NUCLEAR: QUEM SAI, QUEM FICA

Reproduzido do  Estado de Minas – MG (Opinião) _ 05/10/2012

Por Leonam dos Santos Guimarães (*)

Alemanha, Suíça, Itália e Bélgica saem, Japão ainda incerto. Todos os demais 27 países que hoje operam usinas ficam, incluídos aí EUA, Canadá, Brasil, Grã-Bretanha, França, Rússia, Índia, China. Outros 45 países estão ativamente considerando entrar no nuclear, dos quais pelos menos 6 entram. Vamos aos fatos.

A geração elétrica nuclear no mundo tem apresentado uma ligeira queda. Após um recorde de produção de 2006 (cerca de 2.750 TWhora), os anos subseqüentes não indicaram crescimento. Em 2011 a geração foi de 2.600 TWhora. Note-se que toda a geração elétrica brasileira é pouco superior a 500 TWhora. Existem, porém, duas tendências em curso:

Os países que foram os primeiros a adotarem a geração nuclear, isto é, os Estados Unidos, Europa, Japão e Rússia, têm tido uma geração constante ou em ligeiro declínio. Os que apresentam reduções são o Japão e alguns países da Europa, fora a França e Finlândia.

Os países que adotaram a geração nuclear mais tarde, particularmente os países em desenvolvimento, continuam a mostrar crescimento. A China e a Índia em particular, têm adicionado significativa geração nuclear. O Brasil, com o recorde de produção de Angra 1 e 2 em 2011 e a construção de Angra 3 segue essa tendência

O que prevalecerá no longo prazo depende de como estas duas tendências opostas se equilibrarão. Existem novas instalações em construção e alguns “uprates” das antigas instalações existentes entre os países que possuem grandes parques de geração nuclear. Esse é caso dos EUA e França, mas principalmente da Rússia, que desenvolve um programa de construção de maior porte.

A geração elétrica nuclear fornece uma parcela significativa da produção de eletricidade do mundo, muito mais do que qualquer nova alternativa. Mesmo com o crescimento das energias renováveis, ainda há um crescimento muito substancial na utilização de combustíveis fósseis nos últimos anos. Fazer uma mudança da geração nuclear para eólica ou solar é muito difícil, especialmente dado às diferenças no seu regime de operação (geração de base x intermitente). Se o uso de eletricidade nuclear for reduzido, o resultado mais provável será uma redução da oferta global de eletricidade ou um aumento no uso de combustíveis fósseis, como os casos do Japão e da Alemanha têm mostrado.

Para os países que planejam reduzir o nuclear, suas percentagens na geração total em 2010 foram: Alemanha, 22%; Suíça, 37%; Bélgica, 52%; e Japão 25%. A menos contando com importações, será difícil gerar-se toda essa quantidade perdida por redução da demanda ou mudança para as energias renováveis. As usinas com custos de capital já amortizado geram eletricidade muito barata. Qualquer tipo de mudança irá requerer substituição por fontes mais caras. Isso será considerado pelas empresas em suas decisões sobre onde localizar novas instalações.

O abandono do nuclear é uma tendência típica da Europa Ocidental, por razões ligadas à política local, e do Japão, pelas conseqüências de Fukushima. Existem atualmente 64 usinas nucleares em construção no mundo (Argentina, Brasil, China, Taiwan, Finlândia, França, Índia, Japão, Coréia do Sul, Paquistão, Rússia, Eslováquia, Ucrânia e EUA). Novas construções na Grã-Bretanha, Canadá, Lituânia, Belarus e Emirados Árabes Unidos deverão se iniciar em 2013. Isso somará mais de 60GW ao parque nuclear mundial, ou seja, muito mais que todo o parque nuclear dos países que decidiram pelo abandono do nuclear.

(*) Leonam dos Santos Guimarães é doutor em engenharia, assistente da Presidência da Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria da Agência Internacional de Energia Atômica

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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4 respostas a NUCLEAR: QUEM SAI, QUEM FICA

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  2. Os maiores problemas da energia nuclear é o seu lixo residual e a insegurança gerada no vazamento de radioatividade como em Chernobil e Fukushima Daiichi. Existem outras alternativas mais limpas para a geração de energia como a eólica, placas solares, turbinas e geradores marítimos (ondas marítimas) e hidroelétricas. Atrás de uma usina nuclear há o enriquecimento de urânio e consequentemente o desvio para fins bélicos, o que faz com que o mundo se arme cada vez mais e a vida terrestre se torne insustentável.

    • Carlos Ferreira disse:

      Flávio, me permita discordar, pois este é o tipo de discurso sempre propagado pela mídia empresa, algumas ONG´s e países do centro do poder mundial.
      Graças a Deus podemos ter uma matriz energética das mais limpas do mundo. Também temos a felicidade de possuir um sistema interligado, o que nos proporciona maior segurança. Entretanto, não podemos nos descuidar do futuro e, a preservação dos nossos reservatórios é uma questão estratégica. Sabemos que cada vez mais teremos limitações de ordem ambiental e socioeconômica para o aproveitamento dos nossos rios. Por isto, temos que utilizar todas as fontes possíveis para geração de energia, selecionando-as em função das suas especificidades e das características dos sítios nos quais, estarão inseridas. Por outro lado, no momento, as alternativas economicamente mais viáveis para a produção de grandes blocos de energia, tão necessária ao nosso desenvolvimento, são: a fonte hídrica e a fonte térmica. Como dito no início, a segurança do manejo do inventário dos nossos reservatórios é fundamental para a nossa segurança e desenvolvimento, portanto, temos que ter alternativas complementares. Neste caso, a mais viável (grandes blocos) é a fonte térmica, basicamente: óleo, gás, carvão, biomassa e nuclear.
      No caso da nuclear, hoje considerada até pelos ambientalistas como limpa, ainda temos a vantagem de possuir a 4ª maior reserva de urânio do mundo, tendo prospectado pouco mais de 30% do território nacional. Além disso, o Brasil, os EUA e a Rússia, são os únicos países do mundo que possuem grandes reservas de urânio e dispõem de tecnologia abrangendo todo o ciclo do combustível. Uma tremenda vantagem também. Entretanto, nossa fragilidade está na falta de continuidade do nosso Programa Nuclear. Não há como fixar e desenvolver tecnologia própria sem que haja um programa mínimo de continuidade, com recursos permanentes, associado a um plano de desenvolvimento e implantação de novas usinas nucleares.
      Ter uma Política de Estado para este valioso e cobiçado recurso energético é vital para os interesses e o futuro da Nação. Esta discussão precisa chegar ao Congresso Nacional.
      O projeto de uma usina nuclear contempla diversos níveis de barreiras de segurança, tornando-a intrinsicamente segura. Os chamados rejeitos de alta (elemento combustível “queimado”) ficam armazenados na própria usina, dentro da contenção metálica, em total segurança. Fiz uso da palavra _ “chamados”_ porque as novas tecnologias, em desenvolvimento, levarão a que estes elementos possam vir a ser reaproveitados., isto é: têm valor.
      Por outro lado, os rejeitos de baixa (filtros, ferramentas, resinas, etc) são armazenados em local seguro e sofrem permanente controle. Também aqui, novas tecnologias têm propiciado processos de reprocessamento e redução dos volumes.
      Posso lhe assegurar que dentre as diversas indústrias, a de energia nuclear é aquela que melhor controle tem sobre o inventário dos seus rejeitos.
      Trabalho há 30 anos nesta área e considero a produção de energia elétrica através de fonte nuclear, altamente segura e uma das mais ambientalmente corretas.
      Forte abraço,
      Carlos
      Veja também:
      http://www.cliptvnews.com.br/eletronuclear/adm/imagens/pdf/1340194128_pdf.pdf
      http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/11/02/potencias-ensaiam-renovar-arsenais-nucleares-2/
      http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/10/03/alemanha-tenta-sem-exito-se-manter-longe-da-energia-nuclear/
      http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/09/22/geisel-acordo-nuclear/
      http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/08/27/programa-nuclear-da-marinha-nos-contextos-nacional-internacional/

  3. Jair Orichio Junior disse:

    Qualquer indústria, séria, deve controlar os seus resíduos, conforme os Manifestos, determinados pelo INEA, IBAMA, CONAMA etc.
    Qualquer descarte de efluente de indústria no Brasil, seja sólido, líquido ou gasoso, não sofre a monitoração e a verificação que a Indústria Nuclear sofre no mundo.
    Todos os resíduos que saem de uma Usina NUclear, são avaliados pela Proteção Radiológica e recebem por parte da Gerência Ambiental, um controle com Manifestos Específicos.
    Os tais “Resíduos Nucleares” que a mídia tanto propaga, e que não detalha para a população em geral, corresponde ao combuistível nuclear, que é queimado nos reatores nucleares e que permanecem guardados, em Piscinas de Combustível Usado, sendo monitorados 24 horas por dia, por câmeras da Agência Internacional de Energia Atômica.
    Quanto aos efluentes líquidos e gasosos, são quantificados todos os “Litros” de efluentes que saem da usina, em termos de Boro, Beta total, Alfa, Gama, Amônia, Hidrazina, Gases Nbres, e toda a espectrometria exigida pela Legislação Ambiental, Brasileira (CNEN) quanto às agências Internacionais.
    O que nós da Indústria Nuclear não vemos é um controle tão exigente sobre outras Indústrias, e que atingem diretamente o Meio Ambiente…

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