A quebra dos consensos e suas derivações

Por Ceci Juruá

Lendo os jornais diários, nota-se claramente a quebra dos principais consensos que fundamentaram a política econômica do século XX. Bom exemplo é o papel da industrialização no desenvolvimento da economia brasileira. A virada neoliberal da década de 1990 retomou a prioridade e a centralidade do agronegócio, que pensávamos estar relegado aos baús e arquivos da história econômica. A taxa de câmbio sufoca os segmentos industriais em expansão e dificulta o surgimento de novas indústrias pioneiras. Os sindicatos de trabalhadores, o grupo social mais favorecido pela industrialização, parece não estar atento para esse fenômeno, visto por alguns cientistas sociais como retrocesso histórico, refiro-me é claro à desindustrialização em curso.

Também nos instrumentos de combate à inflação há uma nítida divisão de campos. Há os que acreditam que, no quadro atual “não resta outra alternativa para controlar a inflação a não ser conter a demanda agregada e elevar a taxa de desemprego para reequilibrar o mercado de trabalho”. (Y. Nakano, em Os ajustes de 2015). Para esse economista, respeitado por todas as correntes de economistas brasileiros, este procedimento não é uma saída ou solução, mas é simplesmente a única possibilidade frente ao modelo atual, econômico e político. Registra ele também que o governo parece discordar de tal medida e tem procurado outros caminhos menos dolorosos socialmente.

Na contramão vemos o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE) colocar-se contrário a esta forma de controle da inflação (elevação dos juros e contenção da demanda agregada), mesmo sabendo que qualquer mudança na política de juros “vai acirrar a insatisfação das elites financeiras”. Segundo notícia de O Valor, o deputado defende que o governo e o PDT convoquem “a sociedade organizada para submeter a política monetária às diretrizes do desenvolvimento, estabilidade e crescimento.” (Valor de 10 de junho de 2014, A-10).

O chamamento à sociedade organizada é sempre via de mão dupla, de destino imprevisível, tendo em vista a falta de solidez ideológica das classes e grupos estruturados politicamente, mais afeitos ao pragmatismo que tem caracterizado historicamente as decisões políticas de nossos grupos dominantes. Muito difícil determinar, à priori, as trincheiras de defesa de interesses de cada grupo social. A heterogeneidade é grande. A prática recente de atender revindicações de minorias destruiu o aprendizado histórico de formulação de consensos sociais. Há grande incerteza sobre o desenrolar da atual crise econômico-financeira, no Brasil e no mundo. Gritos de guerra espalhados pelo mundo vem obscurecendo o desejo de paz das maiorias nacionais. Chocam-se no plano internacional projetos de reafirmação da divisão do mundo, ou de suas partes, em centro-periferia, com o esforço de algumas nações de superar tal divisão. Não há muita clareza sobre o que está efetivamente em jogo no mundo e em cada país. Tampouco no Brasil, onde finalmente emergiu uma burguesia nacional, dona de meios de produção expropriados do Estado nacional a partir da década de 1990, e apta à disputa pelo poder político, o poder de Estado, as cartas sobre a mesa permitem fazer previsões com grandes possibilidades de acerto.

Como reagirão os membros desta nova elite social? Poderão alinhar-se a favor do avanço democrático e da legalidade que o fundamenta? E quanto à importância da soberania nacional num mundo de produção globalizada. Terão consciência? Enfim, quanto estão compromissados com a democracia e com a independência do Brasil?

Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU

Sobre Rennan Martins

Jornalista e analista político. Duvida da tese da narrativa isenta. Contato: rennan.m.martins@gmail.com
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