Europa: carvão em alta, “renováveis” em baixa

Rio, 27/setembro/2012 – A União Europeia está pagando caro pela sua opção ideológica por liderar a “descarbonização” da economia mundial. Os líderes dessa empreitada, a Alemanha e o Reino Unido, estão sentindo fortemente os impactos negativos de tal projeto, com os elevados custos das usinas eólicas e solares para as matrizes energéticas dessas nações. Diante de tal quadro adverso, agravado pela desastrosa decisão de desativar as suas usinas nucleares, os alemães estão acelerando os planos para a construção de novas termelétricas a carvão, em mais um sinal de que os delírios ambientalistas estão em recesso no Velho Continente.

Em artigo publicado no Sunday Telegraph (23/09/2012), o jornalista britânico Christopher Booker destacou as consequências negativas da política de promoção das fontes “renováveis” na Alemanha, destacando que o caso serve de alerta para o próprio Reino Unido. Na matéria, Booker citou o fato de que, na manhã do dia 14 de setembro, as 3.500 turbinas eólicas existentes na Grã-Bretanha atingiram a geração recorde de quatro gigawatts, enquanto, no mesmo dia, na Alemanha, as usinas eólicas e solares atingiram um pico igualmente recorde de 31 GW (o país tem o maior número de turbinas eólicas no mundo, 23.000).

Todavia, esses fatos foram recebidos de forma bem distinta nos dois países: enquanto, no Reino Unido, a indústria de usinas eólicas proclamou um grande triunfo, que, supostamente, comprovaria a viabilidade econômica das “renováveis”, na Alemanha, o acontecimento foi diluído pela crescente desilusão em relação às fontes energéticas “verdes”.

Um dos maiores problemas enfrentados pelos alemães é a conhecida intermitência da geração eólica e solar, devido às grandes oscilações dos ventos e da luz solar, que fazem com que tais usinas experimentem variações de 0% a 100% de sua capacidade nominal em curtos períodos. Na Alemanha, a eficiência média das “renováveis” é de 17%, contra 25% das eólicas britânicas (nos dois países, as termelétricas a carvão e nucleares atingem índices superiores a 90%).

Na Alemanha, diz Booker, o sistema elétrico tem se tornado cada vez mais vulnerável às oscilações da geração “renovável”, o que tem acarretando uma série de prejuízos. Um exemplo citado pelo jornalista foi o de uma indústria de alumínio em Hamburgo, que, devido à queda de geração ocorrida durante poucos segundos, acabou sendo subitamente desativada, implicando em danos diversos no maquinário da empresa.

Diante do problema, o governo alemão tem sido forçado a encarar outra questão: para evitar o risco de interrupções do fornecimento causadas por tais eventos, o país se viu forçado a construir e operar uma rede de usinas termelétricas para funcionar como reserva para as “renováveis”, de modo a compensar a sua intermitência (como o Brasil também se vê obrigado a fazer). Estas termelétricas de apoio são mantidas em funcionamento ininterrupto, em atividade mínima – com o que, ironicamente, acabam anulando quaisquer supostas vantagens da “economia de carbono”.

Segundo Brooker, diante dessa pletora de problemas, o governo e o empresariado alemães começam a esboçar um recuo no projeto de uma “economia de baixo carbono”. As empresas E.on e RWE, duas das maiores geradoras de energia do país, têm planos para a construção de 16 novas termelétricas a carvão, além de 15 a gás natural, até 2020, que representarão um reforço de 38% na atual capacidade de geração de eletricidade instalada.

Além disso, segundo Patrick Hummel, analista do banco suíço UBS, nos próximos quatro anos, sete países da Europa Central irão adicionar 10.600 MW de capacidade instalada em novas termelétricas a carvão, além de 1.600 MW de termelétricas a gás (Bloomberg, 21/09/2012).

Carvão poderá salvar créditos de carbono

A maior ironia de todo esse impulso é que a ressurgência do carvão na matriz energética europeia poderá acabar contribuindo para salvar o combalido mercado de créditos de carbono da UE. Uma nota publicada no sítio tcheco especializado em investimentos Patria Online, em 21 de setembro, informa que uma análise efetuada pela empresa luxemburguesa Euro Carbon Macro Fund estima que os preços das permissões de emissões deverão experimentar um aumento de 73% até o final de 2013, em comparação às baixas históricas registradas neste mês de setembro.

Comentando o fato, em seu blog The Reference Frame (21/09/2012), o físico tcheco Lubos Motl, um crítico mordaz do catastrofismo climático, observa, com propriedade:

(…) O novo boom esperado, tanto na Europa Ocidental como na Europa pós-socialista, é a única maneira sensível de salvar o mercado de carbono. Não é irônico? Para que os alarmistas climáticos preservem a sua pele institucionalizada, eles devem fazer tudo para forçar as pessoas a construir novas usinas a carvão… Quase nunca, os planos – apostas arbitrárias irracionais e indefensáveis – são corretos ou realistas, motivo pelo qual os seus campeões, frequentemente, têm que fazer muitas coisas para salvar as aparências, inclusive, coisas que pioram a situação.

Tal fato denota, pela enésima vez, a escassez de credibilidade científica dos cenários catastrofistas sobre as mudanças climáticas supostamente induzidas pelas emissões de carbono. Como se percebe pelas movimentações europeias, o interesse maior não é reduzir as emissões, mas faturar com elas.

 

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De golpe em golpe, a Casa Grande se perpetua

De golpe em golpe, a Casa Grande se perpetua

(Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 20/09/12)

Paulo Metri – conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia

Até que enfim o Brasil está destravando. Agora, vai ser para valer. Depois do julgamento do mensalão, teremos o do mensalão mineiro, aqueles derivados das operações Satiagraha, Castelo de Areia, Vampiro… Operações da Polícia Federal, até hoje sem conseqüências judiciais, mas cheias de descobertas escabrosas, não faltam. O Ministério Público Federal e a Procuradoria Geral da República vão ter muito que fazer nas suas áreas de competência, pois cuidarão de diversos processos para encaminhar aos Tribunais. Os potenciais fichas-sujas, que sempre estiveram escondidos nos trâmites burocráticos, coloquem suas barbas de molho, pois seus períodos de impunidade estão prestes a terminar.

Quem sabe se, agora, o réu confesso Ronivon Santiago não vai conseguir a paz? Ele queria, salvo engano, expiar sua culpa, pois confessou ter vendido por R$ 200.000 seu voto parlamentar em troca de apoiar a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo reportagem da Folha de São Paulo de 13/5/1997. Os preços mínimos e o modelo de privatização, que levaram as empresas estatais a serem privatizadas por preços muito baixos no período FHC, podem ser investigados. Aliás, para este caso, o livro “Privataria Tucana” pode vir a ser útil.

Há pouco tempo, circulou na internet um correio com uma extensa lista de escândalos sem solução do Brasil nos últimos anos. Assim, muitos dos processos, que dormem em pilhas há anos, com o beneplácito dos “engavetadores”, vão ser acordados. Depois desta “passada a limpo”, não haverá mais denúncia sem a devida averiguação e a eventual abertura de processo.

Neste ponto do sonho, me acordam e jogam contra mim a dura realidade, que chega a doer. Existirá tão somente este julgamento, o do suposto mensalão. Portanto, não é um processo global de respeito à Justiça. É um julgamento único, que também deve existir, e como em todos os julgamentos, nele, a justiça também deve prevalecer. Aliás, a eventual culpa dos que podem estar comprometendo todo um belo projeto de libertação dos miseráveis deve ser punida.

Entretanto, espantos relevantes existem. Só este processo? Julgado exatamente no presente momento, quando se está próximo da eleição municipal, que certamente irá influenciar os rumos da campanha presidencial de 2014? Com razoável celeridade, por sinal bem vinda, mas incomum na nossa Justiça?

Pode-se até dizer que, para certos grupos políticos, este julgamento veio a calhar, pois os ajuda de montão. As más línguas chegam a lançar versões venenosas, dizendo que é um julgamento encomendado. Não compartilho de tamanha agressão, pois, nesta versão, grupamentos políticos estariam utilizando a justiça como instrumento para chegar ao poder.

Contudo, é verdade que, toda vez que classes menos favorecidas têm alguma melhoria de vida significativa, alguma mais valia deixa de ser usurpada e classes abastadas ficam ligeiramente menos ricas. O prejuízo nem é tão grande, mas, para criar exemplos, este horror precisa ser contido.

Neste momento, os donos do capital chamam, dependendo do momento histórico e do local, forças diversas para socorrê-los. No Brasil, em 1964, foram chamados os militares para auxiliar na perpetuação da má distribuição de renda, que aceitaram a proposta em troca do mando da nação, exceto em qualquer área que comprometesse a lucratividade das classes mais ricas. Ocorreu, assim, um golpe militar.

Recentemente, no Paraguai, foram chamados os próprios representantes da classe dominante, que compõem a quase totalidade dos integrantes do Congresso. Foi um golpe legislativo. Em alguns países, os donos de capital locais se aliam até com forças estrangeiras para dominar seus compatriotas, que não se subjugam à exploração. Tem-se, assim, um golpe militar com apoio de forças estrangeiras.

O golpe dos integrantes da Casa Grande em processo no Brasil, hoje, é tão ardiloso que quem o denuncia é rotulado como pertencente ao PT ou corrupto interessado no perdão dos culpados (assim definidos a priori). Nunca será visto como interessado na continuidade do processo de inclusão social em curso há dez anos. Ou alguém tem dúvida que a paralisação desta inclusão é o passo seguinte após as vitórias eleitorais do grupo conservador, se isto ocorrer?

É óbvio que não podemos retirar os créditos merecidos da mídia caluniosa. As televisões, onde a grande massa brasileira obtém informações, não divulga os verdadeiros fatos, deforma a realidade com versões deturpadas, ludibria, mente, enfim, prejudica a sociedade e está sempre a serviço do capital. Na mídia, existem exceções honrosas, como, por exemplo, a revista Carta Capital. Mas, todo golpe tem suporte midiático.

Sobre este ponto, não me esqueço da imagem recente de um articulista sofrível colocado para ser comentarista de um grande canal de televisão, que falava sobre o mensalão. Assim, tendo que desenvolver o raciocínio que lhe ordenaram, sem grande afinidade com questões jurídicas, era uma figura estranha. Mas não existia inocência nele, pois seu salário certamente é muito alto. Era uma mensagem para o grande público sobre a culpa de José Dirceu, mas com o intuito de constranger os ministros do Supremo, uma vez que os votos destes não poderão fugir ao óbvio ensinado, sob pena de ser algo “muito errado”.

Há esperança de que, mais uma vez, um desenvolvimento tecnológico esteja quebrando um monopólio de controle das mentes. A Igreja perdeu este controle, detido através dos monges copistas, quando publicava só o que era de seu interesse, à medida que Gutemberg inventou a prensa para produção de impressos em série. Atualmente, a internet seria o desenvolvimento tecnológico que permite à população ter acesso a diferentes versões para o que acontece, ou seja, ela mostra um novo mundo escondido pela mídia convencional e corrupta. Afinal de contas, estou sendo lido, agora, graças à internet.

Visite: http://www.paulometri.blogspot.com.br/

 

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O IPI E OS VOOS DE GALINHA.

Reproduzido do: http://www.maurosantayana.com/2012/09/o-ipi-e-os-voos-de-galinha.html

O IPI E OS VOOS DE GALINHA, Por Mauro Santayana,

A incipiente recuperação da indústria e do varejo e o recrudescimento da crise na Europa, com o risco de um provável pedido de resgate da Espanha, recomendam cautela do governo na hora de cortar mais uma vez os benefícios que tem sido concedidos à produção, como é o caso da redução de IPI para a comercialização de automóveis e de produtos de linha branca.

Antes – e os efeitos ainda estão aí, na prática – o país via-se afetado por uma política monetária ortodoxa, na qual a escalada da SELIC abortou, por diversas vezes, a manutenção de uma taxa de crescimento razoável e constante, fazendo com que a economia se lançasse a inúmeros “voos de galinha”, que depois foram abruptamente interrompidos pela mudança das regras do jogo .

O país, agora com uma taxa de juros mais próxima do razoável, parece ter se livrado da ditadura das cassandras, que, por meio dos boletins Focus, se dedicavam – e ainda se dedicam, infelizmente – ao esporte de promover a piora das expectativas para se beneficiar direta e indiretamente da alta de juros dela decorrente.

A indústria brasileira precisa de regras estáveis para trabalhar em um mundo cada vez mais competitivo, no qual vários países tentam minorar os efeitos da crise empurrando bens de consumo e mercadorias de todo o tipo para o nosso mercado interno.

Manter intocados por pelo menos um ano os incentivos voltados para a recuperação da produção industrial, incluindo a redução do IPI, ajudaria a dar fôlego ao país para encontrar um rumo em meio à tempestade que assola a economia dos principais mercados mundiais.

Mas isso apenas não basta. Nosso mercado interno, incluindo o automobilístico, não pode continuar entregue apenas a multinacionais. Já passou da hora de o Brasil ter concorrentes nacionais nos diferentes setores da atividade industrial, brutalmente desnacionalizados nos anos noventa, como aconteceu, por exemplo, com o próprio segmento de linha branca e o de autopeças.

Outros países do BRICS, como a China e a Índia, partindo do mesmo patamar (sem falar da Coréia e do Japão anteriormente), conseguiram erguer, graças à participação direta e indireta do Estado, poderosas indústrias automobilísticas nos últimos anos, ou simplesmente adquiriram no exterior, aproveitando a crise ocidental, empresas que já estavam no mercado, detentoras de grandes marcas e de tecnologia avançada, como a Volvo, a Jaguar e a Land Rover.

Aqui, com decisão política e recursos do BNDES, poderíamos fazer o mesmo, em aliança ou não com marcas chinesas ou indianas para conquistar a tecnologia que o primeiro mundo parece não ter o menor interesse em nos deixar desenvolver neste momento.

Afinal, o consumidor que compra um carro fabricado no Brasil – e uma CPI poderia ajudar a desvendar esse mistério – não pode continuar pagando, por modelos similares aos fabricados no exterior, os preços mais altos do mundo.

Por Mauro Santayana

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Indústria brasileira desenvolve Aeronaves Remotamente Tripuladas (ARP)

ARP Falcão (AVIBRAS) 100% tecnologia brasileira

O uso de ARP (Aeronaves Remotamente Pilotadas) no Brasil deverá ser acelerado com a implantação do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras) e do SisGAAz (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul), orçados em R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões, respectivamente. Os programas estão previstos para serem concluídos até 2019 e incluem a utilização de ARP nas missões de vigilância, além de satélites, radares e aeronaves tripuladas. Pelo menos 13 empresas brasileiras estão desenvolvendo ARP para o mercado civil e militar. O artigo a seguir, publicado pela Folha, aborda o tema.

Da Folha de S.Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1150302-industria-brasileira-desenvolve-veiculos-aereos-nao-tripulados.shtml

O Departamento de Defesa dos EUA tem hoje 7.000 veículos aéreos não tripulados (vants, também chamados de “drones”, zangões). Há dez anos, antes de Afeganistão e Iraque, não passavam de 50.

O Pentágono já admite que o número de pilotos de vants, que controlam os aparelhos a partir de bases americanas, deverá ultrapassar o de pilotos de seus aviões regulares.

Com as duas guerras em refluxo, a febre está passando à área civil. Em fevereiro, uma nova lei americana, festejada pelos fabricantes, liberou o uso rural e até urbano dos aparelhos, em segurança pública.

Chris Anderson, autor de “A Longa Cauda” (2006) e sócio-fundador de uma empresa de software para “drones”, a 3D Robotics, calcula que todo mês levantam voo nos EUA mais de mil novos vants civis, já superando os militares.

O Brasil corre atrás, tanto em aparelhos militares como civis. Empresas vêm sendo formadas, inclusive diversas subsidiárias da Embraer, na expectativa do anúncio de um programa de vants do Ministério da Defesa.

PROJETO

Um primeiro projeto, até hoje “em aperfeiçoamento”, acaba de completar cinco anos, desde que a empresa carioca Santos Lab, hoje parte da Embraer, forneceu os primeiros vants à Marinha.

Questionado, o ministério responde que a elaboração dos requisitos operacionais para a aquisição dos aparelhos “está em andamento” e que ainda não há detalhamento sobre quantidade ou prazo. Adianta que o Exército prevê empregar os vants no apoio à artilharia, entre outras missões; a Aeronáutica, no controle de fronteiras; e a Marinha, na defesa das plataformas nas bacias de Campos e de Santos.

Mas o objetivo expresso é estimular produção nacional e a inovação tecnológica. É a justificativa para o desenvolvimento de outros aparelhos e sistemas pelas Forças Armadas nos últimos anos, em conjunto com empresas do interior paulista como Flight e Avibrás e com fomento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

VÁRIOS GRUPOS

A corrida pelas encomendas militares vislumbra, como nos EUA, o posterior uso civil. A Abimde (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança) formou um comitê para veículos não tripulados visando “consolidar e fazer crescer o setor não só para aplicações militares, mas comerciais”, segundo o vice-presidente executivo, Carlos Afonso Perantoni Gambôa.

Segundo Gambôa, ainda não há no Brasil “nenhuma regulamentação de emprego comercial”, mas a associação vem trabalhando em conjunto com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e o Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) para a construção de um marco regulatório para o segmento.

Nei Brasil, presidente da Flight, que nasceu na incubadora de start-ups do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), afirma que “vai ser difícil a indústria nacional se capacitar para ter um setor civil pujante se não for alavancada no primeiro momento pelo setor militar”.

CONSOLIDAÇÃO

O executivo prevê que os vants “sejam uma das áreas mais aquecidas do setor aeronáutico”. Daí o início “conturbado, com vários grupos tentando se posicionar”. Ele prevê, com o tempo, uma forte consolidação.

Renato Bastos Tovar, gerente de programas tecnológicos da Avibrás, também prevê uma acomodação do mercado e diz que sua empresa “está aberta a conversas”.

Por outro lado, Rodrigo Kuntz, presidente da BRVant, também do interior paulista, questiona o estágio do mercado no país. Segundo ele, o Hermes 450 e o Heron, dois aparelhos israelenses, “são os únicos equipamentos de maior porte voando no Brasil”. A BRVant finaliza atualmente um projeto para desenvolver um aparelho maior, voltado para o nicho militar.

Também já produzem ou se preparam para produzir vants: OrbiSat, da Embraer, em conjunto com AGX e Aeroálcool; Harpia, de Brasília, parceria entre Embraer e Elbit, de Israel; Andrade Gutierrez Defesa e Segurança, do Rio, com francesa Thales; XMobots, de São Carlos; e Skydrones, de Porto Alegre.

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Ser nacionalista: estudo de casos

Veiculado pelo Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7604:ser-nacionalista-estudo-de-casos&catid=72:imagens-rolantes

Por Paulo Metri

Há anos, ocorre uma confusão imensa entre acarretar alguma expansão da atividade econômica no país, sem se ater às condições inerentes, com ser nacionalista. A expansão, para ser considerada nacionalista precisa impactar, positiva e duradouramente, nossa sociedade. Tenta-se explicar o conceito através do estudo de alguns casos.

Caso 1 – Um representante do BNDES proferiu uma das palestras em Seminário sobre Etanol no Rio de Janeiro. Dentre outros pontos, disse que a grande expansão recente da produção de etanol foi graças a expansões da capacidade de subsidiárias de empresas estrangeiras, que passaram a atuar no setor, e o BNDES financiou estas expansões. Neste ponto, já ouvi, em outras oportunidades, autoridades governamentais dizerem que “hoje, é inconstitucional negar um pedido de financiamento só por ter sido solicitado por uma subsidiária estrangeira”.

Estas autoridades, com a devida vênia, não podem estar corretas. Pode ser que exista, no conjunto de leis abaixo da Constituição, alguma que obrigue este financiamento, mas, na nossa Carta Magna, não existe tal obrigação. Neste momento, trazem sempre a seguinte linha de argumentação. O artigo 171 original da Constituição, além de distinguir as empresas instaladas no país segundo a origem de seu capital, privilegiava a empresa brasileira de capital nacional nas compras de bens e serviços pelo poder público. A emenda constitucional no 6, de 1995, revogou o artigo 171. Então, para alguns intérpretes da mudança, a emenda acarretou a “proibição de privilegiar a empresa genuinamente nacional”.

Notar que a emenda eliminou a diferenciação de empresas existentes no país, segundo a origem do capital, e a obrigatoriedade de privilegiar a empresa nacional genuína, em nível constitucional. Mas os legisladores não colocaram um artigo substitutivo no local, proibindo o ato de privilegiar. Então, o que existe hoje em nossa Constituição é um vácuo total com relação a este tópico, permitindo que a legislação infraconstitucional defina livremente o que é permitido e proibido. Erradamente, concluem que, se a obrigação de privilegiar foi cancelada, é proibido privilegiar, o que é ingênuo demais. Mas é a única explicação que imagino para o que ocorre.

Assim, teria sido melhor se o BNDES tivesse negado os pedidos de financiamento da expansão de empresas estrangeiras de etanol. Talvez as tolhesse de entrar no setor e, assim, permitisse o crescimento e a consolidação de grupos nacionais que lá estavam. Nesta situação, o BNDES seria nacionalista.

Caso 2 – Os leilões de petróleo são causadores de enorme prejuízo para a sociedade brasileira e, portanto, são exemplos claros de falta de nacionalismo. Os leilões e as concessões resultantes são consequências da lei 9478, de 1997, aprovada em pleno governo neoliberal de FHC. As petroleiras estrangeiras são hoje detentoras, sozinhas ou em parceria, de blocos do território nacional, nos quais vão continuar fazendo perfurações e vão acabar descobrindo muito petróleo. Este será integralmente exportado e, como a referida lei é péssima, a sociedade brasileira receberá somente parcela ínfima da riqueza através de taxação. Some-se a este fato o prejuízo de que economias estrangeiras, nossas competidoras, serão ativadas com o energético mais eficiente em diversas aplicações. Assim, o uso geopolítico pelo Brasil do seu petróleo é jogado no lixo.

A recente descoberta da Repsol Sinopec Brasil serve, triste e didaticamente, para o povo brasileiro acordar para o prejuízo a que foi submetido pelo governo FHC. Esta descoberta custará ao país 1,2 bilhão de barris do seu petróleo. O bloco marítimo, onde esta gigantesca reserva se encontra, foi arrematado em um dos leilões da sétima rodada da ANP, em 2005, no qual o consórcio ganhador, com a Repsol como operadora, pagou somente US$ 15 milhões pelo bloco. A expectativa de lucratividade deste arremate pode ser verificada através de conta simples. Cada barril do Pré-Sal dará de lucro, no mínimo, US$ 60, partindo-se de um barril a US$ 100. Se este for maior, o lucro obviamente será maior. Então, o bloco onde está a reserva irá render, no mínimo, 1,2 bilhão de barris vezes US$ 60 por barril, o que é igual a US$ 72 bilhões de lucro, ou seja, cerca de 5.000 vezes mais do que foi gasto com o arremate.

A Petrobrás foi a única responsável pela descoberta do Pré-Sal. Foram os técnicos desta empresa que conceberam o modelo geológico, posteriormente comprovado por ela própria com um poço pioneiro que custou mais de US$ 250 milhões. Nenhuma petroleira estrangeira se arriscou quando o grau de incerteza era muito alto.

Desta forma, não é justo a sociedade brasileira ficar tendo prejuízo só para honrar contratos assinados por seus representantes legais, porem espúrios, que conseguiram chegar ao poder exatamente através de um complô de entes estrangeiros e forças traidoras locais. Assim, as petroleiras estrangeiras estão dentro da legalidade de uma lei injusta e prejudicial à sociedade. Ser nacionalista é lutar pela revisão de todas concessões a estrangeiros de áreas de petróleo, assim como do arcabouço legal e institucional brasileiro, que permite esta injustiça.

Caso 3 – No artigo “No pântano da farsa”, do jornalista Leandro Fortes, sobre o vazamento da Chevron no campo de Frade, constante da Carta Capital n. 674 de 25/11/2011, pode-se ler o parágrafo mostrado a seguir.

“Distante da crise em Brasília, uma das primeiras coisas que o delegado Scliar percebeu quando começou a entrar no caso foi a presença irregular de estrangeiros na plataforma da Chevron. Ele suspeita que a petroleira simplesmente ignore os trâmites de migração da legislação brasileira e embarque trabalhadores de fora sem conhecimento das autoridades locais. A companhia nega formalmente essa acusação, mas não vai além disso. Os advogados da Chevron dedicam-se, nestes dias de turbulência, a consolidar uma tese que poderá lhes ser muito cara quando o assunto chegar às barras da Justiça. A de que o crime, se assim o desastre for definido, não ocorreu no Brasil, mas em águas internacionais. A interpretação não é absurda e tem sido levada em conta pelo delegado Scliar desde seu sobrevoo sobre a mancha. O Campo de Frade está fora do mar territorial brasileiro, fixado em lei em 12 milhas náuticas (22,2 quilômetros) a partir da costa. Está, contudo, dentro das 200 milhas náuticas (370 quilômetros) da chamada Zona Econômica Exclusiva (ZEE). Embora não seja muito provável que aconteça, caso a tese da Chevron vingue, a companhia terá cacife para reverter a cobrança de multas e complicar a ação da Justiça brasileira. Como também poderá se safar dos processos penais e administrativos relativos à presença de estrangeiros em situação irregular na plataforma e nas embarcações de apoio”.

Salvo interpretação errônea, empresas estrangeiras têm escondida na manga, se alguma disputa com o governo brasileiro sob qualquer pretexto ocorra, a possibilidade de declararem que produzem petróleo em águas internacionais. Como grande limitador está o fato de que elas precisam das bases de apoio no Brasil, senão já estariam explorando na nossa ZEE sem participar de leilão algum. Mas, em uma situação hipotética, em que tenham que pagar multas bilionárias, este argumento poderá ser utilizado.

Preventivamente, o Brasil deveria colocar só a Petrobrás para atuar nesta área. Entretanto, se pressões de governos estrangeiros exigirem leilões de novos blocos marítimos, que é a única justificativa, no meu entendimento, para a persistente existência destes leilões, poderíamos admitir nos leilões só empresas pertencentes a países que aceitam a nossa ZEE. A matriz da Chevron está nos Estados Unidos, que não reconhecem a ZEE de país algum, pois não ratificaram a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Estar sempre protegendo o interesse da sociedade brasileira é ser nacionalista.

Paulo Metriconselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia

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A Defesa e a Sociedade

Em 17 de julho de 2012 o tema Defesa entrou definitivamente na agenda nacional. Nesta data o governo federal, através do ministro da Defesa Celso Amorim, entregou ao presidente do Congresso José Sarney, conforme previsto na Lei Complementar 136/2010, para apreciação do Senado e da Câmara, a versão preliminar do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), bem como as atualizações da Política Nacional de Defesa (PND) e da Estratégia Nacional de Defesa (END). Tratam-se dos documentos que regem a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas Brasileiras, sendo a primeira vez na história do País que tais documentos são produzidos e encaminhados ao Congresso Nacional.

O LBDN, a PND e a END submetidos à apreciação do Congresso são os principais documentos que irão viabilizar o Plano de Articulação e Equipamentos de Defesa, com investimentos previstos de R$ 561 bilhões, nos próximos anos.

A orientação do Ministério da Defesa é privilegiar o desenvolvimento de tecnologia de defesa nacional e alavancar a indústria nacional. Em todas as aquisições externas a transferência de tecnologia será uma exigência.

Um das premissas do Plano é priorizar o desenvolvimento de tecnologias duais, isto é: de emprego civil e militar, assegurando assim perenidade aos projetos.

Um país que ser protagonista no mundo, tem que ser capaz de projetar, construir e operar seus sistemas de defesa.

Para que umprograma desta enveragdura se concretize,  é essencial o engajamento da sociedade na discussão deste importante tema, vital para o desenvolvimento soberano do Brasil.

por Carlos Ferreira

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TELECOMUNICAÇÕES: O TAMANHO DO BURACO.

Do Blog do Mauro Santayana

Segundo O Estado de S. Paulo, as empresas de telefonia que operam no Brasil tiveram uma expansão de sua receita em 8,3% ao ano, desde 2005, e só reinvestiram 3% ao ano, no mesmo período. Mais grave ainda é a revelação de que, desde a privatização do sistema Telebrás, em 1998, as empresas investiram 390 bilhões, contra uma receita calculada em quase dois trilhões de reais. Esse número é obtido pela informação dos dois principais dirigentes da Oi e da Vivo, de que foram investidos mais ou menos 20% da receita total. Se os investimentos foram de 390 bilhões, basta multiplicar por cinco, para obter a receita total destes 14 anos. É bom lembrar que boa parte dos investimentos foram bancados pelo BNDES, a juros de mãe amorosa.

O Brasil é o paraíso dos investidores estrangeiros, nesse sistema de colonialismo dissimulado. Há poucos dias, outro jornal, O Globo, divulgava que as montadoras de automóveis lucram 3 vezes mais em nosso país do que nos Estados Unidos. A margem de lucro dessas empresas, no Brasil, é de 10%, enquanto nos Estados Unidos não passa de 3%. E não só nos Estados Unidos os carros são muito mais baratos. Há modelos que custam duas vezes mais no Brasil do que na França, e 30% mais barato ali mesmo, na Argentina.

A defesa do interesse nacional recomenda medidas mais fortes de parte do Estado. O governo, no entanto, caminha lentamente. A restauração da Telebrás, iniciada timidamente, timidamente se desenvolve. Há visível desinteresse do Ministro Paulo Bernardo em dar à velha empresa nacional os instrumentos de sua reorganização e funcionamento, para a universalização da banda larga no país.

A privatização das empresas estatais brasileiras foi decidida, como todos sabemos, em Washington, com a articulação dos economistas neoliberais, no famoso Consenso, que não ouviu os povos, nem examinou criteriosamente os efeitos da globalização exacerbada da economia. Como se recorda, o objetivo, claro e desaforado, da nova ordem que propunham era o de acabar com a democracia política e sua substituição por um governo de gerentes a serviço do sistema financeiro mundial. Nesse sentido, chegou-se a um Acordo Mundial de Investimentos que, simplesmente, colocava o dinheiro sem pátria acima dos estados nacionais. Muitas das cláusulas desse acordo foram cumpridas pelo governo neoliberal de então. E só a reação da França e do Canadá impediu que o tratado espúrio fosse assinado, oficialmente, pelos governos vassalos daquela época, entre eles, o do Brasil.

Hoje, os mais lúcidos economistas do mundo demonstram o erro cometido pelos países que privatizaram suas grandes empresas. Entre eles, dois prêmios Nobel – Joseph Stiglitz e Paul Krugman.

Se a privatização fosse realmente uma vantagem, os Estados Unidos já teriam privatizado a TVA – fundada por Roosevelt, em 1933 – e a Amtrak.

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VARGAS E A PRESENÇA DO ESTADO NA ECONOMIA

 

Este Blog se associa à homenagem que Santayana presta a Getúlio Vargas, o  Maior Estadista que este País já teve,  Mártir da nacionalidade, do Povo Brasileiro, e reproduz seu artigo.

 

por Mauro Santayana

(JB)- Em 24 de agosto de 1954, os homens de minha geração chegavam à maioridade. Naquele dia, pela manhã, cheguei ao Rio, enviado pelo Diário de Minas, de Belo Horizonte, a fim de cobrir o velório de Vargas e a reação do povo carioca ao suicídio do Presidente. A Presidente Dilma Rousseff era uma menina de seis anos. Não poderia saber o que significava aquele gesto de um homem que mal passara dos 70, e ocupara o centro da vida brasileira naqueles últimos 24 anos.

As jornadas anteriores haviam sido enganosas, o que costuma ocorrer na História, desde o episódio famoso da frustrada queda de Richelieu. Os meios de comunicação haviam ampliado o suposto atentado contra Carlos Lacerda – obscuro até hoje – e atribuído à responsabilidade ao Presidente, tentando fazer crer que o Palácio do Governo se transformara em valhacouto de ladrões e assassinos. Houve quase unanimidade contra Getúlio. Quando passei pela Praça 7, em Belo Horizonte, a caminho do aeroporto da Pampulha, entre manifestantes de esquerda, um jovem sindicalista, meu amigo, pedia aos gritos, pelo megafone, a prisão do Presidente. Desci do táxi e lhe dei a notícia, com os avisos de meu pressentimento: dissolvesse o grupo, antes que os trabalhadores, ao saber da morte do Presidente, reagissem na defesa do líder desaparecido.

Durante a viagem ao Rio, que durava hora e meia, organizei minhas idéias. Entendi, em um instante, que a ação coordenada contra Vargas nada tinha a ver com o assassinato de um oficial da Força Aérea, transformado em guarda-costas do jornalista Carlos Lacerda – isso, sim, ato irregular e punível pelos regulamentos militares. Lacerda, ferido no peito do pé, não permitiu que o revólver que portava fosse periciado pela polícia. Açulada e acuada pela grande imprensa, a polícia nunca investigou o que realmente houve na Rua Tonelero.

Vargas fora acossado pelos interesses dos banqueiros e grandes empresários associados ao capital norte-americano. Ao ouvir, pelo rádio, a leitura de sua carta, não tive qualquer dúvida: Getúlio se matara como ato de denúncia, não de renúncia. Morrera em defesa do desenvolvimento soberano de nosso povo.

Sei que não basta a vontade política do governante para administrar bem o Estado. Mas uma coisa parece óbvia a quem estuda as relações históricas entre o Estado e a Nação: o Estado existe para buscar a justiça, defender os mais frágeis, uma vez que não há igualdade entre todos. Por isso, algumas medidas anunciadas pelo governo inquietam grande parcela dos brasileiros bem informados. É sempre suspeito que os grandes empresários aplaudam, com alegria, uma decisão do governo. Posso imaginar a euforia dos lobos junto a uma ninhada de cordeiros. Quando os ricos aplaudem, os pobres devem acautelar-se.

O regime de concessões vem desde o Império. As vantagens oferecidas aos investidores ingleses, no alvorecer da Independência, levaram à Revolução de 1842, chefiada pelo mineiro Teófilo Ottoni e pelos paulistas Feijó e Rafael Tobias de Aguiar, e conhecida como a Revolução do Serro, em Minas, e de Sorocaba, em São Paulo. O Manifesto Revolucionário, divulgado em São João del Rei por Teófilo Ottoni, e assinado por José Feliciano Pinto Coelho, presidente da província rebelde, é claro em seu nacionalismo, ao denunciar que os estrangeiros ditavam o que devíamos fazer “em nossa própria casa”.

A presidente deve conhecer bem, como estudiosa do tema, o que foi a política econômica de Campos Salles e seu ministro Joaquim Murtinho, em resposta à especulação financeira alucinante do encilhamento. O excessivo liberalismo do governo de Prudente de Moraes e de seu ministro Ruy Barbosa, afundou o Brasil, fazendo crescer absurdamente o serviço da dívida – já histórica –, obrigando Campos Salles (que morreria anos depois, em relativa pobreza) a negociar, com notório constrangimento, o funding loan com a praça de Londres. O resultado foi desastroso para o Brasil. Os bancos brasileiros quebraram, um banco inglês em sua sucursal brasileira superou o Banco do Brasil em recursos e operações e, ainda em 1899, a Light iniciava, no Brasil, o sistema de concessões como o conhecemos. O Brasil perdeu, nos dez anos que se seguiram, o caminho de desenvolvimento que vinha seguindo desde 1870.

Durante mais de 50 anos, a energia elétrica, a produção e distribuição de gás e o sistema de comunicações telefônicas no eixo Rio-SP-BH foram controlados pelos estrangeiros. Ao mesmo tempo, os combustíveis se encontravam sob o controle da Standard Oil. A iluminação dos pobres se fazia com o Kerosene Jacaré, vendido em litros, nas pequenas mercearias dos subúrbios, cujos moradores não podiam pagar pela energia elétrica, escassa e muito cara. O caso das concessões da Light é exemplar: antes do fim do prazo, a empresa, sucateada, foi reestatizada, para, em seguida, ser recuperada pelo governo e “privatizada”. Como se sabe foi adquirida pela EDF, uma estatal francesa, durante o governo de Fernando Henrique. Novamente sucateada, foi preciso que uma estatal brasileira, a Cemig, associada a capitais privados nacionais, a assumisse, para as inversões necessárias à sua recuperação.

Vargas não tinha como se livrar, da noite para a manhã, dessa desgraça, mas iniciou o processo político necessário, ainda no Estado Novo, para conferir ao Estado o controle dos setores estratégicos da economia. Só conseguiu, antes de ser deposto em 1945, criar a CSN e a Vale do Rio Doce. Eleito, retomou o projeto, em 1951 e o confronto com Washington se tornou aberto. O capital americano desembarcara com apetite durante o governo Dutra, na primeira onda de desnacionalização da jovem indústria brasileira. Getúlio, na defesa de nossos interesses, decidiu limitar a remessa de lucros. Embora os banqueiros e as corporações estrangeiras soubessem muito bem como esquivar-se da lei, a decisão foi um pretexto para a articulação do golpe que o levaria à morte.

O Estado pode, e deve, manter sob seu controle estrito os setores estratégicos da economia, como os dos transportes, da energia, do sistema financeiro. Concessões, principalmente abertas aos estrangeiros, em quase todas as situações, são um risco dispensável. O Brasil dispõe hoje de técnicos e de recursos, tanto é assim que o BNDES vai financiar, a juros de mãe, os empreendimentos previstos. Se há escassez de engenheiros especializados, podemos contratá-los no Exterior, assim como podemos comprar os processos tecnológicos fora do país. Uma solução seria a das empresas de economia mista, com controle e maioria de capitais do Estado e a minoria dos investidores nacionais, mediante ações preferenciais.

Por mais caro nos custem, é melhor do que entregar as obras e a operação dos aeroportos, ferrovias e rodovias ao controle estrangeiro. O que nos tem faltado é cuidado e zelo na escolha dos administradores de algumas empresas públicas. Não há diferença entre uma empresa pública e uma empresa privada, a não ser a competência e a lisura de seus administradores. Entre os quadros de que dispomos, há engenheiros militares competentes e nacionalistas, como os que colaboraram com o projeto nacional de Vargas e com as realizações de Juscelino, na chefia e composição dos grupos de trabalho executivo, como o GEIA e o Geipot.

E por falar nisso, são numerosas e fortes as reações à anunciada nomeação do Sr. Bernardo Figueiredo, para dirigir a nova estatal ferroviária. Seu nome já foi vetado pelo Senado para a direção da Agência Nacional dos Transportes Terrestres. E o bom senso é contrário à construção do Trem Bala, que custará bilhões de reais. O senso comum recomenda usar esses recursos na melhoria das linhas existentes e na abertura de novos trechos convencionais. Não podemos entrar em uma corrida desse tipo com os países mais ricos. Eles podem se dar a esse luxo, porque já dispõem de armas atômicas enquanto nós não temos nem mesmo como garantir as nossas fronteiras históricas.

Link do artigo: http://www.maurosantayana.com/2012/08/vargas-e-presenca-do-estado-na-economia.html

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Um OUTRO olhar para a DEFESA NACIONAL


Suporte necessário no cenário nacional ao novo espaço ocupado pela política externa brasileira, a indústria da defesa volta à pauta prioritária do governo

“O Brasil do século XXI aprendeu a conjugar desenvolvimento econômico com inclusão social em um marco plenamente democrático. Esse novo modelo permitiu ao país exercer com sucesso uma política externa ativa e altiva, que nos tem alçado a uma nova estatura internacional”. A análise é de Celso Amorim, ministro da Defesa, que participou, no início de junho, de seminário no Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (Cefor), em Brasília. Em pauta, a compreensão do papel estratégico que a política de defesa assume diante da nova realidade do Brasil no cenário internacional. O tema permanece em debate nos mais relevantes fóruns de discussão e é, hoje, foco da atenção de entidades e instituições que pensam o Brasil de forma estratégica.

Em momento de plena redistribuição do poder mundial, o reaparelhamento das forças armadas é mais que necessário na agenda nacional. Atravessar essas mudanças já teria na segurança um ponto chave ainda que, simultaneamente, o Brasil não estivesse experimentando um momento de crescimento econômico com o fortalecimento do mercado interno e anunciando descobertas de monumentais fontes de energia e metais estratégicos em seu subsolo. Fruto de tudo isso, a crescente inserção política e econômica no cenário internacional força uma reavaliação interna. Neste contexto, a defesa, após mais de 20 anos de apagão, volta a ser prioridade óbvia uma vez que uma política externa de fato soberana depende, historicamente, de um mínimo de força militar.

Visão estratégica

O Plano Brasil Maior, a estratégia de política industrial vigente, lançado em agosto de 2011, apontava a indústria da defesa como ponto chave no crescimento do país. Era mais um indicativo do fortalecimento da indústria da defesa e do reaparelhamento das forças armadas e, consequentemente, a transferência de tecnologia. Em março de 2012, as diretrizes do plano levaram à sansão da Lei nº12.598, que traz novos incentivos às compras, contratações e desenvolvimento de produtos. A lei se soma à Política de Defesa Nacional (PDN), à Política Nacional da Indústria da Defesa (Pnid), à Estratégia Nacional de Defesa (END) e à Medida Provisória 544. Juntos, os dispositivos legais apontam, além da própria indústria da defesa, para a produção local e o desenvolvimento de tecnologias nacionais. De acordo com dados do Ministério da Defesa e da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), com os incentivos, o número de empregos diretos e indiretos na indústria da defesa deve dobrar até 2030, botando o Brasil no 15º lugar no ranking dos grandes players mundiais neste setor.
Não há dúvida de que a visão estratégica por trás do incentivo à defesa está no desenvolvimento tecnológico e na ampla área de efeito que carrega ao se expandir, puxando com ela diversas outras empresas correlatas. Desde o domínio da fusão dos metais, a defesa está relacionada ao avanço da tecnologia. Segundo Carlos Ferreira, associado e membro do Conselho Editorial do Clube de Engenharia e da Câmara de Infraestrutura, Energia e Tecnologia da Alerj, os Estados Unidos são o exemplo perfeito: “O Projeto Manhattan induziu ao surgimento de centros de tecnologia e desenvolvimento na medida em que buscou concentrar o projeto em um esforço de Estado. A nação americana fez um esforço brutal, reforçando seus centros de pesquisa e desenvolvimento. Criada a bomba, tiveram que criar uma forma de entregar o artefato. Nasce aí o Programa Espacial Americano, de roupagem civil, mas que criava os mísseis intercontinentais. Aquela evolução levou o homem à Lua e fez nascer diversas tecnologias, de computação, comunicação etc, que hoje têm uso civil, como a internet, os sistemas antiaderentes dos utensílios de cozinha, o GPS, os tecidos inteligentes, tudo produzido na ponta da indústria da defesa”, explica.

Defasagem e dependência

Historicamente, as Forças Armadas no país sempre estiveram voltadas para um papel de polícia interna, sem grandes investimentos. Mesmo nos momentos de destaque, a falta de domínio da tecnologia empregada jogou por terra o esforço no aparelhamento. No início do século XX, o país chegou a ter uma das melhores esquadras do mundo, mas, totalmente importada em pacotes fechados, não se sustentou. Além da impossibilidade de uma manutenção eficaz, outro problema de se comprar armamento em outros países é a própria segurança de que os artefatos funcionarão adequadamente frente às pressões diplomáticas. “Na guerra das Malvinas, quando os argentinos afundaram um navio inglês usando mísseis franceses, sob a pressão da Inglaterra e dos Estados Unidos, a França forneceu os códigos pra desabilitar os mísseis aos ingleses”, explica Carlos.

A Alemanha, na década de 30 e 40, desenvolveu o snorkel para os seus submarinos. O Brasil só teve acesso à tecnologia no final da década de 70, por exemplo. Uma defasagem reforçada pela cultura brasileira. “Colocaram na nossa mente que estar preparado para a guerra é feio. E foi assim que foram levando as nossas riquezas e fomos sendo dominados e manipulados”, explica Carlos. Para ele, durante o governo Geisel, a indústria de defesa brasileira viveu um momento de excelência, sendo abandonada mais tarde. “Há no país um ciclo contínuo de investir e abandonar, desde o Barão de Mauá. Nos governos Collor e FHC, o parque industrial então existente, construído com tanto esforço, foi destruído. As empresas faliram ou foram vendidas para empresas estrangeiras, com raras exceções”, explica.

Pressão social

Acompanhando o momento de renascimento do papel estratégico da defesa, o fortalecimento da indústria da área tem sido um dos assuntos mais debatidos no Clube de Engenharia no último ano. O lançamento do Manifesto pela Empresa Genuinamente Nacional, em novembro de 2010 trazia a indústria da defesa como prioridade. Para somar ao debate, o Clube vem recebendo especialistas como os economistas Ricardo Bielschowsky, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e David Kupfer, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); o cientista político José Luiz Fiori, da UFRJ; o físico Dalton Ellery Girão Barroso; o Comandante da Aeronáutica Juniti Saito; o Comandante do Exército Enzo Martins Peri; o então ministro da Defesa Nelson Jobim e o Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Julio Soares de Moura Neto, que apresentou a palestra sobre a Amazônia Azul e o Submarino brasileiro com propulsão nuclear.

A participação da sociedade civil no momento de retomada dos investimentos em defesa por parte do Estado é importante. É nesse ponto que entra o Clube de Engenharia. “Entidades da sociedade civil, o Clube de Engenharia em especial, são essenciais no debate, tanto levando a informação até a sociedade e divulgando iniciativas, como também na mobilização e nas cobranças. O Clube tem uma projeção histórica junto às esferas de governo. Ele atua em um importante extrato da sociedade, sendo um formador de opinião, e, por isso, o engajamento do Clube no apoio à implantação da Política Nacional da Indústria de Defesa é de grande importância, Além disso, há a luta pelo desenvolvimento tecnológico e pelas empresas genuinamente brasileiras. Tem o Clube, portanto, um papel não somente técnico, mas, principalmente, político”, concluiu Carlos.

Matéria publicada no Jornal do Clube de Engenharia, nº 521, Agosto de 2012 (http://portalclubedeengenharia.org.br/info/jornal-numero-521-).

 

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O CERCO DO OCIDENTE À INDÚSTRIA BRASILEIRA DE DEFESA

“A cada ano, devido à Amazônia e ao Pré-sal, entre outras razões, cresce a importância de a Nação aumentar – como acontece na Europa com complexos industriais militares como a EADS, a Navantia e a Finmecannica – a participação direta do Estado na indústria brasileira de defesa, e o grau de conteúdo nacional nas encomendas que estão sendo contratadas junto a empresas estrangeiras.

Não se pode admitir – como ocorre com a projetada fabricação de 2.000 blindados ligeiros Guarani no município mineiro de Sete Lagoas, pela IVECO – que apenas 60% das peças utilizadas sejam fabricadas no Brasil.

Em caso de conflito, ou mera ameaça de confronto, entre o Brasil e qualquer país da OTAN (Europa e Estados Unidos) a produção desses tanques seria descontinuada, e não teríamos como substituir o material perdido em combate. É de se recordar o exemplo da Argentina, que ficou literalmente a ver navios – nesse, caso, britânicos – na guerra das Malvinas.

Por outro lado, há um verdadeiro cerco dos países geopoliticamente identificados como ocidentais à indústria bélica brasileira. Todas as empresas que desenvolveram tecnologia militar nos últimos anos tiveram o seu controle adquirido por grupos internacionais recentemente.

Com isso, essas multinacionais se apossaram do conhecimento desenvolvido por técnicos e engenheiros brasileiros, e agora podem decidir a seu bel-prazer, seguindo a orientação estratégica dos governos de seus países de origem, até que limite essas empresas que antes pertenciam a empresários nacionais poderão chegar, no desenvolvimento de novas tecnologias bélicas.”

por Mauro Santayana _ Artigo completo: http://www.maurosantayana.com/2012/08/o-cerco-do-ocidente-industria_16.html

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