Santayana e a luta contra a corrupção: novos tempos

 Reproduzindo o  Conversa Afiada, texto de Mauro Santayana, extraído do JB: 17/08/2011

O Congresso em Movimento _ Mauro Santayana

Apesar do ceticismo, natural nesse trecho histórico, minguado de decisões, há, no Congresso Nacional o frisson das grandes vésperas. Começa a crescer a consciência de que a paciência dos cidadãos atinge seu limite. E os parlamentares honrados procuram organizar uma frente no Congresso para assegurar o apoio necessário à Presidente Dilma Roussef a fim de que ela possa prosseguir no combate aos desvios do dinheiro público.

Não é só a imprensa, nem a poderosa malha da internet, que transmite ao Parlamento o mal-estar da população. Em visitas aos redutos eleitorais, percebem a maré montante, que pode transformar-se em tsunamis. Mesmo que não se ouçam os resmungos de protesto, os olhares não deixam dúvida: o clima não é de primavera.

Quanto aos demais, os que, sim, dispõem de biografia honrada, esses se horrorizam ao descobrir o desprestígio dos políticos em geral e dos parlamentares em particular. A ojeriza comum aos políticos se tornou, nos últimos tempos, muito mais grave. Antes, os corruptos se contavam nos dedos, e eram conhecidos. Hoje, os que se contam nos dedos são os homens públicos respeitáveis. O Parlamento, que não reflete exatamente a nação, como se costuma dizer – mas um sistema eleitoral de chocha legitimidade – é, assim, o espaço em que podemos cumprimentar um parlamentar respeitável e, dois metros adiante, esbarrar em alguém de caráter duvidoso. Nestas horas, poucos são os que assumem – e se lhes registre a coragem – o discurso sinuoso, que tenta tornar legal o que é espúrio, e reduzir denúncias sérias a manifestações menores de calúnia e intriga.

O que se sente é o temor que se adensa. Diante do que ocorre hoje em outros países, com o explodir do inconformismo em atos de violência, alguns tentam esconjurar o medo, com o lugar comum de que “brasileiro não é assim”, “o povo já está acostumado”, “isso é fogo de palha”. E há, realmente, os alienados, de escamas nos olhos, cera nos ouvidos e neurônios raquíticos, sobretudo os que não conhecem a história. Não sabem que o Brasil foi construído com rebeliões populares sucessivas, e se todas foram vencidas ou engambeladas pela esperteza das oligarquias, o país sempre foi melhor depois, ainda que tenha pago o tributo de sangue, no fuzilamento de bravos patriotas, como ocorreu na repressão brutal aos revolucionários de 1824, no Nordeste.

A corrupção só medra e se espalha, como as carrapicheiras, porque as instituições foram construídas e reformadas a fim de lhe dar abrigo. Se, no passado, as empreitadas para obras de infraestrutura permitiam e estimulavam a corrupção, hoje a grande oportunidade está na terceirização de serviços, sobretudo mediante as chamadas organizações não governamentais. O ideal dos formuladores do Consenso de Washington, a serviço do grande capital financeiro, é o de reduzir o Estado a mero coletor de impostos e distribuidor de recursos aos prestadores de serviços, grandes corporações ou organizações fantasmas, como as criadas por alguns políticos, a fim de complementar sua remuneração.

Com a consciência de que é necessário extirpar a corrupção pelas raízes, cresce o apoio à Presidente Dilma Roussef, a fim de que ela prossiga no saneamento do governo. Personalidades respeitáveis do país fazem chegar ao Planalto as mensagens de apoio à Chefe de Estado. Os dirigentes da CNBB – o Cardeal Raymundo Damasceno, D. José Belisário e D. Leonardo Ulrich – estiveram em seu gabinete e, em nota oficial, deixaram claro que:

“Os princípios éticos da verdade e da justiça exigem exemplar apuração dos fatos, com a conseqüente punição dos culpados, porque não se pode transigir diante da malversação do emprego do dinheiro público. Sacrificar os bens devidos a todos é um crime que clama aos céus por lesar, sobretudo, os pobres”.

A ordem mundial de domínio se descuidou, com o surgimento da rede mundial de computadores, e a possibilidade da conversação, sem limites, dos cidadãos. Em 1932, quando o rádio começava a se tornar universal, Brecht elaborou a sua “Radiotheorie”. Ele se referia à comunicação radiofônica, mas antecipava o que seria a internet, para a imposição de uma nova ordem libertária no mundo. De qualquer forma, rádio e internet são duas expressões de um mesmo meio, o da comunicação eletrônica. Disse o grande pensador:

“A radiodifusão há de ser transformada de sistema de distribuição em um sistema de comunicação. A radiodifusão poderia ser o mais gigantesco meio de comunicação imaginável na vida pública, um imenso sistema de canalização. Isto é, seria, se não só fosse capaz de emitir, mas também de receber, se conseguisse que o ouvinte não só ouvisse, como também falasse, que não ficasse isolado, mas relacionado”.

E o autor de “Mãe Coragem” termina seu raciocínio com a esperança de nossos dias, ao dizer que isso era irrealizável então – há 80 anos – mas que ocorreria em decorrência do natural desenvolvimento técnico, e se tornaria o instrumento para a propagação e formação de uma outra ordem social para o mundo. E é o que está ocorrendo.

O sentimento é o de que estamos em grandes vésperas, aqui e no mundo.

 

Sobre Carlos Ferreira

Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuando na área de Energia Nuclear. Membro do Conselho Diretor e do Conselho Editorial do Clube de Engenharia. Conselheiro do CREA-RJ, período 2005 a 2007.
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Uma resposta a Santayana e a luta contra a corrupção: novos tempos

  1. Flavio Lyra disse:

    Está muito lúcido e estimulante o texto de Santayana. Porém uma ideologia somente voltada para o combate à corrupção na administração pública é insuficiente, pois ela é meramente corretiva dos desvios existentes dentro da ordem atual. É preciso ir além, com a conformação de uma nova ideologia capaz de mobilizar o povo brasileiro para mudanças na ordem atual. Três elementos são fundamentais nessa ideologia: um nacionalismo não-xénofobo e que fomente a cooperação entre os paises em desenvolvimento, especialmente os da America Latina; que seja popular, isto é, apoiado pela grande maioria da população, e não submetido aos interesses da oligarquia aliada das grandes corporações nacionais e internacionais; e que seja democrático, que vise a substituição da atual democracia representativa por uma democracia social, cujo suporte seja as organizações de base da população.
    Esse novo nacionalismo é representativo dos interesses do povo e dos segmentos mais intelectualizados da classe média não comprometida com o pensamento neoliberal ainda dominante.

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