O lado obscuro de projetos de energia solar e eólica

Por Tiffany Hsu – Los Angeles Times

Elas podem parecer benignas à distância – painéis solares reluzindo ao sol ou turbinas suavemente agitando-se com a brisa para produzir eletricidade para centenas de milhares de lares. Contudo, sua construção e manutenção podem ser perigosas.

Os acidentes envolvendo apenas turbinas a vento triplicaram na última década e grupos de fiscalização temem que os incidentes possam disparar ainda mais, colocando no caminho do perigo mais trabalhadores e até mesmo curiosos, devido a uma onda de empreendimentos que requerem a contratação de hordas de novos trabalhadores e, muitas vezes, de trabalhadores sem experiência.

Ano passado, a indústria solar cresceu 67% e duplicou o número de trabalhadores nos Estados Unidos para 100.000, de acordo com a Solar Energy Industries Assn. A indústria eólica sustenta mais de 75.000 postos de trabalho.

As preocupações têm uma especial repercussão na Califórnia, lar para muitos dos maiores projetos solares e eólicos do país.

“Temos escutado sobre cada vez mais incidentes”, disse Lisa Linowes, diretora executiva da entidade de fiscalização Industrial Wind Action Group. “Qualquer dia desses, uma turbina vai cair em alguém”.

Muitos técnicos de turbinas eólicas trabalham em um espaço do tamanho de um banheiro, 20 andares acima do chão, cercado por equipamentos elétricos de alta tensão. Alguns inspecionam lâminas de turbina suspensos ao lado delas, em locais atingidos por ventos fortes. Os componentes podem pesar mais de 90 toneladas.

Alguns técnicos despencaram de dezenas de metros de altura, outros foram esmagados por peças instáveis ou ficaram presos a máquinas em rotação. Pilotos de pequenas aeronaves colidiram com as torres. No ano passado, explosões elétricas deixaram um trabalhador em Illinois com queimaduras de terceiro grau e outros dois, em San Diego, com ferimentos similares.

O Departamento do Trabalho alerta que trabalhadores podem asfixiar-se no interior das turbinas ou inalar gases e vapores nocivos ao polir e recuperar a superfície das lâminas.

Acidentes com turbinas eólicas envolvendo lesões e danos a equipamentos explodiram na última década, chegando em 2008 a 128 acidentes pelo mundo, de acordo com o Caithness Windfarm Information Forum. Ocorreram 78 mortes desde a década de 70, sendo aproximadamente metade dos casos nos Estados Unidos.

O número de acidentes com energia solar é mais difícil de ser verificado, mas a maior parte dos trabalhadores dessa indústria diz que está aumentando. Trabalhadores na área de energia solar realizam atividades similares àquelas presentes nas mais perigosas profissões: instalação de telhados, trabalhos elétricos e carpintaria.

Em abril de 2010, Hans Petersen estava dando um tempo em seus estudos acadêmicos de teologia e já estava instalando painéis solares por seis meses quando tropeçou do telhado inclinado em um conjunto residencial público na Carolina do Norte, mergulhando para a morte de uma altura de 13,72 m.

Petersen, de 30 anos, não estava utilizando equipamentos de segurança. O equipamento que poderia ter evitado sua queda não era uma exigência geral da indústria naquele momento.

“Eles simplesmente fizeram pressuposições a respeito de algumas coisas, que esse telhado não era um telhado particularmente perigoso, que a inclinação era modesta”, disse o pai de Petersen, o Reverendo Glenn Petersen. “Tenho certeza que Hans não contava com isso. Ele sentia-se confortável naquelas alturas”.

Até mesmo o público pode estar em risco, dizem grupos de fiscalização. Incêndios no alto de torres eólicas espalharam detritos em chamas de acordo com vizinhos que também descrevem instalações construídas apressadamente, que desmoronaram em meses, e condições climáticas ruins que agravaram o desgaste.

A fiação complicada debaixo dos painéis solares deixou alguns bombeiros tão desconcertados que eles permitiram que telhados residenciais queimassem. Alguns painéis contem matérias como cádmio e selênio, que podem ser explosivos ou mesmo cancerígenos de acordo com a Silicon Valley Toxics Coalition.

As peças dos painéis também podem ser inflamáveis ou propensas a derretimento ou rompimentos em tempestades ou rachadas por granizo, dizem especialistas em testes.

Com os custos de produção diminuindo, as empresas estão sob “enorme pressão” para permanecerem competitivas, “às vezes utilizando componentes menos duráveis”, disse Jeffrey Smidt, gerente geral de Negócios Globais de Energia na empresa de certificação de produtos Underwriters Laboratories Inc., conhecida por UL.

“As pessoas simplesmente presumem que eles estão bons”, disse ele.

Grupos de fiscalização dizem que uma miscelânea de padrões estaduais e federais de energia renovável não acompanhou o crescimento da indústria. Alguns foram adaptados de outras indústrias e não cobrem especificamente projetos eólicos e solares, enquanto outros são mais diretrizes do que regulamentos obrigatórios. Muitos são antigos e estão sendo atualizados agora.

Mas as empresas de energia limpa afirmam que estão apoiando padrões de segurança mais uniformes e oferecendo treinamento intensivo aos trabalhadores.

Este ano, a American Wind Energy Assn. lançou um programa para reunir dados de segurança para a indústria. Possui também recomendações online que incluem alertas sobre trabalho com ventos fortes, requisitos para proteção contra queda acima de 1,82m, e recomendações para inspeções frequentes em guindastes e planos de segurança contra raios.

O grupo comercial da indústria solar disse que está trabalhando em seu próprio conjunto de boas práticas. A organização apresentou recomendações de segurança para um padrão internacional de construção a ser delineado para projetos de energia renovável.

As empresas estão também procurando formas de melhorar as características de segurança de seus produtos e realizando testes neles em instalações como a operada pela UL em San Jose.

Os técnicos de lá operam uma câmara de tortura para painéis solares, testando a resistência da tecnologia ao tentar destrui-la. Os painéis são submergidos em tanques, golpeados por pesos de 100 libras e bombardeados com bolas de gelo viajando a 80,47 km/h.

Há cinco anos, metade de todos os produtos que passaram pelo laboratório de Bay Area teriam sido reprovados em ao menos um teste, afirmaram os técnicos. No momento, apenas 30%.

A indústria eólica também está cortando práticas inferiores, como deixar cercas abertas em volta de equipamentos de alta tensão e dirigir caminhões em alta velocidade pelos canteiros de instalações, declarou Fraser Mclachlan, presidente da seguradora de energia renovável GCube Insurance Services Inc.

Agências estaduais e federais dizem que também estão tomando medidas para reduzir os acidentes e impulsionar a aplicação das normas. O chefe do corpo de bombeiros do estado da Califórnia atualizou recentemente as diretrizes que recomendam que telhados com instalações solares tenham um passadiço de 91,44 cm (3 pés) para manobras dos bombeiros.

Enquanto isso, a empregadora de Hans Petersen, a SolarCity, disse ter aumentado as normas de segurança e gasto milhões de dólares aprimorando seu programa de treinamento e desenvolvendo equipamentos para impedir quedas.

“O acidente de Hans foi, de longe, o evento mais emocionalmente penoso que a empresa já vivenciou”, disse a empresa em uma declaração. “Esperamos que nenhuma outra empresa de energia solar ou seus empregados tenham que passar por algo assim.”

Tradução: Carolina Almeida

Original:  http://articles.latimes.com/2011/aug/03/business/la-fi-green-safety-20110803

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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3 respostas a O lado obscuro de projetos de energia solar e eólica

  1. Caros, boa tarde!
    Realmente o perigo existe com as turbinas, mas, painéis solar é puro descuido, pois acho que não se pode atribuir esse tipo de acidente a esta tecnologia.
    O que deveríamos fazer então com os acidentes da construção civil? Trabalhadores que caem de andaimes, construindo madeiramentos de residencias, instalando telhados na colocação de telhas. Penso que neste caso, os de painéis, deveria ser repensado, pois, uma vez que condenamos uma instalação dessas, estaríamos colaborando com o desuso da tecnologia tão bem aceita e que acada momento está mais ao alcance da classe mais baixa.
    O que diríamos sobre ventos que levam telhas de alumínio, concreto aos ares???
    Att
    Neto

  2. Concordo com o José Santoro.
    Risco existe quando saimos de casa de manhã.
    O grande problema é o empregador colocar em seu custo o treinamento de pessoas e quando o coloca, efetivar o mesmo.
    E por outro lado, o proprio trabalhador que se recusa a mudar habitos e preocedimentos de trabalho, antigos e inseguros.
    Quantas empresas se descuidam deste parecer e são multadas pelos orgão de fiscalização do Trabalho? Isto em atividades corriqueiras e banais como a construção civil, eletrica, etc..
    Agora, imaginem um novo traballho que envolve multidisciplinas de proteção como altura, eletricidade, mecanica, aerodinamica, etc..
    Cuidados deveremos ter com qualquer uma delas, mas o artigo acima mais parece uma supervalorização de acidentes que, na maioria das vezes são evitaveis.
    E uma maneira de atacar a eólica que floresce sem cessar, motivando ao publico comum a acreditar em um “novo monstro a solta”.
    Guardemos as proporções em relação a importancia de tudo e seguindo as normas de segurança, este é um trabalho como outro qualquer.
    “Fatalidade é quando tudo o que poderia evitar a tragédia foi feito e mesmo assim ela aconteceu. O restante é descuido”.
    Sergio Schiavom
    Engenheiro Eletricista

    • Carlos Ferreira disse:

      Sérgio, boa observação e, principalmente um a oportunidade para eu fazer um esclarecimento: sou favorável a todas as formas de geração renovável, seja eólica, solar, biomassa, por marés ou nuclear, ou outras.
      Sendo da área nuclear, também considerada renovável, apesar da negação de muitos, sei bem o que é ser discriminado e atacado, fruto do desconhecimento e sensacionalismo com que a nuclear é tratada de um a maneira geral, principalmente na mídia.
      Todos nós sabemos que não existe atividade industrial de risco zero, principalmente em geração elétrica, o que fazemos é minimizar os eventuais riscos como processos contínuos de aprendizado, desenvolvimento e aperfeiçoamento de projetos e processos.
      No nosso Brasil, temos a mais adequada das fontes, graças à Deus, a hídrica, atuando na base e respondendo por mais de 80% da matriz energética, as demais fontes são complementares e, nos casos eólicos, solar e biomassa, locais, uma vez que dependem de safras; insolação e ventos, os quais não são constantes. Portanto, jamais podem ser consideradas como recurso na base.
      Porém, como agora, quando o regime de chuvas está fortemente alterado, estamos sob risco, vendo os nossos reservatórios secando a cada dia. Nas sociedades modernas, energia é insumo básico, pois vai desde o funcionamento das indústrias, ao transporte de massa, sistemas de abastecimento d´água e saneamento, até o conforto de nossas casas. Como resolver o problema, vista que não há como atuarmos sobre o regime de chuvas? Resposta: tendo capacidade instalada de base, as termoelétricas, que inclusive estão a pleno gás, no momento.
      Destas as fontes são basicamente: óleo diesel; óleo combustível; gás; carvão e nuclear. Exceto a fonte nuclear, todas as demais são fortes contribuintes para o efeito estufa. Daí que defendo um incremento da fonte nuclear para 5% da matriz. Para efeito de comparação, hoje, Angra 1 e 2 contribuem com 2,8% na geração elétrica brasileira. Assim, o aumento da geração núcleo-elétrica seria ainda muito pequeno dentro da matriz, mas de grande importância para a segurança do sistema e a manutenção dos estoques d´água nos reservatórios.
      Forte abraço,
      Carlos

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