11 de Setembro, dez anos depois

Luiz Carlos Bresser-Pereira

A dominação agora passa a ter como instrumento o endividamento externo dos países em desenvolvimento

O 11 de Setembro talvez fique na história dos EUA como a data do fim do império americano, assim como a Primeira Guerra marcou o fim dos dois últimos impérios clássicos (o Austro-Húngaro e o Otomano) e a Segunda Guerra, o fim do maior império industrial, já fruto da revolução capitalista: o Império Britânico.
Foi uma data de dupla tragédia para os EUA. Os impérios clássicos e mesmo o império moderno da Grã-Bretanha existiram em um tempo em que ainda era “legítimo” ter impérios. Ainda me lembro quando, crianças, minha mãe nos mostrava o mapa-múndi, e meu irmão admirava os grandes domínios britânicos, sempre pintados de vermelho, enquanto eu torcia pelo Império Francês, pintado de verde. Hoje, quem torce pelo império americano em decomposição? O imperialismo deixou de ter legitimidade social durante a Segunda Guerra. Depois dela, os povos dominados se revoltaram e lograram independência, porque o custo de manter os impérios tornou-se mais alto do que os benefícios de explorá-los.

E porque, terminada a dominação política, a exploração não precisava terminar: podia ser agora disfarçada, por meio da associação com elites corruptas locais.
Passou a ser essa a política dos EUA e das antigas potências imperiais -a Grã-Bretanha e a França. A dominação que antes se fazia via comércio, agora passa a ter como instrumento o endividamento externo dos países em desenvolvimento seguido de pressões e recomendações contrárias a seus interesses nacionais. Essa forma de dominação imperial disfarçada tornou-se ainda menos legítima quando as guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão revelaram um imperialismo aberto, mas que não lograva interromper a perda de poder do Ocidente diante do desenvolvimento dos países asiáticos dinâmicos.
As duas guerras foram “vitoriosas” porque implantaram governos títeres, mas que representaram derrotas, dados os imensos custos em vidas (mais de 130 mil) e em dólares (cerca de US$ 4 tri, segundo cálculos do projeto Brown) e a repulsa que causaram nos povos árabes e na opinião pública mundial.
Não parece existir saída para os EUA. Seu povo elegeu há três anos um presidente progressista, mas ele não tem apoio na sociedade americana para mudar a política externa. Um critério para a intervenção nos países em desenvolvimento continua a ser o interesse das empresas americanas, mas o critério primeiro é o da “segurança nacional”. Um conceito vago mas tanto mais poderoso quanto maior é o medo dos cidadãos americanos – um medo que é paradoxalmente forte em uma sociedade tão forte como são os EUA, e que justifica tudo em nome da segurança nacional.

O enfraquecimento crescente dos EUA é favorável aos países da periferia como o Brasil, porque lhes permite ganhar mais autonomia. Mas não posso deixar de me preocupar pela grande nação americana. Afinal, existe nela uma soma muito grande de pessoas, de conhecimentos, de valores, de cultura -um imenso patrimônio da humanidade. Não creio que adiante rezar por eles, mas vale dar apoio aos muitos americanos que percebem a decadência americana e se indignam com o imperialismo fora do tempo que é uma de suas causas.

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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Uma resposta a 11 de Setembro, dez anos depois

  1. Jean Brunswick disse:

    O texto é excelente, mas o último parágrafo é especialmente precioso. Nunca devemos generalizar a situação e colocar toda a cultura e população americana em um único e comum patamar de alienação. Ao contrário, nosso papel deve ser o de disseminar ao máximo todas as verdades, de modo que haja uma conscientização cada vez maior para as barbáries que vem ocorrendo naquela sociedade.

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