Recomendou investimento em capacitação para enfrentar o problema. Para o pesquisador do Ipea, a pesquisa deve ser levada muito a sério. Para tanto, é fundamental a regularidade do investimento. Explicou que o trabalho em uma pesquisa interrompido após quatro ou cinco anos resulta em perda considerável. Ao retomar, com a desmobilização e as rápidas mudanças nas tecnologias, tudo que havia sido feito fica perdido. A regularidade do recurso é tão importante quanto a quantidade, concluiu.

Reproduzido do: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=7&id_noticia=9025#.T9NqfMWun7d

 

 

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O USO ESTRATÉGICO DO BNDES, A RECUPERAÇÃO DA BOVESPA E O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO NACIONAL.

Na verdade a EADS é uma empresa privada/estatal, com o são: a DCNS + Thales + Dassault (França); Airbus + MBDA (França/Alemanha/UK); Fincantieri  Finmecanica (Itália) e Navantia (Espanha), sem falar nas japonesas, indianas, coreanas, suecas e claro, as chinesas.

Vejam o caso emblemático da GM que, estatizada pelo governo norte-americano, voltou a ser a maior fabricante mundial de veículos automotores.

O caminho é realmente por aí, como preconiza o jornalista Mauro Santayana no artigo abaixo.

Também cabe ressaltar ser de todo inaceitável que  o governo brasileiro e a Petrobras cedam à brutal pressão a que estão submetidos, e aceitem reduzir o índice de nacionalização, nas encomendas de equipamentos e meios navais para o Pré-Sal.

 

“Petróleo, indústria naval, indústria aeroespacial e de defesa são setores estratégicos que devem ser tratados com prioridade estratégica. Já passou da hora de o Brasil quebrar a espinha dorsal do boicote internacional à transferência de tecnologia de ponta para o país.

Estamos atrasados na constituição, com recursos do tesouro, via BNDES, de grandes estatais estratégicas para atuar nesses setores. Isso ocorre na Europa, com a EADS (Companhia Européia de Defesa Aeronáutica e do Espaço, constituída de empresas privadas estratégicas), ou como já fazem há tempos os nossos sócios do BRICS.”

Artigo completo: http://www.maurosantayana.com/2012/06/o-uso-estrategico-do-bndes-recuperacao.html

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Gilmar não é o Supremo

Reproduzido do JB Online texto de Mauro Santayana:

“…A nação deve ignorar o esperneio do Sr. Gilmar Mendes. Ele busca a confusão, talvez com o propósito de desviar a atenção do país das revelações da CPI. O Congresso não se deve intimidar pela arrogância do Ministro, e levar a CPMI às últimas conseqüências; o STF deve julgar, como se espera, o processo conhecido como mensalão, como está previsto. Acima dos três personagens envolvidos na conversa estranha que só o Sr. Mendes confirma, lembremos o aviso latino, de que testis unus, testis nullus, está a Nação, em sua perenidade. Está o povo, em seus direitos. Está a República, em suas instituições.

O Sr. Gilmar Mendes não é o Supremo, ainda que dele faça parte. E se sua presença naquele tribunal for danosa à estabilidade republicana – sempre lembrando a forte advertência de Dallari – cabe ao Tribunal, em sua soberania,  agir na defesa clara da Constituição, tomando todas as medidas exigidas. Para lembrar um autor alemão, Carl Schmitt, que Gilmar deve conhecer bem, soberano é aquele que pratica o ato necessário…”

Artigo completo: http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/05/30/gilmar-mendes-nao-e-o-supremo/

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Projeto de Lei AMAZUL

 

 SUBCHEFIA DE ASSUNTOS PARLAMENTARES

 PROJETO DE LEI

 

Autoriza a criação da empresa pública Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A - AMAZUL e dá outras providências.

 

 

                       

                          O CONGRESSO NACIONAL decreta:

                         Art. 1o  Fica o Poder Executivo autorizado a criar, em decorrência da cisão parcial da Empresa Gerencial de Projetos Navais - EMGEPRON, a empresa pública Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. - AMAZUL, sob a forma de sociedade anônima, com personalidade jurídica de direito privado, patrimônio próprio e vinculada ao Ministério da Defesa, por meio do Comando da Marinha.

                         § 1o  A cisão parcial da EMGEPRON se dará após deliberação de seu Conselho de Administração, ouvido o Conselho Fiscal, e observará o procedimento previsto na Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976.

                         § 2o  A cisão parcial da EMGEPRON se dará pela versão para a AMAZUL dos elementos ativos e passivos relacionados às atividades do Programa Nuclear da Marinha - PNM.

                         Art. 2o  A AMAZUL terá sede e foro na cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, e prazo de duração indeterminado, podendo estabelecer escritórios, dependências e filiais em outras unidades da federação e no exterior.

                         Art. 3o  A AMAZUL será constituída pela Assembleia Geral de acionistas, a ser convocada pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

                         Art. 4o  O capital social inicial da AMAZUL será formado pela versão do patrimônio cindido da EMGEPRON, inclusive para atendimento ao disposto no inciso II do caput do art. 80 da Lei no 6.404, de 1976.

                         Parágrafo único.  O capital social da AMAZUL pertencerá integralmente à União.

                         Art. 5o  A AMAZUL terá por objeto:

                        I - promover, desenvolver, absorver, transferir e manter tecnologias necessárias às atividades nucleares da Marinha do Brasil e do Programa Nuclear Brasileiro - PNB;

                        II - promover, desenvolver, absorver, transferir e manter as tecnologias necessárias à elaboração de projetos, acompanhamento e fiscalização da construção de submarinos para a Marinha do Brasil; e

                        III - gerenciar ou cooperar para o desenvolvimento de projetos integrantes de programas aprovados pelo Comandante da Marinha, especialmente os que se refiram à construção e manutenção de submarinos, promovendo o desenvolvimento da indústria militar naval brasileira e atividades correlatas.

                         Art. 6o  Compete à AMAZUL:

                        I - implementar ações necessárias à promoção, ao desenvolvimento, à absorção, à transferência e à manutenção de tecnologias relacionadas às atividades nucleares da Marinha do Brasil, ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos - PROSUB e ao PNB;

                        II - colaborar no planejamento e na fabricação de submarinos, por meio de prestação de serviços de seus quadros técnicos especializados, em razão da absorção e transferência de tecnologia;

                        III - fomentar a implantação de novas indústrias no setor nuclear e prestar-lhes assistência técnica;

                        IV - estimular e apoiar técnica e financeiramente as atividades de pesquisa e desenvolvimento do setor nuclear, inclusive pela prestação de serviços;

                        V - contratar estudos, planos, projetos, obras e serviços relativos à sua destinação legal, visando ao desenvolvimento de projetos de submarinos;

                        VI - captar, em fontes internas ou externas, recursos a serem aplicados na execução de programas aprovados pelo Comandante da Marinha;

VII - celebrar outros contratos, convênios e ajustes considerados necessários ao cumprimento do seu objeto social;

                        VIII -  prestar serviços afetos à sua área de atuação;

                        IX - promover a capacitação do pessoal necessário ao desenvolvimento de projetos de submarinos, articulando-se, inclusive, com instituições de ensino e pesquisa do País e do exterior;

                        X - elaborar estudos e trabalhos de engenharia, realizar projetos de desenvolvimento tecnológico, construir protótipos e outras tarefas afetas ao desenvolvimento de projetos de submarinos; e

                        XI - executar outras atividades relacionadas com seu objeto social.

                         Art. 7o  Fica a AMAZUL autorizada a participar minoritariamente de empresas privadas e empreendimentos para a consecução de seu objeto social.

                         Art. 8o  Constituem recursos da AMAZUL:

                         I - dotações orçamentárias;

                        II - recursos do Fundo Naval a ela destinados pelo Comando da Marinha;

                        III - receitas decorrentes da exploração de direitos autorais e intelectuais;

                        IV - recursos provenientes do desenvolvimento de suas atividades, de convênios, ajustes ou contratos;

                        V - rendimentos decorrentes de sua participação em outras empresas;

                        VI - produtos de operações de crédito, comissões, juros e rendas patrimoniais;

                        VII - doações, legados e receitas eventuais; e

                        VIII - recursos provenientes de outras fontes.

                         Art. 9o É dispensável a licitação para contratação da AMAZUL pela administração pública para realizar as atividades relacionadas ao seu objeto social.

                         Art. 10  A AMAZUL contará com uma Assembleia Geral, será administrada por um Conselho de Administração com funções deliberativas e por uma Diretoria Executiva, e contará, ainda, com um Conselho Fiscal.

                         Parágrafo único.  O estatuto social da AMAZUL definirá a composição, as atribuições e o funcionamento dos órgãos societários da empresa.

                        Art. 11.  O regime jurídico do pessoal da AMAZUL será o da Consolidação das Leis do Trabalho e respectiva legislação complementar.

                        § 1o  A contratação de pessoal permanente da AMAZUL far-se-á por meio de concurso público de provas ou de provas e títulos, observadas as normas específicas editadas pelo Conselho de Administração.

                        § 2º O quadro inicial de pessoal da AMAZUL será composto pelos atuais empregados da EMGEPRON que desempenhem atividades no âmbito do PNM, transferidos por sucessão trabalhista, sem caracterizar rescisão contratual.

                        § 3º Para os fins do §2º, são consideradas atividades do PNM aquelas relacionadas ao estudo, apoio, pesquisa, operação, desenvolvimento, construção e manutenção de modelos, projetos, protótipos e unidades envolvendo o ciclo do combustível nuclear e a geração nuclear para propulsão naval.

                        Art. 12.  Para fins de implantação, a AMAZUL poderá realizar contratação de pessoal técnico e administrativo por tempo determinado.

                         § 1o  A contratação de pessoal por tempo determinado de que trata o caput, imprescindível ao funcionamento inicial da AMAZUL, será considerada como necessidade temporária de excepcional interesse público, conforme critérios definidos pelo Conselho de Administração.

                         § 2o  A contratação a que se refere o caput observará o disposto no caput do art. 3o, no art. 6o, no inciso II do caput do art. 7o e nos arts. 9o e 12 da Lei no 8.745, de 9 de dezembro de 1993, e não poderá exceder o prazo de vinte e quatro meses a contar da data da criação da AMAZUL.

                         Art. 13.  Sem prejuízo do disposto no art. 12 e observados os requisitos e as condições previstos na legislação trabalhista, a AMAZUL poderá efetuar contratação de pessoal por tempo determinado, cujos instrumentos terão a duração máxima de 2 (dois) anos, mediante processo seletivo simplificado.

 

                        § 1o  A contratação por tempo determinado somente será admitida nos casos:

 

                        I – de serviço cuja natureza ou transitoriedade justifique a predeterminação do prazo; e

                        II – de atividades empresariais de caráter transitório.

 

                        § 2o  O contrato de trabalho por prazo determinado poderá ser prorrogado apenas 1 (uma) vez e desde que a soma dos 2 (dois) períodos não ultrapasse 2 (dois) anos.

 

                        § 3o  O processo seletivo referido no caput deverá ser estabelecido no regimento interno da AMAZUL, conterá critérios objetivos e estará sujeito, em qualquer caso, a ampla divulgação.

 

                        § 4o  O pessoal contratado nos termos deste artigo não poderá:

 

                        I – receber atribuições, funções ou encargos não previstos no respectivo contrato;

                        II – ser nomeado ou designado, ainda que a título precário ou em substituição, para o exercício de cargo em comissão ou função de confiança; e

                        III – ser novamente contratado pela AMAZUL, com fundamento neste artigo, antes de decorridos 6 (seis) meses do encerramento de seu contrato anterior.

 

                        § 5o  A inobservância do disposto neste artigo importará na resolução do contrato, nos casos dos incisos I e II do § 4o, ou na sua nulidade, nos demais casos, sem prejuízo da responsabilidade dos administradores.

                         Art.14. Fica autorizada a cessão de servidores e empregados públicos e a colocação à disposição de militares à AMAZUL, independentemente da ocupação de cargo em comissão ou função de confiança.

                         Parágrafo único. O período em que os militares permanecerem à disposição da empresa será considerado, para todos os efeitos legais, como de efetivo serviço em cargo de natureza militar.

                         Art. 15.  Fica a AMAZUL autorizada a patrocinar entidade fechada de previdência complementar.

                         Parágrafo único.  O patrocínio de que trata o caput deste artigo poderá ser feito mediante adesão a entidade fechada de previdência privada já existente.

                         Art. 16.  Fica o Ministro de Estado da Defesa autorizado a designar peritos do Ministério da Defesa e da EMGEPRON para a elaboração de laudo de avaliação da parcela do patrimônio da EMGEPRON que será vertida por meio de cisão parcial para a AMAZUL, nos termos do art. 8o da Lei no 6.404, de 1976.

                         Parágrafo único.  A competência prevista no caput pode ser delegada ao Comandante da Marinha.

                         Art. 17.  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

                         Brasília,

 


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As refregas do desenvolvimentismo

Do Carta Maior, por Luiz Gonzaga Belluzzo

As refregas do desenvolvimentismo

Ainda durante a guerra, o presidente Getúlio Vargas negociou com os americanos a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Esse empreendimento, crucial para as etapas subsequentes da industrialização brasileira, entrou em operação em 1946. O projeto “desenvolvimentista” invadia o imaginário social, à revelia dos senhores da casa-grande.

A economia brasileira reagiu com vigor à Grande Depressão dos anos 1930 do século passado. Entre 1930 e 1945, o “fazendão” atrasado e melancólico do Jeca Tatu – a terra da hemoptise, do bicho-do-pé e da lombriga – cedia espaço para a economia urbano-industrial incipiente.

Leia mais:

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaImprimir.cfm?coluna_id=5536

Vargas sabia que as conquistas trabalhistas impostas pela legislação social de 1942 não ensejavam ainda a almejada incorporação das massas aos padrões “modernos” de produção e de consumo, sobretudo em razão do secular atraso das relações de trabalho no campo e da completa exclusão política dessa camada social, mergulhada na miséria e na semiescravidão.

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Índia é o maior importador de armas

EUA e Rússia são os maiores exportadores

Nova Delhi – A Índia revelou-se o maior importador mundial de armas, enquanto aos EUA e à Rússia correspondeu a fatia de metade das armas vendidas mundialmente até ano passado. O volume de vendas de armas em geral aumentou 24% em cinco anos, de acordo com Stockholme International Peace Research Institute (Sipri), sediado em Estocolmo, na Suécia.   Leia mais: http://www.monitormercantil.com.br/mostranoticia.php?id=110612

 

A Índia importou 10% das armas em geral vendidas mundialmente. Seus principais fornecedores, além da Rússia, que supriu 80% das armas em geral compradas, foram Grã-Bretanha e Israel.

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Empresas Corruptoras

Assim com a jabuticaba, tem coisas que somente “dão” no Brasil, como a legislação tão espertamente elaborada que não permite punir a pessoa jurídica. É inacreditável, o representante, diretor, presidente ou dono de uma empresa, poder se pego em flagrante crime de corrupção e, nada poder  acontecer com a empresa, “um ente puro”, que logo estará operando em outras falcatruas e por aí La Nave Va.

Mais inaceitável ainda é um Projeto de Lei (PL 6.826) visando acabar com esta aberração, ter sido enviado ao Congresso Nacional em fevereiro de 2010 e estar até agora, sem decisão.

Isto é um tema de suma importância para a moralização da coisa pública. Precisamos a exemplo da conclamação do ministro Jorge Hage, pressionar os congressistas a agir e aprovar esta importante Lei.

Do O GLOBO, 27mar2012

Por JORGE HAGE _  Empresas Corruptoras

 

 Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, é passada a hora de as empresas privadas deixarem a cômoda postura de colocar-se como inocentes “vítimas” da corrupção. E a mais recente (e primorosa) reportagem do “Fantástico”, da Rede Globo, dispensa-me de gastar espaço aqui explicando por quê. O que foi mostrado ali é autoexplicativo e exemplar.

Temos participado de todos os fóruns internacionais onde se debatem meios e formas de combater a corrupção; e um tema importante na agenda global é justamente a necessidade de envolver o setor empresarial nesse esforço. Por uma razão óbvia: a corrupção tem dois lados – até em sua tipificação nos códigos penais ela é a “ativa” e a “passiva”. Está nos “dois lados do balcão”.

O problema é que nunca se deu a devida atenção ao “lado externo”, apenas se demonizando o funcionário corrompido. Óbvio que esse tem de ser punido. E, de uns tempos para cá, tem sido. Não é por outra razão que mais de 3.600 agentes públicos já foram demitidos da administração federal nos últimos nove anos, a partir da criação da CGU. Mas, e o empresário corruptor? Sem ele não haveria o crime, ao menos na espécie aqui focalizada – suborno ou propina, confessadamente referido por uma das corruptoras como da “ética do mercado”.

O que ocorre é que, em primeiro lugar, sua punição mais séria depende do Judiciário e este, como sabemos, não consegue aplicar as penas, porque as leis processuais permitem tal número de recursos e protelações que as sentenças nunca transitam em julgado.

Em segundo lugar, ainda que se punisse o empresário, o dono da empresa, o gerente ou o sócio, tal sanção alcançaria hoje apenas a pessoa física cuja culpa estivesse individualmente comprovada, o que, se sabe, é sempre difícil nessa espécie de crime, que não deixa digitais nem enseja flagrante. (Nem mesmo as excelentes imagens do “Fantástico” poderiam ser usadas como prova, pois, sabe-se, a Justiça não aceita o “flagrante preparado”, embora possam servir como ponto de partida para a formulação de outras provas.)

Para que o poder público possa alcançar a empresa e seu patrimônio, sem depender da individualização de responsabilidades, seria preciso que o Congresso aprovasse um projeto de lei enviado pelo governo em fevereiro de 2010 e que hoje está sob a relatoria do deputado Carlos Zarattini (o PL 6.826).

Esse projeto institui a responsabilização objetiva da pessoa jurídica (ou seja, independentemente de culpa de A ou B na estrutura da empresa), nas esferas cível e administrativa, facilitando o hoje difícil ressarcimento do dano causado ao patrimônio público. Isso é essencial porque normalmente a corrupção resulta da ação conjunta de vários indivíduos, de hierarquias distintas. Veja-se que, no caso do “Fantástico”, as empresas já se apressaram em dizer que não autorizaram seus funcionários a oferecer propina e, assim, não seriam responsáveis pelo ocorrido… É sempre muito difícil provar quem deu a ordem para que o preposto suborne o servidor. A nova lei afastará a necessidade dessa prova, bastando demonstrar que a empresa se beneficiaria do “esquema”.

Mas, para que esses processos não se arrastem por anos a fio, será preciso que se alterem as leis processuais e se aprove também a PEC n 15, que retira o efeito suspensivo dos recursos excepcionais ao STJ e ao STF.

Mesmo sem isso, porém, aquela lei já melhoraria muito a situação, pois prevê a aplicação de sanções também pela própria administração, tais como as multas de até 20% do faturamento bruto e o impedimento de receber benefícios fiscais, além do ressarcimento do prejuízo.

Hoje, a sanção máxima que o governo pode aplicar é a declaração de inidoneidade, que impede a participação em novas licitações e contratos. O cadastro exibido no site da CGU já conta com quase seis mil empresas impedidas (inclusive uma daquelas da reportagem já havia sido punida dessa forma).

Além de tudo isso, a aprovação do projeto de lei atenderia ao último compromisso de ordem normativa ainda não cumprido pelo Brasil perante a Convenção da OCDE contra o Suborno Transnacional.

Fica o apelo aos congressistas.

 

 

 

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Agências da ONU avaliam progressos após a Cúpula da Terra em 1992

Mais de dez agências das Nações Unidas discutiram hoje os principais avanços e desafios remanescentes da Cúpula da Terra de 1992. O foco se manteve na América Latina e o Caribe.

“Há vinte anos, o baixo crescimento, a alta inflação e o endividamento externo dominavam as economias latino-americanas. Hoje, a estabilidade econômica permite assumir melhor a transição verde”, conclui a ONU.

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É preciso separar os poderes

Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/politica/2012/03/16/santaya-e-a-crise-e-preciso-separar-os-poderes/

por Mauro Santayana

Escolher os inimigos, aconselhava Benedito Valadares, é mais importante do que selecionar os amigos. Não se faz política sem causar rancores, embora a unanimidade popular seja a utopia dos homens públicos. O líder de um partido, ou o administrador público, ao fazer escolhas, beneficia uns e prejudica outros. O seu critério pode ser o da defesa do bem público, ou não, dependendo de sua construção ética. Mas sempre que beneficia alguém – o que não significa que tenha assegurado fidelidade futura – prejudica o seu rival na corrida pelo poder. Daí o conselho do lendário chefe político montanhês: é mais difícil escolher o inimigo, do que o amigo.

A maior dificuldade da política reside na busca do equilíbrio entre a ética e a prática do poder. Fernando Henrique, apoiando-se em Max Weber, aludiu a uma ética da responsabilidade, que absolveria os homens públicos. Talvez com isso, o então presidente estaria justificando as manobras de seu competente auxiliar nesses assuntos, o ex-militante de esquerda Sérgio Motta, encarregado de lubrificar as relações com o Parlamento. Em suma, ao considerar necessária, em sua avaliação e em sua conveniência pessoal, as emendas que lhe permitiram a prazerosa reeleição e a  venda dos bens do povo aos empreendedores privados, muitos deles estrangeiros, o presidente se valia da ética weberiana da responsabilidade. Como depois se constatou, não se tratava exatamente da ética, mas de sua contrafação.

Só há um momento em que o critério da  necessidade se impõe aos conceitos habituais do que conhecemos como ética: a salvação da vida de cada um de nós e das sociedades nacionais. A legítima defesa, diante do perigo, não nos permite  escolhas. Temos que vencer o inimigo que nos ataca, usando de todos os meios possíveis. Fora disso, podemos admitir a astúcia nas relações políticas internas, mas isso não significa aceitar como normal a  corrupção, o suborno, a concussão.

O problema da governabilidade, no Brasil, está associado à invertebrada estrutura institucional. A administração do Estado se divide em feudos, entregues a grupos de interesses que se reúnem sob falsas bandeiras partidárias. Esses grupos, que se servem das bancadas parlamentares a eles associadas, ocupam os ministérios de seu interesse, recrutam os indicados pelos seus correligionários para ocupar os cargos administrativos e se consideram, assim, condôminos do poder executivo. O chefe do poder executivo se vê constrangido a aceitar a deformação e, em alguns casos, a fechar os olhos, a fim de manter a maioria parlamentar de que necessita, e realizar os seus projetos administrativos e políticos.

Ora, ao que parece, a Senhora Dilma Roussef está empenhada em resistir contra  esse pragmatismo, que vem de longe. Em nosso raciocínio, pouco interessa os nomes em jogo, nem os dos defenestrados, nem os dos beneficiados com a recentíssima crise que resultou na substituição dos líderes do governo no Congresso, e na ação de represália das bancadas partidárias. De certa forma, todos estão agindo dentro das regras do jogo, que não são,  como sabemos, as ideais. O problema mais grave é o da debilidade das instituições. O Brasil é um país que sempre contou com líderes políticos fortes e instituições débeis. Esses líderes fortes não souberam, não quiseram, ou não puderam construir instituições sólidas, nestes 190 anos de vida independente.

Não podemos esconder as dificuldades do momento. Ainda que a Presidente Dilma Roussef conte com ampla simpatia popular, alguns tropeços de seu governo causam preocupação aos observadores mais experientes. Há auxiliares seus que podem ser pessoas honradas, mas não se acham dotados da prudência que o exercício do poder impõe. Esses, talvez entusiasmados pelo suporte popular, não se valem da modéstia necessária ao exercício da autoridade que a Chefe de Governo lhes delega.

O cuidado de manter a palavra sob o estrito domínio da razão é mais exigido do poder executivo (e do poder judiciário, acrescente-se) do que do poder legislativo. Os parlamentos, desde que existem, não só são poupados dessa prudência verbal, como, neles, o ardor dos debates e os doestos  quase constituem a sua razão de ser. Em todos os debates parlamentares, do Senado Romano aos Comuns, a liberdade de dizer tudo  tem sido indispensável à coesão das sociedades políticas.

Ao meditar os movimentos da pequena crise, os mais sensatos tentam recolocar o processo em seus trilhos. Mas conviria ir além do problema imediato, e pensar seriamente em  assegurar a separação real dos poderes republicanos. Os parlamentares não podem, nem devem, assumir cargos no poder executivo. É essa promiscuidade que incentiva a corrupção e paralisa o governo.

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