Por Ceci Juruá | Rio de Janeiro, 17/08/2014
Personalidade conhecida do mundo das finanças, pois foi presidente do Banco Central no último governo militar a partir de 1979, afirma, em artigo publicado hoje, que é “fato notório na maioria dos países, que a Renda Nacional se distribui, basicamente, em proporções tradicionais de cerca de 40% para o Governo…”. (JB on line de 17-08-2014, “Síntese da Conjuntura: política social e distribuição de renda”, por Ernane Galvêas) Esta afirmação não corresponde às estatísticas da Contabilidade Nacional brasileira.
Veja-se, por exemplo, em qualquer número da revista Conjuntura Econômica, editada pela Fundação Getúlio Vargas, a seguinte distribuição do valor adicionado (unidade formadora da Renda Nacional, conceituada como a soma dos valores adicionados na produção, ou também “soma das remunerações dos fatores de produção”).
Participação do valor adicionados a preços básicos, por setores:
PIB Agropecuária: 5,7%
PIB Indústria: 29,3%
PIB Serviços: 65,0%
PIB Governo: 16,0%
PIB total: 116,0
PNB total: 100,00
PNB/Produto Nacional Bruto = PIB/Produto Interno Bruto – RLEE/Renda líquida enviada ao Exterior, logo RLEE = 16%
No Brasil o Produto Nacional Bruto é menor do que o Produto Interno Bruto, porque há uma parcela do PIB, não desprezível, que é remetida para o exterior, como remuneração de fatores de produção não brasileiros. Esta parcela se compõe de rendimentos do capital e do trabalho, essencialmente. Este fato parece desconhecido da grande mídia, mas também de personalidades do mundo das altas finanças, para quem o Estado não passa de entidade abstrata, a ser satanizada como fonte de desperdício e das desigualdades sociais.
Para quem não é leigo em Economia e Contabilidade Nacional, no entanto, o fato mais chocante na atual distribuição da renda nacional brasileira é a igualdade entre a parte que cabe ao governo – míseros 16% – e a parcela remetida para o exterior, os mesmo 16%. Isto significa que o Estado brasileiro, com todas as tarefas e responsabilidades que lhe são atribuídas no Pacto Social e exigidas pela cidadania, recebe e dispõe do mesmo percentual da Renda Nacional que corresponde aos proprietários de fatores de produção estrangeiros. Repartição desigual? Muito provavelmente. Mas também uma questão de poder político.
Fundamentados na falsa premissa que o Estado abocanha 40% da Renda Nacional, os defensores do supremacia dos mercados e do livre comércio advogam que a continuidade do processo de redistribuição da renda no Brasil requer a redução dos gastos do Estado.
Esta tese, ou falsa premissa, é também funcional para todos aqueles que pretendem ser elevada demais a carga tributária brasileira. Carga tributária que, quando corretamente conceituada, isto é, como Carga Líquida, que não contém dupla contagem e que, para servir de indicador deve ser depurada dos pagamentos em espécie que o Estado transfere à sociedade, não passa de 16% do PIB. Nos pagamentos que o Estado devolve à sociedade estão incluídos, por exemplo, os juros da dívida pública. Mas também os benefícios em espécie da Seguridade Social.
Por trás da falsa premissa utilizada por defensores dos mercados livres e das altas finanças, localizamos também o dogma liberal, tão aplicado ao Brasil no século XIX: em lugar de arrecadar tributos, o meio mais “eficiente” de financiamento dos gastos estatais é a dívida pública, isto é, o lançamento de títulos de dívida soberana, que rendem altos juros e constituem um campo de aplicação, seguro e rentável, para os proprietários de liquidez, isto é, dinheiro. Na verdade, os donos do capital preferem emprestar dinheiro ao Governo, em lugar de correr os riscos do investimento produtivo, em mercados que eles sabem ser controlados por alguns grandes grupos econômicos. Preferem ser rentistas em lugar de empresários.
Este é o drama atual do capitalismo brasileiro. Os donos do capital não querem correr risco, por isto evitam aplicar suas bilionárias poupanças (parcela da mais valia, ou excedente econômico) na produção. Mas tampouco querem mantê-las no banco, ociosas, pois há o risco da desvalorização da moeda. Bom mesmo, pensam eles, é emprestar ao Governo. E para isto, quanto mais frágil estiverem as finanças públicas, melhor para o capital. Por isto fazem campanha contra os impostos, recusam-se a pagá-los, escondendo os lucros em paraísos fiscais ou em manobras contábeis. E, sempre que tiverem a grande mídia à sua disposição, o golpe dá certo.
Até quando conseguirão iludir a sociedade brasileira? Isto vai depender em parte da nossa mobilização. Mas se não tivermos êxito em desmontar essas teses, não só falsas mas impeditivas do desenvolvimentismo em curso, o mais provável é a bancarrota, como já ocorreu ao final dos oitocentos, o século em que se construiu o subdesenvolvimento.
*- Ceci Juruá é economista e doutora em políticas públicas

