Brics: o mundo onde viverão seus netos não será o do Tio Sam

Reproduzindo texto de Mauro Santayana, extraído da Rede Brasil Atual:

Brics: o mundo onde viverão seus netos não será o do Tio Sam

Se você pensa em um dia visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos
BRICS
por Mauro Santayana

“A civilização é um movimento, e não uma condição. Uma viagem, e não o porto de destino.” A frase, do historiador inglês Arnold J. Toynbee, define como poucas o curso da história. Raramente percebemos a história, enquanto ela ainda está acontecendo, a cada segundo, à nossa volta. O mundo se transforma, profundamente, o tempo todo. Mas as maiores mudanças são as imperceptíveis. Aquelas que quase nunca aparecem na primeira página dos jornais, normalmente tomada por manchetes que interessam a seus donos, ou por chamadas de polícia ou futebol. Esse é o caso das notícias sobre os Brics.

Quem já ouviu Pink Floyd (Another Brick in the Wall) pode confundir o termo com brick, palavra inglesa que quer dizer tijolo. Se gostar de economia, vai lembrar que essa é uma sigla inventada em 2001 por um economista do grupo Goldman Sachs.

Mas poucas pessoas têm ideia de como o Bric vai mudar o mundo e sua própria vida nos próximos anos. Antes um termo econômico, o Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, está caminhando – aceleradamente, em termos históricos – para se transformar na aliança estratégica de alcance global que vai mudar a história no século 21.

O que juntou esses países? Para Jim O’Neill, criador do vocábulo, foi seu potencial econômico e de crescimento. Mas, para esses países, o que os aproxima é seu desejo de mudar o planeta. Dominados ou combatidos pelos Estados Unidos e pela Europa, no passado, eles pretendem desafiar a hegemonia anglo-saxônica e “ocidental”, e mostrar que outro mundo é possível, na diplomacia, na ciência, na economia, na política e na questão militar.

Três deles, Rússia, Índia e China, já são potências atômicas e espaciais. O Brasil e a África do Sul, embora não o sejam, têm indiscutível influência em suas respectivas regiões, e trabalham com a mesma filosofia. A construção de uma nova ordem mundial, mais digna e multipolar, em que haja menor desigualdade entre os países mais ricos e os que estão em desenvolvimento.

A união faz a força. O Brics sabe disso, e seus concorrentes, também. Por isso, os meios de comunicação “ocidentais” e seus servidores locais movem forte campanha contra o grupo, ressaltando pontos negativos e ocultando e desencorajando as perspectivas de unidade.

Mesmo assim, eles estão cada vez mais próximos. A cada ano, seus presidentes se reúnem. Na ONU, votam sempre juntos contra ataques ocidentais a países do Terceiro Mundo, como aconteceu no caso da Síria, há poucas semanas. Controlam 25% do território, 40% da população, 25% do PIB e mais de 50% das reservas internacionais do mundo. China e Brasil são, respectivamente, o primeiro e o terceiro maiores credores dos Estados Unidos.

Por crescerem mais que a Europa e os Estados Unidos, e terem mais reservas internacionais, os Brics querem maior poder no Banco Mundial e no FMI. Como isso lhes tem sido negado, estão criando, no próximo ano, o próprio banco, com capital inicial de US$ 100 bilhões.

No final de outubro, o Brasil – que já compra helicópteros militares russos, tem um programa conjunto de satélites de monitoramento com a China, vende aviões radares para a Índia e desenvolve mísseis com a Denel Sul-africana – foi convidado a juntar-se a russos e indianos no desenvolvimento e fabricação de um dos aviões mais avançados do mundo, o Sukhoi T-50, caça-bombardeiro invisível a radares, capaz de monitorar e atingir alvos múltiplos, no ar e em terra, a 400 quilômetros de distância.

Também em outubro, Brasília recebeu a visita do chanceler indiano Salman Khurshid, que, em conjunto com o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, estabeleceu como meta aumentar o comércio Brasil-Índia em 50%, de US$ 10 bilhões para US$ 15 ­bilhões, até 2015.

Na área de internet, Rússia e Índia  já declararam apoio ao novo marco regulatório defendido pelo Brasil para a rede mundial. E planeja-se o Brics Cable, um cabo óptico submarino de 34 mil quilômetros que, sem passar pelos Estados Unidos ou pela Europa, ligará o Brasil à África do Sul, Índia, China e Rússia, em Vladivostok. No comércio, na cooperação para a ciê­ncia e o ensino, na transferência de tecnologia para fins pacíficos não existem limites para os Brics.

Se você pensa um dia em visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos.

Há grande chance de que a segunda língua deles seja o mandarim. De que viajem, a passeio, para Xangai, e não para a Flórida. De que usem uma moeda Brics, e não dólar. E vivam em uma era em que não existirá mais uma única grande potência, mas seis ou sete, entre elas o Brasil. Em um mundo em que a competição geopolítica se dará, principalmente, entre os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os que comporão outro organismo internacional, liderado pelo Brics.

 

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MINISTRO RUSSO CHEGA AO BRASIL PARA PROPOR PRODUÇÃO CONJUNTA DO CAÇA DE QUINTA GERAÇÃO T-50

Por Mauro Santayana, 14/10/2013

MINISTRO RUSSO CHEGA AO BRASIL PARA PROPOR PRODUÇÃO CONJUNTA DO CAÇA DE QUINTA GERAÇÃO T-50

PAK-FA_T-50_3A possibilidade que aventamos aqui no blog, outro dia, de participação do Brasil no programa PAK-FA, tornou-se oficialmente concreta.
O Ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigú, que chega a Brasília amanhã, irá propor ao Brasil, não apenas a compra dos caças Sukhoi SU-35, mas também o desenvolvimento e a produção conjunta do caça T-50, de quinta geração.

O projeto do T-50, do Programa PAK-FA, já conta com a participação da Índia, que disponibilizou cerca de US$ 25 bilhões e espera obter a versão de exportação do T-50 até 2018.

A Força Aérea Russa (FAR) receberá os primeiros T-50 de produção em série este ano, e comprará pelo menos 70 aeronaves.

O caça traz toda uma série de inovações para minimizar sua visibilidade aos radares. E também novos materiais estruturais e revestimentos, inteligência artificial  e componentes de hardware que elevam a indústria aeronáutica russa a um patamar completamente novo.

Um dos destaques do T-50 são os novos polímeros de fibra de carbono, com peso duas vezes menor do que o alumínio e quatro vezes menor que o aço. Como mais de 70% do revestimento da aeronave é composto por novos materiais, o resultado é um avião quatro vezes mais leve que os construídos com material comum.

Além disso, o T-50 se destaca por uma visibilidade reduzida aos radares, ópticos e infravermelhos. A área efetiva da superfície refletora da aeronave é de 0,5 m2, enquanto a do Su-30MKI é de 20 m2. Isso significa que, no radar, o Su-30MKI aparece como um objeto metálico de 5 por 4 metros, enquanto o T-50 tem uma imagem 40 vezes menor.

Dezenas de sensores colocados ao longo da fuselagem permitem controlar a situação em torno da aeronave, e trocar informações, em tempo real, com serviços terrestres e dentro de um esquadrão. Se não bastasse, um “piloto automático” oferece ao piloto da aeronave várias opções de ação. O T-50 é capaz de decolar e pousar em uma pista de 300 a 400 metros de extensão.

O caça possui elevada capacidade de manobra e alto nível de monitoramento. Um radar de matriz ativa faseada instalado na aeronave permite ao piloto ver tudo o que acontece a uma distância de várias centenas de quilômetros, e acompanhar vários alvos aéreos e terrestres ao mesmo tempo.

O armamento é transportado dentro de compartimentos internos, como exige a tecnologia Stealth. Esses compartimentos podem acomodar até oito mísseis ar-ar do tipo R-77 ou duas bombas inteligentes de 1.500 kg. A aeronave também pode levar em dois pontos duros sob as asas mísseis com capacidade para atingir  alvos a uma distância de 400 km.

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FORJEMOS NOSSAS ARMAS

Décadas de total descaso com as questões associadas à defesa no Brasil, nos levaram a atual fragilidade militar. Dentre os maiores países do mundo, com todas as riquezas naturais e capacidades que dispomos, não podemos continuar a expor tamanha vulnerabilidade, principalmente em um mundo cada vez mais beligerante e com gritantes assimetrias, no qual organismos de governança, visivelmente ultrapassados, não conseguem evitar ações unilaterais dos países centrais, no exercício do poder e conquistas militares de acordo com seus próprios interesses geoeconômicos e estratégicos.

SNB_Esquema

Há que se ter o engajamento da sociedade no reaparelhamento e treinamento das nossas FFAA, incluindo o estabelecimento e fortalecimento da Base Industrial de Defesa, com P&D + I nacional, como preconizado na Estratégia Nacional de Defesa, documento que deveria ser conhecido de mais brasileiros, discutido nos diversos fóruns, incluindo universidades.

Até para atuar como “soft power” é necessário ser forte, ter capacidades de dissuasão que façam com que eventuais agressores reflitam sobre o preço a ser pago.

Nunca devemos nos esquecer de que na Guerra das Malvinas, a Inglaterra com um único submarino de propulsão nuclear, afundou o principal vaso de guerra argentino e manteve acuada nos portos a armada argentina, ficando praticamente livre para a retomada daquelas ilhas.

Portanto, “Forjemos Nossas Armas”, como brada o Mestre Santayana no artigo a seguir!

Carlos Ferreira

 AstrosFORJEMOS NOSSAS ARMAS

Reproduzido do blog Mauro Santayana

(JB) – O governo da Presidente Dilma Roussef decidiu alterar as leis sobre a indústria bélica e editar normas para a política de defesa, que incentivam a produção nacional de armas e o desenvolvimento de processos tecnológicos autônomos. Os nossos leitores habituais devem recordar-se de matéria sobre o assunto que publicamos neste mesmo Jornal do Brasil sobre o tema em 16 de agosto do ano passado. No texto, citávamos a dramática advertência do general Maynard Santa Rosa: em caso de agressão estrangeira, só dispomos de munição para uma hora de resistência.

Um dos maiores erros dos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, se não o mais grave, foi desarmar o Brasil. A doutrina FHC se baseava no falso conformismo de que jamais poderíamos nos defender do poderio bélico norte-americano e seria melhor transformar as forças armadas em corpos policiais destinados ao combate ao tráfico de drogas, sob o comando continental dos Estados Unidos, of course.

Todos os povos que se prezam são obrigados a defender-se dos eventuais inimigos. As nações se formam dentro de espaços naturais, em que devem viver em paz, preocupando-se com seus recursos, com a felicidade e com a defesa de sua liberdade. À soma de espaço e liberdade chamamos soberania, no léxico político moderno. Nas guerras, sempre indesejadas, as nações agredidas, qualquer que seja a sua capacidade bélica, são eticamente obrigadas a resistir.

Churchill, ao opor-se à capitulação de Chamberlain, ponderou que uma nação , quando se defende com a coragem do patriotismo, pode ser derrotada sem perder a honra, mas, ao capitular sem luta, perde o respeito do inimigo e das nações neutras.

O vencedor trata  com natural desprezo os que se entregam sem luta, ainda que em nome da paz. É essa a diferença entre os soviéticos, que perderam rios de sangue na Segunda Guerra Mundial, e puderam hastear sua bandeira no Reichstag, enquanto Hitler se matava – e os franceses de Pétain e Laval, que se entregaram quase sem luta e colaboraram com a repressão nazista dentro de seu próprio território. Ainda bem que, no caso da França, os maquisards salvaram a face de seu povo, na dura resistência contra os ocupantes.

O Brasil é um dos poucos países do mundo capazes de viver com autonomia dentro de suas próprias fronteiras, o que o dispensa da sedução de conquista de espaços alheios. É um dos maiores do mundo em extensão territorial contínua, em que se fala a mesma língua, com invejável insolação e imensos depósitos de água potável. E exatamente por isso é obrigado a manter forças armadas capazes de dissuadir os eventuais cobiçosos.

A experiência continental nos adverte de que não podemos manter alinhamentos internacionais automáticos. Não cabe discutir aqui se a Argentina agiu bem, ao tentar recuperar, pela força, o que pela força perdera, ou seja, a soberania sobre as Malvinas. O fato é que Washington não interveio em favor da paz: colocou-se inteiramente ao lado de Mme. Thatcher, sem ir mais fundo na discussão da soberania argentina, reconhecida por todos os seus vizinhos da América do Sul.

A nova doutrina brasileira busca estabelecer parcerias não só comerciais, mas estratégicas. E, para que não ocorra a pressão sobre os nossos parceiros, é melhor negociar com países emergentes – no caso, os BRICS.

Cometemos um erro estratégico ao assinar o famoso Tratado de Não Proliferação Nuclear. A decisão de não usar determinado instrumento bélico não nos deve tolher o processo de sua fabricação e a técnica de seu emprego.

Armemo-nos todos, ou nos desarmemos todos, sem exceção.

por Mauro Santayana

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DE TRILHOS E SUBMARINOS

Reproduzido do Blog Mauro Santayana

Submarino_Santayana   (HD) –   A Presidente Dilma Roussef, inaugurou há dias, o estaleiro que produzirá os nossos submarinos. A primeira encomenda é de quatro belonaves convencionais e uma nuclear, cujo casco será construído com a parceria da estatal francesa DNCS, com o reator a cargo da Marinha.   O Brasil talvez pudesse poderia chegar ao mesmo resultado – o submarino atômico só irá ao mar em 2023 – com menos dinheiro, se contratasse técnicos  aposentados com o fim da URSS – e ainda disponíveis, às centenas, na Rússia e na Ucrânia.

Isso poderia ter sido feito desde o início do projeto, há quase 20 anos, coincidindo com a crise do socialismo, mas, infelizmente, o Brasil tem tido, a partir do governo Fernando Henrique, dificuldade para pensar e coordenar seus projetos de longo prazo. Esse é o caso, por exemplo, das duas licitações da VALEC para a compra de 250 mil toneladas de trilhos, destinados à Ferrovia Norte-Sul e à FIOL –  Ferrovia de Integração Oeste-Leste – suspensas, depois de intervenção do TCU, neste início de ano. Um só consórcio se apresentou para as duas concorrências, o que espanta, diante da dimensão do negócio. É estarrecedor que só agora, na etapa da conclusão das obras, os trilhos estejam sendo encomendados à China.

Não é possível entender que se comece uma ferrovia sem saber de onde virão suas peças mais óbvias, como são os trilhos. E, menos ainda no país que é o maior produtor de minério de ferro do mundo, e com capacidade ociosa em sua indústria de aço. É inadmissível que – com um grande empresário da área, o Sr. Jorge Gerdau, atuando como articulador do governo com o setor privado – o Brasil não seja capaz de produzir seus próprios trilhos. Se nossas usinas siderúrgicas estatais – com sua importância estratégica, como vemos agora – não tivessem sido irresponsavelmente privatizadas, até o ponto de não sobrar nem uma sequer, bastaria, como ocorre na China, que o Governo convocasse uma delas e determinasse a execução da tarefa.

Como isso não é possível – até mesmo pela resistência cada vez maior do governo em defender qualquer medida que possa ser interpretada como estatizante – o problema poderia ser resolvido, apesar da proverbial chiadeira, dentro das “regras” do mercado. O BNDES, em vez de ficar financiando multinacionais que mandam bilhões  para fora todos os anos, poderia ir às compras no Bovespa, para fortalecer o controle do Estado em áreas estratégicas,  recomprando, por exemplo, as ações que pertenciam a Previ, na Embraer, e que foram vendidas no governo Lula. O preço das ações – por obra da campanha de sabotagem da imprensa econômica internacional contra o governo – está em baixa. A aquisição de papéis da Petrobras e da Vale ajudaria a recuperar seu valor, e eles poderiam ser vendidos, com lucro, no futuro.

Por Mauro Santayana

 

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Quem é o dono do mundo?

Mapa Mundi

 

 

 

Reproduzido do Carta Maior

Uma vez que ultrapassamos o marco dos estados nacionais como entidades unificadas sem divisões internas, podemos ver que há uma mudança do poder mundial, mas a direção dessa mudança é da força de trabalho para os donos do mundo: o capital transnacional, as instituições financeiras mundiais. A análise é do pensador norte-americano Noam Chomsky, que conversa nesta entrevista com David Barsamian, do ‘Alternative Radio’

David Barsamian

Data: 11/03/2013

David Barsamian – O novo imperialismo estadunidense parece ser substancialmente diferente da variedade mais antiga, uma vez que os Estados Unidos são uma potência econômica em declínio e, portanto, estão vendo minguar seu poder e influência política.
Noam Chomsky – Eu penso que deveríamos assumir certa reserva ao falar sobre o declínio estadunidense. Foi na Segunda Guerra Mundial que os Estados Unidos realmente se converteram em uma potência mundial. O país já era a maior economia do mundo muito tempo antes da guerra, mas era uma potência regional de certa forma. Controlava o Hemisfério Ocidental e havia feito algumas incursões no Pacífico. Mas os britânicos eram a potência mundial.

A Segunda Guerra Mundial mudou isso. Os Estados Unidos se converteram na potência mundial dominante. O país tinha a metade da riqueza do mundo. As outras sociedades industriais estavam debilitadas ou destruídas, enquanto os EUA estavam em uma posição de incrível segurança. Controlavam o hemisfério, tanto do lado do Atlântico como do Pacífico, com uma enorme força militar.

Esse poder sofreu um declínio, sem dúvida. Europa e Japão se recuperaram e ocorreu um processo de descolonização. Por volta de 1970, os EUA acumulavam cerca de 25% da riqueza do mundo; aproximadamente como era esse quadro, digamos, nos anos 20. Seguia sendo a potência mundial avassaladora, mas não como havia sido em 1950. Desde 1970, essa condição está bastante estável, ainda que tenham ocorrido mudanças obviamente.

Na última década, pela primeira vez em 500 anos, desde as conquistas espanhola e portuguesa, a América Latina começou a enfrentar alguns de seus problemas. Iniciou um processo de integração. Os países estavam muito separados uns dos outros. Cada um tinha uma relação própria na direção do Ocidente, primeiro Europa e depois Estados Unidos. Essa integração é importante. Significa que não é tão fácil dominar os países um a um. As nações latino-americanas podem se unificar para se defender contra uma força exterior.

O outro acontecimento, que é mais importante e muito mais difícil, é que os países da América Latina estão começando individualmente a enfrentar seus enormes problemas internos. Com seus recursos, a América Latina deve ser um continente rico, particularmente a América do Sul.

A América Latina tem uma enorme quantidade de riqueza, mas está muito concentrada nas mãos de uma pequena elite, de perfil europeizado e branca em sua maioria, existindo ao lado de uma enorme pobreza e miséria. Há algumas tentativas de começar a fazer frente a esse quadro, o que é importante – outra forma de integração – e a América Latina está, de algum modo, se afastando do controle estadunidense.

DB – Fala-se muito da mudança de poder mundial: a Índia e a China vão se converter nas novas grandes potências, as potências mais ricas?
NC – De novo aqui, devemos guardar reserva. Por exemplo, muitos observadores comentam sobre a dívida estadunidense e o fato de que, grande parte dela, está nas mãos da China. Há alguns anos o Japão detinha a maior parte da dívida estadunidense, mas foi superado pela China. Além disso, todo o marco para a discussão sobre o declínio dos Estados Unidos é enganoso. Ele nos leva a falar sobre um mundo de estados concebidos como entidades unificadas e coerentes.

Na teoria das relações internacionais, há o que se chama de escola “realista”, que diz que vivemos em um mundo de estados anárquico e que os estados buscam seu “interesse nacional”. Isso é, em grande parte, uma mitologia. Há alguns interesses comuns como a sobrevivência. Mas, na maioria das vezes, as pessoas têm interesses muito diferentes no interior de uma nação. Os interesses do diretor executivo da General Eletric e do funcionário que limpa o chão de sua empresa não são os mesmos.

Parte do sistema doutrinário nos Estados Unidos é formado pela pretensão de que todos somos uma família feliz, que não há divisões de classes, e que todos estamos trabalhando juntos em harmonia. Mas isso é radicalmente falso.

No século XVIII, Adam Smith disse que as pessoas que dominam a sociedade fazem as políticas: os “mercadores e manufatureiros”. O poder hoje está nas mãos das instituições financeiras e das multinacionais. Estas instituições têm um interesse especial no desenvolvimento chinês. De modo que, digamos, o diretor executivo da Walmart, da Dell ou da Hewlett-Packard, sente-se perfeitamente contente de ter uma mão de obra muito barata na China trabalhando sob condições horríveis e com poucas restrições ambientais. Enquanto na China houver o que se chama de crescimento econômico tudo está bem.

Na verdade, há um pouco de mito neste tema do crescimento econômico do país. A China é, em grande medida, uma planta de montagem. É um exportador importante, ainda que o déficit comercial estadunidense com a China tenha aumentado, o déficit comercial com Japão, Taiwan e Coreia diminuiu. O motivo é o desenvolvimento de um sistema de produção regional.

Os países mais avançados da região – Japão, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan – enviam tecnologia avançada, partes e componentes para a China, que usa sua força de trabalho barata para montar produtos e enviá-los para fora do país. E as corporações estadunidenses fazem a mesma coisa. Enviam partes e componentes para a China, onde elas são montadas e exportadas. É isso o que se chama de “exportações chinesas”, mas são exportações regionais em muitos casos e, em outros, é realmente um caso no qual os Estados Unidos estão exportando para si mesmos.

Uma vez que ultrapassamos o marco dos estados nacionais como entidades unificadas sem divisões internas, podemos ver que há uma mudança do poder mundial, mas a direção dessa mudança é da força de trabalho mundial para os donos do mundo: o capital transnacional, as instituições financeiras mundiais.

(*) Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge (EUA). Seu último livro é _ “Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire. Conversations with David Barsamian”.

Fonte: Futuro MX, via Rebelión
Tradução: Katarina Peixoto

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Notável reformador

CartaCapital 08Mar2013.phpReproduzindo editorial de Mino Carta na CartaCapital desta semana:

O Brasil tem um ponto em comum com a Venezuela: o brutal desequilíbrio social. Havia outro até data recente, representado pela extraordinária semelhança entre a mídia venezuelana e a brasileira, uma e outra a serviço da oligarquia e da treva, sempre e sempre dispostas a inventar, omitir e mentir. Se hoje não há como alegar esta inglória parecença, é porque Hugo Chávez, ao contrário do governo do Brasil, decidiu enfrentar o inimigo.

No momento, mais da metade dos órgãos de comunicação venezuelanos são públicos, o que permite restabelecer um razoável equilíbrio entre as forças envolvidas nesta guerra. As palavras guerra e inimigo estão longe de ser exageradas. O ataque ao governo de Dilma Rousseff é feroz e diuturno, assim como foi a Lula e a Chávez. A mídia nativa, aliás, continua na ofensiva contra o líder venezuelano e celebra sua morte como se o odiado inimigo tivesse tombado no campo de batalha.

As razões são óbvias. Chávez, como Lula e Dilma, mexeu com os interesses da minoria privilegiada. Há diferenças entre o venezuelano e os brasileiros, ao contrário destes, aquele recorreu a formas autoritárias de poder. Mesmo assim, tratou-se de um formidável reformador e de um incentivador da unidade latino-americana a bem da independência do subcontinente, enfim livre da condição de quintal dos Estados Unidos.

Nem tudo na atuação de Chávez merece admiração, mas seus méritos estão expostos à luz do sol. Leio as diatribes ficcionais da nossa mídia, dizem que se tratou de um déspota populista. A definição é tão imprópria quanto foi batizar de “terrorista” quem lutou contra a ditadura civil-militar. Populista porque nacionalista ao defender o petróleo de seu país como fez Getúlio Vargas em 1952 ao criar a Petrobras? Ou populista porque condenou firme e inexoravelmente o neoliberalismo?

Tropecei na quarta 6 de março no delirante editorial da Folha de S.Paulo, que condenava o “populista” Chávez por causa do seu peremptório não ao neoliberalismo. Ora, ora, mas não foi a religião do deus mercado que nos mergulhou na maior crise econômica, política e social dos últimos dois séculos? Algo não menos assustador do que as epidemias de peste negra da Idade Média.

Ah, claro, populista por ter tirado da miséria uma larga fatia de venezuelanos, e por ter garantido assistência médica e hospitalar a todos os concidadãos, e por ter erradicado o analfabetismo. Tal é a linha da mídia nativa, exército dos barões. O jornalismo há de se basear no respeito da verdade -factual, no exercício do espírito crítico e na fiscalização do poder. Os barões midiáticos e seus regimentos desrespeitam a verdade factual e submetem o espírito crítico aos seus dogmas e preconceitos. Quanto à fiscalização do poder, cuidam de investir de arma em punho contra quem ali está há dez anos, depois de ter elevado à glória dos altares o governo tucano de FHC e tornado motivo de culto todas as suas mazelas.

Creio não ser árduo perceber que estamos a assistir, há dez anos, a uma ofensiva bélica, em pleno desrespeito às regras éticas do jornalismo e do senso de responsabilidade imposto pela consciência da cidadania. Não nos defrontamos simplesmente com uma mídia a serviço da oposição, e sim com uma artilharia capaz de executar seu bombardeio sem solução de continuidade.

De uns tempos para cá, me ocorre, de quando em quando, perguntar aos meus perplexos botões se o governo tem vocação de mulher de apache. Estão pasmos, admitem, com tanta leniência, ou paciência, ou resignação. E se declaram perdidos como um pesqueiro ao largo da costa escocesa, em uma madrugada invernal a 20 graus abaixo de zero, em meio à névoa mais espessa e sem apito. Aos leitores sugerem uma pausa de meditação à página 16 desta edição, para inteirar-se da reflexão de Mauricio Dias na sua Rosa dos Ventos.

Ali, entre outras considerações muito oportunas, Mauricio evoca uma entrevista que ambos fizemos com Hugo Chávez, em 2006. Recordo um maciço indivíduo, de carisma explosivo e fala fluente, a dizer coisas que faziam sentido.

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Pela defesa do espaço cibernético brasileiro: panorama mundial e nacional

Cyber WarReproduzindo artigo do  Site Defesanet

Nam et ipsa scientia potestas est, por Fernanda Corrêa

Apesar de não possuir um conceito universalmente aceito, pode-se entender por sociedade da informação a universalização do acesso ao conhecimento e o uso crescente dos meios eletrônicos de informação. As sociedades, em geral, não fazem ideia do quanto somos dependentes da tecnologia de informação e o quanto depositamos nossas vidas no espaço cibernético, o qual se supõe ser seguro.

A terceira onda e a segurança das infraestruturas críticas

Acredita-se que, para cada período de evolução da humanidade, vivenciamos uma “onda”. A primeira onda foi quando o homem nômade passou a ser sedentário, há aproximadamente dez mil anos atrás. A segunda onda foi quando abandonamos uma economia agrícola para a era industrial, há cerca de 300 anos. E a terceira onda, caracteriza-se pela era do conhecimento, segunda a qual as relações políticas, econômicas, sociais, tecnológicas e militares foram profundamente alteradas.

Neste novo contexto que nos encontramos, dialogamos, acessamos nossas contas bancárias, nos relacionamos, trabalhamos pelo espaço virtual, também conhecido como espaço cibernético. Atualmente, não é possível dimensionar o quanto as sociedades são dependentes da informação e o quanto suas informações estão seguras no espaço cibernético. Assim como na vida real, existem pessoas dispostas a provocar danos na vida das outras, no mundo cibernético, também existem pessoas, organizações, empresas e países, resguardados pelo anonimato e pela distância, a burlar a segurança dos equipamentos e dos sistemas de informação e se  beneficiar destas ações. O fato é que muitas redes e seus protocolos não foram criadas para ser protegidas, mas sim, acessíveis.

No Brasil, a segurança e a defesa do espaço cibernético é um assunto muito recente. Assim, não se tem como dimensionar o grau de conectividade e interdependência dos nossos equipamentos e sistemas de informação e muito menos da conectividade e interdependência das infraestruturas críticas, tais como redes de esgoto, rede de distribuição de água, redes de telefonia e redes de operação e distribuição de energia. Caso estas redes e sistemas forem interrompidos ou destruídos, provocarão um impacto político, econômico e social na sociedade de tal ordem que podem pôr em risco a segurança nacional. Por isto, é imperativo estudos sobre a defesa do espaço cibernético.

Casos de ataques cibernéticos no mundo

Embora a internet tenha nascido no contexto da 2ª Guerra Mundial, derivada da rede Arpanet, somente agora, se expandiu vertiginosamente a velocidades inimagináveis. No entanto, há casos comprovados e não comprovados que, no contexto da Guerra Fria, países tenham promovido ataques cibernéticos contra outros países, empresas, infraestruturas críticas em benefício de natureza estatal ou internacional.  Assim, serão exemplificados alguns casos históricos e atuais.

O sistema de gasoduto da Sibéria

Em 1982, o gasoduto da Sibéria, adquirido ilegalmente do Canadá, explodiu. Autoridades locais afirmaram haver um mau funcionamento do sistema de controle do gasoduto, o qual era controlado por computador. Há indícios de que, a CIA tenha alterado o sistema computacional do gasoduto, de forma que o sistema de controle recebesse instruções para operar além dos limites. Embora seja um caso não comprovado, se verídico, este foi o primeiro caso de ataque cibernético a infraestruturas críticas na História.

A companhia de esgoto da Austrália

No ano de 2000, um funcionário insatisfeito com a companhia de esgoto, invadiu o sistema de controle de bombas e provocou o derramamento de milhões de litros de esgoto nas ruas da cidade de Maroochy, na Austrália. Este foi um dos poucos ataques cibernéticos a infraestruturas críticas já confirmadas.

A central nuclear da Síria

Em 2007, objetivando destruir uma suposta instalação nuclear na Síria, Israel promoveu um ataque aéreo, conhecido como Operação Orchard. No entanto, a Síria dispunha de um sofisticado sistema de defesa antiaérea adquirido da Rússia. Israel, então, teria alterado o sistema sírio para que este não visualizasse os aviões israelenses invadindo seu espaço aéreo. Acredita-se que, Israel tenha se utilizado de neutralização remota, mísseis antirradiação ou mesmo que os radares sírios não estivessem em operação. Embora a Síria acuse Israel de ter promovido o ataque, Israel alega inocência tanto no ataque aéreo quanto no ataque cibernético.

A usina nuclear do Irã

Em 2010, o Irã sofreu um poderoso ataque cibernético que afetou os computadores da central nuclear de Bushehr. O Stuxnet é um vírus sofisticado com alto valor tecnológico agregado, produzido em laboratório. Este vírus foi produzido, especialmente, para atacar as instalações nucleares iranianas, a fim de frear o programa de enriquecimento de urânio. Além de ser acionado à distância, é um vírus instável e migra com rapidez. À medida que se começa a contra-atacá-lo, o vírus muda de versão. Autoridades políticas internacionais acreditam que as reais intenções do Irã, ao enriquecer urânio em seu próprio território, sejam construir uma bomba atômica. O Governo iraniano acusa Israel e EUA por terem produzido este vírus e promovido o ataque cibernético às suas instalações nucleares. Por o Stuxnet ser uma arma cibernética, este vírus se tornou um paradigma nos estudos sobre Segurança e Defesa, a medida que provocou a reformulação de conceitos como soberania, criou novos conceitos como nação virtual e espaço cibernético e  provocou uma nova corrida armamentista, sem precedentes na História, cujos danos podem ser equiparados aos provocados por armas de destruição em massa.

Anonymous

Em 2004, um grupo internacional de hackers chamado Anonymous foi criado com o objetivo de desestabilizar as redes e os sistemas políticos, econômicos e sociais. Alegam não ter identidade, partidarismo, orientações religiosas, interesses econômicos ou mesmo ideologias de quaisquer espécies. A fim de combater as injustiças sociais, promovem ataques cibernéticos no mundo.  A ideia do grupo, ao realizar seus ataques, é impor à sociedade uma reflexão sobre os problemas sociais. Alegam planejar apenas ataques aos sites governamentais, promovendo um impacto direto na vida das pessoas e obrigando-as a buscar maiores conhecimentos sobre as razões destes ataques. O grupo tem pretensão de se expandir fora dos limites virtuais, planejando ações nas ruas a fim de que seus ideais de mudança de pensamento e de comportamento nas sociedades consiga sensibilizar mais pessoas.

Espionagem na imprensa dos EUA

Respectivamente, em janeiro e fevereiro deste ano, os jornais estadunidenses The New York Times e The Wall Street Journal acusaram o Exército da China por ataques cibernéticos.  A fim de espionar o trabalho investigativo dos jornais sobre as riquezas dos familiares do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, supostamente, “piratas cibernéticos” teriam se infiltrado no sistema operacional dos jornais e utilizado as senhas de seus repórteres. Em 25 de fevereiro, a empresa de segurança estadunidense, Mandiant, apresentou um relatório detalhando a rede de espionagem de uma unidade do Exército de Libertação Popular da China. De acordo com o relatório desta empresa, mais de 140 entidades em todo o mundo, sofreram ataques de um grupo de hackers, denominado RPT-1, o qual estaria desenvolvendo suas ações de um edifício, em Xangai. Há indícios de que ali, funcione a sede de operações da tal unidade do Exército chinês. A priori, o relatório afirma que o objetivo desta unidade é espionar e roubar informações políticas, econômicas, tecnológicas e militares. Embora a China tenha alegado inocência diante destas acusações e também sofrer inúmeros ataques cibernéticos, o Departamento de Defesa dos EUA tem dado total prioridade a defesa do espaço cibernético, acabou de aprovar um plano para quintuplicar pessoal qualificado e acredita que a tendência da guerra no futuro se expanda cada vez mais para o espaço cibernético.

A segurança e a defesa do espaço cibernético brasileiro

Detectou-se que, no Brasil, o sistema de segurança do espaço cibernético é falho e está muito atrás dos sistemas de segurança desenvolvidos no mundo. Problemas como a ausência de ações de coordenação conjuntas, não haver legislação apropriada para repreender crimes e ataques cibernéticos, não haver uma cultura de segurança da informação e nas comunicações no Governo etc são apontados como deficiências do sistema de segurança do espaço cibernético brasileiro.

Desde 2008, a Estratégia Nacional de Defesa direcionou as áreas críticas de atuação das Forças Armadas brasileiras: à FAB, coube, a defesa aeroespacial, à Marinha do Brasil, coube desenvolver o programa nuclear, e ao Exército, coube a defesa do espaço cibernético. Desde então, iniciou-se planos no Exército Brasileiro para desenvolver sistemas de defesa no espaço cibernético. Defesa e ataque cibernéticos passaram a dispor de conceitos. Resumidamente, o primeiro se refere às ações que são tomadas proteger, monitorar, analisar, detectar e responder a atividades que não são autorizadas no âmbito das redes e sistemas. Ataque cibernético se refere às ações que são tomadas utilizando redes de computadores para interromper, negar, corromper ou destruir informações dispostas em computadores e em suas redes.

Em agosto de 2010, o Exército Brasileiro ativou a criação do Núcleo do Centro de Defesa Cibernética. Por meio deste Núcleo, o Exército busca sugerir medidas, propor ações e elaborar projetos para a Defesa Nacional dispor, no futuro próximo, de um setor cibernético integrado. Além de buscar conhecer as infraestruturas críticas do País, busca-se conscientizar gerentes de tecnologia de informação, empresas, agências a tomarem medidas de segurança de seus sistemas e redes, adquirir expertise na literatura internacional disponível, propôs a criação do Centro de Defesa Cibernética e consulta acadêmicos brasileiros especialistas no assunto. Interessante ressaltar que dentre as referências na área, o Exército privilegia os estudos de um civil, Raphael Mandarino Júnior, atualmente, alocado no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

O Centro de Defesa Cibernética é responsável pela coordenação de ações de defesa do espaço cibernético brasileiro e sua responsabilidade, atualmente, está sob o comando do General-de-divisão José Carlos dos Santos, o qual se responsabilizará por cerca de 40 militares, que formam o efetivo deste Centro. Além de aprofundar os estudos sobre ameaças e vulnerabilidades na área cibernética, o Centro de Defesa Cibernética é responsável pelo estabelecimento de uma doutrina nacional e de uma política de defesa cibernética, pela maximização dos investimentos em hardware e software e na conscientização do usuário sobre o assunto.

A primeira missão deste Centro foi o monitoramento de rede do evento internacional Rio+20, realizado em 2012, na cidade do Rio de Janeiro.

É de suma importância que estes estudos e projetos se materializem em todo o Estado brasileiro. A título de exemplificação, infraestruturas críticas brasileiras também fazem uso do sistema Escada, da Siemens, o qual se tornou alvo do vírus laboratorial Stuxnet, que atingiu o sistema da usina nuclear iraniana.

Fernanda Corrêa
Historiadora, estrategista e pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense.

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Não me decifraste e estás sendo devorado

Não me decifraste e estás sendo devorado

Por Paulo Metri

Cheguei ao poder com grande apoio popular, graças ao discurso de luta por uma vida melhor para todos, mas também a acordos com os setores mais retrógrados da nossa sociedade. A ‘Carta aos brasileiros’, enigmática ao cidadão comum, representou um recado bem entendido pela elite. Depois de três tentativas frustradas para chegar à presidência, apreendi que as mudanças no Brasil, país com a mídia dominada, têm que ser parcimoniosas. Quase como tendo que haver consentimentos dos que dominam a sociedade.

Nunca fui um revolucionário por várias razões. Em primeiro lugar, porque minha natureza é a de um negociador e nunca foi a de um guerreiro, na acepção primeira da palavra. Em seguida, porque o povo, com o presente grau de percepção, não quer uma revolução. Creio até que, mesmo com alto grau de compreensão do mundo, ele também não irá querer. Finalmente, não pode ser esquecido que muitos dos revolucionários têm morte prematura.

Contudo, mesmo reformista, orgulho-me em dizer que, durante meu governo, persegui à risca meu discurso de campanha e trouxe uma vida melhor para dezenas de milhões de irmãos. No que era básico para mim, não fraquejei em nenhum instante. Sei que tive erros, praticados consciente ou involuntariamente. Quando errei conscientemente, tenham certeza que estava cedendo a alguma pressão que, se negada, poderia fazer fracassar, por exemplo, todo o projeto de inclusão social em curso.

Troquei opções sem correlação alguma, mas que o momento as transformava em moedas de troca. Sem corresponder à realidade, só para ajudar o entendimento, me deparava com dilemas do tipo: receber apoio da bancada secreta e poderosa dos banqueiros a uma política externa independente em troca do atendimento aos interesses pecuniários deles. A capacidade de mobilização deles no Congresso só é comparável à da bancada ruralista. Assim, reconheço que existiram setores cujos desempenhos deixaram a desejar. Não avancei muito na reforma agrária, por exemplo, o que me deixa frustrado.

Aprendi com muitos dos que estavam ao meu lado, mas o ministro das Relações Exteriores do meu governo tem um crédito especial comigo. Resumiria o que aprendi com ele, desta forma: ‘não se é grande em nível internacional, se não se imagina grande, não se planeja para ser grande e não se age de forma grandiosa’. Hoje, creio que abri muito a guarda na entrega do petróleo nacional, a menos de quando retirei 41 blocos do Pré-sal da nona rodada. Falo das rodadas de leilões do nosso petróleo. Segundo o ensinamento aprendido, entregar petróleo sem quase nenhum usufruto para a sociedade não corresponde a ‘agir de forma grandiosa’. Mas, só fiquei consciente deste fato quando o término do meu governo estava próximo.

Têm instantes que tenho vontade de dizer à minha sucessora: ‘Não faça isto!’ Digo isso com relação à décima primeira rodada, que foi recentemente aprovada por ela. Ainda mais que querem agora ofertar, também nesta rodada, além dos blocos inicialmente previstos, aqueles oriundos da fracassada oitava rodada. O objetivo escamoteado é diminuir por asfixia financeira a participação da Petrobras nas futuras concessões. Assim, mais blocos serão destinados às empresas estrangeiras ainda sob a lei socialmente incorreta no 9.478. Bem que os petroleiros sempre disseram que o Brasil não precisa ter pressa para produzir petróleo, pois a Petrobras já garante seu abastecimento por mais de 40 anos. Porém, não falo com minha sucessora, pois, afinal de contas, o governo é dela.

Por isso, acusam, com certo grau de razão, que meu partido e eu somos pouco conscientes com relação à questão nacional. Sem ser xenófobo, hoje, creio que há necessidade de se privilegiar a exploração das riquezas nacionais da forma que mais beneficia a nossa sociedade, o que ocorre em geral com empresas genuinamente nacionais. Enfim, ninguém está completamente pronto para ser presidente.

Entretanto, a recuperação dos salários, o aumento do número de pessoas empregadas, a ampliação e o acréscimo do valor do Bolsa-Família, o aumento do número de universidades públicas, a ampliação das vagas disponíveis nas existentes e o Pro-Uni são algumas das realizações das quais me orgulho. Enfim, durmo tranquilo. Fiz tudo que queria e podia fazer e, muitas vezes, tive que criar com esforço condições para as coisas boas acontecerem.

Se vocês tivessem entendido tudo isso e dado mais apoio político a mim ou a qualquer outro governante socialmente comprometido, mais poderia ter sido conquistado. A verdade é que quem lhes devora não sou eu, contrariando o enigma da esfinge. São os cartéis, inclusive muitos estrangeiros, que ainda não foram enquadrados. Estão soltos porque não há reação de vocês. Contudo, sei que, com a atual mídia controlada pelo capital, fica difícil o povo tornar-se consciente. A menos que, aos poucos, ele migre para canais de informação mais honestos.

Neste ponto, acordei da minha divagação, na qual buscava explicações racionais, ou seja, buscava decifrar.

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O BRASIL, OS BRICS E O FMI

FMIReproduzindo artigo do Blog Mauro Santayana

(Carta Maior) - A reunião do G-20, em Moscou, encerrada ontem, terminou com vagas promessas, da parte dos Estados Unidos e da Europa, de homologar finalmente o acordo, fechado informalmente  em 2010, que daria mais poder aos emergentes no Fundo Monetário Internacional.

Não é segredo que as quotas dessa instituição, com direito a voto, não correspondem mais, há muito tempo, à realidade econômica mundial. Com a reforma, muitos países europeus, com sua importância econômica reduzida nos últimos anos, veriam minguar suas quotas e seu poder de voto. Tendo crescido mais rapidamente neste início de século, os países emergentes, à frente deles os BRICS, assumiriam o seu direito e a sua responsabilidade na direção das finanças mundiais.

Os países ocidentais, liderados por Washington e Berlim, no entanto, não querem diminuir seus poderes nas grandes instituições internacionais, sobretudo as financeiras.

Os controladores da economia globalizada atuam junto ao Congresso dos Estados Unidos e contam com o apoio da maioria republicana a que se somam muitos democratas, a fim de impedir que a China se torne o terceiro país mais importante do Fundo, ou que o Brasil venha a avançar, até alcançar, no futuro, uma posição condizente com a sua condição de sexta maior economia do planeta.

Com a dívida interna líquida de 35% do PIB; débitos externos que correspondem a menos  de 15% do que produz todos os anos; 378 bilhões de dólares em reservas internacionais; sendo o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos, depois da China e do Japão e credor do próprio FMI, o Brasil não aceita mais ser tratado no mesmo patamar de países de peso geográfico, demográfico e econômico menor, e dados macroeconômicos piores do que os nossos.

Esse assunto também será tratado em Brasília, nesta semana, em Brasília, durante a visita do Primeiro-Ministro da Federação Russa, Dmitri Medvedev.

Os russos, como os chineses e indianos, parceiros do Brasil no BRICS, estão também   perdendo a paciência com os países do ocidente econômico, diante da desproporção entre o que esse grupo de países representa em termos globais, como território, população e economia, e a sua posição nos organismos  multilaterais internacionais.

Embora sofra uma campanha de sabotagem contínua por parte da imprensa “ocidental”, o BRICS está cada vez mais vivo, trabalhando unido, como demonstram, por exemplo, as reuniões sobre segurança e saúde realizadas há menos de um mês em Nova Delhi.

No encontro com Medvedev, Dilma deverá tratar do apoio russo – já quase acertado – para a eleição do brasileiro Roberto Azevedo à Direção Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os dois deverão também ajustar as propostas que Rússia e Brasil levarão à Quinta Cúpula Presidencial dos BRICS, na África do Sul, em março.

Nesse encontro, os países membros deverão tratar da constituição de seu próprio Banco de Desenvolvimento. E, provavelmente, de instituição que poderia concorrer com o FMI, a fim de atender às necessidades de países emergentes e em desenvolvimento.

No passado, o G-7 ignorou o G-20, e hoje,  como grupo, é uma ficção geoestratégica e institucional. Ao se negarem a reformar o FMI,  os Estados Unidos e a Europa podem estar condenando-o à caquexia. Os emergentes, com os BRICs à frente, podem ser o núcleo de nova realidade econômica mundial.

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Os 10 anos do PT na economia

classe-média _ Carta CapitalReproduzindo artigo de João Sicsú, na revista  CartaCapital

Ninguém pode negar: o Brasil mudou para melhor. Dez anos de governos do PT proporcionaram profundas mudanças econômicas e sociais. A sociedade mudou. A desesperança dos anos 1990 foi transformada em otimismo e em uma nova pauta de desejos e exigências. Os governos do PT geraram também uma aglutinação oposicionista composta de forças liberais, de seitas conservadoras, de grupos rentistas, de famílias que controlam grandes meios de comunicação, de altos funcionários de carreiras de Estado e, por último e com menos importância, três ou quatro partidos políticos.

As estatísticas econômicas e sociais são avassaladoras quando são comparados os governos do PSDB (1995-2002) com os governos de Lula-Dilma (2003-2012). Alguns poucos exemplos são suficientes para comprovar as diferenças.

No início dos anos 2000, pesquisas apontavam que o desemprego era um grande problema nacional. Em 2003, a taxa de desemprego era superior a 12%. Em 2012, foi de 5,5%. Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%. O volume de vendas do mercado varejista praticamente dobrou de tamanho entre 2002 e 2012. Em 2002, somente 33,9 % dos domicílios possuíam máquina de lavar. Em 2011, este número aumentou para 51%. Em 2002, 86,6% dos domicílios possuíam geladeira; em 2011, saltou para 95,8%. E, certamente, milhões de brasileiros trocaram eletrodomésticos velhos por novos.

O emprego e o consumo levaram as classes de renda C e D às localidades onde vivem ou trabalham os ricos e aqueles que recebem altas rendas. Esse foi o momento em que os mais necessitados perceberam que não basta ter emprego. O emprego é essencial, mas é preciso ter transporte, saneamento, iluminação pública, moradias dignas, coleta de lixo, áreas de lazer etc… é preciso ter direito às cidades. Sob estas condições, indivíduos que já realizam o consumo (uma atividade privada) passaram a desejar o investimento (público) para todos.

Este é o desafio da década: manter o emprego, o crescimento da renda, e socializar a oferta de bem-estar. Essa é a nova utopia de grande parte da sociedade. Se o PT deseja continuar mudando e transformado o Brasil terá que abraçar essa utopia. O modelo de crescimento com geração de emprego e distribuição de renda, implementado nos últimos 10 anos, precisa incorporar no seu âmago a multiplicação do bem-estar social – que significa a socialização da oferta de serviços e equipamentos públicos de qualidade.

Não há qualquer projeto político alternativo ao projeto implementado pelo PT nesses últimos anos. A aglutinação oposicionista não tem projeto. Ela busca tão somente (o que não é pouco) aumentar a rejeição ao PT, a Lula e à presidente Dilma. Pode-se, por exemplo, criticar o governo por não permitir o aumento da gasolina e reduzir a capacidade de investimento da Petrobras, mas vale também o argumento de que o governo autorizou o aumento da gasolina e neutralizou a redução de tarifas de energia elétrica.

No segundo semestre de 2012, um colunista de rádio criticou a presidenta Dilma por fazer o movimento de redução dos juros. Dizia ele, em tom de sentença: “não é possível reduzir juros por decreto”. Mas, os juros baixaram. Recentemente, ele disse: “os juros no Brasil ainda são uns dos mais altos do mundo”. E, talvez sem perceber, logo em seguida proclamou em tom de concordância: “parte do mercado percebe a necessidade de os juros subirem porque a inflação está se acelerando”. É a prática do vale-tudo: dizer, desdizer e dizer novamente. A coerência não importa. O que importa é fazer oposição no programa de rádio diário.

A aglutinação oposicionista busca juntar um enorme entulho de rejeição ao governo, ao presidente Lula e ao PT. O objetivo é afogá-los nesse lixão. O lixo pode ser rotulado de corrupção, alianças espúrias (com velhos corruptos), incompetência, voluntarismo, autoritarismo, ingerência política em empresas estatais, enriquecimento ilícito, indicações políticas (e não técnicas) para cargos públicos, obras paralisadas, filas no SUS, desperdício de recursos públicos e possibilidade de racionamento de energia elétrica.

É neste ziguezague que a aglutinação oposicionista busca espalhar rejeição para um candidato qualquer tentar vencer as eleições presidenciais de 2014. Não importa o candidato, suas ideias, projetos etc. O que importa é interromper a história. Afinal, ela tem incomodado e muito. A aglutinação oposicionista está contrariada porque perdeu ganhos financeiros, perdeu o monopólio de decidir grandes questões nacionais, não têm livre acesso aos corredores do Palácio do Planalto… e perdeu controle sobre o futuro. Não aceitam civilizadamente o resultado das urnas: afinal, estudaram nas melhores escolas, em universidades americanas, falam duas ou três línguas e tomaram toddynho na infância. Seu destino não poderia ser a oposição. Eles não aceitam não ocupar posições de comando. O caminho tem sido o do vale-tudo.

A aglutinação oposicionista não somente quer interromper a história. Eles querem apagá-la. Aliás, nem consideram história o que aconteceu no Brasil nos últimos dez anos. Chamam o período de “tempos estranhos”. Um articulista de uma grande revista escreveu: “Lula será apenas outra má lembrança destes tempos estranhos”.

 

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