Iniciativa permite ampliar a produção de radioisótopos e a prestação serviços
O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), unidade de pesquisa vinculada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), aumentou a potência do reator nuclear de pesquisa IEA-R1, que passou a operar a 4,5MW desde 1o de agosto. A ampliação da capacidade do reator busca atender a demanda na produção de radiofármacos para diagnóstico e tratamento médico e na prestação de serviços de irradiação de amostras para pesquisa.
No reator IEA-R1 são produzidos radioisótopos para uso em medicina nuclear, como o samário-153, utilizado para o alívio das dores em metástases ósseas, o iodo-131 para diagnóstico e terapia de disfunções tireoideanas e o irídio-192, na forma de fios metálicos, para braquiterapia. Além desses radiofármacos, também são produzidos radioisótopos utilizados em aplicações industriais, como o cobalto-60, para gamagrafia industrial.
O aumento de potência do reator IEA-R1 permitirá ao Ipen ampliar a produção nacional de radiofármacos, contribuindo para reduzir o volume de importação. A previsão é que a instituição passe a fornecer entre 60% a 70% da demanda de iodo radioativo, um dos radiofármacos mais utilizados nos hospitais e clínicas de nuclear. Atualmente, são realizados cerca de 3 milhões de procedimentos anuais de medicina nuclear no país.
Em operação desde 1957, o IEA-R1 tem por finalidade a irradiação de amostras para pesquisas com física nuclear, radiofarmácia e radioquímica, além de ser importante instrumento para o treinamento e formação de recursos humanos para a área nuclear. Embora projetado para atingir 5MW, o reator operou inicialmente a 2MW. A partir de 1994, passou a operar em regime contínuo de três dias, em turnos, com potência de 3 a 3,5MW.
Em 2009, pesquisadores e técnicos do Centro do Reator de Pesquisa (CRPq) e das áreas de Radioproteção e Sistema da Qualidade do instituto iniciaram estudos visando o aumento gradual da potência do reator. “O grande desafio do projeto estava relacionado às questões de segurança, uma vez que se trata de um equipamento de mais de 50 anos”, explica Walter Ricci Filho, gerente-adjunto de Operação, Manutenção do Reator IEA-R1 (CRO). Além disso, o reator está aberto ao público, recebendo visitas de estudantes de segundo grau, universitários, profissionais da indústria, dentre outros. “É um dos poucos reatores de pesquisa de sua categoria, talvez o único em todo mundo, a receber grupos de visitantes, o que nos leva a estar permanentemente preocupados em aperfeiçoar os seus sistemas de segurança”, completa.
Em 2010, o reator passou a operar a 3,5MW; no início de 2011, a 4MW e, agora, a 4,5MW. O objetivo é chegar a 5MW em 2012.
Entre os novos projetos de pesquisa está a produção de radioisótopos como o lutécio-177, o rênio-188 e, principalmente, o molibdênio, matéria-prima utilizada na produção do gerador de tecnécio-99M, radiofármaco mais usado na medicina nuclear, sendo empregado na maioria dos exames de diagnósticos por cintilografia, que permitem investigar tumores, doenças cardiovasculares e problemas pulmonares, neurológicos e hepáticos, dentre outros.
Atualmente, toda a demanda de molibdênio é atendida através de importação, o que deixa o país extremamente vulnerável em caso de queda na produção mundial do radioisótopo, como aconteceu no final de 2007 e de 2009 e no início de 2010. O Brasil consome em torno de 5% da produção mundial do radioisótopo.
Segundo Walter Ricci Filho, além de ampliar a capacidade de produção de radioisótopos, o aumento de potência do reator traz benefícios para outras áreas. “Diversos grupos de pesquisa, como o de física nuclear e o de elementos combustíveis, contam, agora, com a estrutura necessária para otimizar seus experimentos e desenvolver novos projetos. Nosso reator tem muito a oferecer até que o Reator Multitpropósito Brasileiro (RMB) seja construído, e mesmo depois do início de sua operação”, explica.
Para o técnico do Ipen, o investimento realizado é uma demonstração da consistência do Programa Nuclear Brasileiro, na área de pesquisa. “Graças ao PNB, o país pode contar com projetos como este, que está dando retorno para a instituição, para os pesquisadores e principalmente, para a sociedade brasileira”, afirma.
Instalação
O núcleo do reator IEA-R1 fica submerso em uma piscina, a cerca de nove metros de profundidade e possui 144 posições que permitem irradiações de materiais. Um sistema pneumático possibilita irradiações mais breves e 9 tubos de irradiação horizontais (beam holes) são utilizados para pesquisas com feixes de nêutrons em física nuclear, física do estado sólido e pesquisas em terapia de câncer.
Ao longo de sua história, várias modernizações foram realizadas para permitir o aumento da potência: reformas no saguão da piscina, na sala de controle, nos sistemas de refrigeração, de aquisição de dados e na instrumentação. Desde 2002, o CRPq possui certificação ISO 9001. As reformas são realizadas com recursos oriundos do orçamento da Cnen e contam também com a contribuição da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), além de parcerias com órgãos nacionais de fomento.
RMB
Previsto para entrar em operação dentro de cinco anos, o RMB será o maior reator de pesquisas do país. O empreendimento é considerado estratégico por atender a áreas essenciais para o desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro. Além de beneficiar a medicina nuclear, possibilitando ao país tornar-se autossuficiente na produção de radioisótopos, o RMB será utilizado em outras importantes aplicações como testes de irradiação de materiais e combustíveis, pesquisas com feixes de nêutrons e também na formação de recursos humanos para o setor nuclear.
O novo reator será construído em Iperó (SP), ao lado do Centro Experimental de Aramar, da Marinha. O empreendimento demandará investimentos da ordem de US$ 500 milhões.
Fonte: ABEN, 23/08/2011 (http://www.aben.com.br)