Por Ceci Juruá | Rio de Janeiro, 04/01/2016

No Brasil, este ano começa sob o signo da desnacionalização, pois afinal de contas o momento é propício ao crescimento dos conglomerados, trustes e cartéis internacionais. Em ambiente recessivo, muitas empresas, sobretudo quando brasileiras, não conseguem pagar dividas contraídas sob a perspectiva (equivocada) de um crescimento linear, permanente. Sob pressão dos credores, donos e acionistas de unidades nacionais endividadas são levados a buscar novas fontes de crédito e/ou desfazer-se de ativos.
Nesta primeira segunda feira de 2016, somos informados da capitulação de mais um grupo econômico brasileiro – o Grupo Ruette – , que acaba de vender duas usinas de açúcar (localizadas em Paraíso e Ubarana, SP) à gestora Black River, subsidiária da Cargill com sede em Minesotta (EUA). As duas usinas desnacionalizadas processam, juntas, 3,5 milhões de tonelada/ano.
Não houve dinheiro à vista nessa operação. A Black River assumiu a dívida de R$ 530 milhões, por um prazo de até dez anos. A família Ruette liberou-se da dívida e retornou assim à propriedade integral de 5 mil hectares (até então hipotecados) dedicados ao cultivo da cana, matéria- prima que vai alimentar as usinas compradas pela Black River por 21 anos. A expectativa da família é usufruir de renda mensal em torno de R$ 300 mil.
Foi uma operação peculiar segundo Valor (de onde foram retiradas as informações constantes deste texto), pois o grupo Ruette entrou com pedido de recuperação judicial logo depois de ter captado novos recursos, e apesar de não ter dívidas vencidas. Em decorrência o Santander, mandatário dos 30 credores financeiros, propôs o acordo de venda em troca da retirada do pedido de recuperação. E assim foi feito.
Resumindo – por falta de “oxigênio” (crédito a juros civilizados), novos ativos vão sendo apropriados pelos grupos estrangeiros que aqui atuam com total liberdade e quase sem pagar impostos. A sede dos estrangeiros, no Brasil, é, coincidentemente, São Paulo. Sem gastar um tostão, a Cargill amplia seu poder local e internacional, por meio de sua subsidiária Black River, poderoso ator dos mercados financeiros, um elemento estratégico da Haute Finance!
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Fonte: jornal Valor, B-10, 31 de dezembro a 4 de janeiro de 2006.
Ceci Juruá é economista, doutora em Políticas Públicas.