Sensato pessimismo

Reproduzindo artigo de Claudio Bernabucci, da Carta Capital

Narram as crônicas provenientes dos Estados Unidos que a crise des­tes anos, além de consequências so­ciais e econômicas, vem deixando como herança ao povo americano um presente inédito: a recuperação do pessimis­mo. No país onde o otimismo fideístico acom­panhou a conquista de sempre novas frontei­ras, trata-se de novidade cultural significativa.

Os americanos historicamente têm se identificado e teoriza­do a importância do “pensar positivo”: garantia de sucesso na sociedade, nos afetos e até na saúde. Acontece que tal ati­tude, sem dúvida criadora de resultados, passou a produzir danos no recente passado, porque não adequadamente ba­lançada por oportuno pensamento crítico.

O livro que fotografou o fenômeno e que vem abrindo uma brecha mortal no otimismo a qualquer custo tem um título que se autoexplica: Prozac Leadership. O autor, David Collinson, é professor na Universidade de Lancaster, na Inglaterra, mas en­controu fama nos Estados Unidos, onde identificou a maioria dos “200 casos de manual”, que demonstrariam sua tese. Tomando o famoso antidepressivo como metáfora da felicidade artificial, a teoria dele aponta os danos que certos excessos de otimismo das lideranças econômicas e financeiras anglo-saxônicas têm provo­cado recentemente nos negócios. A raiz dos problemas estaria na ordem hierárquica e na cultura de empresa que, rejeitando o pes­simismo e premiando o otimismo, têm transformado esse em atitude artificial, sem efetiva conexão com os fatos da vida real. A obediência cega e o conformismo, corolários inevitáveis das or­ganizações guiadas por líderes carismáticos e movidos a otimis­mo artificial, têm, consequentemente, prejudicado sua capacida­de de enfrentar dificuldades e prever perigos. Assim, o profes­sor Collinson identifica numerosos casos de empreendimentos fracassados por atitudes acrílicas e ilustra episódios que explica­riam até mesmo o tombo financeiro de 2008.

De fato, as reflexões do professor inglês são convincen­tes e aplicáveis em escala mundial, não apenas nos setores que ele analisa. A partir do Prozac Leadership, o “pensa­mento pessimista” tem encontrado muitos seguidores em ambientes intelectuais internacionais, bem além do mun­do acadêmico ou econômico-financeiro.

De volta às nossas latitudes, é de esperar que tal tendência se globalize rapidamente e possa encontrar aqui também rá­pido sucesso. E fato que, depois dos inegáveis resultados eco­nômicos da última década, o Brasil entrou em uma fase cultu­ral de acentuado otimismo, provavelmente excessivo, à prova dos fatos. O crescimento econômico deu-se, é certo, e com alguma redistribuição de renda, melhorando condições de vi­da, estatísticas e imagem internacional. Mas a inclusão dos pobres limitou-se a pouco mais do que o acesso a consumos básicos. Educação, saúde, meio ambiente e participação social são os grandes excluídos do modelo brasileiro, baseado fun­damentalmente no crescimento quantitativo. A superação dos atrasos qualitativos do sistema-país frustra as expectati­vas por sua lentidão e incipiência. E as desgraças não faltam: gente demais morre pela disputa de poucos reais, por enchen­tes ou balas perdidas. Mais: estatísticas aterrorizantes indi­cam que o número anual de assassinatos no Brasil é superior aos mortos em todas as guerras no mundo.

Problema mais grave ainda, a política está em crise pro­funda: ética, identitária e organizativa, sem capacidade de dar respostas convincentes aos problemas que se acumu­lam no horizonte. Quanto à economia, os empresários têm dinheiro à disposição como nunca, mas não querem inves­tir, não está claro se por falta de espíritos animais ou por ex­cesso de avidez. Não obstante, o brasileiro continua, segun­do as pesquisas, um dos povos mais otimistas do planeta. Nós, entretanto, acreditamos que o professor Collinson te­ria aqui material abundante para confirmar sua teoria.

A propaganda da última década, sobre virtudes e sucessos brasileiros, não tem ajudado a fo­calizar criticamente os próprios desequilíbrios. Por outro lado, o bombardeio de negatividade que vem de certos setores da so­ciedade, ainda que minoritários, parece prevalentemente inspira­do por espírito destrutivo, sem qualquer proposta crível de al­ternativa. Assim, os humores do País oscilam esquizofrênicos en­tre tais excessos, com supremo descuido do interesse geral.

Enfim, argumentos para vol­tar a um sensato pessimismo, no Brasil, não faltam. O fato de ter rapidamente perdido o lugar de sexta economia do mundo pode­ria ser ótima ocasião de reflexão. Não seria tarde para iniciar tal correção de rota, de forma a supe­rar certo orgulho efêmero e para que volte a se difundir um pensa­mento equilibradamente crítico, mais consciente dos próprios li­mites e mais apto a superá-los.

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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