O governo tem 40% da Renda Nacional?

Por Ceci Juruá | Rio de Janeiro, 17/08/2014

Personalidade conhecida do mundo das finanças, pois foi presidente do Banco Central no último governo militar a partir de 1979, afirma, em artigo publicado hoje, que é “fato notório na maioria dos países, que a Renda Nacional se distribui, basicamente, em proporções tradicionais de cerca de 40% para o Governo…”. (JB on line de 17-08-2014, “Síntese da Conjuntura: política social e distribuição de renda”, por Ernane Galvêas) Esta afirmação não corresponde às estatísticas da Contabilidade Nacional brasileira.

Veja-se, por exemplo, em qualquer número da revista Conjuntura Econômica, editada pela Fundação Getúlio Vargas, a seguinte distribuição do valor adicionado (unidade formadora da Renda Nacional, conceituada como a soma dos valores adicionados na produção, ou também “soma das remunerações dos fatores de produção”).

Participação do valor adicionados a preços básicos, por setores:

PIB Agropecuária: 5,7%

PIB Indústria: 29,3%

PIB Serviços: 65,0%

PIB Governo: 16,0%

PIB total: 116,0

PNB total: 100,00

PNB/Produto Nacional Bruto = PIB/Produto Interno Bruto – RLEE/Renda líquida enviada ao Exterior, logo RLEE = 16%

No Brasil o Produto Nacional Bruto é menor do que o Produto Interno Bruto, porque há uma parcela do PIB, não desprezível, que é remetida para o exterior, como remuneração de fatores de produção não brasileiros. Esta parcela se compõe de rendimentos do capital e do trabalho, essencialmente. Este fato parece desconhecido da grande mídia, mas também de personalidades do mundo das altas finanças, para quem o Estado não passa de entidade abstrata, a ser satanizada como fonte de desperdício e das desigualdades sociais.

Para quem não é leigo em Economia e Contabilidade Nacional, no entanto, o fato mais chocante na atual distribuição da renda nacional brasileira é a igualdade entre a parte que cabe ao governo – míseros 16% – e a parcela remetida para o exterior, os mesmo 16%. Isto significa que o Estado brasileiro, com todas as tarefas e responsabilidades que lhe são atribuídas no Pacto Social e exigidas pela cidadania, recebe e dispõe do mesmo percentual da Renda Nacional que corresponde aos proprietários de fatores de produção estrangeiros. Repartição desigual? Muito provavelmente. Mas também uma questão de poder político.

Fundamentados na falsa premissa que o Estado abocanha 40% da Renda Nacional, os defensores do supremacia dos mercados e do livre comércio advogam que a continuidade do processo de redistribuição da renda no Brasil requer a redução dos gastos do Estado.

Esta tese, ou falsa premissa, é também funcional para todos aqueles que pretendem ser elevada demais a carga tributária brasileira. Carga tributária que, quando corretamente conceituada, isto é, como Carga Líquida, que não contém dupla contagem e que, para servir de indicador deve ser depurada dos pagamentos em espécie que o Estado transfere à sociedade, não passa de 16% do PIB. Nos pagamentos que o Estado devolve à sociedade estão incluídos, por exemplo, os juros da dívida pública. Mas também os benefícios em espécie da Seguridade Social.

Por trás da falsa premissa utilizada por defensores dos mercados livres e das altas finanças, localizamos também o dogma liberal, tão aplicado ao Brasil no século XIX: em lugar de arrecadar tributos, o meio mais “eficiente” de financiamento dos gastos estatais é a dívida pública, isto é, o lançamento de títulos de dívida soberana, que rendem altos juros e constituem um campo de aplicação, seguro e rentável, para os proprietários de liquidez, isto é, dinheiro. Na verdade, os donos do capital preferem emprestar dinheiro ao Governo, em lugar de correr os riscos do investimento produtivo, em mercados que eles sabem ser controlados por alguns grandes grupos econômicos. Preferem ser rentistas em lugar de empresários.

Este é o drama atual do capitalismo brasileiro. Os donos do capital não querem correr risco, por isto evitam aplicar suas bilionárias poupanças (parcela da mais valia, ou excedente econômico) na produção. Mas tampouco querem mantê-las no banco, ociosas, pois há o risco da desvalorização da moeda. Bom mesmo, pensam eles, é emprestar ao Governo. E para isto, quanto mais frágil estiverem as finanças públicas, melhor para o capital. Por isto fazem campanha contra os impostos, recusam-se a pagá-los, escondendo os lucros em paraísos fiscais ou em manobras contábeis. E, sempre que tiverem a grande mídia à sua disposição, o golpe dá certo.

Até quando conseguirão iludir a sociedade brasileira? Isto vai depender em parte da nossa mobilização. Mas se não tivermos êxito em desmontar essas teses, não só falsas mas impeditivas do desenvolvimentismo em curso, o mais provável é a bancarrota, como já ocorreu ao final dos oitocentos, o século em que se construiu o subdesenvolvimento.

*- Ceci Juruá é economista e doutora em políticas públicas

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As forças do atraso, outra vez

Por Ceci Juruá

Recentemente, a imprensa noticiou que um grupo de agropecuaristas encaminhou aos presidenciáveis um documento com as propostas do setor. O documento foi entregue aos candidatos que compareceram, há poucos dias, à reunião realizada na sede da CNA – Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária. Segundo noticia do jornal Valor de 1º de agosto (p.A-6), constam da pauta de reivindicações da CNA:

1-que “a escolha de ministros da agricultura se dê após consulta e aprovação por entidades do setor com base em critérios técnicos”;

2-criação de uma agência de defesa agropecuária nos moldes da Receita Federal na área de fiscalização”;

3-meta anual de 2% do PIB agrícola para investimento em pesquisa agropecuária;

4-devolução de impostos embutidos no custo de produtos agrícolas exportados e desoneração tributária de matérias primas utilizadas na produção de alimentos da cesta básica, incluindo carnes;

5-remanejamento para o Ministério da Agricultura, de atribuições que hoje estão a cargo dos ministérios do Meio Ambiente e da Fazenda, tais como: políticas de preços agrícolas, taxas de juro, subvenção ao seguro rural, determinação de parâmetros ambientais, entre outros.

A argumentação dos agropecuaristas se baseia, como de praxe, na importância do setor para a balança comercial brasileira e na sua capacidade de gerar empregos. Mas ali não há, por exemplo, referência às condições de trabalho, materiais ou financeiras, nem o compromisso com a extinção de trabalho escravo, menção que poderia enobrecê-los e demonstrar seus avanços em matéria de modernidade e de civilidade. Evidentemente a questão dos latifúndios rurais tampouco integra o documento apresentado. Nota-se ainda total ausência de um pronunciamento corporativo sobre a aplicação efetiva da cláusula constitucional que autoriza a progressividade dos impostos sobre renda e propriedade.

Enfim, querem apenas o filé mignon, terra farta e rica, ausência de impostos e auto-governo! A proposta assim formulada, permite supor que o setor de agropecuária gostaria de se tornar um enclave, uma espécie de protetorado no interior do Estado brasileiro, um território autônomo dirigido por senhores rurais a quem deveríamos ser gratos por sua contribuição à geração de divisas que são, com muita freqüência, direcionadas para o consumo supérfluo menos no Brasil e mais no exterior.

O mais espantoso é que deste meio social, e de seus assessores e aliados, é que partem gritos estridentes e histéricos contra o recente decreto da Presidência da República que institui modalidades de Participação Social na formatação de políticas públicas, sem caráter deliberativo e apenas como instância consultiva e propositiva (Decreto 8.243/ 2014).

Apesar do apoio que a proposta de Participação Social vem recebendo em amplos segmentos da sociedade, nos quais se destacam renomados juristas, professores, pesquisadores, associações profissionais e de trabalhadores, o Decreto 8.243 tem recebido duras críticas das oposições de direita que esgrimem argumentos ora ridículos e ultrapassados, do tipo “querem comunizar o país”, ora sem sustentação formal-legal, como a acusação de que há violação das atribuições constitucionais dos poderes Legislativo e Executivo.

Mas será que ao reivindicar a escolha do Ministro da Agricultura, os agropecuaristas não estarão invadindo competência privativa do Presidente da República? E seqüestrando funções diversas do Estado com propostas que abrangem tanto matéria tributária quanto de regulação ambiental e econômico-financeira? Sendo assim, teríamos da parte dos senhores rurais, membros destacados do rentismo e do agro-negócio, uma proposta em curso que atenta diretamente contra os princípios éticos, democráticos e republicanos de nossa Carta Magna? Que os torna indivíduos representantes do atraso, saudosistas das oligarquias agrárias do Império e da República Velha?

Mesmo que recuem em suas pretensões, sincera ou dissimuladamente, o mal está feito. O projeto dos agropecuaristas, talvez acalentado há longa data, já é um fato público e notório, e ele sinaliza claramente o desejo de seqüestrar à luz do dia parcela considerável do poder de Estado. Mas nesse caso, os ataques e as críticas direcionados ao decreto de Participação Popular, onde se visa justamente o contrário – a democratização do Estado -, ataques e criticas que partem de grupos de oposição ao atual Governo, e das mídias que os servem, não seriam indícios do fenômeno psicológico de projeção: atribuir a outrem propostas indecorosas e desejos não confessáveis, como mecanismo de auto-defesa?

Sendo esta a atual conjuntura, não se pode deixar de ter clareza e lucidez quanto à importância histórica das próximas eleições presidenciais. Frente à frente estarão: o velho e o novo, o passado e o futuro, o pesadelo e o sonho, a miséria e a bonança.

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Notícias da economia: Lucro da América Movil cresce 32,7%

Por Ceci Juruá*

No mês de março último, estando em Brasilia e considerando alta demais a fatura do meu pré-pago Claro, fui à empresa solicitar a listagem das tarifas praticadas. Fiquei estarrecida: 3 minutos de celular pré-pago custavam mais caro do que uma viagem de ônibus de 2 horas, no Rio de Janeiro, por exemplo.

A Claro faz parte da América Móvil, grupo que controla as empresas Claro, Net e Embratel e é o maior grupo de telecomunicações da América Latina. Seu principal controlador é o mexicano Carlos Slim. Segundo o jornal Valor citado acima, o grupo obteve no segundo trimestre desse ano um EBITDA (lucro antes juros, impostos, depreciação e amortização) de 66,63 bilhões de pesos mexicanos, equivalente a 30% da receita do trimestre. O lucro líquido foi de 18,83 bilhões de pesos mexicanos.

Com esses dados não admira que Carlos Slim seja o homem mais rico do mundo. E, tal façanha, no meu entender, não decorre das palavrinhas mágicas de que o Mercado tanto gosta: eficiência, produtividade, etc. A riqueza, no caso, eu vejo mais como decorrência de tarifas abusivas. A se julgar pelas reclamações dos usuários junto ao Procon, o serviço não é de excelente qualidade. Mais grave ainda é que o sistema tarifário, nessas empresas, em geral é regressivo. Os mais pobres pagam mais, prêmios e descontos vão para os mais ricos e para empresas.

Na origem desses fatos encontramos as privatizações dos anos 1990, no caso especifico das telecomunicações esta foi uma herança do ministro da época, S. Motta. Comentando aquelas privatizações, o prêmio Nobel de Economia J. Stiglitz observou que se tratou de um caso raro, em que tudo foi vendido antes de haver um plano setorial e antes da organização de uma agência de regulação. Noemi Klein observou, por sua vez, que as privatizações na Rússia e no Brasil constituíram a maior pilhagem do século XX (ver A doutrina do choque).

Problemas desse tipo não são fáceis de solucionar através de acordos e de legislação. Há contratos de longo prazo, tribunais e tratados internacionais, e até grupos internos de pressão que se organizam à sombra dessas fantásticas fortunas Daí as dificuldades de alterar, segundo princípios democráticos, a legislação e as normas que regem o setor. Precisamos e precisaremos ainda por certo tempo, de muitos estudos, constatações empíricas, persistência e até prudência. E, é claro, da mobilização popular em bases sólidas.

*-Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas.

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Falácias em época de eleição: o Plano Real

Por Ceci Juruá

O Plano Real, obra idealizada no governo de Itamar Franco e implantada no período seguinte, NÃO IMPEDE INFLAÇÃO. Esta é uma constatação empírica, pois:

-entre 1995 e 2002, as taxas de inflação variaram de 1,7% (1998) a 26,41% (2002); no período seguinte, 2003-2010, a variação se deu entre 1,22% (2005) e 12,14% (2004), e até houve deflação, – 1,4% no ano de 2009;

-usando-se o IGP-DI como indicador, a taxa média de inflação no governo FHC foi de 12,5% ao ano, enquanto no governo Lula foi de 6,46% anual,

-se, em lugar do IGP-DI utilizarmos o IGP-M, as médias foram 12,46% e 5,54%, respectivamente (dados retirados da Conjuntura Estatística da revista Conjuntura Econômica de junho de 2013).

Também é fato sobejamente conhecido que o Plano Real foi o instrumento que liquidou a hiperinflação com que a economia brasileira se debatia desde os anos 1980. Esse foi seu grande mérito histórico. E o fez usando como principal instrumento de controle monetário a âncora cambial, sendo esta uma das razões pelas quais é difícil introduzir modificações na política macroeconômica sem correr o risco de descontrole monetário.

Em paralelo à adoção da âncora cambial, o Plano Real foi acompanhado por uma reforma do Estado orientada pelos paradigmas do Pensamento Único e do Consenso de Washington, transferindo ao setor privado, nacional e estrangeiro, parcela considerável do setor produtivo estatal, a preços irrisórios.

Por outro lado, aquela reforma fragmentou o poder de Estado mediante a organização de dois blocos: a) o Poder Executivo, onde atuam os ministérios com titulares escolhidos por negociação entre o Governo eleito e os partidos políticos representados no Congresso; e b) as agências de regulação, entidades que, em tese, poderiam ser resguardadas de influências políticas, porém sujeitas ao financiamento dos “regulados”, isto é, da clientela sobre a qual a regulação deveria exercer-se. Esta reforma não vem dando certo.

Sobre a inflação dos últimos anos, cuja taxa ainda não atingiu a média do período 1995-2002, muito se escreve e as opiniões são divergentes. Há a tese que ela ocorre principalmente no setor de serviços, porque se trata de produtos não comercializáveis, isto é, não sujeitos à concorrência de mercadorias importadas. Esta tese, que se apóia em dados empíricos, tem boa parcela de verdade. Outros autores atribuem ao neodesenvolvimentismo do governo Lula a persistência de taxas inflacionárias, embora sem reconhecer explicitamente as diferenças apontadas acima.

Na verdade o que diferenciou o governo Lula do anterior, em matéria de políticas públicas, foi a tentativa de reequilibrar os dois pólos em que se pode dividir a demanda agregada : o interno e o externo. A partir do final de 2003, distinguem-se três orientações que impulsionaram o mercado interno: o Bolsa Família, a ampliação do crédito interno com destaque para o crédito consignado, e os reajustes do salário mínimo. Em seguida, ao final do primeiro governo foi anunciado o PAC-Plano de Aceleração do Crescimento, sucedido pouco depois por intervenções sucessivas do BNDES a fim de apoiar os investimentos produtivos na economia doméstica, mas também orientadas à internacionalização de grupos econômicos nacionais.

O sucesso desse conjunto de políticas públicas pode ser evidenciado pela resistência da economia brasileira aos efeitos deletérios que a crise econômica de 2008-2009 produziu, gerando desemprego e empobrecimento em grande número de países, aí incluídos Estados Unidos e União Européia. A organização anunciada do banco dos BRICS está inserida na tentativa, bem sucedida, de liberar a economia nacional dos ônus impostos pela dependência às altas finanças mundiais. É mais um passo dos governos petistas no sentido de ampliar o exercício da soberania nacional.

É claro, ainda, que nos faltam estudos mais aprofundados e abrangentes sobre as fontes estruturais de persistência das tendências inflacionárias na economia brasileira. Estudos que permitam relacionar tais tendências com os desequilíbrios da balança de pagamentos e os efeitos decorrentes da desvalorização cambial. A desvalorização da taxa de câmbio é fonte de inflação, pois aumenta os custos dos componentes e produtos importados, logo repassados aos preços internos. Seu impacto depende do coeficiente de importação da economia nacional. Foi assim, por exemplo, nos anos de 1999 e 2002, e em anos recentes.

Se a desvalorização não provocou, nos anos recentes, taxas maiores de inflação, isto se deve a outro grande acerto do governo Lula: a formação de reservas internacionais que ampliaram o poder da ação do Banco Central relativamente às oscilações do câmbio. Sem esta medida, de extrema prudência e acerto, continuaríamos com o câmbio a reboque dos fluxos financeiros comandados pelas altas finanças mundiais. Deve-se portanto admitir que a formação de reservas brasileiras, em moeda internacional, constituiu também, um fator de apoio ao exercício da soberania nacional.

Sendo assim, é necessário admitir a fragilidade dos argumentos que sustentam a opinião de que há identidade de política econômica nos governos do PT e do PSDB. Pelo contrário, foram absolutamente diferenciadas.

Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas

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Racionalidade técnica e política no setor energético

Por Ceci Juruá

A historiadora e socióloga Sophia Mappa, diretora do Forum de Delfos, lançou em 2004 um livro elucidativo sobre As metamorfoses da política no Norte e no Sul. Trata-se de uma obra útil para quem se propõe entender os fatos sociais, sobretudo de natureza econômica, que ocorrem em nossos países, e assume ao mesmo tempo a necessidade de despojar-se de visões e conceitos característicos dos tempos pós-Segunda Guerra Mundial, tempos de descolonização e de priorização dos objetivos de desenvolvimento.

Primeiramente, ensina ela, é preciso reconhecer que as inovações institucionais foram desenhadas de acordo com os principios de governança e de liberalização, e de conceitos associados como é o caso do conceito de concorrência. Esta introdução “cai como uma luva” na análise crítica das privatizações dos setores brasileiros de infraestrutura. Entendeu-se na ocasião, anos 1990, ser necessário substituir setores nacionalizados e estatizados por um outro modelo institucional voltado para favorecer a concorrência entre empresas do setor privado, em ambiente de liberalização comercial e financeira, e em seguida adotar nesses setores regras de boa governança voltadas para uma gestão eficiente, da qual o Estado se havia mostrado incapaz.

Transplantadas do Norte para o Sul, das gavetas dos bancos mundiais para os órgãos governamentais, tais regras e princípios metamorfosearam-se em normas jurídicas de não fácil entendimento em nossos países, pois desvinculados de uma cultura que prevalecera por mais de meio século. No caso específico do setor energético, as leis de número 9.074/95, 9.427/96, 9.648/98 propuseram a entrada em cena de novos atores, novas relações sociais, novas redes de interesse, novas formas de financiamento, enfim, uma nova cultura. Tratava-se de uma modernização transplantada que fez emergir novas figuras institucionais e sistemas operacionais, entre os quais destaco, a título de exemplo, a agência de regulação, o produtor independente de energia elétrica, o consumidor livre e o regime da livre negociação da energia entre produtores e geradoras.

Do mix institucional surgiram a ANEEL, Agencia Nacional reguladora do setor de Energia Elétrica, o MAE, Mercado Atacadista de Energia, e o ONS, Operador Nacional do Sistema Elétrico. Diz-se que pouco antes do Brasil, o estado norte-americano da Califórnia havia feito sua reorganização com traços que depois se reproduziram aqui, perseguindo ambos, Brasil e Califórnia, idêntico objetivo – a introdução de um regime de livre concorrência na geração e distribuição de energia elétrica.

Com a modernização transplantada vieram também, para o Brasil, alguns representantes de grandes grupos internacionais produtores e comercializadores de energia elétrica, nem todos mal sucedidos como foi o caso da famigerada Enron. Enquanto esta se dissolveu em um mar de acusações a leste e oeste do Atlântico Norte, e no Brasil, outras empresas aqui se estabeleceram, cresceram, organizaram redes de influência e de poder. E aí estão.

No novo ambiente cultural a energia deixou de ser um insumo estratégico necessário ao crescimento e ao desenvolvimento econômico, assumiu feições de commodity com direito a freqüentar bolsas de valores e a fazer parte das expectativas de produtores e de consumidores, mas também dos inevitáveis especuladores.

Sem esse histórico, que resumimos acima, fica difícil entender o panorama atual da energia elétrica no Brasil. A CCEE, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica é apenas uma sucessora do MAE e, como em toda sucessão, recebeu ativos e passivos da entidade que a antecedeu, comprometendo-se ao mesmo tempo a respeitar direitos adquiridos das empresas que passaram a atuar no mercado, em substituição ao vetusto Estado nacional.

Nesse momento em que mais uma vez surgem críticas, justas, aos preços de energia praticados nos mercados, em detrimento das famílias e das empresas voltadas para o abastecimento doméstico, é oportuno relembrar que tampouco esta situação é nova ou recente. Digo isto porque, em setembro de 2001, a Câmara de Gestão de Crise Elétrica resolveu aprovar os seguintes preços, fixados pelo ASMAE, agente administrador do MAE: R$ 336,00 /MWh nos submercados Norte e Sudeste/Centro Oeste, e R$ 562,15 /MWh no submercado do Nordeste. (Resolução CGEE N. 49 de 20-09-2001)

Corrigindo-se os preços indicados acima, estariam eles acima ou abaixo dos preços atuais? Deixo o exercício de cálculo para os que me lêem. O único interesse desse meu texto foi relembrar as bases históricas dos problemas que enfrentamos hoje em matéria de energia elétrica. Concluo manifestando meu apego à hipótese de que qualquer intenção e proposta radical de mudança cultural e conceitual do modelo adotado, no passado recente e nos dias atuais, deve ter esbarrado, e esbarra ainda, nos interesses constituídos através de marcos jurídicos e de mercado.

Inovar não é difícil, em economias dependentes, mas retroceder no tempo é impossível.

Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas

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Desigualdades de renda no Brasil

Por Ceci Juruá*

Comparando os censos de 2000 e 2010, observou-se a seguinte evolução:

-os 1% mais ricos permaneceram com o percentual de 17,2% da renda nacional brasileira

-os 9% seguintes, tiveram modesta perda, passando de 33,9% para 31%

-os 30% do estrato de renda média passaram de 30,8% para 30,3% da renda nacional

-os 60% mais pobres tiveram ganho modesto, pouco maior do que 3 pontos percentuais, passando de 18,1% para 21,5% da renda nacional

As personalidades entrevistadas destacaram que esse resultado foi possível graças a política de aumento real do salário mínimo e às transferências governamentais de renda. Mas também contribuíram a queda da taxa de juros ao longo dos anos, e a relativa estabilidade monetária.

Por conta das correções introduzidas na distribuição de rendimentos, a renda dos mais pobres cresceu 155% entre 2000 e 2010, um ritmo superior ao dos 40% mais bem posicionados, cuja renda média cresceu 106% no mesmo período.

Trata-se de uma evolução bastante singular, no contexto capitalista dos últimos 30 anos. Nos países desenvolvidos “a concentração de renda tem aumentado no topo da pirâmide”. Mas apesar da queda da desigualdade, evidente nos números apresentados, o titulo da matéria em primeira página destaca que os super-ricos mantém sua fatia da renda no país.

Fonte: Valor de 26-06-2014, A-14, reportagem de Denise Newmann

*-Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas. Rio de Janeiro, 26 de junho de 2014

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85 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma riqueza que as 3,5 bilhões mais pobres

Por Ceci Juruá

Em artigo publicado no jornal Valor, Lynn Forester de Rothschild e Paul Polman comentam a situação atual da economia mundial, marcada por desigualdades crescentes, e as possibilidades de superá-las mediante alguma modalidade de capitalismo inclusivo. Reconhecem os autores que ” Nenhum de nós é capaz de prosperar num mundo em que 1 bilhão de pessoas vão dormir com fome toda noite e 2,3 bilhões não tem acesso a saneamento básico. ”

Sobre os indicadores de desigualdades, citam especificamente:

1. O 1,2 bilhão de pessoas mais pobres do planeta respondem por apenas 1% do consumo mundial

2. Enquanto o bilhão dos mais ricos são responsáveis por 72% (do consumo mundial).

3. As 85 pessoas mais ricas do mundo acumularam a mesma riqueza que os 3,5 bilhões mais pobres.

4. Uma em cada 8 pessoas vai dormir com fome toda noite, enquanto 1,4 bilhão de adultos apresentam sobrepeso.

Percebem também os autores, e o anotam, que a população mundial está perdendo confiança nos governos, nas empresas, por isto a opinião pública, frustrada, está indo às ruais e pergunta-se, frequentemente, se “o capitalismo, tal como o praticamos, vale a pena”.

Como não poderia deixar de ser, os autores têm a certeza que o capitalismo é o melhor de todos os sistemas sociais. Mas é preciso que se transforme. E acreditam que a transformação já está acontecendo. As evidências seriam a montagem de novos modelos de negócios direcionados para um capitalismo responsável e a mobilização das lideranças mundiais para estruturar um capitalismo inclusivo. Indicam o prazo de uma geração para redefinir e construir uma economia mundial sustentável e equitativa.

Pessoalmente não faço muita fé, mas é importante registrar as palavras de alguém que é membro de família colocada no topo do poder mundial, há mais de século. E que provavelmente é uma das 85 pessoas mais ricas do mundo.

Talvez por coincidência, tais palavras se inserem em ambiente altamente mobilizado pelas palavras de Picketty, e por seu livro O Capital no Século XXI. Talvez por coincidência igualmente, nesse livro há a proposta de um imposto mundial sobre a riqueza. E finalmente a observação, minha, de que imposto mundial implica governo mundial. Será este o caminho sugerido pelos autores, quando se referem a um modelo de capitalismo inclusivo, responsável?

*Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas. Notas feitas a partir do artigo A AMEAÇA CAPITALISTA AO CAPITALISMO, publicado em VALOR, pg. A-13, de 27 de maio de 2014.

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Salário e investimentos estagnados nos EUA há 25 anos

Por Ceci Juruá

Com base nos estudos que vem sendo realizados pelo Fundo Monetário Internacional, o jornal Le Monde publicou, há dois dias, alguns comentários sobre a economia norte-americana, que merecem ser cotejados com os rumos da política econômica brasileira após a crise de 2008. Vejamos:

1. A primeira constatação é que o salário real mediano nos Estados Unidos está praticamente estagnado há 25 anos. Mesmo assim, o consumo doméstico aumentou após a crise de 2008, graças a dois fatores principalmente: forte aumento do endividamento, aumento das transferências fiscais . Em 1970, por exemplo, apenas 1 entre 50 norte-americanos recebia ajuda alimentar, a relação hoje é de 1 entre 6.

2. Os lucros aumentam mas os investimentos declinam ou ficam estagnados. Isto se deve, segundo a notícia citada à redução relativa do preço dos bens de capital, fazendo com que a manutenção da taxa de investimento em volume (quantidades físicas) corresponda uma redução em valor (unidades monetárias). Este fato se observa principalmente nos equipamentos resultantes das novas tecnologias de comunicação. Em matéria de construções e fábricas há efetivamente declínio da taxa de investimentos.

Ao se alinhar com as medidas de proteção à economia adotadas por norte-americanos, crédito e transferências assistenciais, o governo brasileiro conseguiu até agora manter o nível de emprego e da renda no Brasil. Merece aplausos em lugar das críticas que lhe tem sido dirigidas. Se a eficácia de tais medidas se esgota, como acreditam alguns, outras medidas poderão e deverão ser providenciadas. Cabe ainda constatar que a política praticada não só evitou uma crise social de grandes proporções no Brasil, como também que ela seguiu, estritamente, o figurino desenhado nos Estados Unidos. A diferença é que não emitimos moeda sem lastro, porque não dispomos de moeda com circulação universal, como é o caso dos Estados Unidos.

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A quebra dos consensos e suas derivações

Por Ceci Juruá

Lendo os jornais diários, nota-se claramente a quebra dos principais consensos que fundamentaram a política econômica do século XX. Bom exemplo é o papel da industrialização no desenvolvimento da economia brasileira. A virada neoliberal da década de 1990 retomou a prioridade e a centralidade do agronegócio, que pensávamos estar relegado aos baús e arquivos da história econômica. A taxa de câmbio sufoca os segmentos industriais em expansão e dificulta o surgimento de novas indústrias pioneiras. Os sindicatos de trabalhadores, o grupo social mais favorecido pela industrialização, parece não estar atento para esse fenômeno, visto por alguns cientistas sociais como retrocesso histórico, refiro-me é claro à desindustrialização em curso.

Também nos instrumentos de combate à inflação há uma nítida divisão de campos. Há os que acreditam que, no quadro atual “não resta outra alternativa para controlar a inflação a não ser conter a demanda agregada e elevar a taxa de desemprego para reequilibrar o mercado de trabalho”. (Y. Nakano, em Os ajustes de 2015). Para esse economista, respeitado por todas as correntes de economistas brasileiros, este procedimento não é uma saída ou solução, mas é simplesmente a única possibilidade frente ao modelo atual, econômico e político. Registra ele também que o governo parece discordar de tal medida e tem procurado outros caminhos menos dolorosos socialmente.

Na contramão vemos o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE) colocar-se contrário a esta forma de controle da inflação (elevação dos juros e contenção da demanda agregada), mesmo sabendo que qualquer mudança na política de juros “vai acirrar a insatisfação das elites financeiras”. Segundo notícia de O Valor, o deputado defende que o governo e o PDT convoquem “a sociedade organizada para submeter a política monetária às diretrizes do desenvolvimento, estabilidade e crescimento.” (Valor de 10 de junho de 2014, A-10).

O chamamento à sociedade organizada é sempre via de mão dupla, de destino imprevisível, tendo em vista a falta de solidez ideológica das classes e grupos estruturados politicamente, mais afeitos ao pragmatismo que tem caracterizado historicamente as decisões políticas de nossos grupos dominantes. Muito difícil determinar, à priori, as trincheiras de defesa de interesses de cada grupo social. A heterogeneidade é grande. A prática recente de atender revindicações de minorias destruiu o aprendizado histórico de formulação de consensos sociais. Há grande incerteza sobre o desenrolar da atual crise econômico-financeira, no Brasil e no mundo. Gritos de guerra espalhados pelo mundo vem obscurecendo o desejo de paz das maiorias nacionais. Chocam-se no plano internacional projetos de reafirmação da divisão do mundo, ou de suas partes, em centro-periferia, com o esforço de algumas nações de superar tal divisão. Não há muita clareza sobre o que está efetivamente em jogo no mundo e em cada país. Tampouco no Brasil, onde finalmente emergiu uma burguesia nacional, dona de meios de produção expropriados do Estado nacional a partir da década de 1990, e apta à disputa pelo poder político, o poder de Estado, as cartas sobre a mesa permitem fazer previsões com grandes possibilidades de acerto.

Como reagirão os membros desta nova elite social? Poderão alinhar-se a favor do avanço democrático e da legalidade que o fundamenta? E quanto à importância da soberania nacional num mundo de produção globalizada. Terão consciência? Enfim, quanto estão compromissados com a democracia e com a independência do Brasil?

Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU

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A voz e o sentimento da bolsa de valores

Arena do Pavini/Reprodução

Por Ceci Juruá

Noticia impactante da semana em curso diz respeito diz respeito à paralisia dos lançamentos de ações em bolsa, neste ano de 2014. Paralisia que pode se prolongar até o final do ano, dependendo dos resultados das eleições de outubro. Na verdade houve apenas uma situação de aumento de capital com oferta de novas ações, vinculada à fusão Oi-Portugal Telecom. Segundo a jornalista Talita Moreira, o presidente da Bovespa, Edemir Passos, chegou a dizer que 2014 pode terminar sem estreias na bolsa. (Valor C-1 de 9 a 11 de maio de 2014)

A inapetência constatada, este ano, pela captação de recursos para investimento através do lançamento de ações em bolsa, pode ter várias explicações. Uma delas é que o mercado que vai à bolsa – grandes empresas e setores dinâmicos – está saturado. Não há espaço para novos atores. Há até casos de retirada de atores, como parece ser o caso do Santander Brasil, participante da BOVESPA há cinco anos. Noticia recente indica que a matriz espanhola fez oferta por sua filial no Brasil, comprando a parcela dos acionistas minoritários e tornando-se a única dona da filial brasileira. Em outras palavras – não quer mais dividir os lucros de suas operações com acionistas brasileiros. E o faz para aproveitar, diz a noticia, o baixo preço de seus ativos. Vai incorporar a subsidiária. Não precisa mais dela, na medida em que as portas estão escancaradas para a implantação, em espaço brasileiro, de bancos 100% estrangeiros. (Valor C-16, 30 de abril) Pode-se também considerar que pesa em tais decisões o aumento das transações bancárias por Internet, pois em 2013 os principais bancos europeus “fecharam ou venderam 5,3 mil agências” (Valor C-14, 15 de abril/2014)

Em outra notícia lemos que a Japan Tobacco quer findar a parceria com a Souza Cruz (uma joint venture), que fabricava e produzia aqui a marca Camel. Segundo a jornalista Elisa Soares, a fabrica de cultivo de folhas de tabaco (em Santa Cruz-RS) vai permanecer como fornecedora da matéria prima. Ampliariam aqui a importação das marcas Camel e Winston, produzidas na Europa, onde o consumo está caindo. A Japan Tobacco é a terceira maior fabricante de cigarros no mundo, atrás da Philips Morris e da British Tobacco. (Valor B-11, 30 de abril)

No leque de explicações, amplo, pode-se também considerar que época de crise, ou de simples recessão, são tempos favoráveis à concentração e à centralização dos capitais. Muitas empresas não resistem à concorrência nos seus mercados, e fecham. As que ficam – engordam e ampliam seu market share. Até março de 2014, já haviam sido anunciadas 191 transações de fusões e aquisições no Brasil, com movimento estimado de R$ 44 bilhões. Merece destaque o caso ALL-Rumo, cujo montante pode atingir até R$ 18 bilhões. Para quais mãos estará indo enfim nosso sistema ferroviário? A ALL é a operadora ferroviária do Mercosul, e a captadora dos produtos da região Centro Oeste, com uma rede que já se estendeu à região do manganês do Maciço de Urucu.

Há ainda os que interpretam a ausência de lançamentos de novas ações em bolsa, como decorrência do desencanto dos investidores quanto à política macroeconômica. Ou ainda, em razão da incerteza sobre o resultado das eleições. Fica no ar a sensação que investidores não gostam de eleições. Será este o diktat e um empurrãozinho para que o parlamentarismo se imponha enfim em qualquer reforma política que venha por aí? É uma hipótese.

*- Ceci Juruá. Economista e pesquisadora, doutora em políticas públicas, ex-professora universitária, Membro do Conselho Consultivo da Confederação Nacional de Trabalhadores Universitários (CNTU) de profissão regulamentada.

 

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