A voz e o sentimento da bolsa de valores

Arena do Pavini/Reprodução

Por Ceci Juruá

Noticia impactante da semana em curso diz respeito diz respeito à paralisia dos lançamentos de ações em bolsa, neste ano de 2014. Paralisia que pode se prolongar até o final do ano, dependendo dos resultados das eleições de outubro. Na verdade houve apenas uma situação de aumento de capital com oferta de novas ações, vinculada à fusão Oi-Portugal Telecom. Segundo a jornalista Talita Moreira, o presidente da Bovespa, Edemir Passos, chegou a dizer que 2014 pode terminar sem estreias na bolsa. (Valor C-1 de 9 a 11 de maio de 2014)

A inapetência constatada, este ano, pela captação de recursos para investimento através do lançamento de ações em bolsa, pode ter várias explicações. Uma delas é que o mercado que vai à bolsa – grandes empresas e setores dinâmicos – está saturado. Não há espaço para novos atores. Há até casos de retirada de atores, como parece ser o caso do Santander Brasil, participante da BOVESPA há cinco anos. Noticia recente indica que a matriz espanhola fez oferta por sua filial no Brasil, comprando a parcela dos acionistas minoritários e tornando-se a única dona da filial brasileira. Em outras palavras – não quer mais dividir os lucros de suas operações com acionistas brasileiros. E o faz para aproveitar, diz a noticia, o baixo preço de seus ativos. Vai incorporar a subsidiária. Não precisa mais dela, na medida em que as portas estão escancaradas para a implantação, em espaço brasileiro, de bancos 100% estrangeiros. (Valor C-16, 30 de abril) Pode-se também considerar que pesa em tais decisões o aumento das transações bancárias por Internet, pois em 2013 os principais bancos europeus “fecharam ou venderam 5,3 mil agências” (Valor C-14, 15 de abril/2014)

Em outra notícia lemos que a Japan Tobacco quer findar a parceria com a Souza Cruz (uma joint venture), que fabricava e produzia aqui a marca Camel. Segundo a jornalista Elisa Soares, a fabrica de cultivo de folhas de tabaco (em Santa Cruz-RS) vai permanecer como fornecedora da matéria prima. Ampliariam aqui a importação das marcas Camel e Winston, produzidas na Europa, onde o consumo está caindo. A Japan Tobacco é a terceira maior fabricante de cigarros no mundo, atrás da Philips Morris e da British Tobacco. (Valor B-11, 30 de abril)

No leque de explicações, amplo, pode-se também considerar que época de crise, ou de simples recessão, são tempos favoráveis à concentração e à centralização dos capitais. Muitas empresas não resistem à concorrência nos seus mercados, e fecham. As que ficam – engordam e ampliam seu market share. Até março de 2014, já haviam sido anunciadas 191 transações de fusões e aquisições no Brasil, com movimento estimado de R$ 44 bilhões. Merece destaque o caso ALL-Rumo, cujo montante pode atingir até R$ 18 bilhões. Para quais mãos estará indo enfim nosso sistema ferroviário? A ALL é a operadora ferroviária do Mercosul, e a captadora dos produtos da região Centro Oeste, com uma rede que já se estendeu à região do manganês do Maciço de Urucu.

Há ainda os que interpretam a ausência de lançamentos de novas ações em bolsa, como decorrência do desencanto dos investidores quanto à política macroeconômica. Ou ainda, em razão da incerteza sobre o resultado das eleições. Fica no ar a sensação que investidores não gostam de eleições. Será este o diktat e um empurrãozinho para que o parlamentarismo se imponha enfim em qualquer reforma política que venha por aí? É uma hipótese.

*- Ceci Juruá. Economista e pesquisadora, doutora em políticas públicas, ex-professora universitária, Membro do Conselho Consultivo da Confederação Nacional de Trabalhadores Universitários (CNTU) de profissão regulamentada.

 

Sobre Rennan Martins

Jornalista e analista político. Duvida da tese da narrativa isenta. Contato: rennan.m.martins@gmail.com
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