Foto: ABr/Valter Campanato
A urgência em se desenvolver tecnologias em um país como o Brasil
O Brasil encontra-se em um momento especial. Com potencial altíssimo de desenvolvimento e um momento econômico de destaque, o país possui grande capacidade para investimentos em alta tecnologia. Porém, esse potencial tem sido pouco aproveitado pela iniciativa privada. Considerado mundialmente um dos países com maior capacidade de crescimento – ao lado da Rússia, Índia e China -, o Brasil poderia estar em um grau bem superior de desenvolvimento tecnológico e econômico.
Um dos grandes impulsionadores desse momento promissor do Brasil é a descoberta do petróleo do Pré-sal. Com ele, as possibilidades de avanço tecnológico e econômico com retorno e aplicação nos investimentos sociais tornaram-se ainda mais latentes. A possibilidade da geração recorde de empregos, por exemplo, é um horizonte a ser considerado. Os recursos que serão gerados pela exploração do Pré-Sal, se bem investidos, trarão à população outro nível de qualidade de vida. Serviços básicos como saúde, educação e moradia poderão ser viabilizados e melhorados.
O desenvolvimento que se espera do Brasil só será possível com uma aliança entre o Estado, a engenharia, a empresa genuinamente nacional e os trabalhadores. Isso porque, o fortalecimento da produtividade é peça-chave nesta engrenagem. Com isso, o Clube de Engenharia ressalta que o Estado deve trabalhar para o fortalecimento das empresas brasileiras de capital nacional. Modificações na legislação deverão ser feitas para que, principalmente a indústria nacional, não seja ameaçada pela crise que reverbera no mundo desde 2008.
Empresas brasileiras dão o exemplo
Um dos grandes exemplos de que as empresas brasileiras têm tudo para crescer cada vez mais é a Petrobras. Com a tecnologia gerada e repassada para outros segmentos, a Petrobras mantém até hoje sua atuação decisiva para o fortalecimento do setor industrial do país.
Outra empresa brasileira que é referência na área de tecnologia e inovação é a Embrapa. Especialista no desenvolvimento de tecnologia para o agronegócio, ela demonstra cada vez mais que o investimento em tecnologia nacional pode trazer frutos incalculáveis.
Segundo o engenheiro Carlos Antonio Rodrigues Ferreira, integrante do Conselho Editorial do Clube de Engenharia e da Câmara de Infraestrutura, Energia e Tecnologia da Alerj, a Petrobras é um sucesso inegável. Por fazer parte das políticas de Estado, a empresa ficou relativamente imune às trocas de governos. “A Petrobras investe pesadamente em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, estando ligada a diversos centros universitários de pesquisa. Na Ilha do Fundão, junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela tem seu centro de excelência, o CENPES, o qual em parceria com a COPPE (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ) tem obtido grandes conquistas. Quando o governo dá suporte e investe nessas áreas o sucesso é absoluto.”, afirma
“A Petrobras tem seu centro de excelência, o CENPES, junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro e em parceria com a COPPE (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ), tem obtido grandes conquistas. Quando o governo dá suporte e investe nessas áreas o sucesso é absoluto.” Carlos Antonio Rodrigues Ferreira, integrante do Conselho Editorial do Clube de Engenharia
O papel das universidades
Muito se debate sobre o importante papel da universidade brasileira. Para Ferreira, o papel da universidade é fundamental para o desenvolvimento de tecnologia. Ele destaca que, cultural e historicamente o Brasil não tem muito background nessa área, principalmente o setor privado. “As universidades têm seus centros de pesquisa, laboratórios e desenvolvem projetos. O foco em pesquisa no Brasil é estatal. O empresariado brasileiro não tem tradição de buscar a universidade para aprimorar seus produtos, processos e para desenvolver pesquisa e inovação”, explica o engenheiro.
Carlos Ferreira frisa também que os governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso decidiram deixar de lado as empresas genuinamente brasileiras,. desnacionalizando a capacidade industrial do país. As empresas transnacionais que se instalaram no Brasil, ou que aqui já estavam nunca buscaram desenvolver tecnologia no país , porque fazem isso em seus países de origem. “Para o Brasil, ficaram os produtos de baixa tecnologia. Por exemplo, somos o quarto país do mundo em venda de veículos, e o sexto maior montador de veículos, mas não temos nenhuma marca nacional nessa área. Não desenvolvemos nada aqui. Foi delegado ao Brasil montar carros de baixa tecnologia. Os veículos de alta tecnologia são importados pelas próprias montadoras que aqui estão, com forte renúncia fiscal, e o Brasil nada faz. Isso se desdobra para outras áreas, em prejuízo da nossa capacidade industrial“, descreve.
Também segundo o engenheiro, o governo brasileiro, buscando atenuar esta distorção, publicou a chamada “MP do Bem”. Nela, por isenção fiscal, as empresas se aproximam dos centros de pesquisa das universidades, para desenvolver tecnologias aplicáveis aos seus produtos e processos. “O que precisamos investigar é se elas realmente estão ajudando a produzindo gerar tecnologias, porque elas podem estar apenas se valendo da renúncia fiscal”, alerta. Ele complementa dizendo que é preciso investigar quais empresas estão sendo beneficiadas pela “MP do Bem” e o que está sendo efetivamente desenvolvido.
O Clube de Engenharia propõe que a sociedade brasileira exija a associação entre as empresas nacionais e as universidades públicas – federais ou estaduais – em seus Parques Tecnológicos, ou nos Centros de Pesquisa instalados por outras empresas. Além disso, os engenheiros querem o restabelecimento dos Centros de Pesquisa e de suas equipes, nas empresas estatais.
Engenheiro Carlos Antonio Rodrigues Ferreira, integrante do Conselho Editorial do Clube de Engenharia
País rico é país que agrega valor
Um ponto muito marcante na economia nacional é sua base, que continua sendo a exportação de matérias primas e produtos primários, e a importação de produtos industriais com maior valor agregado. Isso faz com que o Brasil não consiga sustentar seu crescimento e independência econômica, embora tenha todas as condições materiais e humanas, que lhe permitam isso. A biodiversidade e os vastos recursos naturais, além de um povo criativo e trabalhador são peças-chave para essa transformação, e são pontos fortes do país. Para o engenheiro Carlos Ferreira, o maior problema brasileiro é cultural. “Em diversos países, as ideias, por mais malucas que possam parecer, são sempre testadas e colocadas em prática. Já no Brasil, um inovador é visto como maluco, a sociedade quebra sua criatividade e não estimula. O Barão de Mauá, por exemplo, tentou industrializar o Brasil, foi quebrado e seus ativos foram entregues ao capital inglês. João Gurgel, que sempre sonhou com o carro genuinamente brasileiro, tentou desenvolver automóveis no Brasil, vindo a falir por falta do necessário apoio do Estado”, exemplifica.
Os engenheiros brasileiros defendem que o empresariado precisa começar a enxergar novos caminhos para o desenvolvimento tecnológico. E não é fácil quebrar essa acomodação dos empresários. Na área de produção agroindustrial, por exemplo, o Brasil está entre os primeiros do mundo. No entanto, sempre com uma visão tradicional. “Exportamos café em grão. A Alemanha não tem um pé de café plantado em seu território, entretanto é uma das maiores exportadoras de café processado, no mundo”, aponta Ferreira.
O engenheiro também explica que, muitas vezes, o Estado brasileiro se faz presente através de suas indústrias e de medidas que atendam às transformações tecnológicas. E, quando isso acontece, a área de tecnologia e inovação avança. Mas, segundo Ferreira, o empresário brasileiro não ousa, não procura inserir novas tecnologias em suas cadeias de produção, para agregar valor ao que exporta. “Somos grandes exportadores de suco de laranja, mas não temos uma marca sequer que chegue aos mercados, tudo é exportado in natura, para processamento no exterior“.
O governo deve, segundo os engenheiros, criar formas de incentivar projetos de alta tecnologia desenvolvidos por empresas genuinamente nacionais. O objetivo é fazer com que os produtos brasileiros conquistem valor agregado, além de fortalecer a área de tecnologia nacional.
A questão energética
O Brasil é, hoje, o país com maior potencial energético renovável do mundo. As hidrelétricas, pouco poluentes e renováveis, são a base de produção a garantir o consumo de energia atual. No entanto, com os objetivos e metas traçados para o setor industrial brasileiro e as restrições ambientais à formação de reservatórios, a questão energética torna-se um ponto fundamental.
Ferreira ressalta ser a energia elétrica um insumo essencial ao desenvolvimento do país. “Hoje, consumimos metade do consumo per capita de Portugal, o que é muito pouco. Mas, à medida em que o país se desenvolver e as condições sociais do povo brasileiro evoluírem, a demanda por energia será cada vez mais forte, com expansão nas áreas de saneamento básico e nos transportes urbanos sobre trilhos, por exemplo. Isso é um dos parâmetros para aferição do índice de desenvolvimento humano, portanto, precisa ser pensado”, aponta.
Carlos Ferreira também garante que temos um grande horizonte adiante. Ele afirma que, para gerar grandes blocos de energia, temos basicamente dois tipos de fonte: a hidrelétrica, na qual a água aciona as turbinas gerando energia elétrica; e a fonte térmica, através do carvão, o óleo, o gás e a nuclear. O engenheiro explica: “o carvão brasileiro contém muita cinza e é altamente poluente. O gás natural poderia ser usado para as indústrias ao invés de queimar em termoelétricas. O óleo combustível é altamente poluidor. A nuclear, apesar de toda a dramaticidade e sensacionalismo com que é tratada, paradoxalmente é a mais ecologicamente correta depois das hidrelétricas para a geração de grandes blocos de energia”. Ele também ressalta a segurança envolvida na área nuclear, além da produção de energia em larga escala. “Angra 1 e 2 produzem dois mil megawatts firmes, sem alternância, sem picos, e com total segurança, numa área preservada e pequena. Os critérios de segurança são excelentes”, garante.
Sobre as energias alternativas, o engenheiro ressalta seu caráter de alternância produtiva. As energias eólica e solar, não são constantes, porque não há sol e vento em tempo integral. Por isso, elas trabalham de forma intermitente. “Elas são energias complementares, mas não servem para grandes blocos. Temos que afastar os fantasmas e acreditar que a energia nuclear é importante para o desenvolvimento do país”, frisa.
Altos juros prejudicam indústria nacional
A questão econômica parece interferir e muito neste cenário. Os exorbitantes juros brasileiros, a taxa de câmbio altíssima e a lista quase infinita de impostos convergem para cada vez menos ousadia por parte do empresariado. Para os engenheiros, este é outro desafio que precisa ser superado. “Os governos entram e saem e não conseguem resolver o problema. As empresas têm dificuldade em manter os impostos em dia, são necessários profissionais extremamente especializados. As leis se sobrepõem e oneram o produtor e o consumidor, além disso, nem sempre o dinheiro chega aos caixas do governo”, protesta Carlos Ferreira.
O Brasil de hoje
Outro ponto crucial em torno dos debates sobre desenvolvimento da indústria nacional é a engenharia em si. Para os profissionais da área, o país está retomando o papel e o fortalecimento da engenharia nacional. Segundo Carlos Ferreira, o governo tem tentado fortalecer os produtos genuinamente brasileiros, inclusive através da iniciativa de comprar preferencialmente produtos fabricados no Brasil.
Além disso, ele também frisa que as relações entre o Estado e a indústria podem e devem ser fortes, principalmente no que diz respeito à produção e ao retorno social. “Precisamos perder o medo da estigmatização que a mídia brasileira tenta impor, contra a participação do Estado como indutor do desenvolvimento. A França é dona da Air France, Peugeot, Citroen. A General Motors é do governo americano. A maioria das empresas chinesas são do governo. Então, o Brasil pode e deve apoiar empresas genuinamente brasileiras”, defende.
Para Ferreira, durante as décadas de 80 e 90 – o que ele chama de neoliberalismo puro -, a engenharia praticamente se dissipou. Há, então, um vazio de profissionais. “Temos engenheiros com mais de 50 anos ou até 30 anos. Precisamos correr e formar jovens , interessá-los pela engenharia. Até pouco tempo atrás o jovem não queria mais fazer engenharia, ele buscava carreiras mais promissoras, como economia, direito… E a Petrobras, uma empresa do Estado brasileiro, por exemplo, está tendo um grande papel na recuperação da motivação do jovem para com a engenharia. Sem engenharia, não se constrói um país”, arremata.
Foto: Coppe/UFRJ
Um mapa da tecnologia industrial no Rio de Janeiro
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criou e instalou em seu campus o Parque Tecnológico do Rio. O objetivo é estimular a interação entre os estudantes, professores e funcionários da universidade e empresas que fazem da inovação o seu cotidiano. Na Ilha da Cidade Universitária, está se constituindo uma área exclusiva voltada para o conhecimento e o empreendedorismo. Essa combinação consolida a natural vocação do Rio de Janeiro e do Brasil como pólo de desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação.
São cerca de 350 mil metros quadrados destinados a abrigar empresas das áreas de energia, meio ambiente e tecnologia da informação. Este ambiente garante às empresas o acesso privilegiado a laboratórios, profissionais de alta qualificação e novas oportunidades de negócios. No entanto, das empresas que hoje fazem parte deste Parque, apenas 1/4 delas são brasileiras.
Segue abaixo a lista atual de empresas que fazem parte do Parque Tecnológico da Ilha do Fundão:
Baker Hughes,FMC Technologies, Halliburton, Tenaris Confab, Usiminas, ESSS – Engineering Simulation and Scientific Software, Ilos – Instituto de Logística e Supply Chain, PAM – Produz dispositivos filtrantes, utilizando membranas a base de polímeros comerciais; Petrobras Asfaltos – Laboratório de projetos, misturas, ligantes e desenvolvimento de produtos da Petrobras Distribuidora; Schlumberger – Fornecimento de tecnologia, gerenciamento de projetos e informações para soluções direcionadas à indústria de Óleo e Gás, Ambidados – Soluções em monitoramento ambiental, Ambipetro, Aquamet, Meteorologia, projetos e sistemas, BG Group, EMC², GE, Maemfe, RECAS, Siemens/ Chemtech, V&M, Virtualy – Virtualy Tecnologia de Simulação.
Reproduzido da “Engenharia em Revista”: http://portalclubedeengenharia.org.br/arquivo/1342459402.pdf/documentos




Excelente!! Parabéns, Carlos!!!
Abraço!
A indústria brasileira é fraca por não existir no país um incentivo às pesquisas e consequentemente um investimento mais direcional. Quando o país importa ele está desfavorecendo a indústria local e não está criando oportunidades de crescimento.Nosso parque industrial encontra-se carente de novas tecnologias e mais investimentos. O protecionismo acaba minimizando a falta de competitividade, mas chegará um ponto em que essa atitude será desfavorável ao estabelecimento de um processo produtivo revigorado e forte. A competitividade leva o empresariado a investir mais forte em tecnologias de ponta e isso gera um dinamismo industrial mais coerente e menos amador. As ferramentas para esse processo se obtém com diálogo entre o governo e o empresário, que farão conjuntamente esforços para que o país possa apresentar bons produtos no mercado internacional e competir em mesmo nível.