Alemanha tenta, sem êxito, se manter longe da energia nuclear

Por, Ladka Bauerova e Carol Matlack , 03/10/2011

Localizados nas ricas e onduladas colinas boêmias da República Tcheca, os reatores gêmeos da usina nuclear de Temelín, de projeto soviético, estão a 70 km da fronteira alemã.

Desde o segundo trimestre, quando a premiê Angela Merkel começou a desativar reatores nucleares na Alemanha, Temelín reforçou o fornecimento de eletricidade para a Bavária, onde grandes empresas alemãs como BMW, Audi e Siemens possuem fábricas.

Mas há um paradoxo duplo aqui. A Alemanha diz que seu futuro será livre da energia nuclear. Mas no presente não está tão livre, dependendo mais do que nunca da eletricidade dos países vizinhos que produzem energia nuclear. Além disso, os alemães estão desligando seus reatores porque não querem um acidente parecido com o de Fukushima espalhando radiação pelo país. Mas os reatores de Temelín, que se encontram em boas condições, estão perto o suficiente da fronteira para provocar chuvas radioativas na Alemanha no caso de um acidente grave.

Até o início do fechamento das USINAS NUCLEARES, os alemães exportavam uma média de 1.400 gigawatt-hora por mês, quase 3% da produção de energia elétrica do país. Agora, estão importando cerca de 2.000 gigawatts-hora por mês. Grande parte está vindo da França e da República Tcheca, os principais exportadores de eletricidade do continente europeu. As importações de energia custam aos alemães US$ 139 milhões por mês, com base nos preços correntes monitorados pela Bloomberg.

Com os nove reatores alemães restantes devendo ser desativados até 2022, ninguém parece mais ávido para ocupar esse espaço que os tchecos. Eles negociam a construção de mais dois reatores em Temelín, ao mesmo tempo em que planejam novos reatores na envelhecida usina nuclear de Dukovany e em dois outros lugares. Isso é parte do esforço para aumentar a parcela nuclear da capacidade de geração de energia do país de 32% para mais de 50% até 2050. “A energia nuclear é a solução”, diz Roman Portuzák, envolvido na elaboração da estratégia energética do país.

Os alemães vêm afirmando que vão substituir a capacidade nuclear com as energias eólica, solar e outras fontes renováveis. “No longo prazo, a Alemanha não precisará de importações significativas de eletricidade”, diz Michael Kauch, principal porta-voz ambiental do FDP (liberais), partido que faz parte da coalizão que dá sustentação ao governo de Angela Merkel.

Atingir essa meta não será fácil. As condições climáticas em constante mutação significam que a oferta confiável de energia solar e eólica não é sempre possível. E embora o norte da Alemanha tenha extensivas “fazendas” geradores da energia eólica e solar, a capacidade de transmissão das linhas de energia não é suficiente para levá-la à Bavária, no sul do país. A construção de novas linhas de transmissão poderá levar de cinco a dez anos. “O governo alemão deu um tiro no próprio pé”, diz Lawson Steele, analista do Espirito Santo Investment Bank de Londres. “A Alemanha provavelmente ficará bem por três ou quatro anos, e então começará a ficar sem capacidade”.

Os tchecos afirmam estar recorrendo à energia nuclear para substituir a dependência dos combustíveis fósseis, incluindo o gás importado da Rússia. Mesmo assim, cerca de 20% da produção de eletricidade da República Tcheca já é exportada, e a adição de vários reatores novos poderá aumentar esse número. Analistas dizem que exportações maiores ajudarão a CEZ, a companhia estatal de serviços públicos. “Vejo uma oportunidade para as empresas tchecas exportarem energia à Alemanha, sobretudo por causa de seus planos de reforçar a energia nuclear”, diz Clive Roberts, da Standard & Poor’s.

Os tchecos também fornecem energia à Áustria, que não tem USINAS NUCLEARES e usam essa energia para bombear água para reservatórios em montanhas, onde ela posteriormente é usada para gerar energia hidrelétrica – parte é então vendida à Alemanha. Por mais que tentem, os alemães não conseguem se livrar da energia nuclear.

 

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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