
Por Ceci Juruá
Em artigo publicado no jornal Valor, Lynn Forester de Rothschild e Paul Polman comentam a situação atual da economia mundial, marcada por desigualdades crescentes, e as possibilidades de superá-las mediante alguma modalidade de capitalismo inclusivo. Reconhecem os autores que ” Nenhum de nós é capaz de prosperar num mundo em que 1 bilhão de pessoas vão dormir com fome toda noite e 2,3 bilhões não tem acesso a saneamento básico. ”
Sobre os indicadores de desigualdades, citam especificamente:
1. O 1,2 bilhão de pessoas mais pobres do planeta respondem por apenas 1% do consumo mundial
2. Enquanto o bilhão dos mais ricos são responsáveis por 72% (do consumo mundial).
3. As 85 pessoas mais ricas do mundo acumularam a mesma riqueza que os 3,5 bilhões mais pobres.
4. Uma em cada 8 pessoas vai dormir com fome toda noite, enquanto 1,4 bilhão de adultos apresentam sobrepeso.
Percebem também os autores, e o anotam, que a população mundial está perdendo confiança nos governos, nas empresas, por isto a opinião pública, frustrada, está indo às ruais e pergunta-se, frequentemente, se “o capitalismo, tal como o praticamos, vale a pena”.
Como não poderia deixar de ser, os autores têm a certeza que o capitalismo é o melhor de todos os sistemas sociais. Mas é preciso que se transforme. E acreditam que a transformação já está acontecendo. As evidências seriam a montagem de novos modelos de negócios direcionados para um capitalismo responsável e a mobilização das lideranças mundiais para estruturar um capitalismo inclusivo. Indicam o prazo de uma geração para redefinir e construir uma economia mundial sustentável e equitativa.
Pessoalmente não faço muita fé, mas é importante registrar as palavras de alguém que é membro de família colocada no topo do poder mundial, há mais de século. E que provavelmente é uma das 85 pessoas mais ricas do mundo.
Talvez por coincidência, tais palavras se inserem em ambiente altamente mobilizado pelas palavras de Picketty, e por seu livro O Capital no Século XXI. Talvez por coincidência igualmente, nesse livro há a proposta de um imposto mundial sobre a riqueza. E finalmente a observação, minha, de que imposto mundial implica governo mundial. Será este o caminho sugerido pelos autores, quando se referem a um modelo de capitalismo inclusivo, responsável?
*Ceci Juruá, economista, pesquisadora, doutora em políticas públicas. Notas feitas a partir do artigo A AMEAÇA CAPITALISTA AO CAPITALISMO, publicado em VALOR, pg. A-13, de 27 de maio de 2014.