Artigo de Horst Monken Fernandes, 01 de Setembro de 2011
Frequentemente são publicados artigos que procuram demonstrar que a geração nucleoelétrica deve ser abandonada e que esforços devem ser concentrados na geração de energia através das fontes renováveis – solar e eólica, sendo as mais citadas.
Os pontos mais criticados em relação à energia nuclear dizem respeito a deposição final dos rejeitos (incorretamente e pejorativamente chamados de lixo nuclear); a ocorrência de acidentes (argumento que tornou a ganhar força depois do acidente em Fukushima) e finalmente o custo de geração. Neste texto não me concentrarei nos dois primeiros pontos, mas no terceiro.
Vale dizer, no entanto que soluções mais do que viáveis e seguras existem há décadas para a deposição final dos rejeitos. O problema aqui é muito mais de percepção do que de natureza técnica. No caso de Fukushima, é absolutamente inaceitável ignorar-se que o acidente está intimamente associado a um evento natural de proporções monumentais e que ainda assim as conseqüências foram bem menores do que se quer fazer parecer.
No que diz respeito aos custos da geração nucleoelétrica é importante ter-se em mente o aspecto comparativo em relação a outras formas de geração e nesse aspecto chama atenção o excelente artigo publicado recentemente por Victor & Yanosek na revista Foreign Affairs (Julho/Agosto 2011) sob o título “The Crisis in Clean Energy”.
Segundo os autores, com a necessidade que vários países enfrentam de reequilibrar suas contas, os subsídios públicos – que alavancaram o crescimento de certas formas de geração de energia a taxas de 25% anuais – estão se tornando politicamente insustentáveis.
Investimentos em pesquisa e inovação correspondem a uma pequena parte daquilo que é verificado para o setor das fontes de energia renováveis, sendo que a maior parte se concentra na instalação de equipamentos de geração. A inovação em estratégias de estocagem de energia, por exemplo – que é um elemento extremamente importante no caso de fontes intermitentes como a energia solar e eólica – não tem sido tão efetiva. Os investidores favorecem a instalação de formas convencionais de energia limpa de baixo risco de retorno do investimento de capital, mas que, sem os subsídios, não são economicamente viáveis.
A Alemanha cortou subsídios para geração de energia solar em 2010 e espera fazer o mesmo em 2011. A Itália, a República Checa e a Espanha também estão estabelecendo limites mais baixos do que os atualmente praticados nos preços que pagam por esse tipo de geração. Esse cenário afeta a opção de empresas de alta tecnologia em investir no setor e várias delas estão revendo suas políticas de investimento.
O fato relevante, portanto é que a energia nuclear continua sendo uma das únicas fontes economicamente viáveis de geração de energia elétrica de larga escala que não contribui para o aquecimento global.
Como muito bem colocam os autores acima citados, ao longo dos anos foram criados padrões de desenvolvimento de modelos de negócio no setor de geração de energia elétrica que dependem sobremaneira de subsídios governamentais, mas que não conseguem competir em escala com as formas convencionais de geração de energia – a nuclear entre elas.
Horst Monken Fernandes é pesquisador licenciado do Instituto de Radioproteção e Dosimetria da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IRD/Cnen).
Concordo com os argumentos do autor. Cabe ressaltar também o aspecto de intermitência no custos das fontes eólica e solar. Esse custo encarece o kWh e diminui o fator de capacidade e disponibilidade dessas fontes.
Aliás, por falar em fator de capacidade, vale a pena mencionar que os fatores de capacidade da nuclear estão entre os maiores de todas as fontes de energia. Isso inclui as hidrelétricas que, no Brasil, tem fatores de capacidade consideravelmente mais baixos, da ordem de 50% contra os 80-90% da nuclear.
Na prática, isso significa que as gigantes usinas hidrelétricas brasileiras não geram a potência para a qual teriam sido projetadas, seja devido a limitações ao reservatório ou restrições ambientais. O exemplo mais recente é Belo Monte, que possui uma capacidade de geração de mais de 11.000 MW mas terá uma potência firme menor do que a metade disso.