A perimetral, o caos no trânsito e o abandono da cidade: Entrevista com Carlos Ferreira

Por Rennan Martins

Os grandes eventos previstos no Brasil e em especial no Rio de Janeiro que além da Copa sediará as Olimpíadas trouxeram diversas mudanças na cidade. Grandes obras projetos se iniciaram, e com eles os efeitos sobre o centro da cidade estão sendo sentidos.

A polêmica derrubada da Perimetral e o rearranjo do trânsito contribuíram com ainda mais confusão na circulação, e o trânsito já sobrecarregado piorou. Todos estes problemas que os cariocas enfrentam diariamente levantou o debate sobre o modelo de cidade que se almeja, sobre a democratização das decisões tomadas pelos nossos representantes e o que pode ser feito para tornar o Rio uma cidade inclusiva, que vise o bem público antes de servir a interesses privados.

Esta situação nos moveu a entrevistar Carlos Ferreira, engenheiro e membro do Conselho Diretor e Editorial do Clube de Engenharia e colaborador da Associação Brasileira dos Desenvolvimentistas acerca do assunto. Demonstrando conhecimento de causa, Carlos se posiciona de forma veemente contra a derrubada da Perimetral, considera que o propósito foi de pura especulação imobiliária e sugere que a capital carioca retorne a operar efetivamente subprefeituras.

Confira:

Qual a razão da derrubada da Perimetral? Que interesses serão atendidos na nova esquematização do centro do rio?

Primeiramente eu gostaria de me posicionar contra a derrubada da Perimetral. A Perimetral atendia a um fluxo de transito imenso, uma ligação do centro zona sul, zona norte e baixada, uma das saídas do Rio de Janeiro. Todo mundo sabe que o Rio é uma cidade atípica pois se encontra imprensada entre o mar e a montanha, então existe muita dificuldade de circulação, temos somente duas entradas e saídas que seriam a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, e essa questão em específico da Perimetral, eu acho que foi um interesse basicamente de especulação imobiliária.

A área em questão era sabidamente abandonada, uma área que no período ditatorial se construiu o elevado e que foi sendo negligenciada, mas haveriam outras soluções para revitalização. A própria perimetral em sua estrutura feia, possui uma grande qualidade em termos de construção, e teria uma longa vida, se fossem implementados processos de revitalização e remodelação, o que faria com que a própria região portuária pudesse ter sido utilizada para uma maior mobilidade de populações. Poderiam ter sido construídos edifícios residenciais para a população de média renda, atraindo assim as pessoas para perto de seu local de trabalho. O centro da cidade é uma área imensa de serviços, e os maiores supridores de trabalhadores são a Zona Oeste, Zona Norte e Baixada Fluminense. Se as pessoas pudessem vir a residir na área, Gamboa, Santo Cristo, toda a região do entorno do porto, estariam mais próximas de seus locais de trabalho, pressionando menos ,portanto, o sistema de transporte público.

Mas eu acho que na visão das pessoas que assim decidiram, dos gestores públicos que tomaram a decisão de acabar com o elevado o objetivo maior está ligado a especulação imobiliária. Daí tivemos a destruição da perimetral, e trabalhou-se anteriormente para considerar isto um fato consumado. No Clube de Engenharia nós lutamos muito contra esta medida. E hoje diz-se que aquilo será preparado para a Olimpíada.

Não precisamos ir muito longe, na primeira vez que a via dita Binária, que possui diversas curvas e sinais, enfrentou uma chuva forte, a via inundou, pois o sistema de drenagem não funcionou. Então tratou-se de um despreparo total. Dizem que na área serão construídos prédios para as Olimpíadas, o que é assustador, pois, quando passamos na área não se observa a construção de nada. Estamos a dois anos das olimpíadas, é muito pouco tempo pra se fazer algo, pode-se observar na área indicações do que será construído em cada local, mas nada está sendo feito. Então a decisão foi de olho na especulação imobiliária, é só olharmos para quem está realizando as vendas e incorporações dos grandes edifícios de negócios que ali serão construídos que saberemos a quem interessa esta medida.

Houve um estudo do impacto a ser gerado no trânsito? O novo arranjo aumenta ou diminui o congestionamento na cidade?

Quando do início da discussão da derrubada da perimetral, houve um forte debate sobre este assunto no Clube de Engenharia. O próprio vice-prefeito do Rio, Carlos Alberto Muniz, disse a nós, está gravado, que demolição só seria realizada após a construção e operação do túnel, a fim de não gerar os transtornos que estamos vivenciando.

Se a gente for ver e lembrar um pouco, a perimetral atuava em sua via elevada com duas mãos em cada sentido, e na parte da Rodrigues Alves, abaixo, três mãos em cada sentido, então eram cinco vias por sentido. Agora teremos um túnel, onde se diz que serão três pistas por mão, perdemos duas. Aí a prefeitura alega que na binário serão disponibilizadas duas ou três, com todo aquele trânsito. Fazendo um balanço de tudo aquilo chegamos a conclusão de que se troca seis por meia dúzia. Porque na verdade a tendência do trânsito é aumentar, e a área de escoamento, é bom lembrar nesse momento que toda a zona sul ao se direcionar pra saída do rio ou pra ir pra Zona Norte, Oeste e Baixada Fluminense, fluía pelo elevado.

Então, se esse estudo ocorreu, ele não foi aplicado e houve toda uma precipitação e criação de um fato consumado em torno da medida, e hoje a situação é o caos no trânsito, vemos isso diariamente.

Quais são os projetos previstos para revitalização da área portuária? Eles são duradouros ou só atenderão aos grandes eventos?

Como disse a pouco, o foco inicial é a Olimpíada. Fala-se da construção de várias estruturas na região, museus, a construção de um boulevard com um veículos sobre trilhos por ali. O meu questionamento neste ponto é, estamos há dois anos das olimpíadas e nada se vê por ali, provavelmente não teremos tempo, podemos nesse ponto traçar um paralelo. Qual é o legado da Copa do Mundo no Rio?

A mim parece que o único legado é termos destruído um monumento cultural carioca histórico, gastando uma fortuna absurda, e transformando um estádio que comportava 200 mil pessoas, num estádio pra 70, 80 mil pessoas, sem que o povo possa participar. Porque sem a geral e com os preços praticados nos ingressos atualmente, o povo não tem acesso.

O Maracanã era um grande ponto de congraçamento, até de alívio das tensões do dia-a-dia, quando o “Geraldino” ia assistir a seu jogo de futebol. Há duas semanas atrás assisti a uma partida de futebol, Flamengo e Vasco, e o estádio estava de todo esvaziado, isso é algo raro de se ver que tem ligações com estas novas políticas e modelo de cidade praticados no Rio.

O prefeito Eduardo Paes solicitou aos cariocas que deem preferência ao transporte público no período das obras. A estrutura atual do sistema de transporte público do Rio atende a esta demanda?

Não, a estrutura não atende, o prefeito e seus assessores deveriam utilizar o transporte público, como exemplo e pra sentirem a na pele o que estão causando. O metrô hoje por exemplo, sai da estação General Osório já praticamente lotado, ao longo do percurso os vagões param sistematicamente sob alegação de problema de tráfego a frente, então não é uma viagem contínua e sim intermitente. O metrô é um problema que condiz ao estado, mas está dentro do conjunto de transportes o qual o prefeito se referiu.

Neste metrô, ligarão a linha 4, que saiu completamente de seu projeto original, que previa descarregar no centro da cidade, e irá descarregar em torno de 300 mil pessoas na estação Gávea. Quer dizer, essas pessoas já lotarão o metrô a partir da Gávea, quem conseguirá entrar nos vagões a partir daí? Hoje os intervalos entre as composições já são pequenos e é difícil reduzi-los, ainda mais por conta do período de aceleração e desaceleração requerido para parada entre estações.

Sobre o transporte por ônibus, o Rio é uma cidade muito quente que já possuiu em sua frota diversos carros com ar condicionado, hoje em dia não há mais, os ônibus estão  em estado deplorável. Não podemos pensar somente na Zona Sul, devemos lembrar de quem realmente usa o transporte público que é Zona Norte, Oeste e Baixada Fluminense, o pessoal que se desloca neste percurso, é aterrador. A Avenida Brasil já é um paredão de ônibus, um colado no outro e esse povo despende no deslocamento muitas horas por dia.

Aqui mesmo no centro, pensemos num idoso que tem de pegar um táxi no início da Rio Branco com a presidente Vargas. Como ele irá conseguir? O táxi não para mais ali. Foram uma série de ações impensadas que agora se tenta corrigir, que levaram o caos total a cidade. Eu diria que o prefeito perdeu o controle da cidade.

Veja agora esse caso absurdo do lixo no carnaval, onde foram gastos rios de dinheiro pra mostrar ao mundo uma cidade cidade maravilhosa que realmente foi um dia, pra vender essa imagem aos turistas, pra Carnaval, Olimpíadas, Copa do Mundo. Esse abandono completo da cidade foi visto no mundo inteiro, como carioca me senti envergonhado em ver a cidade neste caos tamanho.

As unidades de ordem pública estão alheias ao que está acontecendo, é lixo, é camelô, grupos de moradores de rua instalados em todos os lugares fazendo suas necessidades em qualquer lugar. E cadê o prefeito?

Diante deste quadro, que medidas você considera necessárias para uma proposta de cidade inclusiva e democrática?

No caos que nos estamos atualmente, no nível de abandono dos bens e locais públicos, na anarquia que tomou conta da cidade. Penso que é muito difícil, mas vamos sugerir.

Devemos voltar a ter subprefeitos atuantes, o sistema público, as secretarias de governo devem atuar e fiscalizar efetivamente todos os processos. Se vai reparar uma rua por exemplo, que tenha fiscalização, que a guarda municipal atue realmente.

Você não vê na Fontana di Trevi mendigos tomando banho porque a guarda de Roma não permite isso. Já aqui, no chafariz da Candelária, vemos que aquilo hoje é um banheiro público, uma lavanderia pública, na frente de quem quer que seja e não se toma nenhuma providência, isto é só um exemplo de como podemos lidar com as coisas.

Devemos aplicar a tolerância zero dentro do critério democrático. A democracia é um sistema que pressupõe direitos e também deveres, o cidadão precisa saber se comportar. O prefeito teve uma iniciativa de certo sucesso, mas como tudo por aqui é por espasmos não foi a diante, que foi a tolerância zero com o lixo, de repente a Rio Branco ficou limpa, as calçadas ficaram limpas, porque existiu uma efetiva fiscalização e punição. O caminho é por aí.

Sobre Rennan Martins

Jornalista e analista político. Duvida da tese da narrativa isenta. Contato: rennan.m.martins@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>