“Brasil é o Eldorado para os problemas de desemprego no mundo”

ENTREVISTA: CARLOS FERREIRA*

“Brasil é o Eldorado para os problemas de desemprego no mundo”

*Membro do Conselho Diretor e Conselho do Clube de Engenharia

Pátria BrasilNo dia 16 de janeiro, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Marcelo Neri, defendeu publicamente a vinda de engenheiros estrangeiros ao Brasil. Segundo Neri, o objetivo é solucionar uma suposta falta de mão de obra qualificada. No dia 21 de janeiro, o jornalista Mauro Santayana publicou no site do Jornal do Brasil o texto “Estratégia e Imigração no Brasil”, sobre as mudanças na política de imigração em nosso país.

No artigo, destaca o projeto para a importação de trabalhadores qualificados em setores estratégicos feito por países como Estados Unidos, Rússia, China, Austrália e Japão, frisando a importância de uma política parecida no Brasil. Santayana relata, também, que o embaixador da Espanha no Brasil, Manuel de La Camara, declarou à Agência EFE que os engenheiros espanhóis que já estão trabalhando no país “prestam um duplo serviço. Oferecem mão de obra qualificada, graças ao investimento em educação do Estado espanhol, e, além disso, formam os engenheiros brasileiros”.

Diante desta declaração, o Clube de Engenharia saiu em defesa dos profissionais brasileiros. O fato foi debatido durante a sessão do Conselho Diretor do dia 27 de janeiro e, por resolução aprovada em plenário, a entidade enviou carta ao ministro manifestando sua profunda indignação diante dos inaceitáveis argumentos em defesa da possível contratação dos engenheiros estrangeiros. Sobre o assunto, o Jornal do Clube de Engenharia (Edição nº 539 de fevereiro/2014) entrevista o conselheiro Carlos Ferreira, que faz breve análise dos fatos e dos evidentes sinais de descaso ao processo de afirmação de uma indústria nacional.

Jornal Clube de Engenharia – A declaração do embaixador espanhol causou grande indignação aos engenheiros brasileiros. Qual pode ter sido a intenção do diplomata ao desmerecer os profissionais brasileiros?

Carlos Ferreira - O que está por trás desse tipo de declaração, a causa de fundo, é algo muito claro. Com a brutal desnacionalização da nossa economia, houve um avanço voraz das empresas transnacionais sobre as nossas indústrias, empresas de engenharia, áreas de serviço etc., e o Brasil passou a ser visto como o Eldorado para resolver os problemas de desemprego que se espalham pelo mundo desenvolvido, notadamente na Espanha.

JCE – Você acredita que a formação dos engenheiros espanhóis é melhor que a dos brasileiros?

CF - Se o ensino lá fosse de tanta qualidade e os engenheiros fossem tão brilhantes, certamente a taxa de desemprego não estaria em 27%.

JCE – Quando o Clube de Engenharia decidiu se mobilizar em relação a esse problema?

CF - No final do mês de janeiro, o jornalista Mauro Santayana publicou no site do Jornal do Brasil um artigo a respeito da declaração do embaixador da Espanha no Brasil, a uma agência de notícias afrontando a engenharia brasileira e o ensino da engenharia em nosso país. Ciente do fato, o Clube começou a tomar ações, entre as quais uma carta que já foi enviada ao ministro. Nela o Clube deixa bem claro a sua posição em relação à atitude inadequada do senhor embaixador. No texto do Santayana, ele conclama o Clube e as entidades da engenharia a reagirem a essa declaração.

JCE – O desmantelamento da indústria nacional e essa suposta falta de mão de obra em engenharia no Brasil possuem alguma relação? Como esse processo de desnacionalização se deu?

CF - Nossas mazelas começaram lá atrás, em 1995, com a famigerada Emenda Constitucional número 6 que destruiu o artigo 171 da Constituição da República. Ali foram criados os meios para a destruição da indústria nacional que faceamos até hoje. Criou-se uma bola de neve no processo, exacerbado nos últimos 12 anos, por incrível que pareça com o apoio de bancos e entidades de fomento estatais, que fiz com que praticamente toda a economia brasileira, incluindo a área de serviços, fosse desnacionalizada. Essa absurda desnacionalização, com um mercado interno em expansão, levou à geração de um lucro brutal para as empresas estrangeiras que aqui operam, grande parte dele remetido para o exterior e o restante reinvestido na compra de outras empresas nacionais, repetindo assim esse ciclo perverso na nossa economia.

JCE – Qual o impacto disso na economia do país?

CF - Para termos uma ideia da ordem de grandeza, em 2013 as exportações brasileiras geraram 242 bilhões de dólares. As importações foram da ordem de 239 bilhões. Já a remessa de lucros para o exterior foi de 42 bilhões de dólares, verdadeira hemorragia, afetando toda a estrutura da balança de pagamentos do país, com o déficit recorde nas transações correntes com o exterior de US$ 81,4 bilhões em 2013.

JCE – Você acredita que esse processo pode ser transformado em prol da indústria nacional?

CF - Da mídia não se pode esperar grande coisa. Agora mesmo vi a maior organização midiática do país falando sobre balanços, desequilíbrios e déficits na conta corrente e ninguém aborda a questão da gigantesca remessa de lucros. Dois presidentes tentaram controlar isso. Um se suicidou e outro foi deposto. Trata-se da sobrevivência da empresa nacional, da possibilidade soberana de se fazer uma Política Industrial para o Brasil, hoje interditada pelo nível da desnacionalização a que levaram o País.

JCE – Quais são as propostas de ação para o Clube frente a esse problema?

CF – Proponho, inicialmente, além da carta ao ministro, em tom de manifesto, e já encaminhada, um seminário onde possamos discutir a questão em seu conjunto mais amplo e avançar no debate.

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Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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8 respostas a “Brasil é o Eldorado para os problemas de desemprego no mundo”

  1. De acordo com levantamento divulgado pela Unesco, o Brasil possui a oitava maior população de adultos analfabetos. São cerca de 14 milhões de pessoas.

    A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com dados coletados em 2012, mostra que a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais teve alta entre 2011 e 2012, passando de 8,6% para 8,7%.

    Leia mais: Unesco: 38% dos analfabetos latino-americanos são brasileiros

    Fonte: Unesco: Education for All Global Monitoring Report

    TAGS: ANALFABETOS

  2. O Brasil aparece em 72° lugar no ranking da corrupção de 2013. O índice, divulgado pela Transparência Internacional, avalia o nível de percepção da corrupção no setor público em 177 países. Em primeiro lugar, como país menos corrupto, está a Dinamarca.

    Fonte: Índice de percepção de corrupção – Transparência Internacional

    TAGS: CORRUPÇÃO

  3. A revista britânica The Economist transformou o preço do Big Mac, da rede de fast food americana McDonald’s, em um índice econômico. No Brasil, um dos países onde o lanche é mais caro, ele é vendido por 5,28 dólares, enquanto na Índia custa somente 1,50 dólar. Os números são de 2013.

    Fonte: The Big Mac Index – The Economist

  4. O estudo realizado pela empresa de tecnologia americana Akamai em 2013, mostra que países como Malásia, México e Cingapura têm a velocidade média da internet banda larga maior que a do Brasil. Na Coreia do Sul, onde foi detectada a média mais alta, a velocidade é cinco vezes maior.

    Fonte: O estado da internet – Akamai

    TAGS: BANDA LARGA, INTERNET, VELOCIDADE

  5. Dilma mente e esconde a verdade. Dilma desautorizou a divulgação de qualquer informação sobre o corte no Orçamento de 2014 ou sobre a meta fiscal brasileira. A justificativa, da presidenta, era a de que o Brasil não pode continuar fazendo especulações indevidas.

    Dilma mente e lula também ajuda a esconder a verdade. Em 2008 o então presidente vetou o artigo da lei que possibilitava ao TCU fiscalizar as contas de sindicatos, confederações e federações, justificando que os próprios trabalhadores poderiam desemprenhar essa função.

    Dilma mente e esconde os gastos do seu governo com cartão corporativo. Na sua gestão, os gastos com o cartão quebraram o recorde histórico. Só em 2013, os gastos foram de R$ 5,63 milhões, dos quais 99,24% (R$ 5,60 milhões) não tiveram o conteúdo divulgado.

    Dilma mente e não revela como as verbas para a Copa são gastas. Em 2011, Dilma colocou em pauta a Medida Provisória 527/11, que tornou sigilosos todos os gastos que o governo teria com a “Copa das Copas”.

    Dilma mente e seus ministros ajudam ela a esconder os auxílios financeiros à Cuba. Os gastos com Cuba nos últimos anos passaram de auxílios para a contrição de portos à indústria agrícola. A quantidade de dinheiro gasto na ilha foi tanta que o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, tornou os documentos sobre o assunto sigilosos.

  6. “Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo… Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade… Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige… Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (…)
    A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade.” Alexis de Tocqueville (1805-1859)

  7. O relatório “Estatísticas sobre Receita na América Latina” foi lançado em cerimônia realizada em Santiago, capital do Chile. No documento, a organização compara e analisa a evolução das receitas tributárias em dezoito países da América Latina e da Região do Caribe. O Brasil tem uma das cargas tributárias mais elevadas da região, 36,3%, e só perde para a Argentina, cuja receita tributária corresponde a 37,3% do PIB.

    Daude explica que não se pode avaliar se uma carga tributária mais elevada é melhor ou pior do que uma arrecadação menor. Segundo ele, o segredo está na gestão. “Não está claro se existe um nível ótimo de receita tributária”, comenta. “Em países como Argentina e Brasil, em que a receita segue aumentando, a grande questão é como esse dinheiro é gasto. Se é melhorada a qualidade e eficiência dos serviços prestados.”

    Ele diz, contudo, que uma análise da composição da receita pode permitir um melhor entendimento sobre a estrutura tributária de um determinado país. “No Brasil, por exemplo, os impostos previdenciários (INSS) correspondem a cerca de 25% da arrecadação. No Chile, essa relação é só de 5%”, comenta Daude. O economista da OCDE explica que essa diferença entre os indicadores se deve ao fato que, enquanto no Brasil as pensões e aposentarias ficam a cargo do poder público, no Chile, elas são majoritariamente privadas.

    “Eu não digo que, necessariamente, o Brasil teria de se aproximar do Chile. Mas, no Brasil, o diagnóstico é muito claro: as aposentadorias são pagas com dinheiro público e a população é jovem ainda. Pelo que o país gasta, e dado que a população é muito jovem, o sistema é muito caro. E isso deve piorar com o envelhecimento da população”, analisa Daude. Como solução, ele comenta que não necessariamente o país precisa de uma reforma completa, mas que ajustes são necessários para melhorar o sistema.

    Principais impostos – O relatório mostra ainda que os impostos sobre bens e serviços são responsáveis pela maior fatia da receita tributária do país, com 44,1%, número abaixo da média dos países da América Latina, de 51,3%, mas acima da mediana dos países da OCDE, de 32,9%. Em seguida, aparece o INSS, com 25%, e o imposto de renda, com 21,7%.

  8. A SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL.

    Na última década, a questão da segurança pública passou a ser considerada problema fundamental e principal desafio ao estado de direito no Brasil. A segurança ganhou enorme visibilidade pública e jamais, em nossa história recente, esteve tão presente nos debates tanto de especialistas como do público em geral.

    Os problemas relacionados com o aumento das taxas de criminalidade, o aumento da sensação de insegurança, sobretudo nos grandes centros urbanos, a degradação do espaço público, as dificuldades relacionadas à reforma das instituições da administração da justiça criminal, a violência policial, a ineficiência preventiva de nossas instituições, a superpopulação nos presídios, rebeliões, fugas, degradação das condições de internação de jovens em conflito com a lei, corrupção, aumento dos custos operacionais do sistema, problema relacionados à eficiência da investigação criminal e das perícias policiais e morosidade judicial, entre tantos outros, representam desafios para o sucesso do processo de consolidação política da democracia no Brasil.

    A amplitude dos temas e problemas afetos à segurança pública alerta para a necessidade de qualificação do debate sobre segurança e para a incorporação de novos atores, cenários e paradigmas às políticas públicas.

    O problema da segurança, portanto, não pode mais estar apenas adstrito ao repertório tradicional do direito e das instituições da justiça, particularmente, da justiça criminal, presídios e polícia. Evidentemente, as soluções devem passar pelo fortalecimento da capacidade do Estado em gerir a violência, pela retomada da capacidade gerencial no âmbito das políticas públicas de segurança, mas também devem passar pelo alongamento dos pontos de contato das instituições públicas com a sociedade civil e com a produção acadêmica mais relevante à área.

    Em síntese, os novos gestores da segurança pública (não apenas policiais, promotores, juízes e burocratas da administração pública) devem enfrentar estes desafios além de fazer com que o amplo debate nacional sobre o tema transforme-se em real controle sobre as políticas de segurança pública e, mais ainda, estimule a parceria entre órgãos do poder público e sociedade civil na luta por segurança e qualidade de vida dos cidadãos brasileiros.

    Trata-se na verdade de ampliar a sensibilidade de todo o complexo sistema da segurança aos influxos de novas idéias e energias provenientes da sociedade e de criar um novo referencial que veja na segurança espaço importante para a consolidação democrática e para o exercício de um controle social da segurança.

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